quinta-feira, junho 23, 2011

PÉ VERMELHO
Barbudo, barrigudo e vestido como um caminhoneiro. É assim que Bob Wayne se apresenta p/ tocar country outlaw, a música caipira fora-da-lei que Johnny Cash fazia – e outros menos conhecidos como Hank Williams, Waylon Jennings, Wayne Hancock e Townes Van Zandt. “Para mim Van Zandt é um dos maiores compositores que já caminharam sobre a Terra, apesar de não ser um nome conhecido como Cash ou Willie Nelson”, diz o cantor americano que está no Brasil desde o início do mês e faz amanhã seu último show por aqui.

Será no Red Foot Stomp, festival que acontece em Londrina pelo 5º ano consecutivo c/ atrações como Nigel Lewis, criador do psychobilly na época dos Meteors. Nigel toca no sábado c/ sua nova banda, The Zorchmen, formada por outro ex-Meteor, Steve Medhan, e o guitarrista Doyley, ex-Klingonz. Bob faz nesta sexta sua apresentação em menos de 15 dias. Até chegar a Londrina, passou pelo Rio de Janeiro; Belo Horizonte e Ipatinga, em Minas; Santos e mais 3 cidades do interior paulista.

Pé vermelho é uma expressão do norte do Paraná”, explica um dos Red Foot Stompers, grupo de apoio de Wayne formado por músicos londrinenses. “Londrina é conhecida por ser a terra vermelha, então o pessoal só internacionalizou o apelido.” Os pés-vermelhos seriam a versão nacional dos red-necks dos EUA. Serão 10 bandas na programação oficial e mais 3 no ‘esquenta’ hoje, no mesmo Garagem Hermética onde acontece o festival, que além de country e psycho, também traz atrações de garage rock e surf music.

O estilo vintage está cada vez mais forte no interior do Sul e Sudeste. No último domingo a estância turística de Salto, no estado de São Paulo, comemorou os 313 anos de sua fundação c/ um grande evento de rockabilly, tatuagem & carros tunados. Bandas do gênero surgem em cada cidade: Gatos Feios, Billys BastardosFabulous Bandits... Tocar c/ músicos locais é um esquema que Bob Wayne sempre usa em suas turnês internacionais, como você verá na entrevista reproduzida aqui, conduzida por Karen Abney Korn, do webzine Unite.

Bob já teve banda de thrash metal, foi roadie de Hank Williams III e dos punks do Zeke, que o acompanharam no início de sua carreira solo. Ele também fez shows c/ a .357 String Band e lançou 4 álbuns nos últimos 3 anos – BLOOD TO DUST e 13 TRUCKIN’ SONGS em 2008, DRIVEN BY DEMONS em 2009 e OUTLAW CARNIE ano passado. O último disco batizou sua atual banda, The Outlaw Carnies que ficou nos States p/ economizar nas passagens.

Aos 34 anos, o autor de Fuck the Law, La Diabla e Everything’s Legal in Alabama é o nome mais promissor do outlaw e detesta o country que toca nas rádios. “Really sucks! Me faz passar mal sempre que eu ouço. Acho que me encaixo melhor na categoria punk, se você quer saber. Eu agendo minhas próprias tours! EU sou a minha loja de discos!

Unite Zine - Onde você nasceu?
BOB WAYNE - Eu nasci num Cadillac! Kadlec Hospital (risos)... Fica no oeste de Washington, uma cidade chamada Richland. Um lugar deserto. Vivi lá até os 16.

UZ - Você fugiu de casa?
BW - Roubei um carro e dirigi até a Califórnia.

UZ - Sério?
BW - Sério. Tudo bem, a essa altura o crime já prescreveu. Meus pais encontraram maconha no meu armário. Eles fumaram tudo, não me deixaram com nada, e tinha uns mexicanos na minha cola por causa da grana dessa coisa. Acabou que alguém esqueceu a chave na ignição de um carro estacionado e eu falei para a minha namorada na época: ‘Vamos nessa!’... Nós pulamos dentro e dirigimos até chegar na Califórnia. Eu tinha 16 e ela, 15.

UZ - Conheciam alguém por lá?
BW - Não! Nós queríamos começar nossas vidas lá e acabamos morando na praia em Santa Cruz. Um dia estávamos andando na rua e conhecemos uns moleques que vendiam ácido a $0.75 a dose, de onde a gente veio era $5.00, daí a gente pensou: ‘Este é o lugar!’... Eram os anos 90... Vivi nas ruas um tempo, onde fiz um monte de amigos. Uma noite fomos no show do Grateful Dead. Eu nunca tinha ido a um show, e a primeira coisa que fizemos foi nos chapar no estacionamento. Moramos naquela área até a polícia aparecer. Eu e minha namorada estávamos no carro, uma policial mulher tirou a gente de lá e quando descobriu que o carro era roubado, me algemou gritando ‘Freeze you son of a bitch!’. Minha namorada fugiu na outra direção mas pegaram ela num restaurante. Eles tinham cachorros e helicópteros. Como éramos menores de idade e réus primários, passamos pouco tempo presos. O pior de tudo é que meu primeiro violão estava naquele carro.

UZ - E o que aconteceu depois?
BW - Eu já estava há um ano e meio fora de casa, decidi voltar. Minha namorada já havia voltado e estava me odiando, então eu era procurado em dois estados, Califórnia e Washington. (risos)

UZ - Você procurou seus pais?
BW - Eu nunca fiquei com raiva deles por terem fumado a minha maconha, meus pais são boas pessoas. Quando eu expliquei o que ia acontecer comigo se eu não pagasse o que devia àqueles mexicanos, eles me deram a grana. Mas logo que paguei a dívida fui a uma festa, e a certa altura estava andando nos trilhos do trem com uns amigos, todo mundo bêbado... Aí dois policiais aparecem dando sinais de luz com suas lanternas. Eu achei que seria divertido dar um susto neles, fui para trás de uma moita e quando eles passaram eu saltei e gritei ‘PARADOS!’... Os tiras se cagaram de medo e reagiram me jogando no chão e me levando pra cadeia. A alegação da prisão foi o consumo de álcool.

UZ - Cumpriu pena dessa vez?
BW - Eu já tinha quase 18, mas legalmente ainda era de menor, e isso livrou a minha cara mais uma vez. A acusação foi deferida, eu continuei enchendo a cara e montei uma banda de metal. A gente sempre acabava expulso das festas em que tocava, até que fui preso de novo quando tinha 20 anos, depois de ser pego pela 6ª vez por embriaguez. Mas não tinha jeito, eu ia esperar até os 21 pra poder beber? Fui advertido pelo juiz, arrumei minha bagagem e me mudei para Seattle. Meus amigos estavam vivendo numa casa de 7 quartos, nossa rotina era festas, bebidas e drogas.

UZ - Vamos voltar à música, qual foi seu primeiro instrumento e com que idade começou a tocar?
BW - Foi um violão, aos 8 anos. Minha mãe é pianista e tocou em bandas toda a vida. Eu sempre quis tocar violão porque era o instrumento que eu mais gostava na banda dela. As primeiras músicas que aprendi foram ‘Tear in my Beer’ e ‘Hey Good Lookin (What You Got Cookin)’, do Hank Williams, porque eram parecidas. Mas parei nisso e só retomei com 15 anos, quando comecei a ouvir Slayer, Megadeth, Metallica e Pantera. Até de Guns’n’Roses eu gostava. Aos 19 ou 20 foi que comecei a fazer minhas coisas, minha própria música.

UZ - Sozinho ou com banda?
BW - Com uma banda chamada Stickman. Toquei com eles por 3 anos. Nós nunca fizemos muitos shows, não viajamos nem nada. Só tocávamos em Seattle. Lugares não muito bons. Uma vez nós tocamos num restaurante que ficava num parque e ninguém ali prestava atenção na gente.

UZ - Quando foi isso?
BW - Shit, final dos anos 90, mudei para Seattle em 97 ou 98. Talvez 2000. Pós-Nirvana e tudo aquilo. A chama do Grunge já tinha se consumido. Foi uma época divertida. Nós fomos fortes.

UZ - E qual foi o próximo passo?
BW - Nós fomos despejados da casa. Eu e minha ex-namorada estávamos voltando a ficar juntos, aquela mesma com quem eu fugi, ela se mudou para Seattle e nos mudamos para um apartamento. Foram 6 meses até ela começar a me trair com um dos meus amigos, mas nesse ponto eu já tinha um pequeno estúdio para ensaiar e me mudei pra lá. Aí comecei a me drogar pesado... Usei de tudo e desci a ladeira. Heroína, crack, tudo... Muito ruim. Fiquei nessa até os 25. No meu 25º aniversário eu me internei para tratamento.

UZ - O que aconteceu?
BW - Cheguei no fundo do poço. Eu morava no estúdio e vendi todo o equipamento pra comprar droga, até o lugar ficar vazio. Um dos membros da Stickman, Miles, morreu. Escrevi ‘Blood to Dust’ para ele...

UZ - Isso te assustou?
BW - Não. A espuma já tinha transbordado. Eu vivia num estúdio e não tinha nem um violão. Eu tava ouvindo muita música. Era tudo que eu tinha. Aí descolei o American Recordings que o Johnny Cash estava lançando. Comecei a ouvir aquilo no ‘repeat’ várias e várias vezes. Eu abri a lista telefônica, liguei pra primeira clínica que vi e disse: ‘Eu preciso de ajuda’... Eles me pegaram, e eu comemorei meu aniversário de 25 anos internado. A partir daí minha vida mudou, porque eu fiquei sóbrio e tenho me mantido sóbrio desde então.

UZ - Sem recaídas?
BW - No começo, no meu primeiro ano... Tive umas duas recaídas. Já faz 8 anos. Eu saía com umas garotas muito junkies, e não deu mais. Eu sabia que não dava pra ir na casa delas. Eu tinha que mudar de verdade. Aí acabei trabalhando na construção civil. Entrei pro sindicato, eles pagaram meu acompanhamento médico – porque eu continuei me tratando. Até que eu arrumei um violão novo. Foi a primeira coisa que comprei com meu salário. A segunda foi uma van, porque eu queria montar uma banda e pegar a estrada. É claro que montei uma banda de metal. Só que a essa altura eu só ouvia Johnny Cash. Foi aí que comecei a escrever as canções que vocês conhecem.  A primeira foi ‘Road Bound’, a segunda, ‘Devil’s Son’, e em seguida, ‘Ghost Town’, que diz: ‘The ghost of Johnny Cash saved my life’... Foi tipo subliminar.

UZ - Absolutamente.
BW - Eu continuava fazendo metal mas escrevia essas coisas sem perceber, tipo ‘What the hell is this strange shit?’... O que eu podia fazer? Reformei o Stickman.

UZ - Foi difícil continuar a tocar com as mesmas pessoas do tempo em que era doidão?
BW - Não, o baterista também encaretou. Miles morreu, arrumamos um novo baixista. Então, não foi difícil. Começamos a fazer nosso som, abrimos pro Nevermore e pro Zeke... Comecei a fazer camisetas pra vender e me tornei roadie do Zeke. Foi aí que eu comecei a botar o pé na estrada. Só de rolê com os caras. Eles sabiam das minhas canções country e viviam botando pilha para eu gravar. Um dia eu levei Mike Kesslering, tour manager do Zeke, para assistir um show do Hank III, o Johnny Cash dos nossos tempos. E Hank convidou Mike para organizar as tours dele também.

UZ - O cara que você levou...
BW - O tour manager do Zeke. Em seguida eu quebrei 5 costelas trabalhando numa obra e fiquei afastado do trabalho por 1 ano – tentei voltar antes disso mas as costas doíam.

UZ - Não tomava analgésicos?
BW - Eu tomava Diloted. Mas assim que eu pude mudei para uma medicação não-narcótica. Eu tentei voltar pro trabalho, mas não agüentava correr pra lá e pra cá com sacos de cimento nas costas. Acabei em casa, me perguntando: “O que vou fazer se não posso trabalhar na construção? Ninguém deu a mínima pra minha banda de metal, que merda!’... De repente o telefone toca e é Mike: ‘Cara, o técnico de guitarra caiu fora no meio da tour! Você é roadie do Zeke, toca metal e toca country, então pode fazer isso. É o trabalho perfeito pra você!’ E eu: ‘Wow! HELL YEAH!’ Peguei um avião na mesma noite e encontrei eles na Flórida.

UZ - E isso acarretou em quê?
BW - Hank III toca country, hillbilly, punk, rock no show... E grita por duas horas e meia. Meu trabalho era basicamente trocar as cordas, acertar o equipamento durante o dia no palco e me certificar de que o som estava ok. Dois meses antes eu achava que nunca iria tocar com músicos tão bons, e lá estava eu tocando o violão do Hank e trabalhando com a banda dele. Fiz isso por um tempo, é claro que fiquei amigo de todo mundo, e naturalmente fui mostrando minhas coisas durante as passagens de som. Só por diversão. Alguns começaram a perguntar ‘Que som é esse?’, e eu dizia, ‘É uma das minhas’... Não lembro bem como começou, acho que uma vez uma banda faltou e alguém disse: ‘Não quer abrir a noite?’...

UZ - Oh meu Deus...
BW - Foi assim que eu comecei. E foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, porque os fãs dele são muito leais e amam qualquer coisa com banjos, rabecas e letras sombrias... E minhas canções têm letras sombrias e ‘love songs suck’ e ‘fuck you’ e tal... Então, qualquer um nesse tipo de platéia diria ‘Hell yeah! Esse cara é legal... Abri alguns shows e continuei com meu trabalho de roadie, mas quando a gente voltava nos lugares as pessoas exigiam ‘Ghost Town’ e pediam meu autógrafo. ‘Wow, eles lembram’, eu pensei. Comecei a receber pedidos de shows pelo MySpace e os caras do Zeke me deram uma força como banda de apoio. Começamos a viajar nas folgas das tours de Hank III, partimos na van tocando a $50 dólares por noite e tentando vender alguns CDs e camisetas. De lá pra cá a coisa tem crescido aos poucos.

UZ - E a .357 String Band?
BW - Comecei a tocar acompanhado por eles para cortar custos na tour que fizemos na Europa, porque é muito caro comprar passagens de avião para muita gente, então eu sugeri à .357 tocarmos juntos. Antes de partirmos para a Europa fizemos uma tour de 6 meses pelos EUA.

UZ - Você faz esse tipo de colaboração no palco, e nos discos também.
BW - Yeah, exato... Colaboro com todos e é isso que eu gosto nesse negócio. Tipo: ‘Você toca banjo? Traga ele aqui!’

UZ - Onde é sua casa agora?
BW - Essa é difícil de responder. Eu comprei um motorhome há 5 anos. Antes eu tive um trailer, que eu acoplava na van. O motorhome é muito maior e melhor. É um John Deere de 36 pés. Atualmente está estacionado em Nashville, mas eu estou sempre viajando. Eu também tenho uma limusine Cadillac, estilo anos 80 toda preta. Gosto de pular nela e dirigir pela Costa Oeste.

CAUBÓI FORA-DA-LEI
LEMBRANÇA DA EX-NAMORADA NA LIMO PRETA
ALGUNS VÍCIOS SÃO DIFÍCEIS DE LARGAR
VIVA RÁPIDO, MORRA JOVEM...
MAS DEIXE UMA VIÚVA BONITA

clip: ROAD BOUND [BLOOD TO DUST, 2008]
entrevista: KAREN ABNEY KORN / tradução: VIVA LA BRASA 

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