sábado, julho 30, 2011

SE EU PARAR, EU CAIO  
O pessimista deve inventar para si mesmo, a cada dia, outras razões para existir: é uma vítima do sentido da vida.” O romeno Emil Cioran foi o filósofo da inconveniência da existência, grande frasista e polemista, autor do clássico Breviário da Decomposição, publicado em 1949 na França, país que adotou pelo resto da vida. “Seria a existência o nosso exílio e o vazio a nossa pátria?

Cioran escrevia sobre “a alienação, o absurdo, a futilidade, a decadência, a tirania da história, a vulgaridade das mudanças, a consciência como agonia, a razão como doença”, como definiu o escritor William H. Glass. Dizia que, quando descobrisse uma verdade que chocasse todo o gênero humano, “a diria à queima-roupa”. Apesar de todo o pessimismo, teve uma vida longa – morreu em 1995 aos 84 anos. Em abril comemorou-se os 100 anos do seu nascimento.

Amy morreu aos 27. Igual a Kurt Cobain, Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Robert Johnson. Seria a idade que o Diabo cobra a conta? “Quem não morre aos 27, aos 33 (Lester Bangs, John Belushi, Bon Scott, Jesus Cristo) ou aos 42 (Alan Freed, Peter Tosh, Elvis Presley), viverá para sempre”, faz as contas o jornalista André Barcinski, da Folha de S.Paulo. “Amy Winehouse morreu. De verdade. Fato. Acabou o reality show macabro de sua vida. Nenhum fã vai poder aplaudir de novo quando ela chegar ao palco bêbada, ou quando esfregar as costas da mão no nariz, como se tivesse acabado de dar um teco.

BACK TO BLACK é um dos discos que mais gosto da década passada, deixei isso claro numa série de posts durante a turnê no Brasil em janeiro: KIKA uma Cantora com W Maiúsculo, AI CARAMBA e 3º MUNDO FESTIVO. Contrariando o senso comum, a família Winehouse acredita que ela não morreu por abuso de drogas, e sim de abstinência de álcool. “Amy não foi uma vítima”, diz Barcinski, “era maior de idade e sabia muito bem o que estava fazendo. Era uma pessoa doente e que precisava de tratamento. Infelizmente, muita gente dependia dela. Celebridades não têm tempo para se tratar, porque não podem simplesmente desaparecer.

Ela foi o oposto do meu amigo Cleomar Brandi, mais um da vida boêmia. Cleo passou 50 dos seus 65 anos lutando contra diabetes e câncer, foi internado e mutilado, mas sempre que saía dos hospitais podia ser encontrado pela manhã na TV, à tarde no jornal e à noite em algum inferninho de Aracaju, na maioria das vezes no Bar do Camilo, onde rolou a saideira paga por ele após seu enterro, dia 18. “Tive uma vida comum, apenas foi mais difícil”, sempre frisava. Maior jornalista gonzo que eu conheci pessoalmente, há 2 anos lançou seu único livro, OS SEGREDOS DA LOBA, reunião de crônicas sobre mulheres.

Alguns dizem que pareço o Vinícius de Morais”, zoava. “Sou da geração do Movimento, do Pasquim, do Opinião. O estilo do Fausto Wolff, do Henfil, tinha uma riqueza vocabular que me deixava encantado, mas eu não vejo muito esse encanto nas novas gerações. O jornal custa só 2 reais. Mas no domingo o repórter passa pela banca, vê que sua matéria foi manchete e espera chegar a segunda-feira pra ver como ela ficou paginada ou se a abertura foi mudada. Eu não me conformo com o jornalista desinteressado, que não é curioso. Essa falta de inquietação me irrita. Somos pagos para ser curiosos, perguntar e escrever.

Quando eu saio para os bares, costumo chegar em casa cheio de guardanapos com informações e pautas. Sugestões que me dão na rua.” Apesar dos problemas, tinha sempre uma piada pronta. Quando precisou amputar as pernas, deu uma festa em que distribuiu suas meias usadas. “Agora não vou ter mais chulé e nenhuma mulher vai pegar no meu pé!” Grande Cleomar! Ele e Amy foram duas das baixas mais sentidas em julho, mês implacável que ainda levou embora Würzel e Lucian Freud – p/ não falar dos 91 mortos no atentado terrorista na Noruega, ou das milhares de vítimas na guerra civil da Líbia ou nas ruas do Brasil...

Würzel era meu amigo e meu irmão”, falou Lemmy Kilmister sobre o ex-guitarrista do Motörhead, que morreu em casa, de ataque cardíaco, enquanto bebia uma cerveja Guiness. “Pelo menos ele foi sorrindo”, continuou Lemmy. “É um clichê dizer que palavras não podem descrever o que sentimos. Nesse caso, algumas como ‘merda’, ‘horrível’ e ‘muito muito triste’ realmente não podem... Ele nunca mais irá rir comigo novamente, ou me envergonhar... Isso realmente é um saco. Compartilhamos muitos momentos bons, o que ele fez pelo Motörhead é indescritível.Wurtz Godspeed entrou na banda em 1984 e gravou 10 discos até 95, entre eles o clássico ORGASMATRON. Tinha 61 e tocava na Leader of Down. Lançou 2 álbuns solo, BESS e CHILL OUT OR DIE.

Lucian Freud era filho da psicanálise, neto de Sigmund. Nascido em Berlim e radicado em Londres, foi um dos maiores pintores figurativos do nosso tempo. Autobiográfico, gostava de cenas cotidianas e pinceladas fortes p/ compor carne & pele. Em 2008, uma de suas obras, Benefits Supervisor Sleeping, alcançou US$ 33 milhões num leilão, preço recorde p/ um artista vivo. Realizou retratos desconcertantes p/ a rainha Elizabeth II e a modelo Kate Moss. Ambas posaram p/ ele – a Kate nua, grávida e crua; a rainha da Inglaterra como “uma senhora idosa vítima de um derrame”, segundo a crítica [o tablóide The Sun sugeriu que vossa majestade pendurasse a obra no banheiro]. Freud teve esposas, amantes, 13 filhos e morreu aos 88 anos.

A ironia liberta da receita”, ensinava Cleomar Brandi. Em 2009, gravei um programa de TV c/ a participação dele, da jornalista Joana Côrtes e de Adelvan Kenobi como DJ convidado. Roteirizei, produzi, dirigi e editei esta edição do PERIFERIA, viabilizada c/ a ajuda dos amigos Matias Maxx, que me enviou os vídeos da Batalha do Real e do Autoramas no Japão, e Álvaro Müller e Joana, que cederam a série AI-5 40 Anos Depois. Os 3 blocos estão aí, mas se quiser ir direto na entrevista do lobo velho, clica no vídeo 2: “A música tem asas, a palavra também tem asas.

Além de serem forças criativas, todos esses que citei – Amy, Würzel, Freud, Créu – curtiram ao máximo o tempo que tiveram e deram às suas vidas o sentido que quiseram. Cioran gostava dessa história: “Na prisão, Sócrates aprendia uma canção na flauta enquanto preparavam a cicuta. ‘Pra que te servirás’, perguntou o carcereiro. ‘Para sabê-la antes de morrer!’... Essa resposta me parece a única justificação séria da vontade de conhecer, que se dá até mesmo às portas da morte ou em outro momento qualquer.

"SE LIGA!" C.B. NA CHAMADA DO PERIFERIA, JAN.2009





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