quarta-feira, junho 01, 2011

QUEBRANDO O TABU
Ei, polícia, maconha é uma delícia!”... Caminhando e cantando, uma pequena multidão percorreu a orla da praia de Atalaia no início da noite de domingo entoando refrões como “U-hu, Aracaju, todo mundo fuma um!”, “Pula, sai do chão, quem é contra a repressão!” e Legaliza o back, Dilma Rousseff!”...

Foi a 1ª Marcha da Maconha em Aracaju, que reuniu centenas de pessoas. “Não somos apenas os quatrocentos que saíram de casa e caminharam alguns metros para afrontar a caretice de uma cidade provinciana”, escreveu o jornalista Rian Santos em seu blog Spleen & Charutos. “Nos prédios mais altos de Aracaju residem maconheiros. Nas melhores escolas da cidade estudam maconheiros. Na fila do pão, na academia, entre os amigos de sua filha, pode estar um maconheiro. Você quer mesmo que esse povo todo – um pessoal educado, que lhe dá bom dia ao entrar no elevador e cede a vaga no supermercado para os idosos serem atendidos primeiro – vá em cana por causa de um pedaço de mato?

Os bons conheiros saíram da pista de skate Cara-de-Sapo e seguiram até a Passarela do Caranguejo, pico de concentração de barzinhos muito freqüentado por famílias. A polícia fez a escolta, mas de boa, sem stress. “Polícia é pra ladrão, pra maconheiro não!”... Não é o que pensa a Justiça do Estado de São Paulo, que reprimiu à força a manifestação na Avenida Paulista no sábado 21, c/ tropa de choque e gás lacrimogênio. “Foi muito triste”, diz outro jornalista, Pedro Nogueira, organizador do evento em SP. Havia 1000 pessoas em frente ao vão livre do MASP quando o tumulto aconteceu. “Várias vezes tentei argumentar e dialogar com a polícia, mas eles só responderam com violência. Mas também foi bonito, porque mesmo com eles jogando bombas, a Marcha não parou.

Uma nova manifestação foi marcada p/ o último sábado no mesmo local, sob o nome Marcha da Liberdade – que só foi liberada c/ a garantia de que não se faria menção à maconha. Às 16h, 700 pessoas andaram juntas da Paulista até a Praça da República, chegando a ocupar 3 das 4 faixas na altura da Rua da Consolação. Na noite do domingo, o Fantástico da Rede Globo exibiu matéria sobre o tema c/ o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 79 anos e defensor do debate. “Numa sociedade democrática você não pode impedir as pessoas de se manifestarem”, disse o ex-presidente. Uma enquete on-line realizada durante o programa apontou a preferência pela descriminalização por 57% dos telespectadores que participaram da votação.

FHC, cujas iniciais são quase homônimas à sigla do princípio ativo da cannabis, estrela o documentário QUEBRANDO O TABU, que estréia nos cinemas do Brasil sexta-feira. Um questionamento sobre a política de combate às drogas criada pelos EUA no início do século XX e exportada em cadeia global. No longa-metragem dirigido por Fernando Grostein Andrade são entrevistados os ex-presidentes dos EUA Jimmy Carter e Bill Clinton, da Colômbia, César Gavíria, e da Suíça, Ruth Dreifuss, além do ator mexicano Gael Garcia Bernal, o médico Dráuzio Varella e o escritor Paulo Coelho, entre outras celebridades. “Só obtivemos patrocinadores para o projeto quando apresentamos trechos das entrevistas, mostrando que havia gente séria na discussão”, diz o diretor.

Atualmente na Comissão Global de Política sobre Drogas, Cardoso aparece no filme sendo questionado numa coletiva de imprensa sobre a política repressiva e a criminalização do usuário nos seus 8 anos de mandato na Presidência. “Na época eu não tinha informação, mas só quem é burro não muda de opinião”, assumiu num mea culpa. “Há limitações como presidente e existe o jogo da sociedade com o governo. Se ela não se convence, o governo não conversa. Não posso dizer que, se fosse presidente hoje, faria e aconteceria, afinal não poderia prever minha relação com o Congresso e se valeria a pena politicamente.

Poderíamos seguir o exemplo dos nossos primos portugueses, cujo Parlamento aprovou há mais de 10 anos a “descriminalização do uso de drogas ilegais como a maconha e a heroína e o tratamento de viciados como pessoas doentes que precisam de ajuda médica – palavras do então premiê Antonio Guterres. Outros 5 países também já assumiram uma postura mais liberal em relação a essa questão: República Tcheca, Itália, Espanha, México e Argentina. Seguindo o caminho inverso, o governo da Holanda quer acabar c/ o “turismo da maconha” no país pioneiro em políticas de tolerância. O uso e comércio da erva movimenta oficialmente US$ 5 bilhões por ano, e 26% da população dá uns pegas.

A partir de agora, os 670 coffee shops deverão se transformar em clubes fechados p/ holandeses, c/ número de sócios limitado a 1000 ou 1500 cabeças. A ofensiva anticanábica do ministro da Justiça Ivo Opstelte é subsidiada pela comissão de Saúde da União Européia, que pretende proibir o fumo em locais públicos em todo o continente nos próximos anos. “Café sem cafeína, cerveja sem álcool, carne sem gordura... Agora começaram a adotar a pelada de futebol sem palavrão. A regra é clara: o mundo tá ficando muito chato”, escreveu Xico Sá, o carapuceiro da Folha de S.Paulo.

Por aqui, existe um projeto do deputado Paulo Ferreira do PT p/ a reforma da Lei Antidrogas, em discussão no Congresso desde 2009. Enquanto isso, a Câmara aprova de madrugada um novo Código Florestal que transfere p/ os estados a responsabilidade sobre a legislação ambiental e anistia produtores rurais e empresários de ecoturismo que ocupam áreas de reserva desmatada ou ribeirinhas, exigindo que apenas 20% da vegetação já queimada ou erodida seja recomposta. O texto é do deputado Aldo Rebelo do PCdoB, e sua aprovação representou a primeira derrota política da presidente Dilma – contra o relatório – e um abalo nas relações entre PT e PMDB – que apoiou Rebelo.

Na Amazônia, os números do desmatamento estão ligados diretamente aos da violência. Entre os municípios que mais destroem a floresta, 22 também estão entre os 100 onde mais se mata no país. “Onde há desmatamento descontrolado, o poder do Estado foi cooptado”, constata Júlio Waiselfisz, pesquisador da OEI [Organização dos Estados Ibero-Americanos para Educação, Ciência e Cultura] que chegou a essa estatística cruzando os dados do Mapa da Violência c/ os do projeto Prodes [Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélite]. Nos últimos 10 anos, mais de 400 ambientalistas foram mortos nos estados do Pará, Maranhão, Acre, Roraima e Rondônia – 4 deles nos últimos 8 dias.

O assassinato de José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo na zona rural de Nova Ipixuna [PA], na terça 24, foi bastante noticiado. O casal foi executado numa emboscada. “Eles foram mortos a tiros na estrada que dá acesso ao assentamento onde residiam”, falou o delegado encarregado do caso. A irmã de Zé Cláudio diz que eles já haviam prestado queixa na delegacia de Marabá. “Nós somos envolvidos com o movimento social. Muitos fazendeiros e madeireiros queriam que meu irmão e a mulher não atrapalhassem mais. Zé e Maria denunciavam desmatamento, grilagem de terra e sempre foram ameaçados.

Trabalhador não pode fumar uma planta, mas latifundiário mata, desmata e deputado  assina embaixo. A lógica vigente é essa, mas dá p/ cheirar a mudança no ar. O cineasta Martin Scorsese considera a proibição da maconha “uma das grandes mancadas dos Estados Unidos”. No Brasil já existem 10 coletivos pró-legalização.  Em Curitiba, apesar de proibida, a Marcha da Maconha aconteceu sem problemas. Idem em Porto Alegre. Em Recife, 1500 marcharam na paz, liberados pela Lei. “A única motivação da Marcha em Aracaju foi provocar uma discussão franca a respeito das políticas públicas sobre drogas”, diz Rian.

Viver num mundo sem drogas é utópico, isso nunca existiu, mas podemos trabalhar para reduzir os danos”, sugere Fernando Henrique, o presidente THC.

CAMINHANDO, CANTANDO [E APANHANDO DA POLÍCIA]
 VÃO LIVRE DO MASP, ANTES DA GUERRA
 TROPA DE CHOQUE CHEGANDO P/ ABALAR
UMA CENA QUE LEMBRA AS DE 1964
 8 FORAM PRESOS, ATÉ O CUEQUINHA AÍ
 KARINA BUHR NA MARCHA DA LIBERDADE
A 1ª MARCHA DA MACONHA EM ARACAJU

FOTOS: IGOR ANDRADE, LUCKAS SILVA, LUIS H.BLANCO, RICARDO MATSUKAWA

2 comentários:

Espedito disse...

Viva La Brasa! "Fazendo a sua cabeça"!!!...

A wild Garden disse...

Se liberarem agora, já vão estar fazendo isso com uns 100 anos de atraso.