segunda-feira, julho 18, 2011

A ÚLTIMA SAIDEIRA 
Um dia, uma noite, algum boêmio sempre pede a saideira e os garçons nunca gostam dessa história. Mas, o certo, é que sempre chega a hora da última saideira. Dessa vez, chegou minha hora, meu último gole.

Eu, pessoalmente, não diria que estou indo contrariado. A hora e a vez de Matraga. Afinal de contas, soube beber com sede de aprendiz o melhor que havia na taça que a vida me ofertou. Uma taça lavrada, rescendendo a conhaque.

Nadei nas águas mornas de Arembepe, conheci Raulzito quando ele ainda se juntava aos seus Panteras, com Thildo Gama e outros, vi Caetano, Moraes Moreira, Pepeu no encontro de trios, enquanto o poeta apontava com a mão para a Baía de Todos os Santos. Arpoei caramuru, tirei polvo da toca, garanti as moquecas da minha adolescência, fui recordista de natação, ungido por Oxalá.

Fui bom de porrada, fiz meu nome nas turmas de rua do Largo dos Aflitos, joguei futebol e, nos babas, ganhei o apelido de ‘Leonam’, onde sou conhecido assim até hoje. Fui batizado nos puteiros da Ladeira da Montanha, conheci Mestre Pastinha e Mestre Bimba, vi meu ‘Bahêêêa’ ganhar para o escrete do Santos e Waldemar Santana encher Hélio Gracie de porrada.

Conheci os mistérios dos becos e ladeiras da velha Salvador, fui amigo de Cid Teixeira, Capinan, Guido Guerra e Luis Orlando, encarei dois anos de internamento no Hospital das Clínicas, tive febres diárias, colecionei escaras coloridas, vibrantes e sangrentas, decepcionei laudos médicos, busquei o tempo que eu queria da minha vida.

Um dia, uma brisa morna me carregou para o colo da bela Aracaju, onde eu soube ser feliz, no tempo que me restava. Aqui, bebi os melhores conhaques da minha vida, amanheci nas libações madrugadoras com o irmão-amigo José Eduardo Sousa, soube ouvir o violão de Pantera, a melodia de Paulo Lobo, o blues de Soyan, as conversas de Mariano e Bel nas andanças do Imbuaça. Aqui, plantei amigos, colhi irmãos, como o grande parceiro Gilson Sousa. Aqui, ouvi a melodia do Cataluzes, comi o melhor pirão de caranguejo do Pastelão, me fartei dos mistérios culinários da cozinha de Camilo.

Nessa terra, amei mulheres que reverencio até hoje. Fiz poemas para algumas, embriaguei-me com outras. Como esquecer do sorriso de Arlinda, que ganhou o mundo e acabou na Sorbonne? Como esquecer do sorriso sacana de Ana Paula? E os finais de tarde no Mosqueiro? E o chiado da tainha na frigideira do Bar de Nem? E a amizade da turma do Jornal da Cidade e da Aperipê TV.

Como esquecer da lealdade dos meus irmãos a vida inteira? E de Christina Brandi, cunhada que se tornou irmã? E da cumplicidade do irmão Chico Neto, que trilhou a vida inteira os bons caminhos do jornalismo, ético e honesto?

Um dia, o velho barril de carvalho pinga sua última gota de conhaque. E o poeta se despede de tudo, sem tristezas nem vexames. Apenas sabendo que cumpriu seu papel com dignidade, com honestidade e com um brilho de criança nos olhos.

Quem sabe, eu encontre o amarelo dos girassóis nesse novo caminho?

PS: Os amigos estão convidados para a última saideira no Bar do Camilo, assim que terminar o sepultamento. Já está pago.

Cleomar Brandi Ipiaú/BA, 18/01/1946* - Aracaju/SE, 17/07/2011+

JORNALISMO, MULHERES & CONHAQUE
 REDAÇÃO DA AP.TV: "AO ACORDAR, PAUTAR A VERDADE. AO DORMIR, EDITÁ-LA"
SEMPRE CERCADO PELAS GATAS: "UM CAMPEÃO NATO", DIZ O AMIGO WERDEN
VELÓRIO C/ SAMBA, CERVEJA & DOMECQ

SAIBA QUEM FOI O VELHO LOBO, MEU GRANDE MESTRE GONZO:
C.B.C.B.'S - CONFRARIA DE BAR CLEOMAR BRANDI http://vivalabrasa.blogspot.com/2008/09/c.html

5 comentários:

Branca Gil disse...

Comovente,amor... o texto é lindo e eu sei quanto era sincera sua amizade por Cleomar. Te amo! Gil

werden disse...

Grande La Brasa nosso querido Cleomar já vinha deixando saudade desde que parou de ir pra AP e ficar lá na recepção ensinando coisas pras nossas vidas...tenho certeza que esteja onde estiver ele agora está tomando um bom conhaque e rindo da nossa cara de ressaca. Obrigado pela citação da minha constatada de Campeão que esse moço era. Eu olho pra qualquer foto dele e o que eu vejo é um cara com alma bem mais nova que a minha. Viva Cleomar! =)

A wild Garden disse...

Nada como ter um amigo verdadeiro!

tazbugado disse...

Grande Adolf :D Muito boa homenagem ao amigo e mestre Cleomar, fiquei muito feliz por vc ter resgatado o vídeo que eu tive orgulho de editar com o texto fantástico de Cleomar.
Sei que lá no Céu ele esta pautando com muito bom humor as coisas que acontecem na nossa vida.
Abraços.

Anderson Ribeiro disse...

Pois é Brasa, nem sei mais o que dizer de tanto que já digitei nas redes sociais sobre ele. Só sei que agora sinto apenas saudades, não mais vazio e desespero. Já ultrapassei a barreira do choro e da perda, agora só me resta o riso e as piadas. Um abraço!