sábado, setembro 03, 2011

NOVOS TITÃS
Eu vou correr pela periferia até o fim/ Vou ser pra ela já que ela é pra mim/ Não vou sair daqui tão fácil assim/ Eu vou correr”... Inquérito é um grupo de rap paulista, mas o tema da música Favela Até o Fim é universal. São 827 milhões de pessoas vivendo em “aglomerados subnormais”, como define a ONU – e esse número chegará a 889 milhões até 2020.

No Brasil, quase 2 mil dos 5.564 municípios registram presença de “favelas, mocambos, palafitas ou assemelhados”, segundo o IBGE. 25% da população urbana mora neles. Nossa economia é a 7ª maior do mundo, mas de que adianta termos as reservas de petróleo do pré-sal e sermos um dos maiores exportadores de alimentos se 11 milhões de brasileiros passam fome e não têm acesso a educação, emprego ou saneamento básico?

Favela/ medo e desgosto moram ali perto/ Vielas/ secos esgotos a céu aberto/ Barracos/ com fio descascado sem conduíte/ Telhados/ rachados goteiras da brasilite”... Titanzinho é uma comunidade na capital do Ceará onde 92% dos 20.000 habitantes estão desempregados. Seria mais uma quebrada às voltas c/ criminalidade, prostituição e miséria, não fosse por um detalhe: a favela fica na beira da praia.

Como o pico dá altas ondas, virou uma fábrica de talentos. Da criançada que começou pegando de madeirite, surgiram Fábio Silva e Tita Tavares no início dos anos 90. Tita foi a primeira mulher a tirar nota 10 no circuito mundial, em 96. “Nasci aqui e aqui aprendi a surfar”, diz a tetracampeã brasileira, que ainda mora no Titanzinho. O caso de Fábio foi mais dramático.

Campeão brasileiro júnior em 1990 e um dos surfistas mais futuristas do país, venceu campeonatos na Argentina e na França e se classificou p/ o World Tour em 97. Na sua primeira temporada na elite do surf, competindo entre os melhores do mundo, desistiu de tudo e voltou p/ casa. “Me sentia um animal no meio dos caras”, justificou. Ele nunca aprendeu inglês.

Fábio ainda foi campeão do ISA Games em 2000, duas vezes vicecampeão brasileiro, venceu o QS de Fernando de Noronha em 2001, mas nunca mais voltou a correr o circuito da ASP. Patrocinado pela marca cearense Greenish, mora há alguns anos em Florianópolis e foi um dos destaques do Mundial Master no Arpoador, há 2 meses, ficando em 2º lugar nas triagens e 5º no evento principal.

Na ocasião, foi elogiado até por Tom Curren. “Alguns competidores estão em boa forma, mas o que mais me chamou a atenção foi o Fábio Silva”, disse o tricampeão mundial. Tom é o pai da francesa Lee-Ann Curren. A loirinha de 22 anos é a nº 27 do ranking mundial e namora um brasileiro – o cearense André Silva, 28 anos, top 30 da Abrasp. Mais um surfista do Titanzinho.

L.A. é atleta da Roxy e André foi adotado por outra marca cearense, a Pena, desde amador. Os dois começaram a ficar juntos em 2008, e ele tem passado temporadas na França aprendendo a língua nativa, ensinando português a ela... Mas foi em dezembro de 2009, quando veio ao Brasil conhecer a família do namorado, que Lee-Ann entendeu o significado da palavra FAVELA.

Fiquei profundamente tocada com a miséria e a diferença social em que as pessoas sobrevivem, e pelas quais são ameaçadas.” Ela conheceu o Titan num momento crítico, quando a comunidade corria o risco de ser removida p/ a construção de um estaleiro no lugar. “Ou se faz no Titanzinho ou o Ceará perde o estaleiro”, bateu o pé o governador Cid Gomes, o mesmo que esta semana declarou que “professor tem que trabalhar por amor, não por dinheiro”, diante de uma greve que já dura 28 dias.

Faz tempo que pedimos melhorias para o bairro”, escreveram os moradores na carta aberta das Organizações Populares do Bairro do Serviluz – movimento que reuniu associações comunitárias, ONGs, escolinhas e clubes de surf: “O governador diz que se tiver o estaleiro investirá em saneamento básico, trabalho e esporte. Bastava ele investir os 60 milhões de reais que vai doar à PJMR (uma empresa privada) em reforma urbana e social. O povo não é bobo.

Criar um projeto desse porte dentro de uma comunidade com forte valor histórico e cultural é uma falta de respeito”, protestou Lucimeire Calandrini, representante do MCP [Movimento dos Conselhos Populares]. “A realidade do Titanzinho é a segregação social porque o poder público não investe em infraestrutura, em educação, em escolas profissionalizantes”, falou João Carlos ‘Fera’, professor da Escola Beneficente de Surf do Titanzinho.

Quando Lee-Ann chegou à Fortaleza, a concorrência p/ as empreiteiras estava aberta. O casal resolveu agir. “Surgiu a idéia de fazer um documentário sobre as crianças que vivem naquela pequena praia”, André conta. “Fui motivado por ela e seguimos projetando o mesmo objetivo: ajudar de alguma maneira aquelas crianças. Como? Quando? Com o quê? Iríamos descobrir.

Durante 1 ano, fizeram imagens do dia-a-dia na favela, c/ pais presos, crianças desocupadas, armas, crack... e o surf aparecendo como alternativa a tudo isso. O documentário, diferente de todos os vídeos do gênero, foi finalizado no início do ano e lançado em julho no Surf Film Festival Anglet. Dirigido por Lee-Ann Curren & André Silva, TITAN KIDS levou o Prêmio Especial do Júri.

A garotada vai ficar amarradona de saber que o filme deles ganhou”, agradeceu Lee-Ann. “Em todo lugar que o trailer foi exibido, as pessoas adoraram”, diz André. “O que eu espero na verdade com o documentário é exibir para as autoridades a dificuldade e a importância do esporte na vida das crianças do Titanzinho e ajudar de alguma forma a comunidade onde cresci e aprendi a pegar onda.

O casal criou a fundação Surf and Hope, que gera recursos p/ a comunidade c/ a venda de pranchas doadas por surfistas famosos como Kelly Slater, Mick Fanning e papai Curren. “O empresário da Lee doou €1.000,00 assim que viu o teaser”, diz Silva. “No mesmo dia, liguei pro Tiago Cunha, que faz minhas pranchas no Rio, e ele topou fazer 10 pranchas por esse valor. Também conseguimos uma professora de inglês pras crianças.

Nesse meio-tempo o projeto do estaleiro no Serviluz foi vetado pelo presidente Lula, por contrariar o Plano Diretor de Fortaleza. “Um estudo feito com a participação de 17 técnicos comprovou que o melhor lugar não é a orla da cidade”, disse a prefeita Luzianne Lins do PT. “Ninguém é contra 1.200 empregos, mas 94% da arrecadação do estado vem da capital e Fortaleza é eminentemente turística, não poderíamos ter sua orla aterrada.

André Silva comemora. “Depois de muita luta a comunidade do Titanzinho venceu e conseguiu embargar essa obra. Particularmente, eu estava muito triste e frustrado só com a idéia de que iam acabar com a única opção de lazer das crianças. Lá não existe uma quadra, uma praça, somente o mar.” Além dele, de Tita e Fábio Silva, aquelas ondas já revelaram campeões como Lucinho Lima, Martins Bernardo e Pablo Paulino, duas vezes vencedor do mundial pro-jr.

Em março, o surfista Thiago Dias foi assassinado na areia da praia, a caminho do mar, em plena luz do dia. Thiago competia em eventos locais e era bom de aéreos. Tinha 20 anos e levou 22 tiros. Passados 6 meses, o crime continua sem solução. Impera a lei da favela: ninguém sabe, ninguém viu. Mesmo assim os talentos continuam a brotar. Juliana Souza, de 11 anos, é campeã cearense, e Davi Sobrinho, de 12, disputa o título brasileiro na categoria iniciante. Sem falar nos Tops Heitor Alves, 29, e Silvana Lima, 24, que não são do Titan mas representam o Ceará na 1ª divisão mundial.

A culpa deve ser da água. “Não me vejo em outro lugar, aqui é o meu mundo”, diz Davi. “Remover os habitantes para apartamentos de 50m2 é etnocentrismo da classe média”, explica Eduardo Marques, professor da USP. “Ainda que os governos tivessem verba para remover tudo, não haveria espaço. É preciso remover aqueles em situação de risco, mas isso significa 15% e não 100% dos moradores.

Há um forte estigma contra o surf, tido como algo supérfluo”, considera Leonardo Damasceno, doutor em Sociologia pela UFC. “Mas para a juventude dali é uma esperança, já que eles vêem tantos campeões que saíram de lá e viajam o mundo. É uma forma de economia criativa que pode ser ainda mais valorizada. Sem as ondas poderíamos esperar por um considerável aumento da criminalidade.

Seria uma tragédia se destruíssem o Titanzinho”, diz Lee-Ann. “Pude conhecer as pessoas de lá, as crianças... As drogas estão muito presentes, cheguei a conhecer alguns jovens que não podiam ir pra escola porque ela ficava em outro bairro e foram ameaçados de morte por traficantes. É fundamental que o governo faça algo pra ajudar os garotos, em vez de abolir a única coisa que eles têm: a praia.

A comunidade do Titanzinho já aprendeu que vale mais contar c/ iniciativas individuais, como do campeão mundial de ondas grandes Carlos Burle, que apareceu por lá e deu umas aulas, ou do cantor Manu Chao, que compôs a trilha de TITAN KIDS e em março tocou na favela. O governo federal liberou R$ 24 milhões p/ obras de pavimentação e urbanização do Serviluz, mas até agora nada foi feito.

A cantiga da perua é uma só”, arremata dona Maria Dias, 78 anos, 37 dos quais passados lá. “Dinheiro tem! A comunidade está cansada de reinvidicar. O nosso lugar aqui é bom, é lindo. É pedir a Deus que ilumine a cabeça desses governantes.” 

FAVELA ATÉ O FIM
 TITANZINHO, BERÇO DO SURF CEARENSE
A TETRACAMPEÃ BRASILEIRA TITA TAVARES
ANDRÉ SILVA ENTOCADO NO QUINTAL DE CASA
JULIANA SOUZA DIVIDE ONDA C/ CARLOS BURLE
MANU CHAO NUM LUAU C/ A MOLECADA LOCAL
PRÉ-ESTRÉIA DO VÍDEO FOI NA COMUNIDADE
 TITAN KIDS REUNIDOS, ENTRE ELES: ANDRÉ,
LEE-ANN, LUCINHO LIMA E PABLO PAULINO


FONTES: jornal O Povo, revistas Fluir e Hardcore, sites EmFocoSurf e GloboEsporte

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