quinta-feira, março 10, 2011

CARNAVAL NA LÍBIA 
DESDE OS TEMPOS DE HERGÉ QUE O FREVO COME SOLTO POR LÁ
"Você lembra da África? Você lembra da África, brother? Lembra dos mouros e dos somalis, e é em Zimbabue que os olhos vêem a lágrima. Em Moçambique, jogar Angola, flutuar no Índico e cair em Madagascar. Lembra do Quênia, da Etiópia, o imperador Selassié que reinou lá, linhagem direta de Salomão de Davi, conjuntamente com a rainha de Sabá. Seus olhos ardem como fogo numa noite escura e sombria, nas entranhas do Saara em busca de um oásis na Líbia"...

Barein, Iêmen, Omã, Irã, Síria, Jordânia, Argélia, Marrocos... Enquanto no Brasil o ano só começa hoje, a onda de protestos no Oriente Médio e norte da África que já derrubou os ditadores Zine Ben Ali da Tunísia em janeiro e Hosni Mubarak do Egito em fevereiro tornou-se um tsunami que ameaça varrer do mapa Muamar Kadafi, há 42 anos no comando da Líbia.

O coronel Kadafi – ou Kadhafi, ou Gaddafi, ou “Líder Fraternal e Guia da Revolução da Líbia” – chegou ao poder em 1969 num golpe de estado que depôs o rei Idris I e instaurou o Islã no país. Criou o Jamahiriya, ou “Estado das massas”, lançou o Livro Verde, sua versão do Livro Vermelho de Mao, e apoiou toda e qualquer organização anti-americana e anti-semita, dos Panteras Negras ao Fatah.

Patrocinou o Setembro Negro, grupo palestino que em 1972 sequestrou e matou a delegação israelense nas Olimpíadas de Munique. Em conseqüência, seu país passou a sofrer sanções econômicas, e em 86 a explosão de uma boate em Berlim freqüentada por soldados americanos desencadeou um bombardeio dos EUA à capital Bengazi.

Desde então vive em tendas, como nômade. Transformou seu arruinado palácio em museu, c/ a escultura de uma mão gigante esmagando um caça ianque à frente. Em 88 seu nome foi novamente associado a um atentado, a queda de um avião da Pan Am que matou 285 pessoas na Escócia. Nos anos 90, bancou os governos golpistas e genocidas de Charles Taylor na Libéria e Idi Amin em Uganda.

Em 98 foi baleado numa tentativa de golpe, mas vaso ruim que é, manteve-se intacto e ainda esboçou uma repaginada na sua imagem perante a comunidade internacional a partir do ano 2000. Pagou indenizações integrais às famílias dos mortos no atentado de Lockerbie, anunciou o fim de seu programa nuclear e entregou terroristas à CIA.

EUA e Inglaterra suspenderam suas sanções e começaram a investir pesado no país. A 8ª maior reserva de petróleo no mundo fica na Líbia, e as petrolíferas BP, Exxon, Chevron, Shell e Halliburton uniram-se a multinacionais como Dow Chemical e à indústria bélica p/ formar o consórcio de investimentos US-Libya Business Association. “Isso não é esquecer a dor do passado, é reconhecer a hora de seguir em frente”, disse o primeiro-ministro britânico James Cameron.

Kadafi visitou e recebeu chefes de estado como Putin da Rússia, Sarkozy da França e até Obama. Quando foi à Itália, obrigou Berlusconi a tomar uma injeção de cortizona p/ aliviar as dores nas costas e assim saudá-lo no aeroporto – dinheiro líbio movimenta a Fiat, a UniCredit e o time Juventus, onde joga um de seus 7 filhos. Na ONU, discursou por 1h30 chamando o Conselho de Segurança de “conselho do terror” e ainda rasgou a Carta das Nações Unidas, jogando-a p/ trás por cima do ombro.

Por onde passou em suas viagens pelos EUA e Europa, o ditador suscitou protestos. Nenhum tão grande quanto o que vem enfrentando há quase 1 mês em seu próprio território, um levante popular armado que começou em Bengazi após a prisão de Fethi Tarbel, advogado dos parentes dos mortos no massacre da prisão de Abu Salim em 96. A manifestação pacífica foi recebida a tiros, o que insuflou os ânimos e deu início à revolução.

O povo líbio está comigo”, irrompeu o autointitulado Pai da África e Reitor dos Governantes Árabes em uma de suas muitas declarações e entrevistas p/ a TV desde que o conflito explodiu. Referindo-se a si mesmo em 3ª pessoa, disse: “Muamar Kadafi não possui um posto oficial que ele possa renunciar. Muamar Kadafi é o chefe da revolução, sinônimo de sacrifícios até o fim dos dias. Este é o meu país, o país dos meus pais e ancestrais.

Oficialmente, a Líbia é governada por comitês populares eleitos. O exército é descentralizado, uma medida anti-golpes que o ditador tomou nos anos 70. “Todos os jovens devem criar amanhã comitês de defesa da revolução. Todos devem assumir o controle das ruas, o povo líbio deve tomar o controle da Líbia, nós vamos lhes mostrar o que é uma revolução popular.

De fato o povo se uniu – contra ele. As forças rebeldes venceram as tropas oficiais e tomaram Bengazi [2ª maior cidade], Tobrouk, Al Bayda, Ajdabya, Ras Lanuf, Misrata [3ª maior], Zawiya, Zuara, Yefren, Zentan, Jado e até uma cidade chamada Brega – 800 km de território conquistado. “As cidades estão sendo liberadas desde o dia 19 e administradas pelo comitê revolucionário nomeado pelas comunidades”, informa Shaban Abu Sitta, do Conselho Nacional Líbio.

Kadafi mantém o controle da capital Trípoli [1,5 milhão de habitantes] mais algumas cidades do oeste como Sirte, Nalut e Wazin, e usa todo seu arsenal contra os insurgentes: tanques, helicópteros, aviões e bombas. São milhares de mortos até agora. O secretário-geral da Otan avisou: “Se Kadafi e suas forças militares continuarem atacando sistematicamente a população, não posso imaginar que a comunidade internacional fique somente olhando.

O carnaval foi sangrento. Na sexta-feira, explosões de depósitos de armas em Rajma e em Zawiya deixaram 70 mortos e 300 feridos. No sábado, uma estação de petróleo incendiou em Zueitina e um caça do governo foi abatido em Ras Lanuf, matando os 2 pilotos a bordo, enquanto em Trípoli a polícia abria fogo contra protestantes.

Domingo registrou a 1ª derrota dos rebeldes, que tiveram que recuar p/ Bin Jawad sob fogo cerrado, após tentarem  avançar até Sirte, cidade natal do “cachorro louco” Muamar. “O recuo era evidente, com dezenas de carros voltando em disparada para o leste ao aproximar-se da cidade, que foi fortificada pelas forças leais ao ditador”, informou o jornal Folha de S.Paulo. Na fuga, uma caminhonete c/ duas crianças foi atingida pelo bombardeio aéreo.

Na segunda, os tanques desfilaram e deixaram 21 mortos e 91 feridos em Misrata. Na terça, o ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil mandou um ultimato em nome do CNL: “Não vamos negociar com ele. Ele sabe onde fica o aeroporto de Trípoli, e o que tem que fazer é partir e colocar fim ao banho de sangue. Se ele parar o bombardeio e deixar a Líbia em 72 horas, nós líbios desistiremos de processá-lo por crimes”. Enquanto isso, um míssil destruía um prédio em Bengazi.

Tenho 35 anos e é a primeira vez que vejo algo assim na Líbia”, diz um morador de Trípoli na fila do pão, “a cada esquina tem alguém atirando, é muito assustador”. O ativista e editor Ashour Shamis, radicado no Reino Unido, acredita que a vitória está próxima. “Kadafi está acabado, fazendo ataques militares ou não. Em ambos os casos, ele está muito vulnerável, perdendo espaços muito rapidamente.

Os EUA já mandaram porta-aviões p/ o golfo pérsico e a ONU estuda a criação de uma zona de exclusão aérea no país. Áustria, Alemanha e Japão bloquearam as contas do ditador, cuja fortuna é equivalente a $70 bilhões de dólares. Entre o orgulho e o desespero, Kadafi acusa o Ocidente de se unir à Al-Qaeda na tentativa de derrubá-lo:

Os países colonialistas estão armando um plano para humilhar o povo líbio, reduzi-lo à escravidão e controlar o petróleo. Se a Al-Qaeda conseguir tomar a Líbia, então toda a região, até Israel, será presa do caos. Capturem os ratos. Nenhum louco poderá despedaçar nosso país.” Há verdade nessas palavras. Nenhum louco poderá despedaçar mais a Líbia do que ele próprio vem fazendo.

O carnaval por lá este ano será igual ao da Bahia – não termina na quarta-feira de cinzas. Ontem, centenas de mães de vítimas fizeram uma passeata em Bengazi pelo fim da guerra civil. O que só será possível em duas hipóteses: após a renúncia de Kadafi ou uma carnificina nacional. Se no Egito o que bombou foi a marchinha Alá-lá-ô, na Líbia os homens cantam África da Reação e as mulheres aquela do Eddie:

"Nego! Eu tô cansada dessa merda, da violência que desmede tudo, da minha liberdade clandestina, de tá no meio dessa briga... Chega! Da gente tá se apertando, da ignorância insandecida, se esquivando de estatísticas... A minha paz faz tempo tá querendo trégua, a minha paciência se atracou com ela..."

CARNAVAL NO INFERNO
BLOCO 'UNIDOS DO SENUSSI'
CONFECCIONANDO A COROA...
...DO REI MOMO REBELDE
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
DESFILE DE CARROS ALEGÓRICOS
"Ê-Ô! Ê-Ô! O KADAFI É O TERROR!"
"OLHA A REVOLUÇÃO AÍ, GENTE!..."
KADAFI E SUA FANTASIA FAVORITA
SAMBA-ENREDO INSPIRADO NO DITADOR
E NAQUELE CAMAROTE DE CERVEJA...
200 SOLDADAS NA GUARDA PESSOAL
BERLUSCONI DIZ QUE VAI FAZER IGUAL
AS MULHERES VÃO À PRAIA ASSIM
E AGORA SAEM ÀS RUAS ASSIM...
MOSTRANDO O QUE É QUE A LÍBIA TEM
MAIS DO QUE UM ROSTINHO BONITO
...ROJÃO P/ AGUENTAR A PRESSÃO
...E DISPOSIÇÃO SEM FIM P/ A FOLIA

2 comentários:

Viva La Brasa disse...

a caricatura do kadafi é de autoria do pedro x. molina: http://www.pxmolina.com/

fabio" binho "nunes disse...

Fogo nesse filho da puta!!!! um dia o povo vai acordar aqui também, merecemos coisa melhor sim!!!!!


Abraxxx La Brasa.