quarta-feira, maio 18, 2011

BOCA DA MATA
Nossa Senhora da Glória é um município de pouco mais de 30.000 habitantes no oeste de Sergipe, região do alto sertão do rio São Francisco. Surgiu como um povoado em 1600, ponto de descanso dos tropeiros que iam ao vale do Cotinguiba negociar açúcar e jabá e costumavam pernoitar na “boca da mata”. Chamada de Capital do Sertão, Glória tem economia agropecuária e é conhecida por suas festas: a procissão da padroeira em 15 de agosto, o Forró da Paz no mês de junho e o concurso O Homem Mais Feio do Sertão, promovido por Airton Santana, o Marujo.

Nos últimos 9 anos, mais uma festa entrou no calendário da cidade – o Rock Sertão, festival realizado todo mês de maio. Em quase uma semana de atividades, os roqueiros glorienses realizam oficinas culturais, exibição de curtas, peças de teatro e obviamente shows. Muita gente de Aracaju desce p/ conferir e fica por lá o fim-de-semana inteiro. 400 anos depois, o rock traz os forasteiros de volta à Boca da Mata, nome original do lugar.

Pelo segundo ano consecutivo o sistema de rádio e televisão Aperipê cobriu o evento, durante toda a sexta e o sábado na FM, e das 22hs à 1h na TV. Como nunca me escalaram p/ as transmissões, eu sempre faço a minha cobertura independente. Em 2010 fui de carona c/ o Adelvan Kenobi [Programa de Rock], e assisti Mamutes, Urublues, Lacertae, Karne Krua, Vendo 147 [BA] e Mopho [AL], entre outras. Este ano tava sem grana e desencanei, vi de casa.

Adelvão, o último bastião, foi âncora do AO VIVO NO ROCK SERTÃO ano passado. Em 2011 a função coube a Diane Veloso, vocalista da Banda dos Corações Partidos e apresentadora do Olha Aí, programa de cinema da Aperipê. Mesmo assim o sócio-honorário do Viva La Brasa encarou 126km de estrada, ida e volta, duas noites seguidas, só p/ contar a vocês como foi. Uma aventura c/ direito a vegetariana selvagem, homens-galinha e uma cantora de axé da Inglaterra.

GLÓRIA! por Adelvan Kenobi
A programação de shows da 9ª edição do Rock Sertão foi aberta pela Karranca, veterana banda de rock de Itabaiana com influências manguebeat. Um show energético, com uma boa movimentação de palco e uma interessante mistura de ritmos sob a batuta da guitarra endiabrada de Ferdinando, também da Urublues. É uma banda de personalidade que tem alguns verdadeiros hits underground, como ‘Homem-Tambor’ e ‘Sangue na Feira’. O som estava embolado, mal equalizado, agudo demais, mas deu pra rolar numa boa.

Naurêa na sequência. Odiada por uns, amada por outros, o que ninguém consegue negar é que os caras fazem um show muito competente e que costuma levantar a galera. Mas nesta noite, em especial, não empolgou, talvez porque não estivesse tocando para seu público habitual. O mesmo pode-se dizer do samba-rock competente porém um tanto quanto arrastado e ‘malemolente’ de Elvis Boamorte & os Boas Vidas, que veio a seguir – um mérito do festival, aliás, trazer música independente das mais variadas vertentes para o palco e dar às pessoas a oportunidade de ter contato com sons e ritmos os mais diversos. Às vezes pode não funcionar num primeiro momento, mas é saudável para a formação musical de qualquer um.

O erro, a meu ver, nesta primeira noite, estava na ordem das bandas. Os shows ficaram meio que divididos em duas partes, a primeira com pouco ou nenhum rock e muita diversidade, do forró estilizado da Naurêa ao jazz instrumental do Ferraro Trio, a quarta a se apresentar. Muito bons, mas o público só esboçou reação mesmo nos covers de Jimi Hendrix e, principalmente, de ‘Beat It’, de Michael Jackson – aquela que conta, na gravação original, com a presença poderosa de Eddie Van Halen nas guitarras. A versão do Ferraro é bastante diferenciada e adaptada ao estilo deles. Grande show.

O rock, rock mesmo, duro, pesado e distorcido, foi deixado incompreensivelmente para o final. Jezebels foi a primeira banda do estilo a se apresentar, e mandaram muito bem. Estão com uma nova formação, já que a baixista/vocalista original, Paula, precisou deixar a banda para morar na Europa. Dani comanda o trio com sua pegada nervosa na guitarra e seus vocais estilosos, cheios de cacoetes bem característicos. Paloma, a baterista, lá atrás, tocando e batendo cabeça (!). Já o baixo, infelizmente, pouco se ouvia na frente, mas a movimentação de palco de Fábio era muito boa, o que ajudava a criar um clima de empolgação que sacudiu o público – a esta altura, provavelmente, sedento por rock! O fato não escapou à observação de Marcelo Larrosa, que entrevistou a banda ao vivo para a TV Aperipê depois do show e sapecou uma pergunta que deixou Dani com um novo apelido, ‘vegetariana selvagem’. Foi divertido.

Muito bom ver a música independente sergipana ter tanto espaço numa emissora de televisão. A FM também estava presente, registrando todos os shows na íntegra, ao vivo. A noite se encerrou com Fator RH, os anfitriões, e Dark Visions, de Tobias Barreto, que ficou em segundo lugar na votação do público via internet.

No sábado os trabalhos foram abertos, de forma relutante, pelo Lacertae. Deon, o guitarrista/vocalista, não estava se entendendo muito bem com os operadores de som e resolveu improvisar longos números instrumentais até que os problemas, notadamente uma microfonia insistente, fossem resolvidos. Ou parcialmente resolvidos, vá lá. Parecia que o show iria ser abortado, já que ele largou a guitarra e se retirou do palco numa determinada altura, mas o batera continuou tocando e parece tê-lo convencido a começar, finalmente, o show propriamente dito. Não chegou a ser ruim, mas foi esquisito.

Nucleador no palco. Outro clima, mais descontraído. Cenas de filmes de horror trash clássicos no telão, thrash metal crossover no talo no som. Murillo Viana comandou o espetáculo de energia e descontração com sua palhetada rápida e precisa. Diversão parece ser a solução para estes caras, que tocaram com uma empolgação contagiante – tudo registrado pelas câmeras da TV Aperipê, que àquela altura já tinha começado a transmissão. Muito bom ver um som tão underground e geralmente desprestigiado ter um espaço como este.

Já os Baggios, que vieram a seguir, estão mais acostumados aos ‘holofotes’, o que não se reflete, felizmente, em estrelismo ou acomodação, muito pelo contrário: Julico e Perninha não deixaram a peteca cair e sentaram a mão no blues garageiro e brejeiro com sotaque sergipano que lhes é característico. É blues do delta do Rio Sergipe, e dos bons. Show pequeno, infelizmente (‘por mim a gente ficava tocando aqui a noite inteira’, falou Julico ao microfone), mas encerrado em grande estilo, com Perninha espancando sem dó a bateria e Julico tendo espasmos no chão.

Depois d’A Lapada, a suposta ‘atração internacional’ da noite: Jesse Monroe. Logo no início já deu pra notar que aquela coca-cola era fanta... Ela abre o show falando em inglês com o público, para logo em seguida emendar: ‘vejo que vocês não entendem inglês por aqui. Que bom que eu falo português!’. E pôs-se a tagarelar sem parar. Nunca vi uma inglesa tão baiana, espevitada. A maior parte do repertório foi, infelizmente, de covers, mas foi divertido. A loira é muito presepeira e meio sem noção – chegou a dançar descendo até o chão no melhor estilo cachorra ao som de ‘Summertime’, de Gershwin! Hilário. Tocou também Luiz Gonzaga e Zeca Baleiro, para encerrar com sua música de trabalho, ‘Famous’. É um soul meio pasteurizado com cara de hit. Boa música – para as FMs comerciais, não para um festival de rock, assim como o show da ‘gringaiana’ cairia muito bem numa Boate F1 da vida. ‘Gloria, amo vocês! Pede pra gente voltar que a gente volta, ogayyy?!’... Ok. Pensei tê-la visto em cima de um trio elétrico na Festa do Homem-Galinha*, uma micareta que tava rolando em Ribeirópolis na volta, mas deve ter sido uma alucinação...

Desta vez a programação foi melhor mesclada e na sequência do pop local e internacional d’A Lapada e Jesse Monroe, Hatend, thrash metal de Paulo Afonso, Bahia. Esta alternância de estilos tão distintos deve ter dado um tilt na cabeça do cara que toma conta da mesa, porque estava tudo muito esquisito no palco. Som embolado e com uma equalização absolutamente nada a ver para uma banda de metal – só se ouviam teclados e baixo, este com um som muito estranho, parecia o estampido de uma metralhadora. As guitarras estavam inaudíveis. Esperei para ver se as coisas se ajeitavam mas não teve jeito não: ‘desinstiguei’ e resolvi começar o longo caminho de volta pra casa sem ver o Ladrão, a banda do Formigão, ex-Dash e Planet Hemp. Gente finíssima, por sinal – em todos os sentidos.

Ano que vem o Rock Sertão fará 10 anos. Estaremos lá.

CIDADE DO ROCK
 ELVIS BOAMORTE TOCA E A APERIPÊ EXIBE
 JESSE MONROE, A REVELAÇÃO DO FESTIVAL
 BANGERS DE GLÓRIA NO SHOW DO NUCLEADOR

* No caminho para o show, em Ribeirópolis, cidade geralmente pacata (até demais), fomos surpreendidos por uma movimentação fora do comum. Tivemos, inclusive, que esperar pacientemente para que um cidadão parasse de ciscar feito uma galinha, bêbado, no meio da pista, e finalmente nos desse passagem. Bizarro. Pena que ninguém tinha uma câmera à mão na hora, se fizéssemos um vídeo para o Youtube iria bombar. / FOTOS: Celiene Lima + Marcelo Larossa + Rock Sertão + Soudeglória.com

Um comentário:

Adelvan disse...

Foto massa essa primeira, do lacertae.