domingo, setembro 11, 2011

9LI
Antropomorfismo. Deuses e animais em forma de gente. Expressão artística e narrativa que acompanha o homem desde sempre. Foi a base das mitologias, dos quadrinhos e dos desenhos animados. E é cada vez mais presente nas artes plásticas. Se você achou demais as árvores e pássaros mesclados a figuras humanas nos quadros de Fernando Chamarelli, precisa conhecer Bruno 9li. Um monstro.

Cearense criado no Rio Grande do Sul e radicado em São Paulo, começou a fazer seu nome nas ruas de Porto Alegre, primeiro como pixador, depois grafiteiro integrante do coletivo Upgrade do Macaco. “Gosto de pintar na rua, mas depois de ter duas vezes uma arma apontada na minha cabeça pela polícia, optei por pintar mais calmamente em muros grandes”, disse à revista Trip em 2007. “O último mural que fiz está em SP, na frente do Rojo@artspace em Pinheiros.

A arte de 9li guarda muitas semelhanças c/ a do Chamarelli. Ambas são orgânicas, geométricas, detalhadíssimas & surreais. Mas há diferenças marcantes também: Novelli é mais selvagem, menos simétrico – e chegou antes. Desde sua 1ª exposição, DA BIG DANG em 2003, até a mais recente, ATRA em maio deste ano, já são 11 individuais em 3 continentes; o livro AGORA ETERNO, publicado p/ uma de suas expos na Espanha; além da capa de um vinil do dubstepper Jamie Vexd.

Medusas, deusas rubras, xamãs zebrados, samurais babuínos. Cenários ancestrais, florestas, mares, vulcões. Conheci seu trabalho em 2008, quando foi capa da revista Zupi nº 10. “Uso muitas texturas e preenchimento”, dizia ele na matéria de 12 páginas. “Há três anos, tomei um chá do Santo Daime, pela primeira vez. Ele lhe dá a possibilidade de criar imagens e visões na mente, e me ajudou a colocar a consciência em um nível superior e a melhorar meus desenhos.

Em uma dessas visões imaginei-me vestindo uma roupa que era quase uma armadura e isso remete àquilo que Jung chama de arquétipo. A evolução espiritual é uma busca constante durante minha passagem nesse planeta e isso está refletido nos meus trabalhos através da representação simbólica dos amuletos que cada entidade carrega consigo – está ali, é só ver, cada personagem dentro de uma espécie de máscara, de armadura.

As influências de arte africana, indiana e japonesa são evidentes, mas há muito mais aí. “Princípios herméticos, ocultismo, mutação, espaçonaves, 4ª dimensão, fogo, o que é natural, sobrenatural, caos, mitologia, renascimento, expansão da consciência, antenas, satélites, arte maia, arte egípcia, art nouveau, arte e arquitetura gótica, animais, plantas exóticas, simetria e assimetria, sons de pássaros e imagens alquímicas.

Prefiro sempre criar séries de desenhos, assim posso desenvolver um imaginário mais denso e consistente a cada produção”, diz o lisérgico. “É como num livro ou filme, existem personagens, capítulos que compõem uma idéia maior. Assim, cada desenho representa uma situação fantástica que desenvolvo na minha mente.” Sua imaginação fértil remete à de um mestre da pintura, Hieronymus Bosch.

9li confirma, e cita também Robert Fludd, Albrey Beardsley, Rammellzee, Famese de Andrade, H.P. Blavatsky, Krishnamurti, Nietzsche e Irineu Raimundo Serra. Da sua geração, ele menciona Talita Hoffman, Wagner Pinto, Geraldo Tavares, Emerson Pingarilho e Carla Bath. A seguir, entrevista inédita no Brasil traduzida do LAVA Collective, site da galeria londrina que expôs suas telas ano passado em Londres, depois de Barcelona, Copenhague e Milão.

Bruno 9li tem 31 anos e gosta de resumir sua obra c/ uma frase do pensador anarquista Hakim Bey: “O caos nunca morreu”.

LAVA- Você planeja suas composições cuidadosamente antes de começar, ou elas se desenvolvem organicamente conforme você vai criando?
9LI- Sim, os desenhos vêm igual a nossos pensamentos, organicamente. Mas existe uma estrutura antes, a fundação da idéia visual, então eu faço um rascunho antes de começar um graffiti ou uma tela. As pessoas dizem que meu trabalho é caótico, talvez elas pensem que é feito de modo caótico também... mas é o oposto, eu vejo minhas criações como sistemas equilibrados, estou sempre procurando pelo equilíbrio em sistemas intensos.

LAVA- Muitas de suas obras são grandes e altamente detalhadas. Quanto tempo você gasta numa única tela?
9LI- Pode levar meses... depende da complexidade e entropia de cada composição, de cada quantum emaranhado que eu queira representar.

LAVA- Fale sobre os materiais que você gosta de usar. Qual a vantagem de usar caneta permanente e tinta acrílica ao mesmo tempo?
9LI- Eu só uso caneta no papel, é o início, nanquim na folha branca. Foi assim que eu comecei a desenvolver linhas e composições. Com o passar do tempo introduzi a caneta permanente e a tinta acrílica para evolução de minhas cenas.

LAVA- Eu interpreto os personagens centrais nas suas pinturas como figuras xamânicas, fazendo a ponte entre homem e natureza. É isso mesmo?
9LI- Minhas entidades são pontes entre homem e natureza, o homem enquanto manifestação da natureza, expansão da consciência humana para a 4ª dimensão... São entidades, guerreiros de civilizações que podem ver o que é invisível aos olhos e indecifrável para as mentes. Numa sociedade onde os rituais vêm perdendo significado, eles são uma manifestação do transcedental.

LAVA- Que tipo de música você ouve?
9LI- Boa música: Elomar, Hermeto Pascoal, Chico Buarque, Klaus Nomi, Vivaldi...

LAVA- Quem são seus artistas favoritos?
9LI-  Aqueles que buscam evolução, metavisão. Eles estão escondidos...

 

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