sexta-feira, setembro 30, 2011

PELA PAZ EM TODO MUNDO
Tem violência em Bruxelas, tem violência em Moscou, tem violência em Nova Iorque e também no Brasil. Tem vinganças religiosas, tem vinganças de raças, tem vinganças de governos, tenho medo da guerra! Mas quem se importa? Mas quem se importa? Eu me importo! Eu me importo! Pela paz, pela paz, pela paz em todo mundo!

Pacifista e ambientalista, Cólera é um dos núcleos da célula punk no Brasil ao lado de Inocentes, Olho Seco e 365. Formada em 1979 pelos irmãos Edson ‘REDSON & Carlos ‘Pierre’ Pozzi, a banda paulista participou d'O COMEÇO DO FIM DO MUNDO e do GRITO SUBURBANO, respectivamente o primeiro festival e o primeiro disco punks brasileiros, ambos em 1982.

Em 82 também fizemos nosso próprio espaço, Estúdios Vermelhos, que cedíamos para outras bandas como Ratos de Porão”, disse Redson numa palestra em Belém [PA] no início deste ano. “Comecei a curtir rock com 13 ou 14 anos. Montei 4 bandas e passei a investir. Não tinha como comprar instrumentos e material. A partir do Cólera passamos a fazer nossos equipamentos, foi nesse ponto que saiu o faça-você-mesmo.

Além do próprio estúdio, também foi a primeira banda punk nacional a criar um selo p/ lançar seus discos, Ataque Frontal, e a primeira a viajar pro exterior em 87, na Cólera European Tour: 56 shows dividindo o palco c/ os ingleses da Disorder e os alemães da Inferno. São 7 álbuns de estúdio em 30 anos de ativismo. Muito antes de ecologia virar moda o trio formado por Redson, Pierre e Val Pinheiro sempre foi anti-guerra & pró-natureza.

TENTE MUDAR O AMANHÃ, disco de estréia, foi lançado em 1985 e já aliava o protesto proletário de sons como Agir, Palpebrite e Violar Suas Leis à ideologia anti-armamentista – como em Duas Ogivas, sobre a Guerra Fria. O segundo disco, PELA PAZ EM TODO MUNDO, sai em 86 e vende 85.000 cópias, recorde entre os independentes daquela década. Traz os hinos Medo, Guerrear, Vivo na Cidade e Não Fome!, além da faixa-título. Em 89 é lançado VERDE, NÃO DEVASTE! pela Devil Discos.

No início dos anos 90 tocam em Sergipe, no festival Rock In Bica em São Cristóvão. “Tocaram de manhãzinha ao ar livre, de frente pro sol nascente, foi do caralho! Redson ficou maravilhado com isso”, conta Adelvan do Programa de Rock. Foram 3 shows por aqui, o último em Aracaju na turnê do disco DEIXE A TERRA EM PAZ, de 2004.  “O segundo foi de novo em São Cristóvão, mas a porrada comeu solta, ele tocando pela paz em todo mundo e a cadeirada rolando.

Por tudo isso e muito mais, punks & rockers brasileiros estão de luto. Nesta terça-feira Redson morreu, vitimado por uma hemorragia interna decorrente de úlcera. “Redson passou mal quando estava sozinho em sua residência por volta das 2h30 na madrugada de segunda-feira para terça (27), foi socorrido por um amigo que acionou o SAMU e o conduziu ao Hospital João XXIII, na Mooca, onde foi atendido”, postou o baixista Val no Orkut.

O enterro foi ontem no cemitério da Vila Alpina [SP]. “Nó na garganta”, descreve Ivo Delmondes, baixista da Karne Krua & batera da Renegades of Punk, duas bandas sergipanas influenciadas pela Cólera. “As músicas do Redson fazem tanta parte de minha vida que parece que perdi alguém muito próximo. O punk mundial perdeu uma de suas figuras mais inspiradoras. Já pararam para imaginar o punk sem Cólera?

Redson era o mais talentoso da cena punk”, diz Nasi, ex-Ira!, que gravou a faixa Minha Mente no álbum de 2004. “A gente chegou a fazer algumas apresentações juntos com o Rosa Luxemburgo, outro projeto dele. Ele era o mais diferente e ousado. Com sua visão ampla das coisas, se destacou e se tornou a peça mais importante do movimento punk da época.

Éramos vizinhos”, diz Ricardo Cachorrão do Rock Press. “Esse cara era meu ídolo quando eu tinha 12 anos, em 1984! Em nosso último encontro, ele estava animado com as músicas novas para o próximo disco e com a possibilidade de um lançamento em DVD no final do ano. No último final de semana a banda fez um show super bem-comentado na cidade de Santos. Ficam para a história hinos como Pela Paz em Todo Mundo, Águia Filhote, Verde, Vira-Latas e tantas outras de um vasto repertório.

Fui muito amigo dele em 82, no começo de tudo”, falou João Gordo ao site UOL. “Depois nos desentendemos, mas há 5 anos nos reencontramos, colocamos as diferenças em pratos limpos e voltamos a nos falar. A morte dele foi um choque que me machucou muito. Ele é um ícone de nós todos, sobreviventes dessa época. Ele foi o único que manteve as origens do faça-você-mesmo. Era muito jovem pra morrer.

Redson se foi aos 49 anos, mas deixa como legado sua fidelidade aos princípios e a coerência entre discurso & atitude. “Era um cara perfeccionista, às vezes excêntrico, meio louco, educado, detalhista, mas acima de tudo brilhante e muito carismático”, lembra Marcos da Agrotóxico. Sua influência vai do RxDxPx ao RxOxPx, passando por Devotos, Mukeka di Rato, Gritando HC, todas as bandas que fazem a real cena punk – e as que ainda estão por vir.

Se seu livro está em branco, está na hora de começar a escrever. Se você não fizer seu sonho acontecer, não vai ser o governo nem ninguém que vai fazer. Se quisermos um mundo melhor, tem que correr. O meu objetivo é esse, alertar. Se cada um fizer um pouco, mudamos. Edson Lopes Pozzi, 1962* - 2011+

CÓLERA
 SHOW NO GARAGE [RJ]. FOTO: MICHAEL MENEZES
DANDO IDÉIA NA MOLECADA PUNK DE BELÉM [PA]
VINIL CLÁSSICO ASSINADO PELO AUTOR: REDSON

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