segunda-feira, setembro 19, 2011

CURTI
Encerrada c/ êxito a 11ª edição do CURTA-SE, Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe. Entre filmes e vídeos, longas e curtas, 35mm e digitais, de Portugal, Espanha e Brasil, foram 605 trabalhos inscritos e 108 selecionados – 14 dos quais produzidos por sergipanos.

Ainda estamos crescendo, em fase de pré-adolescência”, diz Rosângela Rocha, realizadora do evento. Eu a conheço desde 97, quando estudávamos em oficinas de cinema. Em pouco mais de 10 anos essa baixinha idealista conseguiu criar um festival local que se tornou internacional, fundou a Casa Curta-SE, que promove oficinas e intercâmbios c/ cineastas, e mais importante: incluiu o estado no mapa da produção audiovisual.

Há muito o que falar para o mundo. A gente também pode fazer filmes e se inserir nos novos modelos de negócios, licenciar nossos produtos e assumir nossas autorias da melhor forma possível.” A cena local hoje é composta pelas produções da TV Aperipê, do Núcleo Digital Orlando Vieira, do Instituto Kipá e dos independentes que participam dos festivais, como o recém-criado Tr3s Minutos.

O tema do CURTA-SE 11 foi ‘Territórios’, c/ foco no ativismo da cultura digital livre. “Queremos entender, propulsionar e promover o desenvolvimento do software e licença livres, e a diversidade na distribuição de conteúdos”, falou Rosângela ao site da Aperipê. O produtor paulista Cláudio Prado foi convidado p/ a ‘desconferência’ (Pós) Cultura Digital?: “O digital comprime o tempo e acelera a velocidade de compreensão.”

Prado foi homenageado c/ o troféu Ver ou Não Ver na abertura do festival, no Teatro Tobias Barreto. Nessa noite foi exibido O SENHOR DO LABIRINTO, biografia de Arthur Bispo do Rosário, sergipano de Japaratuba que acreditava ser Jesus Cristo e passou 50 anos internado na colônia Juliano Moreira, onde produziu bordados, mantos e objetos de inspiração mística que chegaram a ser exibidos nas bienais de arte de Nova York e Veneza.

Quase todo rodado – e financiado – em Sergipe, O SENHOR DO LABIRINTO levou o voto popular de melhor longa de ficção no Festival do Rio em 2010. O ator gaúcho Flávio Bauraqui, protagonista do longa-metragem dirigido pelo carioca Geraldo Motta, também foi o apresentador do CURTA-SE este ano. Fechando a noite, a cantora americana Jessie Evans trouxe sua mistura de música latina & eletrônica, tocando sax em alguns trechos, vestida de Carmem Miranda.

Enquanto isso, no saguão do teatro eram expostas as peças tecidas exclusivamente p/ o filme. “Meu coração está pulando, esse momento é muito especial pra mim”, falou a bordadeira Gilda Santos, 42 anos, à repórter Janaína de Oliveira, da Casa Curta-SE. Gilda participou das gravações e dá cursos em parceria c/ o NAT [Núcleo de Apoio ao Trabalhador] ensinando o bordado do Bispo.

A partir da terça-feira começaram as mostras informativas e competitivas, e não só na capital. A cidade histórica de Laranjeiras viu seu auditório lotar c/ os alunos da rede pública. “Trazer uma oportunidade de acesso ao cinema pra esses jovens que têm apenas conhecimento de televisão é muito relevante pra nós”, diz o músico Irineu Fontes, atual secretário de cultura da cidade. Também foram exibidos vídeos e filmes em Estância e São Cristóvão.

Em Aracaju, as exibições aconteceram no SESC, na UNIT e no Cinemark Jardins. O ingresso p/ cada dia eram 2 quilos de alimento não-perecível. O público podia escolher seus favoritos em urnas virtuais no corredor das salas de exibição. Os mais comentados nas filas eram O CÉU NO ANDAR DE BAIXO, curta 35mm do mineiro Leonardo Cata Preta, e o longa RISCADO do carioca Gustavo Pizzi – melhor diretor e roteirista no Festival de Gramado deste ano.

Foi uma semana de imagem & som. Muito som. Na noite de terça, Máquina Blues, Quarteto Chorado e Clube do Jazz abriram o SISPEM [Simpósio Sergipano de Pesquisa e Ensino em Música] na UFS. Na sexta, Festival Mangaba Instrumental c/ Casa Forte, Couto & Orchestra, Ferraro Trio e Vendo 147 no Oceanário. Sem falar nas festas pós-CURTA-SE do bar Abrolhos, na praia de Aruana, c/ shows de Naurêa, Elvis Boamorte etc.

Os curtas sergipanos concorreram na quarta e na sexta. “É uma oportunidade muito boa de mostrar nossos trabalhos”, disse Eudaldo Jr., que produziu FOI APENAS UM SONHO c/ uma câmera de 5 mega pixels. P/ Marlon Delano, diretor de LEMBRANÇAS, foi uma experiência emocionante – ele levou a avó, estrela do seu vídeo. “É a primeira vez que ela vem ao cinema, e pra se assistir! Então estou muito emocionado mesmo.

No sábado rolou o documentário MULHERES MANGABEIRAS, que apesar de não ter entrado na competição foi dos mais elogiados, e por fim a cerimônia de premiação. Confirmando o boca-a-boca, RISCADO levou o troféu de melhor longa no voto popular e dividiu c/ A TERRA DA LUA PARTIDA os R$ 10.000 destinados ao melhor longa escolhido pelo júri oficial. Menção honrosa p/ LUZ TEIMOSA, de Lisboa. 

JANELA MOLHADA foi o melhor curta em 35mm c/ temática nordestina e levou R$ 5.000 do BNB. Os outros prêmios foram em valores a ser convertidos em aluguel de equipamentos. O CÉU NO ANDAR DE BAIXO foi a melhor animação e receberá o equivalente a 11 mil reais em serviços mais 3 minutos de trilha sonora original. O mesmo p/ o melhor documentário, A DAMA DE PEIXOTO.
Ao todo foram 25 categorias, incluindo duas exclusivas p/ as produções locais. A platéia correspondeu à emoção evocada pelo vídeo do Delano e elegeu LEMBRANÇAS como o melhor curta-metragem sergipano de 2010/11. Se sozinho, c/ uma mini-DV, o fedelho já faz estragos, imagina c/ as 10 latas de filme [16 ou 35mm] mais as 5 diárias de kit de filmagem [câmera HD, microfone, tripé e iluminação] e uma de correção de cor que ele ganhou...

O júri oficial elegeu DO OUTRO LADO DO RIO, realizado pelos alunos do NPDOV, como o melhor curta sergipano, levando o Prêmio Estúdios Mega no valor de R$ 13.850 em serviços como finalização em HD a 24 quadros por segundo; o Prêmio CiaRio, que vale $5 mil em maquinaria; e o Prêmio Casa Curta-SE – 5 diárias de kit. XANDRILÁ, que levou mais 5 diárias pelo 2º lugar, foi escrito, dirigido e produzido pela mesma turma.

Um belo presente pro Orlando Vieira, ator premiado em Gramado e protagonista da primeira minissérie sergipana: A ÚLTIMA SEMANA DE LAMPIÃO, exibida na TV Aperipê nos anos 80. Vieira está completando 80 anos. O núcleo ao qual ele empresta o nome já formou profissionais como os cinegrafistas Eduardo Freire e Moema Pascoini, que trampam comigo no CENA DO SOM.

O estagiário de edição do programa, Arthur Pinto, foi o diretor de fotografia de XANDRILÁ e DO OUTRO LADO DO RIO. Ah, moleque! Minha equipe é de primeira. Perguntei qual a sensação de ter seus 2 vídeos em 1º e 2º. Ele respondeu: “Pra mim só demonstra que está surgindo um cinema sergipano, a questão de quem ficou em primeiro, segundo ou terceiro são meras formalidades do festival e de qualquer competição.

O resultado não implica em dizer que um filme é melhor que o outro, e sim que, de acordo com aqueles jurados, é”, continuou dizendo. “A verdade é que o cenário audiovisual sergipano se destacou nesse festival, lotando salas e conquistando espaço na mídia. Com o tempo e aprendizado, cada vez mais surgirão realizadores e mais público favorecendo a cena local.

Em 3º no júri ficou SIMBOLIQUE, animação do meu chapa Jamson Madureira. Mais conhecido como artista plástico e guitarrista do Camboja, ele entrou sem nenhuma pretensão e saiu c/ 5 diárias da Casa Curta-SE. Lucro total pro azarão do Marcos Freire 3, subúrbio de Nossa Senhora do Socorro. “Seu brother sumiu no final”, o gordo me conta. “Só deu tempo de parabenizá-lo na hora da foto, hehe.

É Arthur, de Bispo a Madureira, os caras mais geniais do nosso território estão escondidos. Felizmente existe o CURTA-SE, p/ jogar uma luz sobre eles. 

CINEMA É A MAIOR CURTIÇÃO
 JESSIE EVANS NA ABERTURA DO FESTIVAL
SIMBOLIQUE SENDO EXIBIDO NO CINEMARK
QUEM ASSISTIA, ESCOLHIA OS PREFERIDOS
SER MESÁRIO TINHA LÁ SUAS VANTAGENS
SERGIPANOS VENCEDORES DO CURTA-SE 11
 RÉPLICAS DA OBRA DE BISPO DO ROSÁRIO


FOTOS: ARTHUR SOARES + VICTOR BALDE [SNAPIC]
AGRADECIMENTOS: JANAÍNA OLIVEIRA + THAMIRES NUNES [CASA CURTA-SE]

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