quinta-feira, agosto 04, 2011

FRIEDMANN 
O circuito mundial de surf foi criado em 1976, reunindo campeonatos que já existiam, como o Pipeline Masters no Havaí, o Bells Classic na Austrália e o Gunston 500 na África do Sul, a outros criados exclusivamente p/ ele, como o Waimea 5000 no Brasil. O evento tinha esse nome por causa da loja que o patrocinava e do valor total da premiação: US$ 5.000.

Passados 35 anos, o World Tour está consolidado e os surfistas profissionais ganham cada vez melhor. P/ dar uma noção, apenas o mundial de masters, realizado no Rio de Janeiro semana passada, distribui US$ 220 mil. Em clima de confraternização, lendas vivas como o tricampeão Tom Curren [foto], o touro indomável Occy, o inventor das triquilhas Simon Anderson, e campeões dos anos 70 do naipe de Wayne Rabbit e Shaun Tomson voltaram a vestir a lycra de competição. Não à toa, o local escolhido foi o Arpoador, mesma praia que sediou os mundiais nos anos 70 e início dos 80.

A primeira edição do Waimea 5000 foi vencida pelo carioca Pepê Lopes, derrotando o americano Jeff Crawford na final. Pepê foi um fenômeno esportivo – campeão de hipismo na adolescência, primeiro brasileiro a vencer no circuito internacional de surf, único brazuca a chegar na final do Pipe Masters [até hoje] e campeão mundial de vôo livre em 1981. Morreu prematuramente aos 34 anos, ao cair c/ sua asa delta numa competição no Japão. Nos anos 70, foi o melhor surfista do extinto píer de Ipanema.

Seu maior rival era Daniel Friedmann, local do Arpex que também arrepiava no píer. Se o surf de Pepê tinha a leveza do hipismo e do vôo livre, o de Friedmann trazia a força do judô e do atletismo. A rivalidade dos dois começou em 72, quando Daniel venceu no quintal de casa do amigo, o píer, e culminou na segunda edição do Waimea 5000 em 77, c/ a vitória de Friedmann sobre Lopes na primeira final verde-amarela do circuito mundial [disputada no Quebra-Mar].

Pepê pode ter sido o mais talentoso, mas Daniel foi de longe o mais competitivo. Campeão júnior em Ubatuba e open em Santos no ano de 73, 5º colocado na etapa do mundial e vencedor do Festival de Saquarema em 76, culminando c/ o título do Waimea e o Top 30 no circuito em 77. Nesse mesmo ano levou o campeonato da Magno no Arpoador. Era tão popular que chegou a ser patrocinado pela Brahma.

Em 79 venceu o nacional de Floripa e tornou-se o primeiro brasileiro a triunfar no exterior, sagrando-se campeão no Uruguai e repetindo o feito no ano seguinte, quando também foi campeão carioca e em Stradbroke Island, sua terceira vitória fora do país e a primeira de estrangeiro na Austrália. Em 81 ganhou o nacional de Setiba Pina, no Espírito Santo, e em 82 aposentou-se após o vice em Saquarema.

Sempre fabricou as próprias pranchas, e passou a dedicar-se à profissão de shaper, atuando em seguida como empresário e organizador de eventos. Este ano foi diretor de prova no Billabong Rio Pro e participou como convidado do SuperSurf WT no Arpex, competindo na categoria grandmasters, p/ surfistas acima dos 50. Ficou em 13º e recebeu US$ 4.000 pela participação – quase a premiação total do mundial que ele venceu em 77.

Estamos sendo reconhecidos pelo que a gente fez”, diz o cinqüentão Friedmann. “Mostrar o que podemos fazer é muito bom. A alegria de estar todo mundo surfando junto vai ser a melhor memória.” Conheça um pouco mais deste mestre das ondas na entrevista concedida ao gaúcho Carlos Vargas. Os bons tempos voltaram.

Carlos Vargas - Você começou a surfar em 1968 com uma prancha de madeira. Como era essa prancha e como era o cenário do surf brasileiro naquela época?
Daniel Friedman - Comecei a pegar onda com madeirite e quilha feita também de madeira. Ela não flutuava quando estávamos em cima dela, sendo assim, era necessário esperar até a última hora para aproveitar o embalo da onda e poder surfar. O surf estava começando e as primeiras pranchas de fibra estavam aparecendo, mas por serem importadas e caras, poucos tinham. O posto 5 em Copacabana era A ONDA. Quebrava desde 2 até 8-10 pés. O Arpoador também, dava onda todos os dias em condições perfeitas. Nessa época eu ainda morava em Copa, próximo ao 5, mais tarde me mudei pro Arpoador, isso em 69, quando surfava com uma prancha emprestada que um amigo guardava em minha casa. Era difícil e pesado carregar uma prancha naquela época, elas pesavam uns 30 quilos e quando o vento entrava forte eram 2, às vezes 3 para poder segurá-la.

CV - Por que, depois de praticar judô e atletismo, você resolveu fazer surf?
DF - Sempre gostei de esportes e a praia era uma questão sagrada, primeiro para aproveitar o clima e soltar pipa, jogar uma pelada e mergulhar na água salgada. Depois arranjei um pé-de-pato e uma prancha de isopor e surfava deitado, mas rapidamente isso não me satisfazia mais. Aí arranjei uma planonda de 1,20m de comprimento sem quilha, que em pouco tempo começou a ficar pequena. A solução foi colar duas planondas e a partir desse momento estava definido o meu futuro no surf. Ganhei minha primeira prancha de surf de madeira em meu aniversário, desde então minha paixão só cresceu.

CV - Que idade você tinha quando entrou no mar com essa prancha de isopor?
DF - Acredito que uns 6 ou 7 anos.

CV - Como pintou a idéia de fabricar pranchas? Quais eram as dificuldades da época para se achar bons materiais para criar os shapes?
DF - Naquela época eram poucos os fabricantes, e ter uma prancha nova ou da forma que você desejava levava 2 meses, quando não, mais. Comecei concertando para ganhar minha independência. Eu gostava muito da idéia de fazer a minha prancha, e isso começou quando transformei duas planondas originais em uma. Além disso, me sentia em condições de fabricar uma prancha de fibra, até porque minha experiência com resina facilitava. Fazer uma prancha na época era uma aventura... Os blocos tinham espessuras que iam muito além da necessidade e as ferramentas para shapear eram difíceis. O suforme era ralador de queijo e a fixadeira tinha rotação de 10000 sem regulagem.

CV - Paralelamente à carreira de shaper você também competia. Como eram os campeonatos na década de 70?
DF - Os campeonatos nos anos 70 tinham uma estrutura muito simples e pouco suporte ao atleta, porém havia mais corações envolvidos no evento. Na maioria das vezes você estava lá porque gostava e não por quanto estaria ganhando. A participação do público era mais ativa pela novidade que era estar deslizando sobre as ondas. Para ver tinha que estar presente. Os resultados só saíam depois de uma série de revisões e muita expectativa. Todos os eventos eram verdadeiros acontecimentos. Não ganhávamos muito, mas nos divertimos bastante.

CV - Você foi o primeiro brasileiro a vencer provas no exterior. Naquela época, como os gringos encaravam um adversário brasileiro?
DF - Achavam que levariam fácil, pois tínhamos pouca experiência, mas logo começaram a ver que não era bem assim e começamos a impor respeito.

CV - Você também foi o primeiro estrangeiro a vencer um campeonato na Austrália. Qual foi a repercussão?
DF - Foi em Stradbroke Island, uma ilha localizada ao norte da Gold Coast onde quebram altas ondas. Foram convidados os campeões amadores e profissionais de vários países. O evento começou clássico em uma onda de direita chamada Cilinders, até que o mar ficou over e acabou transferido para uma esquerda do outro lado da ilha. A repercussão no exterior foi sensacional, pois além de ser um brasileiro, era o primeiro estrangeiro a ganhar um evento na Austrália, quebrando um mito. Algumas semanas mais tarde estava no Stubbies e era cumprimentado pelo feito por todos os estrangeiros que participaram da competição.

CV - Depois de encerrar a sua carreira de competidor, para onde foi o seu foco?
DF - Parei em 1982, quando passei a competir em eventos especiais ou internacionais, dedicando mais tempo ao trabalho. Montei minha marca de roupas e complementei com uma linha de acessórios para atender o mercado. As marcas que produzi foram Hot Tracks, ExtraSurf, Brazil Nuts e ProSurf, a mais divulgada e expressiva.

CV - Hoje você trabalha como organizador de eventos de surf. Como se deu essa atividade em sua vida? Foi planejado ou foi por acaso?
DF - Começou ainda quando competia. Um promotor de evento que trabalhava para a Globo me procurou e disse que gostaria que eu trabalhasse com ele produzindo eventos de surf. O nome dele era Ivan Lopes, tinha a maior produtora de eventos da época.

CV - O que o surfista e empresário Daniel Friedmann faz hoje e quais são os projetos para o futuro?
DF - Hoje divido meu tempo entre o trabalho com as pranchas e os eventos. Ainda tenho outro negócio, que é uma distribuidora de sorvetes, além de estar abrindo um restaurante. E, claro, não deixo de lado as viagens de surf.

DANIEL 5000
 
FAZENDO HISTÓRIA NO QUEBRA-MAR, 1977
FORÇA E ESTILO NO PÍER DE IPANEMA
CLASSE MANTIDA ATÉ OS DIAS DE HOJE


ILUSTRAÇÃO: MARITMO surfartculture.com/maritmo
FOTOS: Fedoca, Daniel Smorigo, Fábio Minduim, arquivo pessoal

Um comentário:

Surf e BodyBoard disse...

Adorei a reportagem... Voltei aos velhos tempos... sou desta época...que saudades... eu surfo até hoje, tenho 57 anos, minha prancha é um Sun Marino 6.3... Parabéns...