sábado, maio 21, 2011

DE SOUZA
Os valores e as mutações de valores estão em proporção com o aumento de potência daquele que fixa os valores”, dizia o filósofo Friedrich Nietzsche em Vontade de Potência. A inflação no Brasil de janeiro a abril já estourou o teto da meta fixada p/ o ano inteiro, 6,5%. Culpa do aquecimento da economia e da alta das commodities, produtos que possuem cotação e negociabilidade globais, como grãos, minérios e tecnologia. O vilão da vez foi o etanol, que aumentou de preço por causa da entressafra na cana-de-açúcar.

E o herói, Adriano de Souza, mineiro do Guarujá [SP], Brasil tipo exportação, que nem café e petróleo. Campeão mundial pro-jr. aos 16, campeão do WQS aos 18, há 2 anos morando na Califórnia e há 3 entre os Top 10 do World Tour da ASP, Adriano ‘Mineirinho’ é uma commodity de alto valor internacional. Patrocinado pelas marcas Oakley e Red Bull, hoje ele é o número 1 do surf no mundo. Pelo menos até a próxima etapa do circuito.

Ontem, Mineiro entrou p/ a história ao vencer o Billabong Rio Pro, 3ª etapa do WT 2011. Não é a primeira vez que vencemos em casa: nos anos 70 Pepê Lopes e Daniel Friedman venceram no Arpoador [RJ], nos anos 90 Fábio Gouveia venceu no Guarujá [SP] e Teco Padaratz e Peterson Rosa na Barra [RJ], e Jadson André bateu Kelly Slater na final do ano passado em Imbituba [SC] – mas é a 1ª vez que um brasileiro lidera o circuito mundial desde sua invenção em 1976.

Ganhar essa etapa aqui no Brasil sempre foi meu maior sonho”, falou emocionado no pódio. “Em 2009 eu cheguei muito próximo da vitória, mas o Kelly me venceu na final e eu fiquei com aquele gosto amargo. Lembro que quando eu era pequeno o Pinga me trouxe pra ver esse campeonato aqui na Barra mesmo, quando o Peterson Rosa ganhou e a torcida também explodiu como agora. Desde aquele ano sempre sonhei repetir isso e agora consegui! Meu dia chegou, e não podia ser melhor, porque veio na hora certa, quando estou bem no ranking.

Pinga’ é Luís Henrique Campos, técnico que se tornou agente, responsável por um planejamento de carreira que inclui a entrada de Adriano num curso de inglês ainda criança, seu primeiro patrocínio – Hang Loose – e a mudança p/ uma multinacional – Oakley – na adolescência, além de um programa de treinamento que inclui academia, nutricionista, psicólogo e viagens de free surf p/ aprimorar a linha em ondas perfeitas. A primeira vitória num evento profissional veio logo, aos 14 anos – uma etapa da Abrasp em Macaé [RJ]. Aos 15, conquistou a divisão de acesso ao Super Surf. De lá p/ cá já são 2 títulos mundiais em categorias de base, 5 vitórias no WQS e 2 no WT.

Se Mineirinho é uma commodity, campeonatos de surf são puro mercado. “É legal assistir os melhores surfistas do mundo de perto”, opina Fred D’Orey, veterano surfista profissional revelado nos mundiais do Arpex no início dos anos 80. “Mas essa alegria é passageira. Muito melhor faria a Billabong se pegasse essa grana torrada no campeonato e investisse na confecção de fundos artificiais pras nossas praias. Muito mais pessoas apreciariam a marca por muito mais tempo. Já passou da hora dessas grifes, que fizeram fortuna no surf multiplicando o crowd, colocarem algo de volta. Leia-se ONDAS.

Ondas foram apenas um dos pontos polêmicos da competição no Rio de Janeiro. A direção de prova parecia não acertar o melhor lugar p/ as disputas. Arpoador? Barra da Tijuca? O dia c/ melhores condições foi cancelado porque não havia salva-vidas nem ambulância na praia. “Anunciado que não haveria campeonato, Parko mandou-se para dentro d’água e pegou três tubos seguidos”, escreveu Júlio Adler em seu Diário do Rio p/ a Hardcore. Outro colaborador da revista, Renan Tommaso, aborda mais um ponto fraco:

O julgamento. “Que catzo esses juízes estão fazendo?”, perguntou Renan na quinta-feira. “Nunca vi tantas pontuações estapafúrdias, contraditórias e inexplicáveis. Em ondas caidaças, sobretudo prum WT, ora com tamanho só que mexidas e fechando, ora lisas porém pequenas, curtas e escassas (em todos os dias de campeonato, nos dois picos escolhidos, não importa se outros campeonatos também ocorreram em mares tão ruins ou piores), com surfistas fazendo nada além do trivial e levando 9.0, 8.5, 7 e blau, quando mereceriam 5 ou 6 e uns quebrados.

Pela internet vi o Slater tirar 9.0 detonando uma esquerda que mereceria, no máximo, 8.5. Campeonatos deveriam representar show de surf, mas os critérios subjetivos de julgamento – tamanho e formato da onda, extensão percorrida, variedade e grau de dificuldade das manobras – muitas vezes dão margem a dúvidas ou levam a performances burocráticas. O careca ainda puxa os limites, mas a maioria pensa assim: - Pra que arriscar um aéreo rodando e cair se eu posso mandar duas batidas de back sob controle e tirar um notão?

A caneta dos juízes da ASP sempre escreve mais bonito o nome dos favoritos, principalmente se for em língua inglesa. Exemplos recentes foram as derrotas inexplicáveis do francês Jeremy Flores p/ o queridinho da mídia Dane Reynolds no Quiksilver Pro em 2010, e de Adriano de Souza este ano, no mesmo Quik Pro da Gold Coast, em que venceu [mas não levou] a bateria contra o defensor do título da etapa, Taj Burrow. Mineirinho ficou em 5º, Taj chegou à final... e perdeu p/ Slater, 10 títulos mundiais e faminto por mais um.

Kelly chegou no Brasil líder do Tour, mas tropeçou no chicano Bobby Martinez na fase 3, ficando em 13º  e sendo imediatamente ultrapassado por Joel Parkinson, campeão em Bells Beach. P/ alcançar a ponta do ranking, a Adriano não restava alternativa a não ser vencer no Rio – e antes disso torcer p/ o ‘Parko’ perder nas quartas. E foi o que aconteceu, Joel parou no Flores e ficou em 5º, num daqueles dias em que tudo dá certo. Até o julgamento estava a nosso favor.

Fazendo o feijão-com-arroz, commodity que o brasileiro tanto aprecia, The Souza passou pelo taitiano power surfer Michel Bourez [que havia derrotado o campeão das triagens Simão Romão e o defensor do título no Brasil, Jadson André] e pelo australiano futurista Owen Wright, que protestou: “Eu não sabia que estava no Tour p/ dar floaters!” Referência à manobra que Mineiro mandou numa fechadeira e lhe rendeu um 9.0, enquanto Owen recebeu 6.6 em sua última onda quando precisava de 6.74 p/ virar a bateria.

O palanque fica localizado entre a praia e a calçada, cercado de torcedores fervorosos por todos os lados”, analisa Marreco. “Num momento tenso como esse, quem tem cu tem medo. Ou vocês acham que um juiz marcaria um pênalti contra o Brasil no Maraca nas quartas-de-final duma Copa do Mundo? Foram muitos anos de resultados estranhos e agora chegou a hora dos australianos e americanos sentirem o desconforto que é ganhar e não levar.

Mineirinho, que não tem nada c/ isso, seguiu em frente fazendo a mala dos aussies – depois de Owen, Bede Durbidge na semi e Burrow na final, vingando- se da primeira etapa. “Estou muito chateado agora”, lamentou Taj, que já venceu 3X no Brasil – 1999 na Barra, 2002 em Saquarema, 2004 em Imbituba. “Comecei bem a bateria c/ uma nota 7 e depois fiquei esperando, esperando... Adriano usou uma boa tática de ficar mais pra dentro do pico pegando as intermediárias e deu tudo certo pra ele.

Adriano de Souza, 24 anos, $100 mil dólares mais rico e inédito líder latino de um circuito onde só se fala inglês, à frente de Slater, Parkinson, Burrow, Smith, Fanning ou qualquer sobrenome estrangeiro que o valha. “Ainda faltam 7 eventos”, diz o campeão, “a gente tem que torcer pra eles caírem e eu ir avançando.” Mais dois brasileiros estão entre os Top 16, Jadson André e Alejo Muniz, ambos c/ 21 anos e patrocínios da Oakley e Nike, respectivamente. A temporada está só começando, mas nossas ações nunca estiveram tão bem cotadas.

Quais os que se mostrarão mais fortes?”, filosofa Nietzsche. “Os mais moderados, os que não têm necessidade de dogmas extremos, os que não somente admitem, mas amam também uma boa parte de acaso, de contra-senso. [...] os mais ricos em relação à saúde, aqueles que estão à altura da maior desgraça e que, por isso mesmo, não temem a desgraça, homens que estão convictos de seu poder e que, com uma altivez consciente, representam a força à qual o homem atingiu.

Parabéns, Mineiro. Estamos na torcida.
MINEIRIN 1: O CÉU É O LIMITE

ASP WORLD TITLE RACE 2011 - após 3 etapas
1)      Adriano de Souza [BRA] 20.500 pontos
2)      Joel Parkinson [AUS] 19.200
3)      Kelly Slater [EUA] 16.950
4)      Taj Burrow [AUS] 16.500
5)      Jordy Smith [AFS] 14.750
6)      Owen Wright [AUS] 12.150
7)      Michel Bourez [TAI] 12.000
8)      Mick Fanning [AUS] 11.500
9)      Bede Durbidge [AUS] 11.000
9)      Tiago Pires [POR] 11.000
11)   Jeremy Flores [FRA] 8.750
12)   Jadson André [BRA] 8.700
12)   Josh Kerr [AUS] 8.700
14)   Bobby Martinez [EUA] 7.450
14)   Matt Wilkinson [AUS] 7.450
14)   Alejo Muniz [BRA] 7.450
24)   Heitor Alves [BRA] 5.250
26)   Raoni Monteiro [BRA] 5.000

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