quinta-feira, maio 26, 2011

ANTI-BANDA

HOJE E ONTEM: A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
Não me mande flores, pare de bater no interfone/ Não preciso do seu amor/ Pare de me torturar, não ouse me ligar/ Não preciso do seu amor/ Eu não amo você/ Só amo você/ Eu não amo você/ Eu não amo”...

Não Me Mande Flores é até hoje uma das únicas canções de não-amor a tocar no rádio, e também um dos poucos sucessos dos gaúchos do DeFalla. Formada em 1985 por Edu Kc/ 16 anosno vocal e guitarra, Carlo Pianta no baixo e a pioneira Biba Meira na bateria, a melhor anti-banda do Brasil estreou em disco na coletânea Rock Grande do Sul. Em 87, sem Pianta, substituído por Flávio Santos, o Flu, e c/ Castor Daudt na guitarra solo, lançam o primeiro álbum pelo selo Plug, PAPAPARTY, produzido por Renato ‘Barriga’ Brito no estúdio da RCA em São Paulo.

Era o estúdio onde os Mutantes também tinham gravado”, lembra Edu. “O Barriga vinha dos anos 70, era um doidão que encontrou quatro doidões como ele dispostos a experimentar. Ficamos um mês lá criando, viajando, colocando microfone no banheiro, fazendo samplers, colagens... Melô do Rust James foi composta no estúdio.” As 15 faixas do LP misturavam pós-punk, rap e funk em sons como Alguma Coisa, Idéias Primais e Sodomia – algo que só se veria nos anos 90 por aqui. A intro de Candy, do disco Brick by Brick de Iggy Pop, lançado 3 anos depois, é bem parecida c/ a de Sobre Amanhã. Pra nós era natural”, diz. “Não pensávamos estar fazendo algo que ninguém fazia.

Em 88, c/ a mesma formação e pelo mesmo selo, lançam o 2º trabalho, DEFALLA, c/ clássicos como Chinatown e Repelente. É o último disco de estúdio de Biba. C/ a saída dela, Castor assume as baquetas e Marcelo Truda o substitui na guitarra em SCREW YOU, de 89, lançado pela Devil Discos no período em que passaram da psicodelia p/ o hard glam de terceiro mundo. Em 90 sai WE GIVE A SHIT pela Cogumelo Records, a mesma que revelou Sepultura. O defão Dead Corps Massacre marca a fase mais pesada, c/ direito a tattoos, cabelos grandes e cicatrizes. Em 91 gravam a demo Megablast From Hell, c/ covers de Dead Kennedys [Too Drunk to Fuck] e Public Enemy [She Watch (Channel Zero)] dando a deixa do que viria a seguir.

KINGZOBULLSHIT BACKINFULLEFFECT92 é a maior doideira, auge da experimentação mesclando rock, samba e samplers em sons como Slaughthouse #3, Culo Fuck (in Full Effect) e Caminha (Q Aqui É de Osasco), trazendo mudanças de andamento que iam do hip-hop ao thrash metal, e reinventando sucessos como Sossego de Tim Maia e Satisfaction dos Rolling Stones. A ordem das faixas era diferente do vinil p/ o CD, assim como a mixagem de muitas delas, além de bônus como a eletrônica Freeze... Now Move. C/ o guitarrista Marcelo Fornazzier, o 4nazzo, esse disco levou-os a abrir p/ Alice in Chains e Red Hot Chili Peppers no Hollywood Rock 93. Eu tava lá.

Na virada do século estouram nas paradas c/ o hit Popozuda Rock’n’Roll do álbum MIAMI ROCK 2000, surfando a onda do funk carioca graças ao refrão-chiclete: “Vai popozuda/ Requebra legal/ Vai  popozuda/ Libera geral”... Sem Flu nem Castor, Edu adota o visual turista no Havaí, apresentando-se em diversos programas de TV apenas de chinelo, bermuda e camisa florida. “Popozuda é completamente AC/DC, se você tirar a batida. Talvez um dia as pessoas entendam que o Miami era um disco de rock.

Em 2002 nova guinada, c/ roupas de couro estilo sadomasoquista, sintetizadores flertando c/ big beat e gatas na formação – a batera Paula Nozzari e a guitarrista Syang, ex-P.U.S. – no disco SUPERSTAR. Edu K aposta forte no pastiche. A partir de SODA POP, de 2003, adota o visual proto-emo das bandas de hardcore melódico da Califórnia. Quase emplaca mais um hit, Amanda, piada c/ as músicas de roquinho romântico que vieram depois de Anna Júlia do Los Hermanos.

Influência p/ artistas como Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp, Pato Fu e Pavilhão 9, o DeFalla passou por altos e baixos, mais baixos do que altos, mas nunca acabou. Depois de incontáveis integrantes – tipo Peu, ex-guitarrista de Pitty, e Rafael Crespo, ex-Planet – o grupo reúne hoje no clube Beco 203, em Porto Alegre, a sua formação mais clássica: Edu, Castor, Flu e Biba Meira. Em duas apresentações especialíssimas [às 23h e à 1h30], tocarão exclusivamente as 15 músicas do disco de estréia, que completa 25 anos em 2012.

O set list: Ferida - O que É Isso - Sodomia - Papaparty - Grampo - Não Me Mande Flores - Idéias Primais - Sobre Amanhã - Alguma Coisa - Melô do Rust James - Jo Jo - I’m an Universe - Tinha um Guarda na Porta - Trash Man - Gandaia. Edu K comemora. “Tem rolado algo soul-funk pesadão, tipo Sly & The Family Stone”. E aí, vai rolar uma tour? “Não sei se seria por aí, mas tocar essas canções outra vez com eles está sendo demais, mágico, exatamente como era antes. A diferença é que não tenho mais 17 anos.

MAIS MUTANTES QUE OS MUTANTES
TRIO: FORMAÇÃO ORIGINAL C/ CARLO PIANTA 
 DEFALLA 1987-88: BIBA, CASTOR, FLU & EDU
 MIAMI ROCK: FUNK, PRAIA & POPOZUDAS 
 ELES ESTÃO DE VOLTA, DOA A QUEM DOER

terça-feira, maio 24, 2011

BONDE SEM FREIO 
A prova carioca do World Tour teve mais a ver c/ grana, pontos, gatas e noite do que c/ surf. Não que o Rio de Janeiro faça feio – continua lindo e c/ altas ondas nos dias bons. Onde a gente começou a surfar, a onda era muito pior do que essa que vocês têm aqui”, falou o campeão mundial de 2001, CJ Hobgood da Flórida, p/ a molecada da Rocinha. “O Cory Lopez sempre me disse que aqui existe bom surf, c/ bons tubos.

Vamos em frente terminar logo isso”, tuitou um impaciente Parko depois de pelejar na repescagem. O que pega é que a etapa do Brasil sai perdendo se comparada às outras da 1ª divisão no quesito ondas. Não temos as direitas extensas de Snapper Rocks e Bells Beach na Austrália ou Jeffrey’s Bay na África do Sul, muito menos os tubos de esquerda de Teahupoo no Taiti ou Pipeline no Havaí. Até a França, onde quase sempre tá marola, volta e meia tem umas etapas memoráveis, como o Quiksilver Pro 2004, onde Andy Irons fez a final contra seu irmão caçula Bruce em ondas clássicas, ou o do ano passado, em que Mick Fanning derrotou Kelly Slater em tubos monstros num mar de ressaca.

O mar mais lembrado de um WT no Brasa foi o do Hang Loose Pro Contest em 1986, quando o australiano Rob Page chegou a comparar a Joaquina c/ Pipe. Isso já tem 25 anos. A Hang Loose ainda patrocina uma etapa do WQS no Havaí brasileiro, Fernando de Noronha, mas a estrutura ambiental da ilha não suporta a parafernália do circo da ASP, então o pessoal vai tentando encontrar o melhor lugar no continente mesmo: nos últimos 10 anos o campeonato já rodou pelas praias do Arpoador e Prainha no Rio de Janeiro, Itaúna em Saquarema [RJ], Vila em Imbituba [SC] e novamente Arpoador e Barra da Tijuca [RJ] este ano.

O Billabong Rio Pro é o primeiro duma série de campeonatos que voltam para o conceito criado nos anos 80 de enfiar a surfistada num beach break qualquer com boa fama e entupir a praia com potenciais consumidores para bater as metas de cada filial em determinadas regiões”, observa tio Júlio. “A etapa brasileira nunca foi pródiga em ondas, o problema não é esse e nem é conosco. Nova Iorque e São Francisco apontam lá na frente como enormes possibilidades de reviver os piores momentos do surfe profissional nos últimos 20 anos.

Ressaca Rio Pro poderia ser o nome do campeonato. Um dos únicos eventos da ASP realizado dentro de uma metrópole, o WT carioca é a oportunidade de muitos Tops curtirem baladas selvagens num país exótico e conseguirem sexo fácil & droga barata sem o risco de caírem num exame anti-doping. Alguém lembra do Mark Occhilupo fumando um antes da final em 2001 e tomando dura da polícia? Foi liberado graças à turma do deixa-disso, mas acabou perdendo p/ o Trent Munro – desse ninguém lembra mesmo.

No Rio surfistinha perde a linha, gringo chora e a mãe não vê. Mas você vê aqui os melhores momentos dos bastidores da parada mais quente do circuito mundial de surf. Quer dizer, aqui o surf é só um detalhe...

CAMISA 10
Depois do ator Vin Diesel, foi a vez de outro americano careca famoso usar o “manto sagrado” dos urubus. Ao desembarcar no Brasil, Kelly Slater vestiu a camisa do Flamengo. “Sem comentários, jogaram uma camisa em cima de mim, não sei nada sobre times, ainda não escolhi nenhum”, tirou da reta na coletiva de imprensa. “Espero sair daqui c/ um!” Ele já havia recebido uma de presente do garoto Naamã, morador de uma comunidade carente levado ao Havaí pelo Luciano HuckSlater ficou sabendo que o Vasco tinha mandado fazer uma camisa”, informa Gabriele Lomba do Globo Esporte, “mas um amigo paulista o orientou a ‘fugir’ da homenagem”. Seguindo o exemplo da presidente do clube Patrícia Amorim, que abordou o presidente dos EUA Barack Obama, o marketing do Mengo sapecou uma camisa personalizada no decacampeão de surf, antecipando-se ao time rival*. Nas costas, a inscrição: SLATER 10. Te cuida, Ronaldinho Gaúcho!

GAROTA D’IPANEMA
Maya Gabeira não compete. Seus 4 títulos no XXL Awards vieram de sua dedicação ao surf de ondas grandes. Patrocinada pela Billabong, a big rider mais sexy do mundo foi convidada a participar da quinta etapa do circuito mundial feminino como wild card. “Meio metro na Barra contra as melhores do mundo, me senti honrada em estar ali mas pra mim não era exatamente uma competição, fui para participar e fazer parte de um evento tão importante para o surf e minha cidade, o Rio”, postou no Facebook. Perdeu p/ a tetracampeã mundial Stephanie Gilmore na 1ª fase e p/ a havaiana Coco Ho na repescagem, mas suas baterias eram as mais aguardadas por público e mídia.Competir numa categoria tão diferente da minha contra a nº 1 e depois a nº 4 do mundo foi incrível. Conheço-as desde pequenas no Hawaii e o clima foi ótimo na água. Quero agradecer a oportunidade que a Billabong me deu de vivenciar algo diferente e único. Agora vou voltar à minha rotina e ir em busca das maiores ondas do mundo.

MULHERES AO MAR
Os primeiros dias foram dedicados à competição feminina, Billabong Girls Rio Pro, vencida pela havaiana Carissa Moore no domingo 15. Segunda vitória consecutiva da surfista de apenas 18 anos, que chegou às finais em todas as cinco etapas do mundial deste ano. P/ levar os $25 mil dólares e disparar na liderança, Carissa derrotou a australiana Sally Fitzgibbons na final e a brasileira Silvana Lima na semi. “Na última onda que a Silvana pegou, ouvi a praia toda comemorar e pensei ‘perdi’, mas felizmente a nota dela não foi suficiente”, falou sobre a disputa contra a talentosa surfista cearense. “Eu sabia que a praia toda estaria contra mim, foi difícil, tive que me concentrar.

A atual tetracampeã da ASP Steph Gilmore, 23 anos, sofreu um atentado na porta de casa, na Austrália, em dezembro. Um ladrão quebrou seu pulso ao espancá-la c/ uma barra de ferro durante o assalto, e ela deve ter ficado c/ seqüelas psicológicas do incidente. Apesar de recuperada fisicamente, ainda não venceu nenhum campeonato em 2011 – após dominar o circuito por 4 anos seguidos. No Brasil, Steph e Silvana ficaram em 3º e Sally ficou em 2º, mesma posição que ocupa no ranking. “Ainda tem dois eventos e tudo pode acontecer”, diz Carissa, favoritíssima ao título da temporada. “É uma honra estar brigando para ser campeã, estou vivendo um sonho!


NA SUBIDA DO MORRO
De bobeira na cidade enquanto rolavam as baterias das meninas, os Tops do WT fizeram o que todo gringo faz quando vai ao Rio: subiram o morro numas de tentar entender o que é uma favela. O galego aí em cima é Mick Fanning, da Austrália. Ele e a equipe internacional da Rip Curl visitaram a comunidade do Cantagalo e conheceram o Favela Surf Clube, centro comunitário onde as crianças aprendem vários ofícios relacionados ao surf – como shapear e laminar uma prancha, por exemplo. “Estou muito grato por conhecer este projeto de perto, essa escola de surf é uma iniciativa muito importante”, disse o bicampeão do mundo enquanto tirava fotos e dava autógrafos.

Fiquei impressionada como as pessoas vivem e fazem as coisas acontecerem”, falou Alana Blanchard, que participou da excursão junto c/ outras atletas da marca, como Pauline Ado e Tyler Wright. “Isso me faz perceber a vida boa que tenho, fico contente em ver como eles estão felizes por estarmos aqui”, disse a beldade, considerada a surfista mais bonita do mundo [eu também ficaria feliz se a Alana viesse me visitar]. Apesar de ser de Niterói, Bruno Santos também se impressionou c/ o que viu. “Nunca tinha tido essa oportunidade de visitar um projeto social na favela e vejo que está a mil. Isso é muito importante pro futuro das crianças!

Dias depois, o time da Billabong também subiu o Cantagalo p/ conhecer o Favela Surf Clube. Sexta-feira 13 foi a vez de CJ & Damien Hobgood visitarem a Rocinha Surfe Escola na maior favela da América Latina. Os irmãos gêmeos mais famosos do surf passaram 20 minutos entre becos e vielas até chegarem na escolinha que já formou mais de 800 alunos. “Esse tipo de experiência que estamos tendo hoje é o que nos motiva a continuar rodando o mundo, buscando trazer alegria p/ as pessoas e levando sempre um pouco dessas conquistas p/ nossas vidas”, diz o bom-cristão Damien. “Aqui em São Conrado tem boas ondas onde esses meninos podem ser futuros campeões!

Nas 3 ocasiões os tops presentearam a molecada c/ pranchas, roupas de borracha, tênis e acessórios. A iniciativa das visitas foi da loja Boards Co., através do DJ e apresentador de TV Marcos Bocayuva, que fez as vezes de cicerone da gringaiada nas favelas. Ah, o Fanning também ganhou uma camisa do Flamengo. E vestiu.
"EU SÓ QUEEERO É SER FELIZ"...
...MICK E TAJ NO CANTAGALO

EL GRINGO
O americano Bobby Martinez é descendente de mexicanos e tem orgulho de suas raízes latinas, a ponto de carregar nas costas o desenho de um bandoleiro. Dos estrangeiros, era o que estava mais em casa. Sem patrocínio, Bobby chegou aqui em 55º lugar no ranking unificado. Subiu o morro acompanhado apenas pelos amigos e fez uma tattoo em homenagem ao avô recém-falecido. “Meu avô morreu há poucos dias, eu não pude ir ao enterro e queria homenageá-lo.” Nem esperou a arte cicatrizar, no dia seguinte já estava na água disputando a vaga no round 4 contra o Slater. C/ um aéreo de backside, não só passou a bateria como obteve seu melhor resultado no ano e voltou a figurar entre os Top 16. “Não sou o novo herói. Eu venci o herói!


FOME DE GOL
O potiguar Jadson André foi o único dos 8 surfistas do Brasil a vencer sua bateria na terça-feira 17, primeiro dia do campeonato masculino, e passar direto p/ o round 3. Morando no Guarujá [SP] desde os 15 anos, Jadson estreou na elite em 2010 vencendo a etapa do Brasa e terminando o ano entre os Top 16 – único brasileiro além de Adriano Mineirinho. “Isto é tudo pelo que eu trabalho na minha vida”, diz o prodígio que teve uma infância difícil em Natal [RN]. “Faço as coisas certas, treino bastante, tento fazer o meu melhor. Não quero ser mais um.” Jadson defendia o título da prova brasileira, mas na fase do mata-mata perdeu p/ Michel Bourez do Taiti e ficou apenas em 13º. Pelo menos levou US$ 9.500 e 1.750 pontos que o mantiveram entre os Tops. Já Mineiro perdeu duas baterias, passou por duas repescagens, foi subindo de produção e, após 8 fases, ficou c/ o título. Dois anos seguidos vencendo em casa, liderança do ranking... É tudo nosso.
PETERSON CRISANTO VENCEU A EXPRESSION SESSION

AÉREOS & FESTAS
Another one bites the dust”, tuitou Julian Wilson após perder p/ CJ no 2º round. Muitos gringos chegam no World Tour apontados como futuros campeões, insuflados por filmes de surf, imprensa especializada e patrocínios generosos. Wilson é a aposta da Quiksilver, depois de Dane Reynolds não ter vingado – mas até agora tem se revelado um fiasco. “Parece que estou tendo que aprender de novo”, lamenta-se o promessinha, “mas sinto que algo bom me espera lá na frente”. Devia estar se referindo às baladas cariocas.

Conforme iam caindo diante dos adversários e se afundando na competição, os gringos também caíam na noite e afogavam suas mágoas nas Marias Parafinas. Destaque p/ os sempre festeiros australianos. Owen Wright e Matt Wilkinson estavam na ‘entourage’ do Cantagalo, mas o barato deles não é exatamente assistência social. Enquanto Owen manda aéreos politicamente incorretos e está na briga pelo título desde que estreou no WT ano passado, Wilko apenas se segura entre os 16. Ao perder na mesma fase que Julian, logo no início do campeonato, @mattwilko mandou o salve-geral pelo Twitter: “Rio is calling! Let’s go make a night of it! **
TAJ BURROW APLICANDO SUA MELHOR MANOBRA P/ CIMA DA MAYA: O XAVECO
* domingo, pouco antes de Slater deixar o país, o Vasco finalmente conseguiu entregar a sua camisa personalizada – mas essa o campeão não vestiu
** tweets roubados do Diário do Rio 2 de Júlio Adler [Hardcore]

sábado, maio 21, 2011

DE SOUZA
Os valores e as mutações de valores estão em proporção com o aumento de potência daquele que fixa os valores”, dizia o filósofo Friedrich Nietzsche em Vontade de Potência. A inflação no Brasil de janeiro a abril já estourou o teto da meta fixada p/ o ano inteiro, 6,5%. Culpa do aquecimento da economia e da alta das commodities, produtos que possuem cotação e negociabilidade globais, como grãos, minérios e tecnologia. O vilão da vez foi o etanol, que aumentou de preço por causa da entressafra na cana-de-açúcar.

E o herói, Adriano de Souza, mineiro do Guarujá [SP], Brasil tipo exportação, que nem café e petróleo. Campeão mundial pro-jr. aos 16, campeão do WQS aos 18, há 2 anos morando na Califórnia e há 3 entre os Top 10 do World Tour da ASP, Adriano ‘Mineirinho’ é uma commodity de alto valor internacional. Patrocinado pelas marcas Oakley e Red Bull, hoje ele é o número 1 do surf no mundo. Pelo menos até a próxima etapa do circuito.

Ontem, Mineiro entrou p/ a história ao vencer o Billabong Rio Pro, 3ª etapa do WT 2011. Não é a primeira vez que vencemos em casa: nos anos 70 Pepê Lopes e Daniel Friedman venceram no Arpoador [RJ], nos anos 90 Fábio Gouveia venceu no Guarujá [SP] e Teco Padaratz e Peterson Rosa na Barra [RJ], e Jadson André bateu Kelly Slater na final do ano passado em Imbituba [SC] – mas é a 1ª vez que um brasileiro lidera o circuito mundial desde sua invenção em 1976.

Ganhar essa etapa aqui no Brasil sempre foi meu maior sonho”, falou emocionado no pódio. “Em 2009 eu cheguei muito próximo da vitória, mas o Kelly me venceu na final e eu fiquei com aquele gosto amargo. Lembro que quando eu era pequeno o Pinga me trouxe pra ver esse campeonato aqui na Barra mesmo, quando o Peterson Rosa ganhou e a torcida também explodiu como agora. Desde aquele ano sempre sonhei repetir isso e agora consegui! Meu dia chegou, e não podia ser melhor, porque veio na hora certa, quando estou bem no ranking.

Pinga’ é Luís Henrique Campos, técnico que se tornou agente, responsável por um planejamento de carreira que inclui a entrada de Adriano num curso de inglês ainda criança, seu primeiro patrocínio – Hang Loose – e a mudança p/ uma multinacional – Oakley – na adolescência, além de um programa de treinamento que inclui academia, nutricionista, psicólogo e viagens de free surf p/ aprimorar a linha em ondas perfeitas. A primeira vitória num evento profissional veio logo, aos 14 anos – uma etapa da Abrasp em Macaé [RJ]. Aos 15, conquistou a divisão de acesso ao Super Surf. De lá p/ cá já são 2 títulos mundiais em categorias de base, 5 vitórias no WQS e 2 no WT.

Se Mineirinho é uma commodity, campeonatos de surf são puro mercado. “É legal assistir os melhores surfistas do mundo de perto”, opina Fred D’Orey, veterano surfista profissional revelado nos mundiais do Arpex no início dos anos 80. “Mas essa alegria é passageira. Muito melhor faria a Billabong se pegasse essa grana torrada no campeonato e investisse na confecção de fundos artificiais pras nossas praias. Muito mais pessoas apreciariam a marca por muito mais tempo. Já passou da hora dessas grifes, que fizeram fortuna no surf multiplicando o crowd, colocarem algo de volta. Leia-se ONDAS.

Ondas foram apenas um dos pontos polêmicos da competição no Rio de Janeiro. A direção de prova parecia não acertar o melhor lugar p/ as disputas. Arpoador? Barra da Tijuca? O dia c/ melhores condições foi cancelado porque não havia salva-vidas nem ambulância na praia. “Anunciado que não haveria campeonato, Parko mandou-se para dentro d’água e pegou três tubos seguidos”, escreveu Júlio Adler em seu Diário do Rio p/ a Hardcore. Outro colaborador da revista, Renan Tommaso, aborda mais um ponto fraco:

O julgamento. “Que catzo esses juízes estão fazendo?”, perguntou Renan na quinta-feira. “Nunca vi tantas pontuações estapafúrdias, contraditórias e inexplicáveis. Em ondas caidaças, sobretudo prum WT, ora com tamanho só que mexidas e fechando, ora lisas porém pequenas, curtas e escassas (em todos os dias de campeonato, nos dois picos escolhidos, não importa se outros campeonatos também ocorreram em mares tão ruins ou piores), com surfistas fazendo nada além do trivial e levando 9.0, 8.5, 7 e blau, quando mereceriam 5 ou 6 e uns quebrados.

Pela internet vi o Slater tirar 9.0 detonando uma esquerda que mereceria, no máximo, 8.5. Campeonatos deveriam representar show de surf, mas os critérios subjetivos de julgamento – tamanho e formato da onda, extensão percorrida, variedade e grau de dificuldade das manobras – muitas vezes dão margem a dúvidas ou levam a performances burocráticas. O careca ainda puxa os limites, mas a maioria pensa assim: - Pra que arriscar um aéreo rodando e cair se eu posso mandar duas batidas de back sob controle e tirar um notão?

A caneta dos juízes da ASP sempre escreve mais bonito o nome dos favoritos, principalmente se for em língua inglesa. Exemplos recentes foram as derrotas inexplicáveis do francês Jeremy Flores p/ o queridinho da mídia Dane Reynolds no Quiksilver Pro em 2010, e de Adriano de Souza este ano, no mesmo Quik Pro da Gold Coast, em que venceu [mas não levou] a bateria contra o defensor do título da etapa, Taj Burrow. Mineirinho ficou em 5º, Taj chegou à final... e perdeu p/ Slater, 10 títulos mundiais e faminto por mais um.

Kelly chegou no Brasil líder do Tour, mas tropeçou no chicano Bobby Martinez na fase 3, ficando em 13º  e sendo imediatamente ultrapassado por Joel Parkinson, campeão em Bells Beach. P/ alcançar a ponta do ranking, a Adriano não restava alternativa a não ser vencer no Rio – e antes disso torcer p/ o ‘Parko’ perder nas quartas. E foi o que aconteceu, Joel parou no Flores e ficou em 5º, num daqueles dias em que tudo dá certo. Até o julgamento estava a nosso favor.

Fazendo o feijão-com-arroz, commodity que o brasileiro tanto aprecia, The Souza passou pelo taitiano power surfer Michel Bourez [que havia derrotado o campeão das triagens Simão Romão e o defensor do título no Brasil, Jadson André] e pelo australiano futurista Owen Wright, que protestou: “Eu não sabia que estava no Tour p/ dar floaters!” Referência à manobra que Mineiro mandou numa fechadeira e lhe rendeu um 9.0, enquanto Owen recebeu 6.6 em sua última onda quando precisava de 6.74 p/ virar a bateria.

O palanque fica localizado entre a praia e a calçada, cercado de torcedores fervorosos por todos os lados”, analisa Marreco. “Num momento tenso como esse, quem tem cu tem medo. Ou vocês acham que um juiz marcaria um pênalti contra o Brasil no Maraca nas quartas-de-final duma Copa do Mundo? Foram muitos anos de resultados estranhos e agora chegou a hora dos australianos e americanos sentirem o desconforto que é ganhar e não levar.

Mineirinho, que não tem nada c/ isso, seguiu em frente fazendo a mala dos aussies – depois de Owen, Bede Durbidge na semi e Burrow na final, vingando- se da primeira etapa. “Estou muito chateado agora”, lamentou Taj, que já venceu 3X no Brasil – 1999 na Barra, 2002 em Saquarema, 2004 em Imbituba. “Comecei bem a bateria c/ uma nota 7 e depois fiquei esperando, esperando... Adriano usou uma boa tática de ficar mais pra dentro do pico pegando as intermediárias e deu tudo certo pra ele.

Adriano de Souza, 24 anos, $100 mil dólares mais rico e inédito líder latino de um circuito onde só se fala inglês, à frente de Slater, Parkinson, Burrow, Smith, Fanning ou qualquer sobrenome estrangeiro que o valha. “Ainda faltam 7 eventos”, diz o campeão, “a gente tem que torcer pra eles caírem e eu ir avançando.” Mais dois brasileiros estão entre os Top 16, Jadson André e Alejo Muniz, ambos c/ 21 anos e patrocínios da Oakley e Nike, respectivamente. A temporada está só começando, mas nossas ações nunca estiveram tão bem cotadas.

Quais os que se mostrarão mais fortes?”, filosofa Nietzsche. “Os mais moderados, os que não têm necessidade de dogmas extremos, os que não somente admitem, mas amam também uma boa parte de acaso, de contra-senso. [...] os mais ricos em relação à saúde, aqueles que estão à altura da maior desgraça e que, por isso mesmo, não temem a desgraça, homens que estão convictos de seu poder e que, com uma altivez consciente, representam a força à qual o homem atingiu.

Parabéns, Mineiro. Estamos na torcida.
MINEIRIN 1: O CÉU É O LIMITE

ASP WORLD TITLE RACE 2011 - após 3 etapas
1)      Adriano de Souza [BRA] 20.500 pontos
2)      Joel Parkinson [AUS] 19.200
3)      Kelly Slater [EUA] 16.950
4)      Taj Burrow [AUS] 16.500
5)      Jordy Smith [AFS] 14.750
6)      Owen Wright [AUS] 12.150
7)      Michel Bourez [TAI] 12.000
8)      Mick Fanning [AUS] 11.500
9)      Bede Durbidge [AUS] 11.000
9)      Tiago Pires [POR] 11.000
11)   Jeremy Flores [FRA] 8.750
12)   Jadson André [BRA] 8.700
12)   Josh Kerr [AUS] 8.700
14)   Bobby Martinez [EUA] 7.450
14)   Matt Wilkinson [AUS] 7.450
14)   Alejo Muniz [BRA] 7.450
24)   Heitor Alves [BRA] 5.250
26)   Raoni Monteiro [BRA] 5.000