terça-feira, maio 24, 2011

BONDE SEM FREIO 
A prova carioca do World Tour teve mais a ver c/ grana, pontos, gatas e noite do que c/ surf. Não que o Rio de Janeiro faça feio – continua lindo e c/ altas ondas nos dias bons. Onde a gente começou a surfar, a onda era muito pior do que essa que vocês têm aqui”, falou o campeão mundial de 2001, CJ Hobgood da Flórida, p/ a molecada da Rocinha. “O Cory Lopez sempre me disse que aqui existe bom surf, c/ bons tubos.

Vamos em frente terminar logo isso”, tuitou um impaciente Parko depois de pelejar na repescagem. O que pega é que a etapa do Brasil sai perdendo se comparada às outras da 1ª divisão no quesito ondas. Não temos as direitas extensas de Snapper Rocks e Bells Beach na Austrália ou Jeffrey’s Bay na África do Sul, muito menos os tubos de esquerda de Teahupoo no Taiti ou Pipeline no Havaí. Até a França, onde quase sempre tá marola, volta e meia tem umas etapas memoráveis, como o Quiksilver Pro 2004, onde Andy Irons fez a final contra seu irmão caçula Bruce em ondas clássicas, ou o do ano passado, em que Mick Fanning derrotou Kelly Slater em tubos monstros num mar de ressaca.

O mar mais lembrado de um WT no Brasa foi o do Hang Loose Pro Contest em 1986, quando o australiano Rob Page chegou a comparar a Joaquina c/ Pipe. Isso já tem 25 anos. A Hang Loose ainda patrocina uma etapa do WQS no Havaí brasileiro, Fernando de Noronha, mas a estrutura ambiental da ilha não suporta a parafernália do circo da ASP, então o pessoal vai tentando encontrar o melhor lugar no continente mesmo: nos últimos 10 anos o campeonato já rodou pelas praias do Arpoador e Prainha no Rio de Janeiro, Itaúna em Saquarema [RJ], Vila em Imbituba [SC] e novamente Arpoador e Barra da Tijuca [RJ] este ano.

O Billabong Rio Pro é o primeiro duma série de campeonatos que voltam para o conceito criado nos anos 80 de enfiar a surfistada num beach break qualquer com boa fama e entupir a praia com potenciais consumidores para bater as metas de cada filial em determinadas regiões”, observa tio Júlio. “A etapa brasileira nunca foi pródiga em ondas, o problema não é esse e nem é conosco. Nova Iorque e São Francisco apontam lá na frente como enormes possibilidades de reviver os piores momentos do surfe profissional nos últimos 20 anos.

Ressaca Rio Pro poderia ser o nome do campeonato. Um dos únicos eventos da ASP realizado dentro de uma metrópole, o WT carioca é a oportunidade de muitos Tops curtirem baladas selvagens num país exótico e conseguirem sexo fácil & droga barata sem o risco de caírem num exame anti-doping. Alguém lembra do Mark Occhilupo fumando um antes da final em 2001 e tomando dura da polícia? Foi liberado graças à turma do deixa-disso, mas acabou perdendo p/ o Trent Munro – desse ninguém lembra mesmo.

No Rio surfistinha perde a linha, gringo chora e a mãe não vê. Mas você vê aqui os melhores momentos dos bastidores da parada mais quente do circuito mundial de surf. Quer dizer, aqui o surf é só um detalhe...

CAMISA 10
Depois do ator Vin Diesel, foi a vez de outro americano careca famoso usar o “manto sagrado” dos urubus. Ao desembarcar no Brasil, Kelly Slater vestiu a camisa do Flamengo. “Sem comentários, jogaram uma camisa em cima de mim, não sei nada sobre times, ainda não escolhi nenhum”, tirou da reta na coletiva de imprensa. “Espero sair daqui c/ um!” Ele já havia recebido uma de presente do garoto Naamã, morador de uma comunidade carente levado ao Havaí pelo Luciano HuckSlater ficou sabendo que o Vasco tinha mandado fazer uma camisa”, informa Gabriele Lomba do Globo Esporte, “mas um amigo paulista o orientou a ‘fugir’ da homenagem”. Seguindo o exemplo da presidente do clube Patrícia Amorim, que abordou o presidente dos EUA Barack Obama, o marketing do Mengo sapecou uma camisa personalizada no decacampeão de surf, antecipando-se ao time rival*. Nas costas, a inscrição: SLATER 10. Te cuida, Ronaldinho Gaúcho!

GAROTA D’IPANEMA
Maya Gabeira não compete. Seus 4 títulos no XXL Awards vieram de sua dedicação ao surf de ondas grandes. Patrocinada pela Billabong, a big rider mais sexy do mundo foi convidada a participar da quinta etapa do circuito mundial feminino como wild card. “Meio metro na Barra contra as melhores do mundo, me senti honrada em estar ali mas pra mim não era exatamente uma competição, fui para participar e fazer parte de um evento tão importante para o surf e minha cidade, o Rio”, postou no Facebook. Perdeu p/ a tetracampeã mundial Stephanie Gilmore na 1ª fase e p/ a havaiana Coco Ho na repescagem, mas suas baterias eram as mais aguardadas por público e mídia.Competir numa categoria tão diferente da minha contra a nº 1 e depois a nº 4 do mundo foi incrível. Conheço-as desde pequenas no Hawaii e o clima foi ótimo na água. Quero agradecer a oportunidade que a Billabong me deu de vivenciar algo diferente e único. Agora vou voltar à minha rotina e ir em busca das maiores ondas do mundo.

MULHERES AO MAR
Os primeiros dias foram dedicados à competição feminina, Billabong Girls Rio Pro, vencida pela havaiana Carissa Moore no domingo 15. Segunda vitória consecutiva da surfista de apenas 18 anos, que chegou às finais em todas as cinco etapas do mundial deste ano. P/ levar os $25 mil dólares e disparar na liderança, Carissa derrotou a australiana Sally Fitzgibbons na final e a brasileira Silvana Lima na semi. “Na última onda que a Silvana pegou, ouvi a praia toda comemorar e pensei ‘perdi’, mas felizmente a nota dela não foi suficiente”, falou sobre a disputa contra a talentosa surfista cearense. “Eu sabia que a praia toda estaria contra mim, foi difícil, tive que me concentrar.

A atual tetracampeã da ASP Steph Gilmore, 23 anos, sofreu um atentado na porta de casa, na Austrália, em dezembro. Um ladrão quebrou seu pulso ao espancá-la c/ uma barra de ferro durante o assalto, e ela deve ter ficado c/ seqüelas psicológicas do incidente. Apesar de recuperada fisicamente, ainda não venceu nenhum campeonato em 2011 – após dominar o circuito por 4 anos seguidos. No Brasil, Steph e Silvana ficaram em 3º e Sally ficou em 2º, mesma posição que ocupa no ranking. “Ainda tem dois eventos e tudo pode acontecer”, diz Carissa, favoritíssima ao título da temporada. “É uma honra estar brigando para ser campeã, estou vivendo um sonho!


NA SUBIDA DO MORRO
De bobeira na cidade enquanto rolavam as baterias das meninas, os Tops do WT fizeram o que todo gringo faz quando vai ao Rio: subiram o morro numas de tentar entender o que é uma favela. O galego aí em cima é Mick Fanning, da Austrália. Ele e a equipe internacional da Rip Curl visitaram a comunidade do Cantagalo e conheceram o Favela Surf Clube, centro comunitário onde as crianças aprendem vários ofícios relacionados ao surf – como shapear e laminar uma prancha, por exemplo. “Estou muito grato por conhecer este projeto de perto, essa escola de surf é uma iniciativa muito importante”, disse o bicampeão do mundo enquanto tirava fotos e dava autógrafos.

Fiquei impressionada como as pessoas vivem e fazem as coisas acontecerem”, falou Alana Blanchard, que participou da excursão junto c/ outras atletas da marca, como Pauline Ado e Tyler Wright. “Isso me faz perceber a vida boa que tenho, fico contente em ver como eles estão felizes por estarmos aqui”, disse a beldade, considerada a surfista mais bonita do mundo [eu também ficaria feliz se a Alana viesse me visitar]. Apesar de ser de Niterói, Bruno Santos também se impressionou c/ o que viu. “Nunca tinha tido essa oportunidade de visitar um projeto social na favela e vejo que está a mil. Isso é muito importante pro futuro das crianças!

Dias depois, o time da Billabong também subiu o Cantagalo p/ conhecer o Favela Surf Clube. Sexta-feira 13 foi a vez de CJ & Damien Hobgood visitarem a Rocinha Surfe Escola na maior favela da América Latina. Os irmãos gêmeos mais famosos do surf passaram 20 minutos entre becos e vielas até chegarem na escolinha que já formou mais de 800 alunos. “Esse tipo de experiência que estamos tendo hoje é o que nos motiva a continuar rodando o mundo, buscando trazer alegria p/ as pessoas e levando sempre um pouco dessas conquistas p/ nossas vidas”, diz o bom-cristão Damien. “Aqui em São Conrado tem boas ondas onde esses meninos podem ser futuros campeões!

Nas 3 ocasiões os tops presentearam a molecada c/ pranchas, roupas de borracha, tênis e acessórios. A iniciativa das visitas foi da loja Boards Co., através do DJ e apresentador de TV Marcos Bocayuva, que fez as vezes de cicerone da gringaiada nas favelas. Ah, o Fanning também ganhou uma camisa do Flamengo. E vestiu.
"EU SÓ QUEEERO É SER FELIZ"...
...MICK E TAJ NO CANTAGALO

EL GRINGO
O americano Bobby Martinez é descendente de mexicanos e tem orgulho de suas raízes latinas, a ponto de carregar nas costas o desenho de um bandoleiro. Dos estrangeiros, era o que estava mais em casa. Sem patrocínio, Bobby chegou aqui em 55º lugar no ranking unificado. Subiu o morro acompanhado apenas pelos amigos e fez uma tattoo em homenagem ao avô recém-falecido. “Meu avô morreu há poucos dias, eu não pude ir ao enterro e queria homenageá-lo.” Nem esperou a arte cicatrizar, no dia seguinte já estava na água disputando a vaga no round 4 contra o Slater. C/ um aéreo de backside, não só passou a bateria como obteve seu melhor resultado no ano e voltou a figurar entre os Top 16. “Não sou o novo herói. Eu venci o herói!


FOME DE GOL
O potiguar Jadson André foi o único dos 8 surfistas do Brasil a vencer sua bateria na terça-feira 17, primeiro dia do campeonato masculino, e passar direto p/ o round 3. Morando no Guarujá [SP] desde os 15 anos, Jadson estreou na elite em 2010 vencendo a etapa do Brasa e terminando o ano entre os Top 16 – único brasileiro além de Adriano Mineirinho. “Isto é tudo pelo que eu trabalho na minha vida”, diz o prodígio que teve uma infância difícil em Natal [RN]. “Faço as coisas certas, treino bastante, tento fazer o meu melhor. Não quero ser mais um.” Jadson defendia o título da prova brasileira, mas na fase do mata-mata perdeu p/ Michel Bourez do Taiti e ficou apenas em 13º. Pelo menos levou US$ 9.500 e 1.750 pontos que o mantiveram entre os Tops. Já Mineiro perdeu duas baterias, passou por duas repescagens, foi subindo de produção e, após 8 fases, ficou c/ o título. Dois anos seguidos vencendo em casa, liderança do ranking... É tudo nosso.
PETERSON CRISANTO VENCEU A EXPRESSION SESSION

AÉREOS & FESTAS
Another one bites the dust”, tuitou Julian Wilson após perder p/ CJ no 2º round. Muitos gringos chegam no World Tour apontados como futuros campeões, insuflados por filmes de surf, imprensa especializada e patrocínios generosos. Wilson é a aposta da Quiksilver, depois de Dane Reynolds não ter vingado – mas até agora tem se revelado um fiasco. “Parece que estou tendo que aprender de novo”, lamenta-se o promessinha, “mas sinto que algo bom me espera lá na frente”. Devia estar se referindo às baladas cariocas.

Conforme iam caindo diante dos adversários e se afundando na competição, os gringos também caíam na noite e afogavam suas mágoas nas Marias Parafinas. Destaque p/ os sempre festeiros australianos. Owen Wright e Matt Wilkinson estavam na ‘entourage’ do Cantagalo, mas o barato deles não é exatamente assistência social. Enquanto Owen manda aéreos politicamente incorretos e está na briga pelo título desde que estreou no WT ano passado, Wilko apenas se segura entre os 16. Ao perder na mesma fase que Julian, logo no início do campeonato, @mattwilko mandou o salve-geral pelo Twitter: “Rio is calling! Let’s go make a night of it! **
TAJ BURROW APLICANDO SUA MELHOR MANOBRA P/ CIMA DA MAYA: O XAVECO
* domingo, pouco antes de Slater deixar o país, o Vasco finalmente conseguiu entregar a sua camisa personalizada – mas essa o campeão não vestiu
** tweets roubados do Diário do Rio 2 de Júlio Adler [Hardcore]

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