terça-feira, maio 10, 2011


MARRECO


Jornalismo não é profissão, é vocação. A sentença foi do STF, a frase é minha – mas poderia ser do Júlio Adler, um dos caras que mais me influenciou a escrever.  Quem vê esse tiozinho careca parecido c/ o Larry David correndo na areia da praia ou bebendo chopp num barzinho de Ipanema não imagina que ele já foi um campeão de surf.


Júlio nunca fez o estereótipo do surfista bonitão zona sul, pelo contrário. Magro, narigudo e quebrado, era chamado de Marreco e tinha problemas em arrumar bons patrocínios. Mesmo assim obteve o título carioca na sua primeira temporada como profissional, 1990, e dois anos depois venceu uma etapa do World Qualifyin Series da ASP em Pernambuco que também valia pontos p/ a Abrasp, terminando entre os Top 16 do circuito brasileiro. Viajou por todo o Brasil, América Central, Europa, África, Austrália, Havaí e até morou nos EUA.


Mas não pense que ele sente falta dessa vida de solteiro. Casado c/ a Maristela e pai do Daniel, o Marreco vive seu melhor momento aos 43. Editor de alguns dos vídeos mais importantes do surf brasileiro – como a série CAMBITO e o internacionalmente premiado FÁBIO FABULOSO – e do filme SURF ADVENTURES 2 – película 35mm – , e colunista das revistas especializadas Surf Portugal e Hardcore, pela qual cobre o circuito mundial, Adler agora ataca também na frente das câmeras apresentando o webcast SÉRIES FECHAM e comentando campeonatos na ESPN.


E ainda tem o blog GOIABADA, influência total p/ os textos de surf do Viva La Brasa. “Difícil não é escrever sobre campeonato, difícil é escrever algo que preste.” Marreco não é pato.


Viva La Brasa - Como surgiu o apelido?


Júlio Adler - Em 1982/83 no Quebra-Mar, tinha uma casa onde o melhor shaper da área fazia suas pranchas, chama-se Alzair Russo. Na mesma casa viviam também Cláudio Bodora, lixador, e o Félix que, se não me falha a memória, laminava. Um dia no estacionamento, provavelmente exaltado como todo garoto de 15 anos com alguma onda incrível que acabara de pegar, tagarelava sem parar e ouvi o Bodora: - Esse moleque não fica quieto um minuto, fala pra cacete! Parece um marreco!  A turma, doidona de fumo (ainda solto e sem aditivos) caiu na gargalhada. Pegou.

VLB - Quais seus principais títulos como amador?

JA - Meu primeiro grande resultado foi chegar até a final do brasileiro amador na Barra em 88, com Teco, Piu e Cia. – fiquei em sexto, mas passar as 390 fases era uma olimpíada. Principal titulo mesmo foi ter ganho um evento pro/am em Matinhos [PR], final contra Ícaro Cavalheiro num mar que lembro clássico. O resto foi sempre na trave. Uma Copa Voodoo em Ipanema que fiquei em segundo, Victor Ribas ganhou, mas todo mundo jura de pé junto que venci. Depois da final, fomos eu, Ricardo Martins e Vitinho comer no Bob's da Garcia. Ricardo disse que foi a única vez que ele torceu contra o Victor.

VLB - Você disputou uma vaga na equipe brasileira pro mundial amador do Japão, e não se classificou por pouco... Ficou em que lugar no ranking final?

JA - Nem lembro. Devo ter ficado nos top 10, sei lá. Em 1990, depois de perder pros caras que eu desprezava sem parar, resolvi virar profissional e me mandei pra Europa com 10 pranchas pra vender e pagar as despesas.

VLB - O que fazia nos tempos de amador, fora surfar? Tipo, estudava, fez alguma faculdade?

JA - Sempre fui viciado em filmes. O marido da mãe, Manolo, tinha uma sociedade com um tio numa locadora de vídeos e eu chegava a ver 3 filmes por dia pra desespero deles que deixavam de alugar. Demorei pra acabar a escola. Gostava tanto de estudar que fazia a mesma série duas vezes. Fui parar na faculdade Cândido Mendes frequentando Pedagogia, ironia do destino. Durou um trimestre.

VLB - Você era local do Quebra-Mar, o pico mais ‘fechado’ do Rio?

JA - Zulu [o famoso modelo Paulo Zulu, ex-surfista profissional], morava no oitavo andar e eu no décimo. No nosso condomínio tinha 3 blocos, A, B e C, no bloco C, em frente a minha janela, morava o Parrá, mais tarde juiz da Abrasp. Os dois eram carne e unha, mulatos de sol, 18 anos, tinham carro e surfavam todo santo dia no Quebra-Mar. No prédio tinha um monte de surfista mas por algum motivo eu fui o único que assumi esse negócio meio de mascote. Duda talvez fosse mais talentoso, Rodrigo mais corajoso, mas eu tinha o que quase ninguém tinha, liberdade. Melhor ainda, nessa época não tinha mais nenhum moleque lá no Quebra-Mar. Pegava religiosamente um busum com meu primo Guilherme ou um amigo do prédio, Sandalildo, e passava o dia inteiro à base de pão com molho da Dona Augusta ou do Bigode, dois trailers que vendiam coco e cachorro quente. Outro grande amigo mais velho que eu tinha era Ivon 'O Lenhador', um touro de forte que surfava com a leveza do Mark Richards. Quebra-Mar era o centro do universo do surfe no Rio nessa época e quando tinha onda boa era como ver um filme de surfe com os melhores do Brasil na sua frente. Já havia localismo, mas brando, no máximo uma troca de socos ou tapas, ninguém botava ninguém pra dormir ainda. Hoje já não volto mais lá, quero ficar com minhas lembranças juvenis de ondas incríveis e surfistas extraordinários. Ronaldo Trem Fantasma e Lourenço Ipanema nas maiores da série, os tubos do Waldemar Walney, Zulu e Valdir, as porradas de backside do Brasa, Castejá e Cauli, o estilo foda-se do Pepê Lopes, os cutbacks do André Pitzalis, a elegância e velocidade do Fred, o surfe free-jazz do Raul, Piu Goiaba...

VLB - E os patrocínios, quando vieram?

JA - Primeiro foi a Avant Garde, capas de prancha. Alexandre, um grande amigo que se foi, fazia as capas e tábuas de skate e cismou que eu deveria competir porque tinha alguma chance contra a molecada da Barra. O negócio é que eu não acreditava muito. Fiz parte brevemente da equipe B ou C da Cristal Graffitti logo quando começaram, depois Bentley, Craphtec, Spitz e finalmente Ricardo Martins no final dos anos 80.

VLB - Falando nesse assunto, sei de uma história boa: em  1990 você era patrocinado pela Insane e na última etapa do carioca disputou a semifinal contra seu patrocinador, Rodolfo Lima. Quem passasse ficava c/ o título estadual, certo? E você venceu e ele ficou tão puto que te despediu?

JA - Sim e não. Rodolfo não me despediu porque ganhei dele nas quartas – quem passasse levava o título. Ele me dispensou porque não tinha interesse num surfista profissional na equipe dele, creio eu. Pedi um aumento, naturalmente, depois do retorno gigantesco que a Insane teve na TV e jornais, a marca era pequena. Acho que pedi uns 100 dólares de salário, mais despesas, merreca. Ele optou não renovar. Sem ressentimentos.

VLB - Bom, então. Você começou 90 como amador, se profissionalizou no meio da temporada, nem correu o circuito carioca inteiro e mesmo assim foi campeão no seu ano de estréia. Seu título completou 20 anos. Quais suas memórias desse ano e dessa campanha?

JA - 23 anos, morando com a mãe, sem ganhar um centavo pra surfar e ainda por cima insistindo numa carreira injusta e incerta. Era hora de parar, pensava eu, pressionado pelas responsabilidades que choviam nessa altura. Corria tudo quanto era campeonato que aparecia pela frente, principalmente o circuito 30 Pés no Paraná. Esse circuito era uma injeção de ânimo quando tudo parecia perdido. Alguns poucos surfistas do Rio, São Paulo e Santa Catarina competiam lá. Marcelo Bôscoli, Joca Secco, Cláudio Walter ‘Alemão’, Renato Phebo eventualmente, Renan Rocha, Zé Paulo, Teco, Neco molequinho e toda aquela geração brilhante do Balneário Camboriú, mais uma cambada violenta.

1990 foi um ano para não esquecer. Comecei com uma pneumonia e perdi a primeira etapa da OSP, final Victor e Pedro Müller, se não me engano. Foi em 90 que fiz minha primeira viagem internacional. De tanto ver a perna européia no Realce resolvi ir lá e tentar a sorte. Meu patrocinador de bico era a Insane, que bancava minhas aventuras de busum pelo país. Quando cheguei com o plano de ir pra Europa e ajudar a pagar as despesas com a venda de pranchas, Rodolfo sugeriu que eu pedisse o shape pro Ricardo, laminação pra Super Glass e ele me daria os blocos e as inscrições. E assim, com 10 pranchas e apenas a grana que meus pais generosamente investiam em mim, me joguei pra Europa. Alugamos um carro do mais barato que havia, 4 malandros, eu, Duca, Leozinho e Rogerinho e saímos dirigindo de Madrid até Lacanau pro primeiro evento. Naquele ano, Tom Curren fazia sua histórica volta ao circuito depois do seu retiro espiritual, liderava o ranking e era obrigado a correr algumas triagens. Slater surgiu ao resto do mundo ali, logo depois do fiasco no mundial amador do Japão. Tudo mudou depois de 1990, pranchas, jeito de surfar, ASP, tudo!

E o Brasil enfiava os dois pés no tour com Fabinho, Teco e um exército de iludidos com o sonho de ser surfista profissional, eu entre eles. Voltei da Europa depois de 6 campeonatos, dois meses de surfe ao lado dos caras que você só via em vídeos e fiquei em segundo numa etapa da OSP no meio da Barra, final contra Vitinho. Depois um quinto sei lá onde e fui pra etapa final com chances matemáticas de ser campeão do circuito. Nem nos meus sonhos mais dourados me via ganhando o circuito, mas a vida nos prega peças... Pedro Müller e Victor Ribas, os dois favoritos, foram pro Havaí competir e deixaram de correr a última etapa. Eraldo Gueiros, Léo Chinês e Rodolfo Lima tinham chances reais de ganhar o título. Ninguém dava muita bola pra mim porque no ranking eu tinha um zero da primeira etapa, então tava lá embaixo...

Última etapa na Prainha, marzinho de vala pra esquerda, especialidade da casa. Ricardo Martins tinha feito uma swallow, seis canaletas, mais larguinha e o Marcelo da Super Glass conseguiu uma laminação absurda de leve. A prancha voava! Fui passando, passando... e de repente, antes da quarta-de-final, o diretor técnico da OSP virou pra mim e disse: - Quem ganhar essa bateria leva o circuito. Aquilo foi muito inesperado! Eu sabia que tinha chances, mas não fazia idéia que aquela bateria já decidia tudo. Fui pra dentro d'água com a confiança de quem não tem mais nada a perder. Venci. E venci novamente o Tatuí na semi e depois o Gross na final. Foi um dia mágico. Cheguei em casa e contei pra minha mãe que meus planos de terminar a faculdade e arrumar um emprego estavam adiados.

VLB - Cara, depois que você foi campeão carioca lembro duma matéria no Jornal Hoje da Globo sobre moda surf, e VOCÊ era o modelo, c/ umas camisas de Bali p/ dentro de calças bag, huahahah!...

JA - Rapaz... Ser campeão carioca de surfe profissional na época tinha seu status e algum prestígio. A editora de moda do Jornal Hoje era a Cristina Franco que, do nada, me ligou um dia pra convidar pruma matéria de comportamento. Levei uma porrada de roupas. Fui de camisa com manga rasgada, camisa de botão, calça social, misturei tudo e ficou aquela coisa ridícula que só você lembra.

VLB - No ano que vc venceu, o circuito aí do seu estado tava meio mal de premiação, mas no ano seguinte começou uma fase muito boa financeiramente p/ o surf carioca c/ o Circuito Limão Brahma. A primeira etapa foi clássica, mar gigante na Barra... Mas vc não se deu muito bem defendendo o título. Qual seu melhor resultado em 91 e posição no ranking final?

JA - Como o surfe no Rio estava meio morto, a Evelyn, grande promotora do surfe no Rio no início dos anos 90, mexeu seus pauzinhos pra fazer o máximo de barulho na grande imprensa e tentar atrair um grande patrocinador pro circuito. Foi exatamente isso que aconteceu em 1991 com a entrada do Limão Brahma no surfe profissional. A primeira etapa foi incrível. Ondas gigantes pro meio da Barra e apenas alguns poucos surfistas conseguiam varar a arrebentação e surfar alguma onda. Lembro do Márcio Mundim, shaper da Spirit, pegando uma bomba. Alexandre Herdy, irmão mais velho do Guilherme, entrou pra história botando pra dentro dum tubo anormal de grande, deformado e todo branco. Pedro Müller conseguiu entrar no final de tarde do sábado e quase teve que ser resgatado pelo helicóptero... Minha bateria foi logo depois duma que tinha João Maurício Jabour e Eraldo, os dois não conseguiram varar. Eu, com a minha fama de maroleiro, queria entrar de qualquer maneira. A bateria era contra o Tadeu Pereira, outro cara que não amarela jamais. Ficamos os dois remando por meia hora sem chegar nem perto de entrar naquele mar. Me recusei a surfar na espuma por pura burrice, e perdi. Passei todo ano tentando provar um monte de coisas pra mim mesmo, 91 foi um desastre completo. Até saí dos top 16.

VLB - A propósito, como você se virou depois de perder o patrô da Insane? Demorou p/ arrumar um patrão novo?

JA - Nos dois anos seguintes, corri atrás de patrocínio com uma fita de VHS que Pepê Cezar editou com todo material que saiu na grande imprensa. Foi idéia dele, do Pepê, fazer uma fita. Ninguém tinha nada parecido, neguinho tinha no máximo aqueles álbuns de fotografia com as fotos e resultados recortados e organizados como currículo.

VLB - Mas em 92 vc dá a volta por cima c/ a vitória na 2ª edição do Seaway Classic. Mais uma vez chegou como azarão e levou a taça, agora num evento do Brasileirão válido pelo WQS. Se não me engano vc terminou aquele ano em 12º entre os Top 16, correto?

JA - Essa história é de conto de fadas. Cansado de ter que bancar tudo do próprio bolso, resolvi ir novamente na Cyclone falar com Roberto Valério [ex-surfista pro e dono da marca, falecido em 1994]. Eu sabia que Valério gostava de mim como competidor e apesar de não ter o perfil da marca, eu tinha que arriscar. Cheguei lá numa tarde, logo depois do almoço e fiquei no banquinho esperando até a noite. Quando ele tava indo embora, me viu e, meio assustado, falou: - Porra Marreco ainda taí? Hoje não dá pra falar contigo... Vai pra onde? Zona sul? Então te dou uma carona e você me diz o que tem na cabeça... Expliquei pro Valério que não aguentava mais ficar sem patrocínio, que era batalhador, que não queria muita coisa, nem salário nem nada, só queria parar de gastar minha grana toda em campeonato. Ele ouviu tudo calado, dirigindo e queimando um baseado do tamanho dum cubano puro. Tava chegando a data do Seaway, logo na próxima semana e eu disse pro Russinho: - Valério, vamos fazer uma coisa? Você banca a passagem e inscrição lá no Recife, estadia já tenho, e fazemos assim, se eu me der bem, continuamos com essa experiência, se não der certo, não te encho mais o saco, beleza? Ele balançou a cabeça positivamente e mandou ligar no dia seguinte pra falar com a turma que cuidava disso na empresa. Contrato de risco. Fui lá e ganhei. E não foi só isso. Fui o primeiro da Cyclone a vencer uma etapa da Abrasp. Liguei pro cara e ele não acreditou! Ganhei 22 milhões [de cruzeiros ou cruzados, a moeda da época, algo como 22 mil hoje] e fiquei pagando churrascaria durante um mês inteiro de comemoração. A grana voou, mas nunca ninguém comemorou tanto um título na história do surfe brasileiro.

VLB - Esse campeonato foi marcante tb porque a nova geração do Nordeste chegou junto, c/ Armando Daltro, Dunga Neto e o finado Gustavo Aguiar sendo as revelações – todos fizeram carreira como profissionais e Daltro chegou ao WCT...

JA - Dunga Neto era a grande sensação, veloz, radical, determinado. Mandinho já exibia sua excepcional inteligência competitiva e Gugu era um talento bruto, power e criativo, tipo um Jordy Smith de Maraca. A morte dele foi uma perda enorme pro surfe brasileiro.

VLB - Seu principal adversário era Joca Júnior [foto]. Ele tava literalmente voando em Maracaípe e terminou em 2º. Pra mim, vai desculpar, o Joca tinha o surf mais progressivo daquele campeonato. Mas vocês tinham uma rixa desde os tempos de amador, que eu tô ligado. Li uma entrevista sua em que vc dizia que não gostava do surf dele porque o Joca surfa de fundo, enquanto vc usa as bordas. Vamos reacender essa polêmica, já que hoje a molecada toda surfa de fundo p/ dar aéreo em marola...

JA - Joca sempre foi um cara reservado, tímido. A rixa que tínhamos com ele, eu e alguns cariocas, era menos com ele mesmo e mais com o jeito que ele era julgado. Tudo começou numa bateria polêmica num brasileiro amador em Maracaípe, 1988, onde o Alemão perdeu escancaradamente roubado pro Joca. Depois, em 1989, no Mormaii Pro, entrega de prêmios da categoria amador, que tinha sido ganha em grande estilo pelo Alema contra o Joca na final, [praia da] Silveira clássico! Joca tinha o patrocínio da Mormaii e todos já contavam que ele ganharia o título. Alema foi lá e destruiu tudo. Na noite da entrega de prêmios, o Morongo [dono da marca patrocinadora do evento] foi anunciar o campeão e anunciou Joca Júnior como vencedor. Houve um breve constrangimento, Morongo consertou o ganhador, entregou a taça pro Alema e levantou o braço do Joca, anunciando efusivamente o segundo colocado. Toda bateria contra o Joca carregava frustrações de outros tempos, que se bobear ele nem sabia, ou nem ligava. Sem contar que eu achava os aéreos do Joca meio mixurucas, gostava mesmo era do Brayner Brito lá da Paraiba – esse sabia voar!

VLB - Em 93 você decidiu tentar a sorte no Bud Surf Tour, o circuito profissional americano. Fale sobre essa experiência de morar nos EUA. Onde era sua base, Califórnia? Qual seu patrocínio? Quantos campeonatos correu, e qual sua colocação no ranking?

JA - Terminei na frente do Curren, eu em noventa e pouco e ele em noventa e muito. Eu devo ter corrido umas 10 etapas e ele umas 5. Depois da ganhar um WQS com Vitinho na final, a ilusão de ser surfista profissional ganhou fôlego pra mais 10 anos. No início de 93 tinha uma perna sulamericana: Argentina, Chile, Peru. Liguei pro Valério e perguntei se podia competir no Bud Tour ao invés da perna sulamericana e mostrei que o custo não era muito diferente. Tinha um amigo da minha irmã que vivia em Torrance, perto de Los Angeles, fiz minha base ali. Tinha um carro alugado, grana pra hospedagem, pra inscrição, pra comer sem precisar economizar e ainda um troco pra fazer pranchas. Rob Machado, Taylor Knox, Shane Dorian, Conan Hayes, Beschen e até Slater corriam o Bud Tour, era minha chance de ver os caras surfando de pertinho e tentar evoluir um pouco mais. Competi durante mais de dois meses quase todo final de semana, Bud Tour, campeonatos locais, viajei até Nova Iorque pra competir num 2 estrelas em Nova Jersey – perdi nas quartas pro campeão e vice, Jason Borte e John Logan. Fiz pranchas com o Márcio Zouvi, que me deu a atenção que o Xanadu reservava apenas pros feras mais conhecidos, viajei pela Baja California, fiz muitos amigos, convenci o Laurent Pujol a se mudar pra França e até arrumei uma namorada. Comprei, acredite se quiser, 270 CDs durante minha estada naquele shopping center gigante que é o Estados Unidos. Aqui no Brasil as coisas eram, e ainda são, tão ou mais caras e inacessíveis que quando eu entrava numa loja de discos usados e via por US$ 1,99 o mesmo CD que custava na Gramophone 60 reais, não resistia e comprava na mesma hora – e vídeos! Vídeos de surfe, filmes clássicos do Capra, Hitchcock, Wilder, Ford, Leone, Jarmusch, tudo em promoção! E foi minha grande chance de aprender inglês, já que tinha sido expulso do único curso que me matriculei.

VLB - Em 94, volta ao Brasil e emplaca mais uma final num ‘QS: 4º lugar no Nescau Energy – era esse o nome? Como foi a volta? E esse ano?

JA - Rapaz, acho que essa final foi em 1993. Foi um campeonato inesquecível por uma série de motivos. Primeiro porque eu sempre fui um cara muito cheio de regras e preconceitos. Sair de noite e beber sempre estiveram fora de questão – drogas então nem pensar! De repente, lá estava eu, rodando meio mundo numa vida mambembe de proto-surfista profissional, tentando fazer alguma coisa funcionar para render resultados. Resultado = dinheiro. Dormia cedo, rodava de cara, dormia tarde, rodava de cara do mesmo jeito. Vi o Brad Gerlach ganhar do Slater em 1990 na França virado direto duma noitada épica no Le 15. Nem Gerlach nem ninguém acreditava que era possível, mas os tempos eram outros e essas coisas aconteciam. No dia seguinte, Gerlach dormiu cedo, treinou antes da bateria e perdeu pro Damien Hardman mesmo com o Domma fazendo interferência. Cheguei à conclusão que não havia formula mágica, qualquer coisa podia dar certo se você estivesse no seu dia.

Tudo isso pra falar desse Nescau. Os campeonatos em Floripa eram os mais esperados do ano, menos pelas ondas, principalmente quando escurecia. Ninguém resistia à noite catarinense. A tentação era muito maior do que a vontade de ganhar. Chandon, Barulho do Mar, Arataca eram templos da perdição onde ninguém se perdia e todos se achavam. Nós cariocas ficávamos abestalhados com tanta atenção que aquelas deusas nos recebiam. As filas na porta já eram suficientes para fazer o mais católico dos competidores virar um lobo mau de desenho animado. Dentro das boates, as pistas de dança remetiam a qualquer coisa familiar ao pecado, luxúria, lascívia, era uma orgia com todos vestidos. Virei todas noites dançando e bebendo com a turma da pesada. Chegava de manhã no hotel, dormia até a hora da bateria, Pepê me acordava, eu competia e voltava pra dormir mais um pouco. Fui até a final, eu e Barton Lynch, companheiro de crime, exaustos e com um sorriso maroto e cúmplice no rosto – como conseguimos chegar até aqui, nos perguntávamos. Pedro Müller ganhou, Jojó em segundo, os dois que se deitavam cedo e treinavam sério, Lynch em terceiro e eu em quarto. Com dinheiro dessa final paguei a passagem do [fotógrafo de surf] Rick Werneck para fazermos a hoje mítica viagem para Pelicano Point [Trinidad & Tobago, Caribe].

No final de semana seguinte fui pruma etapa do gaúcho profissional em Torres e venci. O vento parecia mudar pra mim.

VLB - Em meados dos anos 90 você começa a dar um tempo nas competições e a editar filmes de surf... Como aconteceu essa transição?

JA - Parei de competir em 97. Não aguentava mais perder. Tinha 29 anos e acho que estava no auge da maturidade como surfista, mas isso não se convertia em resultados e comecei a buscar alternativas. Sempre tive uma relação de companheirismo com Pepê e ele já fazia seus vídeos, desde 1988 com COMPETIÇÕES NO PACÍFICO, seu primeiro filme, uma cobertura do circuito mundial pelos olhos dum brasileiro. Éramos apaixonados, ainda somos, por filmes de surfe e quando vi que fazia muito tempo que Pepê não fazia nada autoral, o convenci de fazer um novo vídeo, um cult que ninguém conhece mas quem conhece não esquece, o 002 SURF, de 1993. Tinha um belo texto narrado pela voz do surfe, Mário César Pereira Carneiro, e uma trilha que ia de Pixies a Gipsy Kings. Ali tive minha primeira experiência com edição, eu ficava ao lado do Pepê apenas falando e ele operava. Nos filmes seguintes, A PRANCHA, os 3 CAMBITO, TROCANDO AS BORDAS, já meti a mão na máquina e saí editando, sempre com a supervisão do Pepê.

VLB - Você sempre editou em MAC, certo? Como surgiu isso? Tipo, um Macintosh não é o tipo de computador que qualquer um tem em casa, mesmo hoje em dia...

JA - Nesse caso, tem um único culpado, Gustavo Bomba, a mola propulsora do Wet Paper e mais uma porrada de projetos que fizemos e outros que nunca realizamos, sempre com um entusiasmo e uma lucidez invejável.

VLB - Você editou alguns dos melhores filmes de surf do Brasil. Além dos que vc já citou, trabalhou no que talvez seja o mais importante de todos já feitos por aqui, FÁBIO FABULOSO. Fale sobre esse filme, os prêmios, aquele cordel do Pepê...

JA - Prêmio é quando você encontra um sujeito que nunca viu na vida e ele fala do teu filme com brilho nos olhos. FÁBIO FABULOSO foi muita sorte nossa de poder fazer juntos na casa do Pepê, quatro amigos concentrados num personagem que nos encanta. Cada filme tem seu momento mágico. O TROCANDO AS BORDAS, que é o filme que mais gosto, tinha um jeito de coisa caseira, totalmente inspirado no LITMUS e uma trilha sonora original fantástica. Na minha opinião é nosso filme mais subestimado. Poder trabalhar num filme de verdade como SURF ADVENTURES 2 depois de tantos anos militando na contra-informação também foi uma experiência fascinante.

VLB - E escrever? Como começou isso?

JA - Começou cedo, idos de 86 ou 87. Wanderley Carbone me levou lá no escritório do Staff [primeiro jornal de surf do Brasil] e me apresentou ao Fred D'Orey. Falou assim: - Esse garoto escreve umas paradas maneiras sobre música! Fred publicou e nunca mais parei.

VLB - Por que seu blog chama GOIABADA? Você se considera um ‘goiaba’?

JA - GOIABADA porque é coisa de goiaba. Um dia é surfe, noutro é futebol, poesia, música, cinema, o que der na telha.

VLB - Lembro que umas das primeiras coisas suas que li foi um perfil dos Top 44 da ASP na revista InsideNow em 96. Derek Hynd sempre foi sua maior influência, admite?

JA - Claro que admito. Derek Hynd citava Dostoievski nas suas análises, é o Paulo Francis do surf: aumenta, inventa, opina, mas nunca mente.

VLB - Em 93, nas minhas férias escolares, descolei uma cópia do jornal Wet Paper numa banca do Andaraí [bairro da zona norte do RJ]. Você era um dos editores, ok?

JA - Bomba um dia me convidou pra ser editor dum jornalzinho que ele, Marcelus Viana e Guilherme Torres queriam fazer. Topei com a condição de dividir o cargo com Pepê, que já tinha trabalhado na Fluir como editor-assistente do Fred. Convenci Pepê de aceitar e nossas vidas mudaram a partir dali. Prestamos um belo serviço, digo sem falsa modéstia. Tínhamos um produto redondinho, bem escrito, bem diagramado, muito a frente do seu tempo – e gratuito! Paramos cedo demais mas fizemos três edições conceituais. Uma dedicada a competições, uma dedicada ao Mundial Amador que tivemos na Barra em 1994 – primeira e única publicação de surf bilíngüe que tenho notícia aqui no Bananão – e nosso canto do cisne, uma homenagem ao [programa de TV] Realce. A chamada de capa era assim: REALCE, O PROGRAMA QUE REVOLUCIONOU O SURFE BRASILEIRO. Fizemos o que até hoje ninguém fez, justiça ao heróis independentes que tiraram o surfe da obscuridade e nos colocaram na TV aberta, todas semanas, por quase uma década: Antônio Ricardo e Ricardo Bocão.

VLB - O Wet Paper era um veículo patrocinado pela Wet Works, dos shapers Ricardo Martins, Joca Secco e Cláudio Henneck. Você usa pranchas desses caras há 20 anos, e eles são os melhores do Brasil. Fale sobre o trabalho deles e sobre suas pranchas atuais.

JA - Wet paper antecede a Wetworks e nunca foi patrocinado por ninguém. Tínhamos anunciantes, parceiros, não patrocinadores. O nome Wetworks, inclusive, é bastante inspirado no Wet Paper, creio eu. Ricardo, Joca e Alema são amigos de longa data, passamos por muita coisa juntos. Viajei com Joca e Alema no circuito brasileiro de 88 até 93/94. Ricardo sempre foi nosso guia espiritual, meu e do Alema. É um feiticeiro que faz pranchas mágicas, e nós éramos seus cobaias, junto do Vitinho, Plínio, Tatuí, Pedro Müller...

VLB - Desde o ano passado você viaja o mundo cobrindo o circuito mundial de surf... Não é irônico estar no World Tour depois de ter parado de competir?

JA - Curioso como quase todo ex-competidor que consegue superar suas frustrações acaba participando duma maneira ou de outra do circuito. Essa cobertura foi iniciativa corajosa do Steven Allain, diretor de redação da Hardcore. O feedback que temos é inacreditável. Ele silenciosamente acompanha tudo e se manifesta de maneira educada e incrivelmente bem argumentada. Enquanto os outros veículos apostam na imbecilidade dos leitores soltando apenas cópias malfeitas dos press-releases e entrevistas pro entrevistado matar no peito e chutar pro gol, a Hardcore prestigia a inteligência do camarada que nos acompanha.

VLB - Em 2010 vc esteve na Austrália, África do Sul, Europa e Havaí, mas de todos esses lugares sua ligação mais estreita parece ser c/ Portugal. Pensa em morar lá?

JA - Adoro Portugal. De todos lugares que viajo, Portugal é meu porto seguro. A cada viagem que faço aprendo um pouco mais. São do grandissíssimo caralho os portugas! Veio de Portugal a inspiração pra fazer o GOIABADA. É de Portugal que vêm os textos que tenho mais prazer em ler, Pedro Adão e Silva, João Valente, Manoel Castro e Gonçalo Cadilhe, na minha opinião o melhor texto relacionado a surfe que há, incluso americanos e australianos. Minha esposa e meu filho tem raízes portuguesas, não me incomodava nem um pouco de viver lá por um tempo. Sem contar que a culinária portuguesa...

VLB - Fale sobre o pai Marreco. Quer que seu filho seja surfista profissional?

JA - Quero que o moleque curta a infância dele como criança, brincando. O que ele resolver fazer depois, eu apoiarei.

VLB - Durante anos o único pagamento por seus textos vinha da revista Surf Portugal. Você ainda tem sua coluna Tempestade em Copo d’Água?

JA - Claro que sim! Tenho uma dívida eterna com João Valente, diretor da Surf Portugal e amigo do peito. Foi ele que me convenceu do valor dos meus textos. Escrevo pra Surf Portugal desde 1996, sou hoje, veja só, o colunista mais antigo da revista. São 15 anos sem falhar, ou quase, me perdoa Bala.

VLB - E os projetos p/ TV e internet? Você tá c/ o webcast SÉRIES FECHAM junto c/ o Sifu e o Trekinho, e tb tá trampando de comentarista da ESPN...

JA - SÉRIES FECHAM foi mais uma brincadeira que deu certo porque despretensiosa e feita com paixão de verdade, sem sonho de ficar rico e famoso. Sifu bancou a parada e fez virar o que está virando, uma febre. Adoramos fazer o programa, mas se não pintar grana em breve vamos ter que tirar o pé do acelerador. Já fizemos mais de 20 programas e estamos começando a sair do chão. A ESPN me convidou uma vez para analisar o final do circuito, foi uma experiência nova, diferente. Fiz agora pela primeira vez uma transmissão ao vivo com uniforme e tudo no Super Surf de Xangri-Lá, gosto muito do Edinho [Leite, diretor de surf na ESPN], sempre me dei muito bem com ele e tenho enorme admiração pelo canal, principalmente pelo Trajano [José Trajano, diretor de jornalismo da ESPN] que me cativou numa entrevista formidável num dos primeiros números da Caros Amigos.

VLB - Pra onde vai o surf? Pro soul, pro shopping ou pro ralo?

JA - O soul hoje tá no shopping e o ralo é pra onde escorre toda água, a margem. Onde ficam os ratos e os marginais. Toda grande revolução começou nos subterrâneos. Nós somos de lá, né, Adolfo.

SÉRIES FECHAM ou
CURB YOUR ENTHUSIASM
CAMPEÃO CARIOCA PRO, 1990. FOTO: AGOBAR JR.
PELICANO POINT, 1993. FOTO: RICK WERNECK
RESERVA, RIO 1997. FOTO: FÁBIO MUNDUIM
MOSTRANDO AS QUILHAS NO PEPINO, 2008
¡ARRIBA, MARRECO!  REPÚBLICA DOMINICANA, 2000
 DANIEL ADLER, 4 ANOS, DÁ A LETRA:
"MEU PAI SURFA J-BAY MELHOR QUE O SEU"

11 comentários:

Luciano Burin disse...

sempre vale a pena ver o que o Julio tem a dizer! muito divertida a entrevista. parabens!

Rodrigo disse...

parabens pela entrevista...show de bola.

Anônimo disse...

Do caralho Julin!...

Abrazzoo,

MP

GusBomba disse...

Viva La Marreta del Pato no Brasa!
Show de bola a entrevista.
Só pra esclarecer: O nome Wet Works surgiu da junção do nome Wet Paper + Work Video (produtora de vídeo do Pepê) feita na Wetz! (studio de design do Bomba e Marcelus), Ricardo Martins que era nosso cliente na época convenceu a gente de juntar os nomes. Grande parte da indústria de surfe carioca passou por nosso escritório de design naquela época.
Abraços,
Da Bomb

Leonardo Menezes disse...

Sempre escrevendo perfeitamente bem!

J.A. ( o outro) disse...

Parabens Adolfo pelo Blog.
Parabens ao Julio pela vida.
abcos.

Flávio Guimarães disse...

Apenas a "vida" inteira do Julio Adler ...

S E N S A C I O N A L !!!

Miguel Dominguez disse...

adorei esta entrevista.
tenho a honra de ter ilustrado alguns textos do JA
para a SurfPortugal, mas nunca o conheci pessoalmente.
aqui, fiquei a conhece-lo melhor. já era fã...

Viva La Brasa disse...

massa, rapeize, classe mesmo! desculpas aos que comentaram e tiveram seus coments extraviados, culpa de um bug do blogger que perdeu tudo que foi feito de quarta a sexta-feira da semana passada...

Rafael Jr disse...

Excelente post sobre esse cabra que admiro bastante (filmes, textos, surf no pé), parabéns pela entrevista Adolfo! O video no fim trouxe nostalgia, lembro dessa matéria na Globo!

Anônimo disse...

Só consegui ler a entrevista hoje. Muito boa!