quinta-feira, agosto 18, 2011

FAXINA 
Dilma Rousseff assumiu a Presidência do Brasil em janeiro. Em apenas 8 meses de governo, 4 dos seus ministros já caíram: Antonio Palocci, da Casa Civil, preferiu declinar a explicar seu enriquecimento; Alfredo Nascimento, dos Transportes, acusado de desvio de dinheiro; Nelson Jobim, da Defesa, pediu p/ sair porque falou demais. Ontem à noite foi a vez de Wagner Rossi, da Agricultura, se demitir depois de voar em jatinho de agroempresários.

E podem cair mais. A bola da vez é Pedro Novais, do Turismo, aquele deputado que pediu verba indenizatória à União em 2010 apresentando nota fiscal de um motel no valor de $2 mil reais. O TCU bloqueou bens de 28 envolvidos no roubo de R$ 6.700.000 do Ministério. “Eu rio quando leio em algum jornal que vou pedir demissão”, disse o velhusco na Câmara. “Só existem 3 maneiras de eu sair – se a presidente Dilma quiser que eu saia, se eu deixar de ter apoio do meu partido ou se eu adoecer.

Dilma está afastando a banda podre que herdou do governo Lula. Um embate ético de alta tensão, que mídia e classe política comparam a algo corriqueiro como a limpeza de um lar. “52% aprovam faxina de Dilma nos transportes”, mostra a manchete do Correio do Brasil. “Cristovam Buarque defende faxina de Dilma”, noticia O Globo. “PT avalia que Dilma exagera na faxina”, diz o IG. “Dilma resiste à pressão da base e avisa que faxina segue se houver denúncias”, publica o Estadão. A presidente tratada como diarista.

Xico Sá, da Folha, foi o 1º a notar o machismo da metáfora. “Qualquer ato da mulher leva o verbo faxinar logo de cara”, escreveu em sua coluna. “É elogiada por deixar as coisas limpinhas, como no Ministério dos Transportes; é criticada por fazer um serviço porco em outros cômodos do organograma do poder. Dificilmente há um texto ou matéria de rádio e TV que não ponha a Dilma em uma tarefa doméstica. Governar, que já foi ‘abrir estradas’ com o presidente Washington Luís nos anos 1920, não pode se resumir a diárias clandestinas sem carteira assinada.

Faxina foi o que aconteceu na Inglaterra. Armados de pás e vassouras, moradores de Camden, Croydon, Ealing e outros subúrbios londrinos foram às ruas, organizados através do Twitter. Não foi o caso de mais um confronto c/ a lei, mas uma espanada no rastro de destruição dos conflitos da semana passada. “Eu moro numa das áreas onde teve confusão”, conta minha amiga Patricia Seibel, direto de Hackney. “Moro a duas quadras da rua principal, onde teve quebra-quebra. Nem pude voltar pra casa no dia.

Também rolaram mutirões de limpeza em Birmingham e Liverpool. “Quando eu cheguei no dia seguinte, por volta das 11h da manhã, tinha quatro lojas quebradas na rua principal”, diz a gaúcha que eu conheci em Maceió. “Fora isso, nada de muito anormal. Não se via um único policial por lá e já estava tudo limpo. Vi uns 4 ou 5 moradores da área com vassouras nas mãos e uns funcionários da prefeitura recolhendo as latas de lixo, usadas como armas durante a confusão. Lá pelo final da tarde é que chegaram vários policiais para evitar que rolasse treta de novo.

Patricia faz parte dos 60.000 brasileiros que vivem em Londres – 2 deles estão presos por envolvimento na baderna. Anderson Fernandes, de 22 anos, e Leandro Santos, de 21, são acusados de saque a uma joalheria e receptação de produtos roubados, sem direito a fiança. 65% dos detidos tiveram pedido de fiança negado. O Reino Unido entrou numa cruzada contra os rebeldes, c/ direito a ações de despejo em moradias populares e toque de recolher p/ menores de 16. Os amotinados terão que restaurar zonas destruídas vestindo macacão laranja. “Quero que suas vítimas os vejam”, mandou o vice-premiê Nick Clegg.

Um inglês de 20 anos pode pegar 4 anos de cadeia por “encorajar ou dar assistência em uma ação ofensiva”. Seu crime: organizar uma batalha de pistolas d’água pelo Facebook. Segundo o jornal The Guardian, guerra de água é uma brincadeira comum na Inglaterra, febre no verão de 2008. O julgamento será em setembro, na corte de Colchester. “Temos que enviar uma mensagem dura, espero que os tribunais imponham sentenças duras”, falou o primeiro-ministro. Nem todos os britânicos concordam c/ essa linha-dura. P/ o social-democrata Tom Brake, do partido de oposição, “a Justiça não pode ser revanchista”.

Um estudante foi condenado a 7 meses de prisão por causa de um engradado de água mineral. Uma jovem, mãe de 2 filhos, vai pegar 5 meses por aceitar do namorado uma calça roubada. “É compreensível que os distúrbios sejam considerados um fato agravante pelos magistrados, mas algumas sentenças não estão levando em conta a gravidade real do delito e acabam fazendo troça do princípio da proporcionalidade”, diz Andrew Neilson, da Liga pela Reforma Penal. Governo inglês e mídia mundial fazem coro p/ reprovar a depredação, mas esquecem de dizer que tudo começou como um protesto contra a violência da polícia.

Desde ontem, manifestantes enfrentam as forças policiais da Espanha num protesto contra a visita do papa Bento 16 a Madri. “Dos meus impostos, nenhum centavo vai para o papa”, dizia uma grande faixa contra os 50 milhões investidos na Jornada Mundial da Juventude, organizada pela Igreja Católica. Quase 40% da juventude espanhola está desempregada, reflexo da crise financeira na Europa. Até na Índia, ex-colônia britânica, estão rolando passeatas anti-stablishment. O movimento foi deflagrado por motivos que conhecemos bem: corrupção nos altos círculos do poder. Greve de fome lá, e no Chile também.

Por aqui, os escândalos se sucedem e a opinião pública assiste anestesiada. Quando a presidente tenta se impor, é chamada de governanta. Talvez porque o Brasil seja a Casa da Mãe Joana. Nesse caso, o que Dilma está fazendo não é uma faxina. É uma dedetização.

PROTESTE JÁ
PRÉDIO DE 1930 QUEIMA EM TOTTENHAM...
 ...PREJUÍZOS NA ORDEM DE € 170 MILHÕES
HACKNEY, BAIRRO ONDE PATRICIA MORA
 PLAZA MAYOR, MADRI, ONTEM À TARDE
O QUE RESTOU DO DEPÓSITO DA SONY
A REVISTA NOIZE PRODUZIU UMA MIXTAPE C/ WHITE STRIPES E
OUTRAS BANDAS DAS GRAVADORAS XL, DOMINO E WARP, CUJO
ACERVO TB FOI DESTRUÍDO NOS INCÊNDIOS. CLIQUE NO LINK:
http://noize.virgula.uol.com.br/2011/08/12/mixtape-7/

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Texto preciso e cabuloso, obrigado por publicá-lo.