domingo, maio 01, 2011

MR
As fotos do Joey tirando onda no zine Punk me fizeram lembrar de outro magricelo desconjuntado que também chegou arrombando a porta nos anos 70. O australiano Mark Richards fez parte da geração Free Ride, que revolucionou o surf na transição das pranchas de uma quilha só p/ as biquilhas – menores e mais leves, apresentavam resposta mais rápida que as monoquilhas e possibilitaram a execução de manobras mais curtas e a entrada em tubos mais rápidos. Se o surf de mono era clássico como um solo de rock progressivo, as ‘twin fin’ estavam mais p/ os riffs dos Ramones.

Vivia-se o começo do surf profissional, e até 1975 uma vitória no Smirnoff World Pro-Am no Havaí era o equivalente a um título mundial. MR participou deste campeonato pela 1ª vez em 74, na sua 4ª temporada havaiana. O evento, que acontecia em Sunset, uma praia que normalmente suporta grandes ondulações, foi transferido p/ a baía de Waimea por causa de um swell fora de controle. Em ondas de 30 pés [10 metros], Richards chegou à final vindo desde as triagens. O local Reno Abellira venceu e ele ficou em 4º. Nada mal p/ um moleque de 17 anos.

Aquele dia foi decisivo para mim”, diria nosso herói anos depois. “Eu não tinha experiência nenhuma em Waimea e ninguém se desapontaria comigo se eu desistisse, mas senti que se fosse embora seria o fim das minhas esperanças no surf profissional. Eu voltaria a Newcastle e faria um curso qualquer. Eu entrei na água com a sobrevivência na mente, e a primeira onda que peguei era duas vezes maior do que qualquer outra que eu já tinha visto na vida!

EARLY YEARS [73 - 78]
Campeão nacional amador na categoria Cadet – a Junior da época – e vencedor do Pro/Am em Margareth River aos 16, Mark fez um trato c/ o pai p/ deixar a escola e ir atrás de uma incerta carreira num esporte que nem estava nas Olimpíadas [e não está até hoje]. O acordo: se em 1 ano não desse certo ele voltaria p/ casa e entraria numa universidade. Mas sabe como é, surfista não gosta de estudar. Após fazer a final em Waimea, Richards voltou p/ o Havaí no ano seguinte e venceu o Smirnoff Pro em Sunset.

Em 76 foi criada a IPS [International Professional Surfers] e c/ ela o circuito mundial. “Tinha 13 etapas, parecido com o WT de hoje em dia”, explica o blogueiro Júlio Adler, que faz a cobertura do World Tour p/ a revista Hardcore: “perna australiana, Japão, África, Flórida (?!) e Havaí, tudo contava e cada bateria passada valia ponto pro ranking.” C/ um título extraoficial na manga, MR desencanou. “No primeiro ano do circuito, 1976, Richards terminou com um honroso 3º, 77 em 5º e 78 em… 10º!

Ele também fazia pranchas, ofício que aprendeu c/ Dick Brewer e que priorizou como garantia de sustento nos seus primeiros anos como ‘pro’. “Eu via que os campeões mundiais não ganhavam dinheiro suficiente p/ garantir o futuro, então achei melhor pôr os shapes em 1º lugar”, diz a lenda. Desenvolvendo seus próprios designs a partir dos templates de Brewer e de um modelo de ‘fish’ do Abellira que trouxera do Havaí, Mark acabou ironicamente criando a prancha que levaria ele mesmo ao 1º lugar.

SHAPER CAMPEÃO
Até 1979 Mark Richards nunca havia seguido o circuito por inteiro. Competia em algumas etapas e passava o resto do ano ‘shapeando’ pranchas. Teria feito a mesma coisa naquela temporada, não houvesse vencido as duas primeiras etapas na Austrália e mais uma no Japão, p/ onde só foi porque tinha um patrocinador no país. Mesmo assim abdicou de competir na África do Sul p/ atender suas encomendas em casa. Quando chegou no Havaí p/ a decisiva e derradeira perna do tour, sua liderança no ranking já havia evaporado.

O havaiano Dane Kealoha [foto] era o destaque de 79, e os outros gênios da geração Free Ride – batizada a partir do filme de Bill Delaney gravado nos invernos havaianos de 74 e 75 e lançado em 77 – também estavam na disputa: Peter Townend, Shaun Tomson, Wayne ‘Rabbit’ [campeões mundiais em 76, 77 e 78 respectivamente] e Cheyne Horan [4x vicecampeão mundial]. Richards era o patinho feio da história, ou melhor, a Gaivota Ferida, apelido que ganhou por causa do peculiar estilo. Sobre isso falamos mais à frente.

Em seus anos embrionários, o World Tour era tão competitivo quanto nos dias atuais. Mas quem conta essa parte da história é o Júlio. Quem melhor do que o Marreco p/ falar do Gaivota?

O MAIOR COMPETIDOR DE TODOS OS TEMPOS
A lógica nunca prevaleceu em esporte algum. Quando chegou no Havaí para encerrar a temporada de 79, Mark Richards estava quase mil pontos atrás do primeiro colocado no ranking da I.P.S. (orgão pré-A.S.P.), Wayne Rabbit Bartholomew, atual campeão mundial de 1978 e favorito a repetir o feito.

Na cola do ‘Muhamad Bugs’ (como Rabbit gostava de se apresentar, em homenagem ao seu ídolo, Cassius Clay) estavam Cheyne Horan e Dane Kealoha. Cheyne era a grande estrela em ascensão da Austrália, um verdadeiro furacão que chegou varrendo adversários. Sua primeira grande vitória foi em 1978 no Rio de Janeiro com apenas 17 anos e ainda naquele ano terminou em segundo lugar, o princípio duma série sem precedentes de vices na história do surfe profissional (78/79/81/82) e só interrompida quando finalmente conseguiu quebrar a maldição no mundial de masters realizado na França em 1999.

Cheyne era um demônio da velocidade, foi campeão nacional de skate e surfe na categoria junior em 1976, dali foi direto para o recém-criado circuito mundial de surfe profissional e mais tarde convidado para participar da equipe Bronzed Aussies, pioneiro e revolucionário time de surfe criado pelo jornalista Mike Hurst, inspirado nas grandes equipes de tênis.

Dane Kealoha era o Sunny Garcia da época, ainda mais power e versátil, um surfista exuberante que parecia fadado a dar o primeiro título mundial para o berço do surfe. Durante o final da temporada de 1979 ninguém surfou mais do que o havaiano no North Shore. Dane tinha a legítima linhagem havaiana no seu surfe (Bertleman, Eddie, Ho, Hackman), mas com uma modernidade ainda não vista em praia alguma do mundo.

Suas batidas de backside desafiavam a física, tamanha verticalidade e violência. Dane venceu seu primeiro evento em 79, Gunston 500, interrompendo o reinado de 6 anos do sulafricano Shaun Tomson em casa, e em seguida repetiu em Nova Jérsei.

Rabbit também tinha duas vitórias no ano, Japão e Flórida.

Mark Richards começou o ano irresistível: demoliu Burleigh e Bells (exatamente como Slater em 2006) nas duas primeiras paradas da temporada. Conhecido pelo jeito inovador que encaixava sua biquilha manobra após manobra, MR antecipou o que conhecemos hoje como base e top, ou bottom e lip.

Curiosamente, Mark Richards optou por surfar exclusivamente de monoquilha durante o inverno havaiano de 1979 – uma estratégia no mínimo arriscada.

Risco era tudo então.

Richards precisava de um milagre, ou um par deles. Como bater Dane e Rabbit em Pipe? Especialmente Dane, uma temeridade no Backdoor.

Todos aguardavam o Pipe Masters ansiosamente, ranking nas mãos, fazendo contas e especulando resultados. Rabbit vinha de vitória e liderava com alguma folga, tinha autoridade em Pipe e precisava apenas de um resultado razoável, mais do que provável, num dos eventos restantes, Pipe e Sunset.

O mundo do surfe experimentava súbita exposição com o circuito mundial e a gigantesca rede americana de tv ABC levou uma equipe inteira de profissionais para fazer a cobertura de Pipe, anunciado como o campeonato mais espetacular de todos tempos. Várias câmeras registravam tudo na praia, comentaristas ao vivo em rede nacional, jornalistas atentos, um grande circo armado nas areias de Pipe.

Como a ondulação tardava a chegar e condições medíocres imperavam durante o período de espera (soa familiar?), Fred Hemmings começou a se deseperar quando soube que o prazo da ABC para fazer a cobertura era até o dia 11 de dezembro, uma terça-feira, e até domingo nada de ondas perfeitas.

E ainda tinha o Duke Kahanamoku Hawaiian Surf Classic, tradicional evento que não contava pontos pro ranking mundial mas valia uma fortuna em prestígio para uma carreira bem-sucedida.

A solução foi fazer os dois campeonatos no mesmo dia, numa segunda-feira.

Os competidores saíam da água em Sunset, apenas três baterias, já que o campeonato era exclusivo para convidados, entravam no carro e corriam para Pipeline, criando um trânsito sem precedentes na outrora pacata Kam Hwy.

Mark Richards venceu o Duke, com Shaun em segundo, Horan em terceiro e Rabbit em quarto.

De volta à Pipe, Dane liderava a final com Shaun e MR distantes da vitória.

Como? Shaun e Mark Richards fizeram final nos dois eventos? Quase na mesma hora ?

No mesmíssimo dia ?

Sim senhores, fizeram, Shaun em terceiro e Richards em quarto.

Nos últimos minutos, a zebra australiana Larry Blair encontra um tubo espetacular e vira a bateria em cima de Dane, que com esse resultado aproxima-se da liderança do Rabbit por míseros 9 pontos, seguido de perto por Horan e Richards.

TREINO É TREINO...
World Cup, última etapa.

Mike Tomson, primo do Shaun e top 16, chega na praia e não acredita no que vê: Rabbit treinando. Em nenhuma outra etapa Rabbit foi visto surfando antes de um campeonato, era parte da estratégia dele, deixar todos em dúvida sobre que prancha ele iria usar, como estaria surfando, etc... Tática aprendida com seu mestre, Michael Peterson.

Dane também estava na água e nenhum ser humano era capaz de imaginar que aquele camarada sairia da praia naquele dia sem o título.

Dane precisava passar uma bateria.

Umazinha.

Bartholomew estava na mesma situação. Cheyne, ligeiramente mais distante, carecia duma semi. A corrida era entre os três, todos presumiam. Afinal de contas, muitas contas, para Mark Richards só interessava a vitória.

O evento foi transferido para Haleiwa, que quebrava com 6’ a 8’, e toda comunidade havaiana foi olhar seu filho favorito sagrar-se campeão.

Rabbit foi o primeiro a cair. Aparentando nervosismo, perdeu sua prancha e deixou o texano Ken Bradshaw dominar a disputa. ‘É desconcertante pensar que o surfista passa o ano inteiro viajando pelo circuito, liderando o ranking, quando no instante derradeiro sua cordinha arrebenta e ele termina em terceiro ao invés de primeiro’, pondera Mike Tomson na Surfing.

Tudo agora conspirava para uma vitória de Kealoha.

Tudo, menos um porto-riquenho: Edwin Santos. Kealoha esperou as ondas com a tranquilidade dos grandes campeões, esperou, esperou e esperou… Enquanto isso, Santos, Edwin Santos, fazia seu papel de coadjuvante, surfando uma onda aqui, outra ali. E Dane esperando… Faltando cinco minutos para soar a corneta (era corneta?), Dane tinha surfado apenas uma onda.

Com Dane e Rabbit fora da jogada, a pendenga estava entre Cheyne e MR, a maior rivalidade da história do nosso esporte até Andy versus Kelly.

Quando Cheyne entrou n’água para enfrentar Bruce Raymond todos esperavam mais um desastre como dos candidatos ao título, Dane e Rabbit, mas Cheyne demoliu Raymond e tudo indicava que uma semifinal contra Peter Townend seria barbada.

O problema era que PT, exímio competidor, tinha outros planos.

Voltemos um pouco aos Bronzed Aussies. PT era o mestre e Cheyne seu pupilo.

Acabei com ele’, disse PT, ‘e em seguida, tudo que eu precisava fazer era ganhar do MR, mas perdi. Acho que o Cheyne nunca me perdoou por isso’. Curioso é que Horan teve problemas com os Bronzed Aussies poucos meses antes e se desligou da equipe, isso mudou o curso da história do surfe profissional. Fizesse parte da equipe, PT provavelmente deixaria Horan vencer e só Deus sabe que rumo o surfe tomaria.

Richards abateu Townend com facilidade e ganhou o primeiro dos seus quatro seguidos.

Seu domínio só foi quebrado por Slater.

GAIVOTA FERIDA
MR foi campeão do mundo em 1979, 80, 81 e 82, uma sequência de títulos somente superada pelos 10 de KS [Tom Curren e Andy Irons têm 3 cada; Tom Carroll, Damien Hardman e Mick Fanning, 2...]. Venceu 4X o Easter Classic, feito só equiparado por Slater em 2010 e que lhe valeu o apelido de Mr.Bells, em referência à praia onde acontece esse campeonato, cuja 50ª edição, na última páscoa, foi vencida por Joel Parkinson, que entrou na briga pelo título deste ano.

Também conhecido como ‘Wounded Seagull‘ por abrir os braços p/ ganhar projeção na onda e fechá-los p/ aumentar a impulsão, num movimento semelhante ao bater das asas de uma ave tão grande que mal consegue voar, seu estilo de surf incomum lhe valeu 4 títulos mundiais e uma curvatura inversa nas costas que acabou tirando-o prematuramente do Tour – aposentou-se aos 26 p/ tratar do problema na coluna [mais jovem que o Guga Kuerten e o Ronaldo Fenômeno].

Mark é alto e suas pernas são desproporcionais ao tronco. Em 82, ano de seu 4º título, estava c/ vértebras e joelhos tão seqüelados que só entrava n’água p/ disputar as baterias. Precisava mesmo de tratamento. Além disso, seus pais andavam em dificuldades financeiras e ele achou melhor estar por perto p/ ajudá-los na loja de carros usados da família. Mas na época competição era tudo, e a decisão de parar não pegou bem.

Richards perdeu o patrocínio de longa data da Lightning Bolt.

QUEM FOI REI...
A saída de cena de MR representou o fim de duas eras. A partir de 1983 o surf passou a ser gerido pela ASP [Association of Surfing Professionals], no lugar da extinta IPS pela qual obteve seus 4 títulos; e as pranchas de 3 quilhas – também chamadas de ‘trifins’ ou ‘thruster’ – substituíram as de duas. Apesar de sua aposentadoria do circuito, o tetracampeão mundial não deixou de competir completamente.

Mantendo-se fiel às biquilhas, participou como convidado das etapas australianas e havaianas da ASP até meados dos anos 80. Em 1985 venceu a nova geração em Sunset no Billabong Pro, e repetiu a dose em 86 num mar gigante fechando a baía de Waimea, em condições que lembravam a sua primeira final havaiana em 75.

Nem fisioterapia por anos a fio deu jeito nas dores intermitentes geradas pelas vértebras tortas que o tornaram um “surfista de fim de semana”, como ele mesmo se define hoje. “Reconheço que uma dieta ruim e falta de exercícios de alongamento ajudaram a antecipar o fim da minha carreira”, admite. Vamos dar um desconto ao homem, ele foi campeão numa era em que não havia personal trainers ou medicina ortomolecular.

...NUNCA PERDE A MAJESTADE
Sua logomarca, uma composição das iniciais de seu nome dentro de um escudo tipo Superman desenhado pelo artista Albert Dove na década de 70, valorizou-se c/ o passar do tempo e c/ o atual revival das pranchas fish, que ele ainda produz artesanalmente em sua loja, a Mark Richards Surf Shop em Hunter Street, mesmo endereço do antigo negócio dos pais.

MR tem 54 anos, é casado, tem 3 filhos e dirige um Porsche 911/935. Ainda vive em sua cidade natal e batiza um evento do circuito mundial: Mark Richards Newcastle Pro, etapa nível 4 estrelas do WQS vencida pelo brasileiro Adriano de Souza em 2008. “Esta vitória significa muito pra mim”, disse ‘Mineirinho’ no pódio em Merewether Beach, “porque o nome deste evento representa muito para o surf”.

Richards foi o primeiro campeão a mudar p/ designs multi-fin quando 99% dos competidores ainda teimavam em surfar nas sinfle-fins”, escreveu Bernie Baker na edição da Surfer que elegeu os 100 maiores surfistas de todos os tempos. Mark Richards foi eleito Top 5, à frente de outro Mark, o Occhilupo [campeão mundial 1999]. Quando Shaun Tomson e MR entraram no mesmo tubo naquela manhã em Off-The-Wall, aquele momento representou mais do que dois dos mais elétricos surfistas de todos os tempos dividindo uma onda, foi um ponto-chave na revolução das pranchas.

Pense na metamorfose do design que Kelly Slater trouxe com suas pranchinhas ultrafinas”, sugere Baker, “mas imagine isso como uma revolução sem precedente. Pense na introdução das thrusters por Simon Anderson, mas imagine Simon tornando-se o maior vencedor do esporte com elas. O desenvolvimento pessoal das pranchas de Mark Richards colocou-o numa trilha única de títulos mundiais e reconhecimento por seus contemporâneos como líder de uma geração.

Mark é patrocinado pela Quiksilver há mais de 25 anos – a marca tem uma linha especial de produtos c/ sua assinatura. Em 2000 recebeu a Australian Sports Medal pelos serviços prestados ao surf, e em 2001 venceu o Mundial de Masters na França, unificando títulos nas 3 eras do surf profissional: pré-circuito mundial, IPS e ASP. Esse recorde nem Slater pode bater.

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