quinta-feira, maio 05, 2011

HOMEM-BOMBA 
Osama Bin Laden morreu, mas os homens-bomba continuam à solta.  Na noite de sexta, enquanto os americanos comemoravam a morte do terrorista saudita, os brasileiros celebravam a vitória de Danilo Couto no XXL Global Big Wave Awards.

No dia 08 de fevereiro, Couto remou e dropou uma onda de 60 pés de face no pico de Jaws, um recife na ilha de Maui. Ondas de 60’, ou 18 metros, têm a altura de um prédio de 6 andares. P/ o surf,  foi um momento equivalente ao ataque das Torres Gêmeas no 11 de setembro. Só que sem vítimas fatais. Felizmente.

Até então, ninguém havia sido louco o suficiente p/ pegar uma massa d’água de tal magnitude no braço. Um mar desse é ideal p/ o tow-in, modalidade praticada c/ a ajuda de um jet-ski e uma prancha chumbada no fundo, presa nos pés. Mas Danilo entrou no mar remando c/ uma gun [prancha grande tradicional] e pegou a onda que lhe deu o título do “Oscar das ondas grandes”, como a mídia definiu o evento da Califórnia ao público leigo.

Apesar de existir um circuito mundial de ondas grandes – realizado em provas como o Eddie Aikau Memorial em Waimea e o Mavericks Contest na Califórnia – o XXL é o prêmio mais prestigiado do surf ’extra extra large. O pernambucano Carlos Burle foi o primeiro ‘Brazil nuts’ a vencer a votação, que leva em conta a performance em todos os picos do mundo, independente de competição – desde que documentado.

Foi em 2002, Burle dividiu o prêmio c/ o parceiro de tow-in Eraldo Gueiros pela primeira onda de 60’ surfada por um ser humano [rebocado por um jet]. O grande destaque do Brasil neste evento, realizado anualmente no Grove Theater em Anaheim, é a carioca Maya Gabeira, tetracampeã da categoria feminina em 2008/09/10. Este ano quem levou foi a havaiana Keala Kennelly – mas a Maya ainda vence no quesito ‘big rider mais gata’...

Danilo Couto já havia concorrido em 2004 pela maior onda em Jaws. Em 2005 concorreu ao Tubo do Ano novamente em Jaws, em 2007 entrou na Melhor Performance c/ um tubo gigante em Pipeline e ano passado disputou de novo a Melhor Onda em Jaws. “Cheguei ao Hawaii em dezembro de 1996”, diz o kamikaze. “Passei o inverno em Maui, onde fiz a base para o North Shore. Gostava muito quando o mar subia. Caí pela primeira vez em Waimea em fevereiro de 98 e fiz tow-in em Mavericks em dezembro de 2000, com Rodrigo Resende e Carlos Burle, tinha uns 30 pés.

O homem-bomba baiano aprendeu a surfar no Barravento em Salvador aos 10 anos de idade. “Meu primeiro mar grande foi no Espanhol, um pico cheio de pedra, perto de minha casa. Eu tinha 11 anos e o mar devia ter uns 5 pés. Mas pra mim, naquele momento, era grande.” Há 15 anos infiltrado nos EUA, casou c/ uma americana – Laura – e teve c/ ela uma filha havaiana, Tiare. Aos 36, faz parte de uma elite de especialistas em perseguir ondulações ao redor do globo e surfar as maiores ondas possíveis.

A onda do dia 18/02 é tão divisora de águas quanto a de Greg Noll em Makaha 1969 ou o tubo de Brock Little em Waimea 1990. Usando uma 10’6’’ – 3 metros de prancha – shapeada por Jorge Vicente [outro brasileiro radicado no Havaí], Couto dropou no ponto crítico e fez a linha da onda buscando o tubo. Tudo isso de backside, costas p/ a onda. O tsunami lhe valeu indicações em 3 categorias: Best Performance, Monster Paddle e Ride of the Year.

Levou a Onda do Ano, prêmio que vale US$ 50.000,00 e uma pick-up Toyota Tacoma. É a maior soma em dinheiro recebida por um surfista brasileiro, individualmente [o salário do Mineirinho não conta, estou falando de premiações].Pessoalmente tenho mais prazer em pegar essa ondas remando. O importante é não deixar passar em branco... Rema e vai!” Uma semana depois do drop histórico, outros malucos começaram a se aventurar. No swell seguinte, o havaiano Shane Dorian desceu uma  ainda maior e ficou c/ o prêmio Remada Monstra [outros US$ 50.000].

A vitória de Danilo na principal categoria do XXL vem desmistificar de vez a fama de maroleiros dos surfistas do Brasil. Uma fama injusta. Carlos Burle é um dos maiores big riders de todos os tempos: venceu o mundial de Todos Santos, no México, em 1998, o XXL em 2002 ao lado de Eraldo e o circuito de ondas grandes da ASP em 2009. Este ano ficou em 4º lugar no Big Wave Tour, cuja festa de premiação rolou no mesmo fim de semana do XXL, também na Califórnia.

O havaiano Jamie Sterling foi finalista nas 3 etapas e venceu em Pico Alto, no Peru, sagrando-se campeão da temporada 2010/11 e levando um cheque de US$ 10.000 da Jim Bean, patrocinadora do Tour – 1/5 do que Couto recebeu da Billabong por sua onda gigante. O brasileiro Marcos Monteiro [foto] recebeu um prêmio de mil dólares por terminar em 5º no ranking competindo sem patrocínio. E um kit de pesca submarina, de brinde.

A missão dos últimos anos é cercar os maiores swells entre Hawaii e Califórnia”, Danilo revela sua tática terrorista de ataque. “Os custos são altos, passagens em cima da hora, jet-ski, manutenção, pranchas normais e de tow-in... Aí entram os velhos e bons amigos. O Monstro [Rodrigo Resende, campeão mundial de tow-in 2003] é meu parceiro, Yuri Soledade também. Existe cativeiro para a equipe em vários lugares – Mavericks, Oahu, Maui, Tahiti, Brasil. E a lista de componentes é infinita: Márcio Freire, Biju, Capilé, Daniel Hardman, Wilson Nora...

Apoiado pelo braço brasileiro da marca californiana O’Neill, o extremista baiano conversou c/ a repórter Gabriele Lomba do Globo Esporte dias antes do anúncio da votação e explicou como conseguimos ser tão bons em ondas grandes vindo de um país c/ ondas pequenas: “É a comunidade com falta de recursos financeiros, mas com humildade e vontade de sobra para atacar as morras.” C/ as bençãos de Alá. E de todos os santos.

Gabriele Lomba - Quais são suas maiores lembranças daquele dia? Imaginou que, com aquela onda, chegaria à final?
Danilo Couto - Foi na manhã de natal, e não tinha tanta gente na água, só os mais fissurados. Aquela onda foi às 8h25m, bem na hora de abrir os presentes. Eu disse à minha filha que meu presente estava no mar e que tinha que ir lá recebê-lo. Eu e o Rodrigo Resende, parceiro que me puxou, até comentamos no fim da onda. Olhamos um para o outro, olhamos para o mar, estava tudo branco, o mar balançado, situação típica após quebrar uma bomba. Sabíamos que era uma das maiores do dia. Mas só depois de ver imagem e, comparando com as outras, vi que tinha chances.

GL - Alguma vez ficou decepcionado por não ter sido selecionado?
DC - Já fui finalista três vezes: 2004 maior onda, 2005 maior tubo e 2007 melhor performance. Na verdade, não pego onda grande pensando em ser finalista do concurso. Isso pode ser o motivo errado... Surfar nestes dias pensando no prêmio. Por prazer, queremos sempre pegar a maior onda possível, no maior dia do ano, e, se tudo se encaixar, poderá ser finalista do concurso e, quem sabe, ganhar o titulo.

GL - O Brasil está sendo mais reconhecido no surfe de ondas grandes?
DC - A potência do Brasil em ondas grandes já é reconhecida há muito tempo. Carlos Burle, Resende e Eraldo Gueiros são de uma geração anterior e há muitos anos fazem parte da elite mundial. Atualmente, desponta uma nova geração que já mostra levar jeito. A tradição do brasileiro nas ondas gigantes continua e se fortalece a cada ano que passa.

GL - Dá para fazer planejamento de viagem? Ou é sempre uma surpresa?
DC - O plano é estar preparado fisicamente e mentalmente e com equipamento em mãos os 365 dias do ano para entrar no avião a qualquer momento. O dia gigante é perfeito. Às vezes surge quando você menos espera. Estar atento e preparado a todo momento faz a diferença. Não é brincadeira passar às vezes 36 horas entre vôos e aeroportos e em seguida enfrentar 20m de onda. O trabalho é sério.

GL - Surfistas de ondas grandes precisam ser corajosos. Do que você tem medo?
DC - A coragem é necessária, porém sensatez para ter longevidade no esporte também é importante. Quero surfar estas ondas por muito tempo ainda. Tenho medo da destruição do planeta pelo ser humano. E o planeta já começou a sentir, com terremotos e tsunamis como consequência.

TROPA DE ELITE
O RECIFENSE CARLOS BURLE, LENDA VIVA DO BIG SURF
JAMIE STERLING, CAMPEÃO MUNDIAL DE ONDAS GRANDES
 SHANE DORIAN VENCEU A 'MAIOR ONDA NA REMADA' NO XXL
 MARCOS MONTEIRO TEVE SEU ESFORÇO RECONHECIDO
 SION MILOSKY, FALECIDO EM MAVERICKS NO INÍCIO DO ANO,
RECEBEU O PRÊMIO PÓSTUMO DE MELHOR PERFORMANCE

SURFISTA DE TSUNAMI
ATÉ DANILO TENTAR, NINGUÉM ACHAVA POSSÍVEL
"REMA E VAI!", DIZ O KAMIKAZE, COMO SE FOSSE FÁCIL
DORIAN E COUTO, OS GRANDES VENCEDORES DO XXL
 FAMÍLIA HABAIANA: DANILO, LAURA E TIARE
NO BRASIL TAMBÉM DÁ ONDA GRANDE:
TUBO PESADO NA LAJE DA ILHA MÃE, RJ
  

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