domingo, março 06, 2011

REGGAE REAGE 
Eu conheci um cara que se achava malandro/ Andava cabuloso, embecado, cheio de moral/ no movimento com o cano/ Sua fama percorria/ De quebrada em quebrada diziam/ ‘Esse cara é o bicho!’/ Mas esse cara, ironia do destino/ foi achado como um bicho num terreno baldio/ Eu pergunto de que adiantou/ a dor do parto da mãe e o suor do seu pai/ ao ver uma vida tão jovem, que eles criaram/ brutalmente jogada e jaz”...

Fevereiro foi um mês de altos e baixos p/ a música sergipana. A vitória de The Baggios e Café Pequeno no festival ARPUB foi certamente o ponto alto. O resultado foi anunciado dia 25, e ajudou a levantar o astral depois da triste notícia da morte de André Blueman, na manhã do domingo 20. Blueman foi baixista na formação original da Reação, e de 2003 a 2009 respondeu pelos solos de guitarra da melhor banda de reggae do nordeste.

Depois de se juntarem na Atalaia Nova no ano 2000 c/ a proposta de tocar reggae de raiz, os integrantes da Reação – dissidentes das extintas Perigo de Vida e Utilidade Pública – foram aos poucos se mudando p/ o alto do morro do Santos Dumont, bairro da zona oeste de Aracaju. O primeiro a se radicar na favela foi Júnior Moziah, vocal e guitarra. O outro vocalista, André Levi, ergueu seu barraco em seguida.

A identificação c/ a comunidade foi tamanha que o lugar passou a ser conhecido como Alto da Reação.  Mais do que um ritmo pulsante, a banda trazia letras pujantes que batiam de frente c/ o sistema. Músicas de protesto como Não É Fácil, Sangue-Suga, Isso Tem que Acabar, Shaman e África denunciam injustiças sociais, corrupção política, extermínio indígena e maus-tratos ao povo negro.

Em Ninguém Sabe, a frase “ninguém sabe ninguém ouve ninguém vê” é intercalada a cada verso: “O tiro na noite da periferia/ [...]/ O menor morto na manhã do outro dia/ [...]/ Os ratos roem o nosso pão todo dia em Brasília/ [...]/ O pobre com fome em frente à padaria/ [...]/ Cadê o governante que a gente elegeu?/ [...]/ E as belas palavras que o canalha prometeu?/ [...]/ Saúde, educação, trabalho e moradia/ [...]/ O que vejo é repressão pelas ruas, nas esquinas”...

Só p/ dar uma noção, em uma de suas visitas à cidade os Racionais MCs foram ao morro conferir o ensaio dos caras. Mano Brown e Ice Blue gostaram particularmente da letra de Malandro, que usei p/ abrir esta matéria. “A proposta da Reação é a autovalorização”, disse Júnior na ocasião: “Então, nós temos idéias, temos nossa filosofia, temos histórias pra contar do nosso bairro, da nossa periferia.

Em 2003 estouraram nas FMs sergipanas c/ a gravação ao vivo da canção Sinal de Alerta, uma ode contra a agressão policial: “Um pisca-pisca me alertou/ Não sei se posso mais ficar/ Se vêm com ódio ou amor/ Não sei, não vou me arriscar/ [...] Azul e vermelho piscando/ pode ser sinal de perigo”... Nº 1 nas paradas, o hit fez do disco AO VIVO NO ESTAÇÃO 4 uma  versão local e antecipada do fenômeno Tropa de Elite – o CD c/ o leão na capa podia ser encontrado em qualquer camelô.

Eles moram no morro, cantam a realidade da periferia de Aracaju no mais puro reggae”, destacou a repórter do Jornal Hoje, da Rede Globo. De repente todos queriam a Reação. Abriram shows p/ O Rappa, Natiruts, Tribo de Jah, e os jamaicanos Pato Banton, Andrew Tosh e Dezarie. Tocaram em festivais em Salvador, Maceió e Recife c/ Adão Negro, Diamba e Vibrações. Até que foram tentar a sorte no sudeste.

Moramos juntos uma época”, diz o produtor Bruno Montalvão, que fechou acordos c/ marcas de bebida energética e tênis de skate, e agendou shows c/ Unidade Punho Forte e Ponto de Equilíbrio no Rio de Janeiro, e Nasi na Bienal da UNE em São Paulo. A banda – nada menos do que 8 pessoas – montou sua base na Baixada Fluminense, RJ. O ano era 2004. C/ a convivência, a ‘vibe’ começou a mudar.

Eles ficaram muito tempo esperando algo acontecer e sem tomar ações devidas p/ prolongar a carreira deles”, diz Bruno, “parecia que não queriam sair de onde estavam, desconfiavam das pessoas, de si próprios, não sei dizer... O fato é: perderam várias oportunidades claras de dar certo. Podiam estar num outro patamar, ser a grande banda de reggae do Brasil, mas se perderam  dentro de suas próprias convicções.

De volta a Aracaju, iniciam outra empreitada tortuosa – a gravação do álbum de estréia em estúdio. Foram 3 anos de produção, e quando NA FORÇA DA FÉ finalmente saiu em 2009, as meninas do backing vocals – Ana e Paula – haviam deixado o grupo e Júnior Moziah surtou durante o lançamento do disco na boate Live.

Nesse ano, subi o morro algumas vezes c/ a equipe do programa Periferia. Já conhecia o lugar, eu e meu amigo Rodolpho ‘Hostyle’ costumávamos ir lá de bike circa 2001/02, fumar uns c/ os dreadlocks ouvindo um som. Mesmo assim, foram necessárias algumas idas e vindas até conseguirmos reunir pelo menos parte da banda.

O material ficou tão factual e sangue-no-olho que na edição eu quebrei algumas regras como não deixar o entrevistado falar muito tempo ou o microfone aparecer. Os depoimentos dos dois vocalistas destacam-se, Júnior pela espontaneidade e Levi pelo desabafo. Assistam o vídeo, as imagens falam por si.

E se não falarem, ouçam a música. Moziah canta muito, é o Dennis Brown sergipano, enquanto André Levi é o único vocalista de reggae influenciado por Rage Against the Machine. Os riffs são p/ a frente, na linha Gladiators. Como toda banda de reggae que se preze, a Reação honra o legado dos irmãos Barrett, c/ a cozinha de Laudenir 'Ras Lau' e Wipson Firmino ‘Firmeza’.

Os primeiros ensaios da banda foram na oficina mecânica em que Wipson trabalhava. Lau foi o 1º guitarrista solo. Ele e André Blueman inverteram os instrumentos após uma breve saída de André da formação. Irmão mais novo de Júnior, Blueman voltou à família e aprendeu a tocar guitarra muito bem – aparece em destaque nas imagens do show no Projeto Verão 2009. Eu não sabia, mas quando gravamos a reportagem ele já estava deixando a banda.

Foi preso, e seu irmão conseguiu transferi-lo p/ uma clínica – Jr. Moziah trabalha como agente penitenciário. Na fatídica manhã de 20/02/2011, André foi esfaqueado em uma briga na área do CEASA, no bairro Getúlio Vargas. Atribuiu-se o crime a “uma dívida de dez reais" c/ o tráfico, mas Ras Lau postou a seguinte mensagem no site do Bareta, delegado e apresentador de TV que divulgou a notícia:

Porra vcs da imprensa são foda, essa informação não condiz c/ a realidade, vcs entrevistaram a mãe do André, ela falou q a causa da morte foi uma briga de rua, vcs querem deturpar o trabalho de uma banda desmerecendo a representatividade q a mesma exerce em Sergipe, vcs preferem apagar a verdade q escrevemos nos comentários anteriores do q esclarecer a verdade, isso sim, Bareta ditadura em pleno 2011... ANDRÉ Q DEUS TE GUARDE!!!!!

Revoltados, atearam fogo na casa do assassino. Agiram de cabeça quente numa atitude inconseqüente. Os pais de André e Júnior moram a 200 metros da boca de fumo do Geruzinho, uma área nada amigável. “Fui assaltado ano passado na esquina da 2ª DM, que é na esquina de Jr.”, conta F.A., que prefere não se identificar: “Os caras me conheciam, mas me ignoraram, levaram até a chinela.

O crack chegou há poucos anos em Sergipe, e vem tendo um efeito avassalador. Domina o comércio do centro ao subúrbio, e os viciados são capazes de tudo. A coisa anda tão feia que até um rasta resoluto como Levi, normalmente averso a envolvimentos políticos, topou posar p/ o cartaz do governo do estado na campanha contra a droga.

A Reação é uma banda militante. Vestem-se como guerrilheiros, lembrando os Wailers naqueles discos gravados na Jamaica e produzidos por Lee ‘Scratch’ Perry. Já participaram de campanhas beneficentes p/ o Natal Sem Fome e a Legião da Boa Vontade. São a ponta-de-lança de uma cena reggae que ainda conta c/ nomes como Oganjah e Guerreiros Revolucionários.

E, mais importante, fazem música da melhor qualidade. Sabem ir da rebeldia [“Para ninguém!/ Para ninguém!/ Não viemos aqui para nos curvarmos pra ninguém”, canta Levi em Recado do Zion] à poesia [“Sua pele da cor de canela/ Sua graça és linda quem dera/ ter pra mim uma rosa tão bela/ pra florir o meu jardim”, canta Jr. em Menina]. São articulados, inteligentes, talentosos. Falta foco.

Na vida há tempo p/ tudo, e a Reação ainda tem muita fumaça p/ queimar. Que seja de erva brotada da terra, e não de pedra feita pelo homem. Como reza a letra de Malandro, “malandragem mesmo é saber viver”.

COMBAT REGGAE
FAMÍLIA REAÇÃO REUNIDA NO ALTO DO MORRO
ENSAIO DA BANDA NA SALA DA CASA DE MOZIAH
SHOW RECENTE NO PROJETO VERÃO, 14/02/2011
ANDRÉ DE ANDRADE PRADO ALVES - *1980 +2011
IN MEMORIAM

7 comentários:

Rafa Aragão disse...

Perfeito! Post muito bom. A Reação não deve em qualidades as bandas de fora. Uma vez num encontro de estudantes que fui na Paraíba, coloquei o som da Reação, putz foi muito lindo vê gente do Brasil todo se amarrando no som, colou uma galera enorme que só dispersou por conta dos seguranças da universidade. É como você disse falta foco, o resto eles já tem.

Rafa Aragão disse...

ah e vale lembra que no último projeto verão, Marcelo Falcão do Rappa disse é alto e bom som que a Reação é melhor banda de Reggae do Brasil. Disse ainda que assistiu ao show deles no ano anterior, cantou Sangue-Suga, chamou Ras Lau para o palco e ainda propôs que no proximo ano a prefeitura fizesse um noite de projeto verão com Reação, Planet Hemp e O Rappa. Seria muito bom, hehehe.

O Paulino disse...

Pow.. Muito bom esse texto!!

Conhecia bem o som da Reação fui para alguns shows. As letras são boas e a musicalidade do grupo é possante. Agora a história de idas e vindas do grupo... pude aprender mais com esse post.

Uma coisa é certa: a arte como transformação e engajamento é aparece em trabalhos como o da Reação. São as crônicas dos novos tempos e que ajudam a uma garotada a pensar..

Triste saber da queda do André Blueman e de sua transição tão brusca para o outro plano. Que isso possa servir de aprendizagem para o grupo e para todos que os circundam..

Torço muito por eles, o pouco que conheço de Ras Lau percebo que é um cara muito gente boa e espero que ele e outros integrantes possam construir uma bela história pela frente.

Belo post Brasaman...

Viva La Brasa disse...

"possante" é uma boa definição pro som dos dreads... sim, ras lau é gente fina, todos são manos.

Carlo Bruno Montalvão disse...

Reação

muito mais que uma banda, uma família. Onde a primeira coisa que você aprende quando chega nela é a saber DIVIDIR.

em todo o tempo que pude ter a oportunidade de trabalhar com esses irmãos, aprendi. Cresci como homem e como profissional, e por que não dizer, como amigo que estava sempre junto nas horas mais importantes.

"apresentei" o som do Reação a muita gente bamba, o primeiro de todos foi Marcelo Yúka (meu amigo pessoal desde 93, quando morava no RJ e andava com a Hemp Family), isso em 2002 se não me engano, na Bienal da UNE em Recife. depois dele, apresentei para Lobão, Marcelo D2, Racionais MCs, Devotos etc E todos, eram unânimes em dizer que o REAÇÃO era a maior banda de reggae do Brasil. Sempre foi. Sempre será.

Algumas correções ao texto: quando tocaram com o Nasi, foi em Aracaju mesmo, num projeto Verão... o Nasi invadiu o palco, sem nossa permissão, pois estava vidrado no som da banda e queria improvisar um dub com os caras. Num vacilo meu - fui ao camarim pegar umas bebidas para a banda - o Nasi convenceu o técnico de monitor e pegou um microfone e já invadiu o palco cantando... a banda toda se olhou, sem entender, todos me olharam buscando uma resposta... ao passo que eu sinalizei dizendo que ele havia invadido sem minha permissão... o fato é: ele cantou, vibrou, a platéia foi à loucura, e o Nasi saiu apaixonado pela banda...

Estórias como essa a Reação proporcionou várias. Elogios frequentes de gente como Lobão, Marcelo Yúka, D2, Mano Brown, Ice Blue, Cannibal, Johnny B Good e a lista não termina.

Ver esse vídeo, do post, me encheu de nostalgia e saudade dos irmãos do Morro. Da filosofia pura e simples, verdadeiramente natural de André Levy. Do coração enorme e da voz potente de J Moziah. Do engajamento político e social de Ras Lau. Das muitas tardes de conversas maduras com o grande irmão Ras Wipson Firmino. Do saudoso André Blueman, sua postura sempre leve, e ao mesmo tempo distante, como se projetasse a mente para mundos completamente diferentes daquele, que a vida real lhe oferecia.

Saudades das meninas, das Anas. De Nicolau, o nosso querido tecladista... bom, melhor parar por aqui!!

Sei somente que de todas as experiências que vivemos juntos, trago comigo uma singela tatuagem no meu antebraço direito, com a frase que diz: "Pouco com Deus se torna muito", extraída da canção "Na Força da Fé" e que uso como lema da minha vida...

Adelvan disse...

que dizer, né ? Excelente texto, excelente banda - eu, que não curto reggae em gerAL, CURTO MUITO a Reação. É o tipo de banda que transcende o estilo, pelo talento. Não posso afirmar com certeza porque não acompanho o circuito, mas acredto firmemente que o Reação deve ser, sim, a melhor banda do estilo no Brasil.

luiz emmanuel disse...

ae levi aqui e seu brother lu filho da dona neuza sobrinho da virginia vizinho do gregori isaac abraço ae !!!!!!