segunda-feira, julho 04, 2011

DADAÍSMO PARTE 2
A palavra punk pareceu ser o fio que conectava tudo que a gente gostava – bebedeira, antipatia, esperteza sem pretensão, absurdo, diversão, ironia e coisas com um apelo mais sombrio.Legs McNeil no livro Mate-Me Por Favor, 1996. Nos anos 70, Legs criou um zine p/ retratar a cena de Nova York e batizou ele de PUNK. 

Teve um show punk que apareceram uns caras metendo a porrada na galera que tava na roda. Aí neguinho ficou puto e juntou os caras, que tiveram que ser escoltados pra saírem do show. Como eu era o mais famoso, eles me marcaram e resolveram me pegar.Dadá Figueiredo na revista Surfar, 2011. Nos anos 80, ele foi a ovelha negra na colorida cena new wave do surf profissional brasileiro.  

De personalidade forte e surf explosivo, surgiu decretando “morte aos parasitas” e executando manobras que os juízes dos campeonatos nem sabiam que existiam.  Sempre que eu mandava um layback, eles ficavam esperando pra ver se eu ia voltar para poder soltar as notas. Eu fazia um bagulho que dava nó na cabeça dos caras (risos).” Dadá fazia as próprias pranchas, desenhava as roupas que vestia e tocava em banda de rock.  

Foi campeão carioca, top do Brasil e um dos surfistas mais bem pagos no início dos anos 90. Mas também foi preso, esfaqueado e viciado em pó. Um cara de extremos que viu a morte de perto e viveu várias vidas numa só. Personagem carismático que arrastava multidões p/ assisti-lo nas baterias, passou os últimos anos banido da mídia e desprezado pelas marcas, quase um Wilson Simonal do surf. Situação que sempre me incomodou.

Resolvi fazer algo a respeito e em abril de 2010 postei DADAÍSMO - O PUNK ROCK NÃO MORREU: “Dadá Figueiredo nasceu pronto e se reinventou tantas vezes que é impossível não lembrar dele ao ver a nova geração de aerialistas tatuados”, etc. A matéria teve alguma repercussão e chegou a concorrer a um prêmio. Não levou, mas acho que consegui o que queria: resgatar a história de um herói da minha adolescência.

Em novembro, Dadá foi entrevistado no webcast Séries Fecham ao lado do seu ex-técnico Marcelo Andrade [atual diretor da Abrasp]. Em maio deste ano foi eleito o 7º melhor surfista brasileiro de todos os tempos pela revista Hardcore, e em junho estampou 12 páginas da edição de aniversário da Surfarque enviou meu camarada Roger Ferreira p/ a missão. Cumprida c/ honras, diga-se de passagem.

O cara é meu ídolo desde moleque, por seu surf, atitudes e identificação através de nossa origem da zona norte carioca e o gosto pelo punk rock, mas chegar ao ponto dele abrir o jogo sobre sua vida não foi tão fácil quanto possa parecer”, diz Roger, que usou uma camiseta estratégica p/ quebrar o gelo logo de cara. “Isso aí é Misfits, né?”, perguntou Dadá ao ver a clássica caveira. “Sei qual é. Os caras fazem um som assim meio horror-punk. Já ouvi muito.

Aos 47 anos, Dávio Correia de Figueiredo é evangélico, casado e tem 3 filhos: Alissa de 11 anos, Samara de 12 e Dávio de 14, que começa a competir e, ao lado do pai, venceu um campeonato de duplas patrocinado pela Nike 6.0 no Rio, em janeiro. Como prêmio, ganharam uma viagem p/ a América Central, onde Dadá gravou imagens p/ um vídeo que deverá ser lançado em breve. “Tem dois caras lá de São Paulo fazendo um documentário meu. Eles foram pra El Salvador comigo e o Dávio. Filmaram direto lá.

Venceu outra competição há 2 meses, The Roots Surfing Festival na categoria Legends. Mais do que um campeonato, uma celebração do estilo de vida praiano, c/ pranchas tipo fish [biquilhas, quadriquilhas] disponibilizadas p/ os participantes entrarem num clima vintage. “Ter participado deste evento já foi o maior barato. Esse é o melhor mar que já surfei na Joatinga. Tô ainda mais amarradão por ter vencido.” A vitória ainda lhe rendeu um novo patrocínio, da Vans.

Redescobriram Dadá. Pra isso bastou procurar onde ele sempre esteve: nas areias da Barra, sede da sua escola de surf, e em Itanhangá, onde mora e mantém sua fábrica de pranchas. Em uma reportagem completa, Roger consegue extrair relatos hilários – como a dura que seus amigos levaram da polícia do Havaí enquanto ele destruía gringos e passava baterias no mundial – e desvendar episódios dramáticos como a prisão em Florianópolis, os acidentes de carro, as 12 facadas em 1990...

Fui levado pro hospital jorrando muito sangue, brother... Era pra eu ter morrido ali. Tava deitado na maca e escutei uma enfermeira falando: ‘O que esse cara tá fazendo aqui? Ele vai morrer!’.” Vale a pena ler na íntegra, mas já que a edição sai de cartaz este mês, disponibilizo aqui alguns trechos da entrevista. “Ídolos nunca morrem”, escreve Roger. “Mesmo que mudem seus hábitos, reneguem seu passado ou percam a vida, suas atitudes permanecerão sempre vivas.
Os NOR+ foi o primeiro grupo de rock do Dadá, baixista e vocalista. “A gente era meio embarreirado. Éramos muito punks pra galera do surf e playboys pros punks... Neguinho não compreendia a gente. (risos) Sempre que íamos tocar rolava uma parada errada.” Ele, que ouvia Cólera, Olho Seco, Social Distortion e Napalm Death, hoje curte Praiser, Public Unrest, Rise Above Ministries e reformulou sua banda, que agora se chama Aliança Incorruptível. “Hoje estou ouvindo só hardcore cristão. Mas naquela época eu escutava muita coisa diferente: metal, punk rock e hardcore pauleira mesmo. 
Neguinho era tudo mauricinho, mas não viajavam sem um baseado, cheios de flagrantes... Quebravam os hotéis, faziam um monte de merdas e eu é que era o maluco! (risos)” Apesar dos dreadlocks, Dadá nunca foi rasta – os cabelos eram duros de água salgada, nem maconha ele fumava. “Eu detestava essa parada de bagulho, brother, nunca fumei... Fui do álcool direto pra cocaína... Até 92 eu tava surfando direto, daí em diante fui parando... Larguei o circuito quando ainda era top 16 em 94. Fiquei no fundo do poço, passei uns três anos pancado mesmo. Aí vi que não tava dando mais e eu mesmo me internei em 97.
C/ a esposa Renata e os filhos Samara, Alissa e Dadazinho, iniciante em competições. “Eu falo pro meu filho: ‘Tu tá muito amigo do moleque, brother. Não é querer o mal dele, mas não fica muito de conversa’. Teve um campeonato Master em Ubatuba que fui cair com o Jair de Oliveira, que também é surfista de Cristo. Antes do início da bateria ele veio falar: ‘Pô Dadá, nós vamos cair juntos, vamos passar eu e você! Vamos orar juntos aqui... Senhor em nome de Jesus...’ Aí na primeira onda que fui remar, o cara veio em cima de mim botando o bico pra impedir minha passagem e me marcou o tempo todo assim. Não me aliviou em nenhuma! Ele passou em primeiro e eu me arrasei! Fiquei muito amigo dele. Mas dali em diante, antes da bateria, ele ora de um lado e eu do outro... (risos)” 
Em 1981 eu já dava dois 360 na mesma onda e ninguém fazia isso. A galera não gostava das manobras que eu fazia. Diziam que era truque, que o surf tinha que ser na onda...” Em 88 eu vi Dadá perder sua bateria no Fico Surf Festival mesmo mandando a melhor manobra da competição, um 360 de backside numa fechadeira em Sella Maris [BA]. “O que valia era a quantidade de manobras que o cara fazia na onda”, recorda: “Eu pegava umas buraqueiras no inside e mandava na junção. Aquilo não contava tanto e perdi muitas baterias naquela. Teve um cara que me falou uma vez: ‘Tu tem que usar pranchas maiores, pois não tá saindo o bico nas tuas manobras’. Porra, não tem que sair bico nenhum, o que tem que sair é a rabeta! (risos) 
Dadá é shaper e domina todo o processo da produção de pranchas, da colagem da longarina no bloco até a laminação e lixa final. “A única parada que eu não faço é pintar. Só quando o cliente quer uma pintura mais punk, daquelas que a gente gosta. (risos) Aí pego o pincel e mando ver...” Ele sempre levou às últimas conseqüências o lema ‘faça você mesmo’. “Eu era o único que tinha que pegar ônibus pra competir. Até então só tinha ‘menino do Rio’ da zona sul, que vinha de carrinho ou com motorista. Eu saía da Tijuca, pegava minha prancha lá no 3.100 (condomínio na Barra), pra depois treinar por ali ou pegava outro busão pra ir competir no Arpoador. Abri caminho pra uma galera mais underground...

VIVO E SE MEXENDO
ADIVINHA QUEM RIU POR ÚLTIMO
 NO AUGE DA CARREIRA, EM 1991
DADÁ & DADAZINHO CAMPEÕES
 JOATINGA, 2ª VITÓRIA EM 2011
 ÍDOLOS NUNCA MORREM, VIVA DADÁ





SEM CENSURA por Roger Ferreira [revista Surfar nº 19]
ilustração: Felipe Gonzallez http://www.flickr.com/photos/fellipegonzalez/
fotos: Josh Brown, Gustavo Cabelo, Agobar Junior, Thiago Garcia + Trip, Nike, & Surfar 

3 comentários:

Espedito disse...

Dadá figueiredo é uma lenda viva!

Viva La Brasa disse...

DADÁ É O CARA.

rafa disse...

Li a primeira vez sobre ele na Revista Trip, achei do caralho, rsrs.