quinta-feira, setembro 15, 2011

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS TORRES
Start spreading the news/ I’m leaving today/ I want to be a part of it/ New York, New York”...

Sempre que eu penso em Nova York vem à minha cabeça os quadrinhos da Marvel: Homem-Aranha, Demolidor... Rocky Marciano, Jake La Motta e Mike Tyson. Charlie Parker, John Coltrane, Velvet Underground. Andy Warhol, Linchtenstein, Basquiat. Norman Mailer, Will Eisner, Art Spiegelman. Billie Holliday, Gil Scott-Heron, Public Enemy. Woody Allen, Martin Scorsese, Robert de Niro. Ramones, Beastie Boys, Sick of It All. Uma ex-namorada radicada em Manhattan, uma amiga que vive no Brooklyn e até o Frank Sinatra, que nunca morou lá.

NY me lembra um monte de coisas, menos surf.

Quando a ASP anunciou o Quiksilver Pro New York, ninguém botou fé. Long Island não é um destino de surf trips e nunca revelou nenhum talento internacional – já ouviu falar de Ballaram Stack? Quando o Marreco me contou que tinha competido por aquelas bandas no Bud Tour dos anos 90, imaginei um marzinho pequeno, mexido e gelado em Nova Jersey. Nunca vi foto em revista, cena de vídeo, nada. A idéia de um evento ali contrariava o próprio conceito do World Tour, criado há 20 anos p/ proporcionar aos tops melhores ondas e maior premiação.

Pelo menos a parte da maior premiação permaneceu no script. O atrativo da etapa seria a grana recorde oferecida: US$ 1.000.000 no total, $300 mil pro campeão, $100 mil pro vice. Sem falar dos pontos válidos na corrida ao título. Parecia um golpe de marketing p/ atrair as multidões, um retrocesso aos anos 80, quando o circuito mundial rolava em qualquer praia que tivesse estacionamento. Tudo p/ vender bermudas, c/ o aval do decacampeão Kelly Slater, patrocinado pela marca que bancou o jogo.

Esse campeonato seria uma resposta da Quiksilver à prova do Rio de Janeiro, vencida por Adriano ‘Mineirinho’. “Quando o nível máximo do surf é atingido por ondas de 8 pontos em floaters, isso não é o que queremos ser”, tuitou o careca ao esnobar a etapa da África p/ surfar tubos gigantes em Fiji. “A ASP precisa garantir que os surfistas peguem boas ondas para exibir seus níveis de performance.” P/ aumentar as desconfianças e piorar as espectativas em relação a essa etapa, Slater reassumira a liderança após vencer em condições épicas no Tahiti.

Tudo isso fazia do campeonato em Nova York uma temeridade. Mas se tem uma coisa que os americanos entendem é de showbusiness. O Quik Pro NY teve de tudo: heróis, vilões, casa cheia, grandes disputas e ondas perfeitas. O furacão Irene que causou inundações na costa leste dos EUA e provocou 22 mortes também levou a Long Beach um swell que proporcionou condições clássicas: ondas marrons e manobráveis lambidas pelo vento terral. Melhor que Aracaju, tipo Guarda do Embaú. Jogada de risco, lance de sorte.

No primeiro dia, c/ o mar ainda se alinhando, KS fez seu papel diante da sua platéia e os brasileiros se sentiram em casa – dos 5 que competiram, 4 venceram suas baterias. Só Adriano de Souza foi p/ a repescagem, mas o ex-líder do ranking achou seu ritmo no 2º dia: Mineiro fez a maior nota e média da quarta-feira, 9.20 e 17.93. Foi nessa fase que a competição começou a pegar fogo. Mais especificamente, após a entrevista de Bobby Martinez p/ o site oficial do evento.
Lá atrás no ranking e competindo sem chances de classificação no WT, Bobby chutou o balde após vencer Bede Durbdige na 2ª fase. “Primeiro de tudo, eu gostaria de dizer que eu não quero fazer parte desse ‘dumb fucking wannabe tennis tour’, todos os surfistas profissionais agora querem ser tenistas, foda-se!”, bradou o chicano da Califórnia, patrocinado da FTW – sigla que significa For The Win ou Fuck The World.

A ASP quer fazer o corte no 2º semestre. How the fuck alguém que nem compete contra nosso calibre de surfistas pode estar na nossa frente? Eles nem chegaram aqui ainda, não conquistaram o direito de surfar contra nós, mesmo assim eu ‘tou ranqueado abaixo deles. Qual é. That’s bullshit! É por isso que eu não vou mais nesses campeonatos estúpidos. Esse é meu último, eu não gosto de tênis e não gosto desse tour... Who gives a fuck? You know what I mean?

Mirando seu aviãozinho p/ as torres de julgamento da ASP, Martinez foi o terrorista da vez. Multado, desclassificado e banido automaticamente, deixou o caminho aberto p/ Slater, que o enfrentaria em seguida e nem precisou entrar na água p/ se garantir na 4ª fase. Bobby referia-se ao sistema rotativo que o surf adaptou da ATP e que ejetou outro ídolo americano nessa etapa, o campeão 2001 CJ Hobgood. Mas enquanto uns choram, outros vêm e devoram.

Gabriel Medina, 17 anos, venceu na Espanha seu segundo campeonato no mundial 2011 e estréia na Califórnia como cabeça-de-chave. Miguel Pupo, 19, também chega p/ somar. Dos 5 brasileiros que competiram em Nova York, 4 chegaram às oitavas-de-final e 3 avançaram às quartas – Jadson André, Alejo Muniz e Heitor Alves. Jadson bateu Mineiro, que perdeu pela 3ª vez p/ um conterrâneo este ano. O cearense Heitor atropelou os australianos Mick Fanning, Adrian Buchan e Joel Parkinson.

As ondas são parecidas com as do Brasil, boas para os aéreos”, comparou. Alves perdeu p/ Alejo, que assim chegou à sua primeira semi no WT. “Esse é o melhor resultado da minha carreira”, disse o catarinense de 21 anos nascido na Argentina. “Foi a primeira vez que eu surfei aqui e me surpreendi porque deu boas ondas a semana inteira. As pessoas nos receberam muito bem, a praia ficou lotada todos os dias e agora sigo mais confiante para as próximas etapas.” Levou US$ 50.000 pelo 3º lugar.
...“I wanna wake up in a city/ That doesn’t sleep/ And find I’m king of the hill/ Top of the heap”... 

O adversário de Kelly Slater na final da etapa anterior foi Owen Wright, revelação de 2009/10. “Chegar até aqui já foi incrível”, comemorou o australiano de 21 anos – 18 a menos que o careca da Flórida. Foi a 1ª final dele no WT e a 67ª de Slater, que venceu pela 47ª vez na 1ª divisão. “Espero vencer na próxima”, Owen desejou. Ou melhor, profetizou.

Não demorou uma semana pros dois se encontrarem de novo no Quik NY. KS x OW, a nova grande rivalidade do surf profissional. Tudo indica que Wright chegou p/ ocupar a vaga deixada por Andy Irons. Na semifinal, Owen encerrou a campanha de Alejo Muniz, passando pelo brasileiro c/ larga vantagem: 14.84 x 9.63. Do outro lado da chave, Slater travava um duelo de gigantes contra Taj Burrow na melhor bateria do campeonato.

Taj, 2x vicecampeão mundial e notório freguês do 10x campeão, surfou soltinho na vala e liderava c/ 9.30 e 9.03. Slater estava em xeque c/ apenas uma nota boa, 9.07. Precisava de um 9.27 p/ virar, e não parecia que conseguiria isso na sua última tentativa, uma fechadeira de 2 metros. Mas o coroa acelerou do jeito que só ele sabe fazer e se lançou no ar completando a rotação antes de pousar. Nota 10, a única de toda a competição. Xeque-mate.

Na real, o vento não era favorável pros aéreos, mas não pra ele”, lamentou Burrow. “Eu sabia que a onda que deixei passar só daria pra fazer uma manobra. Deixei porque não achava que ele conseguiria nem uma nota 8, só que o Kelly fez o melhor aéreo da sua vida e me venceu mais uma vez. Não sei nem o que dizer, foi bizarro.” Virada de 19.07 contra 18.83. C/ sua média Taj venceria qualquer outra disputa. Menos essa.

O roteiro estava pronto p/ fazer a alegria da nação estadunidense. Na véspera de 10 anos dos atentados às Torres Gêmeas e ao Pentágono, o Capitão América vingaria a honra ianque c/ mais uma vitória, mostrando quem manda no pedaço. A redenção que não veio no Iraque nem no Afeganistão. Daria um filme do Oliver Stone, roteirizado pelo Fukuyama. Mas o Michael Moore deve ter reescrito o fim da história.

Owen Wright abriu a decisão c/ uma nota 7 e foi subindo de produção: 9.23, 8.60 e 8.67, combinando aéreos, batidas e rasgadas a cada parede percorrida. O máximo que Slater arrumou foi um 8 e um 6.53. Um passeio do garotão de Lennox Head. “Eu só consigo rir! Sempre quis fazer uma final contra o Kelly, agora fiz duas seguidas e venci uma. How good is this?

Mais uma vez os americanos não tiveram o que celebrar no 11 de setembro. KS lidera, o campex foi um sucesso, a Quiksilver detém o passe de ambos. Mas é nas mãos da rival australiana Rip Curl que está o futuro do surf: Medina & Wright. Gabriel estréia semana que vem e tem tudo p/ disputar o título nos próximos anos. Owen já está na briga.

...“And if I can make it there/ I’m gonna make it anywhere/ It’s up to you/ New York, New York.

NEW YORK NEW YORK
POR ESSE FINAL KELLY SLATER NÃO ESPERAVA
 OWEN MORDEU O MELHOR PEDAÇO DA MAÇÃ: $300 MIL
 KS10 A CAMINHO DO 11: NUNCA DUVIDE DO FREAK
ALEJO MUNIZ FICOU EM 3º: ESTREANTE DO ANO
HEITOR ALVES NUM EXPRESSO STARBUCKS
 
 NEM SÓ DE AÉREOS VIVE JADSON ANDRÉ
BOBBY MARTINEZ TOCOU O TERROR EM NY
 BOBBY X ASP: GUERRA DECLARADA

Um comentário:

Riot Grrrl disse...

Obrigada pela parte que me toca.