segunda-feira, junho 27, 2011

VATO LOCO
Bobby Martinez está puto. Aos 30 anos, o único surfista de ascendência mexicana no circuito mundial está prestes a perder a vaga na elite, apesar de ser o nº 14 na corrida ao título.

Nascido no subúrbio latino da cidade de Santa Barbara, na Califórnia, Bobby foi o amador mais vitorioso dos EUA, vencendo o circuito nacional escolar por 7 vezes – recorde ainda não superado. Virou profissional no ano 2000, mas penou 5 anos no Qualifying Series até conseguir a classificação p/ o World Tour c/ vitórias nas ondas geladas de Santa Cruz e nos tubos de Fernando de Noronha. Chegando lá, desencantou.

Estreou na 1ª divisão vencendo as provas de Teahupoo, no Tahiti, e em Mundaka, na Espanha. Terminou como Top 5, sua melhor classificação até hoje e a melhor estréia da história, roubando o prêmio de Rookie of the Year das mãos do Mineirinho*, que também estreava aos 19 anos – Martinez já estava c/ 25. Em 2007 voltaria a vencer em Mundaka, e em 2009, Teahupoo, mantendo-se entre os Top 10. Venceu todas as finais que disputou no WT.

Tube rider, dono de um repertório que alia força e modernidade, jogando muita água nas manobras e mandando aéreos p/ os dois lados, Bobby às vezes lembra Kelly Slater de base trocada – a cabeça raspada contribui, mas o surf no pé também.  Os dois usam a mesma marca de prancha, Channel Islands, do shaper Al Merrick. No Brasil, Martinez derrotou Slater e chegou às quartas-de-final. O 5º lugar no Billabong Rio Pro foi seu melhor resultado em 2011.

Mesmo voltando a figurar entre os 16 primeiros, ele aparece lá embaixo no ranking unificado, em 44º lugar, distante da zona de corte dos 32 p/ o 2º semestre. “Um ranking unificado é estúpido, porra!”, tuitou semana passada. “Como posso estar atrás de gente com quem eu nem competi? Fucking stupid!” Desde o ano passado os campeonatos do QS também contam pontos p/ o WT, e quem quiser se manter no topo tem que correr uma quantidade mínima de eventos nos dois circuitos.

Quanto mais eu penso neste novo sistema de pontos mais me dá vontade de socar o infeliz que teve essa idéia miserável”, desabafou @Bobby805 numa série de tweets que podem pôr sua cabeça a prêmio. “Eu já posso ver o advogado da ASP me mandando um e-mail dizendo que vai me processar. Quer saber? Fodam-se!” Os havaianos Fred Patacchia e Dusty Payne postaram mensagens de apoio. “Eu concordo, algo tem que mudar”, disse @FreddyP808, que perdeu sua vaga em 2010. “I’m with ya”, digitou Dusty_P.

Surfista mais tatuado do Tour ao lado do brasileiro Raoni Monteiro [28º no ranking unificado], Bobby poderia atuar num daqueles seriados de TV tipo OZ ou Prison Break. Sua história deverá ser filmada em breve por um estúdio de Hollywood. Mas seu negócio é surf. Ironicamente, há cada vez menos espaço no circuito da ASP p/ os bad boys as regras premiam quem joga de acordo c/ elas. E entre tantos loirinhos bem-comportados, o chicano segue sendo uma voz dissonante.

Em 2009 peitou o australiano Damien Hardman, diretor de prova em Portugal, que queria cancelar as disputas num dia de tubos pesados. “Nós não estamos mais no seu tempo”, mandou na cara do ex-campeão mundial, notório maroleiro. Ao ser perguntado pelo repórter da revista Huck sobre comentários racistas que o bicampeão Mick Fanning teria feito, respondeu: “Ninguém disse nada na minha frente. Eu sei que tem gente que gosta de falar pelas costas, mas ninguém tem coragem de vir até mim fazer piada sobre minha origem ou o fato de eu não ser branco.

C/ vocês, a íntegra da entrevista de Bobby Martinez, o ‘vato loco’ que combate o sistema por dentro. A questão é: até quando?
HUCK - Como é o surf em Santa Barbara?
BOBBY MARTINEZ - Dá boas ondas mas às vezes passam 6 meses sem dar nada, o mar fica parecendo um lago. Todos os picos estão crowdeados. Eu tento surfar onde ninguém está. Gosto de surfar sozinho e fazer meu próprio caminho. Não curto essa coisa de ser ‘local’. É legal estar pronto para surfar sozinho ou com um amigo. Traz mais paz.

H - Você se sente confortável em competições? Fica nervoso ou apenas encara o que vem?
BM - Um pouco dos dois. Eu tento encarar o que vier. Fico muito nervoso quando a bateria começa, mas essa sensação sempre passa rapidamente.

H - Você observa os outros competidores para saber como superá-los ou só se preocupa com seu próprio surf nas baterias?
BM - Você tem que fazer a sua parada, sacou? Eu não caio no jogo de ninguém. Acho que basicamente você tem que surfar contra os juízes porque são eles que dão as notas. Depende de você conseguir o que precisa para passar a bateria. Mais que nas ondas, é no julgamento que você tem que prestar atenção.

H - Você também pratica boxe. Como começou?
BM - Desde moleque que eu gosto e um monte de gente que eu conheço começou a praticar. No México, boxe é grande. Tipo o esporte nacional. Não é um esporte para qualquer um, observo isso quando treino ou faço sparring para meus amigos. Eu admiro qualquer um que lute, porque é mais duro do que a maioria pensa.

H - Você acha que o boxe te ajuda a surfar melhor?
BM - Acho que me ajuda mentalmente. Eu já fiz vários outros treinamentos e nada é tão difícil quanto boxe. Se meu corpo estiver em forma pro boxe, então estarei em forma para fazer qualquer outra coisa, inclusive surfar. As pessoas não têm noção do preparo físico de um boxeador.

H - Você já surfou no mundo todo. Qual seu pico preferido?
BM - Eu amo a Indonésia. Para um surfista, não creio que possam existir ondas mais perfeitas. É provavelmente o lugar mais incrível que já conheci.

H - Você acha que o turismo do surf beneficia os países pobres ou, ao contrário, ajuda a degradar o meio ambiente?
BM - Eu não sei. Nunca vivi nos países que visitei nem vi os efeitos do que fizemos depois que partimos. O turismo gera dinheiro para a economia local. Presentes simples como camisetas e pranchas representam muito para pessoas que não têm quase nada. São pequenos gestos que fazem a diferença. Mas acho que os surfistas que vão aos países pobres não ajudam muito.

H - Você gostaria de ver mais surfistas de origem mexicana no Tour?
BM - Claro! Eu sei que há grandes surfistas no México. O surf pode ter seus estereótipos mas existe um monte de surfistas bons no mundo todo.

H - A indústria do surf poderia fazer mais para atrair surfistas de diferentes nacionalidades?
BM - Talvez não. Surf é um esporte estranho. Não tem apelo para as massas. Ou você vive perto da praia, curte surf e o oceano, ou você simplesmente não vai dar a mínima. Eu tenho dezenas de amigos que não estão nem aí pro surf. Não importa o que seja feito, o esporte não tem muito para onde crescer.

H - Parece que há um interesse de Hollywood na sua história...
BM - Eu vendi minha história para uns produtores de Hollywood. Eles queriam saber tudo sobre minha juventude, me pagaram por isso e agora detém os direitos sobre minha história. Eu não sei em que pé está o filme, não estou acompanhando. Tenho outras coisas com que me preocupar.

LOS GRANDES ÉXITOS EN ESPAÑOL
 BOBBY VENCEU 2X EM TEAHUPOO, NO TAHITI...
 ...E 2X EM MUNDAKA, NO PAÍS BASCO, ESPANHA
 FERNANDO DE NORONHA, ONDE VENCEU EM 2005
 VOANDO P/ DERROTAR SLATER NO BRASIL, 2011
 CORRENDO ATRÁS DO PREJUÍZO EM TRESTLES
 O CHICANO SEM MEIAS PALAVRAS NO TWITTER

fotos: Cestari, Childs, Fagan, Kirstin, Lomba, Rowland, Smorigo, Tostee
entrevista: Ed Andrews [Huck Magazine] / tradução: Viva La Brasa
*Líder do ranking principal, Mineiro é apenas o 7º no unificado

3 comentários:

Morrendo lentamente disse...

Bom post. Cada figura...o cara é mais desconfiado que sei lá o que...

Henrique disse...

Me amarro no Bobby e sua atitude contra sistema.

Mas, sem querer ser preconceituoso, quando ele fala, o jeito que ele se move me parece comum dos cheiradores de pó.

Viva La Brasa disse...

vai ver é por isso que ele é tão desconfiado...