quinta-feira, outubro 13, 2011

DDT

Lúcio Flávio ‘Mosquito foi o primeiro skatista sergipano a se destacar: profissional aos 18 anos, vicecampeão brasileiro 1994/96 e pioneiro do estado no circuito mundial. Logo em seguida vieram Adelmo Jr., ex-‘Juninho ET’, e Fabrízio Santos, o ‘Cara-de-Sapo’, se profissionalizando, ganhando destaque nos campeonatos nacionais e posteriormente mudando p/ a Califórnia, EUA. Mosquito foi um garoto-prodígio apoiado pelo pai, que montou uma loja no centro da cidade c/ skate park nos fundos – onde Juninho deu os primeiros rolês. Em seguida vieram as pistas oficiais do Parque dos Cajueiros e da 13 de Julho, na zona sul, e por fim o skate park do Rato, no Bairro Industrial, importante p/ a evolução de Cara-de-Sapo e tantos outros que vinham da zona norte.

Anos 90 skate era febre, febre da selva, mangue no caso de Aracaju, ecos- sistema cheio de bichos como Ganso, Galinha & Pato Rouco correndo por fora. Da geração do Lúcio Flávio, só um cabra acompanhava seu nível de performance, além dos outros 2 pros – o atirado Júlio César, que a raça logo apelidou de ‘Detefon’. Lembram da propaganda? “Detefon é que mata: mosca e mosquito, cupim e barata”... Mas sobreviver na selva não é p/ os fracos, e desde cedo ele teve que correr atrás. “Meu primeiro emprego foi em um mercadinho na rua Santa Rosa. Era embalador, passei para repositor das prateleiras e entregava quentinhas pra fazer um extra. De bike, meio-dia, era osso... Ganhava até razoável, o foda era quando a comida chegava toda revirada nos clientes, hehehe, acho que saí por isso. 

Campeão nordestino amador 1998, bicampeão pernambucano 2001/02, campeão alagoano, campeão potiguar, sem contar os títulos sergipanos. Virou PRO em 2003, passou 1 ano em São Paulo e seguiu em temporadas no sul do país, Floripa e Porto Alegre, realizando tours promocionais p/ o patrocinador QIX, que manteve a parceria mesmo depois dele abandonar as competições. Paralelamente, Detefon desenvolveu uma carreira de repórter fotográfico, cobrindo eventos p/ as revistas especializadase mais recentemente p/ a ESPN. Trabalhamos juntos por 2 anos no programa Periferia, da Aperipê TV. Fizemos a cobertura completa do circuito nordestino, ele enviava as matérias dos lugares por onde passava, eu editava. Ficamos amigos e graças à sua Caravan SS branca [modelo 78] consegui agilizar várias paradas importantes pro meu casamento – tipo transportar as bebidas.

Em 2005, embarcou no seu projeto mais audacioso: a reportagem DIÁRIOS DE MOTOCA p/ a 100% Skate. Inspirado no filme de Walter Salles sobre a aventura dos jovens Che Guevara & Alberto Granado pela América Latina no lombo de uma moto, Júlio apeou o amador JN Charles na garupa da Honda CG que ganhara num campeonato e percorreu 6500 km de Sergipe ao Maranhão. Seu relato e suas fotos estamparam 16 páginas na edição 88. “Júlio Detefon é caraterizado pelo seu estilo bem overall, anda em qualquer terreno”, testemunha o paraibano Allan Gomes. Conhecido pelo go-for-it em manobras de corrimão, arrefeceu um pouco o ânimo depois de um acidente que quase o deixou estéril em 2006. Hoje, totalmente recuperado, está casado c/ a skatista Sabrina Neto e mora em Recife, onde trabalha p/ a marca Myllys. 

Venceu duas etapas do circuito recifense 2011 realizadas em mini-ramp e lidera a categoria master mesmo tendo faltado na terceira – estava em Aracaju julgando uma etapa do estadual. Continua andando muito, como pode ser visto no novo vídeo feito por ele p/ a QixTV, das imagens à edição: MINHA PISTA, sessão na casa do cearense Thiago Mancha. “Foi a primeira vez que usei Mac e Adobe Premiere, precisava entregar esse vídeo urgente, daí fui assistindo tutorial e aplicando na hora.” Confira o resultado no final da postagem, mas antes fique c/ a entrevista que o Gomes fez p/ seu blog SkateVideos, c/ umas perguntas extras feitas por mim e pelo paulista Marcos Hiroshi, que também fez o vídeo que abre este post. Hiroshi ainda lembra do dia em que o conheceu no Paraná, durante uma etapa do Circuito Drop Dead: 

Pela primeira vez pude andar ao lado de skatistas do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Sul e Nordeste. Um destes skatistas que logo troquei algumas palavras e rolou uma sintonia foi Júlio Detefon. Para quem só andava no centro de São Paulo, eu achava surreal estar ali em Curitiba trocando uma idéia com um amador que andava muito e vinha de Aracaju, Sergipe. Depois disso, sempre ouvia falar nele como ‘líder do circuito pernambucano’, ‘campeão do circuito sergipano’, essas paradas. E atualmente é um cara que eu admiro não só pelo skate mas pelas atitudes, como levar a bandeira do Nordeste para o resto do país e ser um cara justo e verdadeiro, sempre.

Allan Gomes - Como você começou a andar de skate?
Julio Detefon -
Comecei através de uma bola que rolou ladeira abaixo, bem para onde uns amigos andavam de skate. Daí, mesmo descalço eu peguei um skate emprestado e pulei a jump – que era alta, viu? 

AG - E acertou de primeira?
JD -
Se acertei? Putz! Claro que não, na verdade me lasquei todo do outro lado! Hahaha! E foi isso que me fez partir para o skate: tinha gente que já andava há tempos e não tinha coragem de tentar pular a jump, e eu logo de cara me joguei. Logo em seguida um amigo montou um skate com peças mistas, duas rodas de um, duas de outro amigo, ambas de sabão, bilhas com graxa, um shape Pro-Life e quatro parafusos no total, sendo que tem que ter oito né! 

AG - Como você se sentiu ao ser campeão do primeiro circuito nordestino em 98?
JD -
Sei lá, na verdade não senti muita coisa não. Claro que é legal ser campeão de um circuito, ainda mais nordestino, mas naquele ano o circuito passou apenas por três estados, Sergipe, Bahia e Ceará, na verdade as três potências do skate da época, mas muitos skatistas não participaram do circuito todo por ser caro, principalmente a etapa do Ceará, assim como a Bahia e Sergipe para os cearenses, entende? Eu e outros que tinham patrocínio conseguimos correr todas, isso rola até hoje! O circuito nordestino é o mais caro de todo Brasil para os atletas. Na verdade me senti muito bem anos depois, quando fui campeão de vários circuitos estaduais. 

Marcos Hiroshi - Como você chegou ao circuito brasileiro?
JD -
Então, eu fui campeão amador nordestino e o prêmio era uma passagem de ida e volta pra Sampa. Só que o Sérgio da Venice, meu patrocinador e organizador de uma das etapas do circuito nordestino na época, teve a idéia de irmos de carro fazendo uma tour, e como a passagem iria ser paga pelos três organizadores do circuito, essa já seria a parte dele. Topei, né. Nunca corri de viagem! Então fomos de carro: eu, ele, a esposa dele, o Ananá e o Edu Freire. Ainda em Sergipe o carro quebrou, tivemos que empurrar em plena noite numa estrada toda esburacada e perigosa por conta dos assaltos. Quase desistimos, mas a vontade de viajar falou mais alto. Passamos por Sampa, e ainda fiz fotos com o Fábio Bitão, inclusive dormimos na casa dele, depois seguimos pra Curitiba. Aquele foi meu primeiro grande evento, e todos os amadores que estavam lá se tornaram grandes nomes do skate brasileiro. Foi bom ver toda a galera andando forte, pra gente do nordeste era um luxo sair da região e ir até Sampa – imagine ir lá pra Curitiba e correr um champ na pista da Drop, com gente que andava bem pacarai de todas as partes, dos grandes pólos de skate do Brasil... Foi uma experiência incrível, fora o fato de ter ficado naquele hotel sinistro com cheiro de mofo e de suor de puta, que fica do lado da pista! Não sabia se estava em uma pousada ou num puteiro, só vim me tocar depois e já era tarde! 

AG - Por que você reclamava tanto dos campeonatos que participava na sua época de amador?
JD -
Sempre achei que os eventos de skate, sem os skatistas, não são nada! O skate pode sobreviver sem campeonatos, os mesmos não existem sem os skatistas! Portanto, os organizadores têm que pensar mais na galera que compete, zelar tanto pelas rampas, que são o cartão de apresentação de um evento, como também pela premiação, em relação à quantidade e qualidade. E isso não existe em muitos lugares até hoje! Muita gente que faz campeonatos desvia premiação para suas lojas, ou para uso pessoal etc. Quando não fazem, alguns trocam as premiações que chegam por coisas antigas da loja, mofadas, manchadas etc. Bom, acho que respondi essa pergunta né? 

AG - Como foi sua passagem de amador para profissional?
JD -
Foi bastante legal, apesar de eu não querer isso, preferia ficar como amador mesmo! Mas foi proposta do meu patrocinador da época, Qix, e então fui e passei um ano e meio morando entre Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Foi uma experiência muito boa! Mas tive que voltar para o Nordeste, e viver como profissional de skate aqui é sinistro demais! Muito melhor se manter amador e disputar prêmios como motos, laptops etc.

Viva La Brasa - Você começou a fotografar skate quando ainda era competidor. Como foi essa  transição?
JD -
Comecei a fazer fotos em 2000, 2001, por aí... O primeiro campeonato que fiz a cobertura não teve nenhuma foto de manobra, só das rampas, área, pódio... Hahaha! Minha câmera era tipo uma Love. Sinistro, tinha que revelar as fotos, escanear na casa de uma ex-namorada, depois escrever a matéria e enviar de internet discada... Ainda era amador quando comecei com as fotos, e foi uma coisa boa em minha vida. 

AG - Como foi para você fazer os Diários de Motoca?
JD -
Vixe! Diários de Motoca foi uma viagem mágica, inexplicável mesmo! Tipo, sempre fui conhecido por minhas viagens pelo Brasil, sempre na estrada! E daí após ver o filme Diários de Motocicleta, fiquei louco e a idéia veio na hora, entrei em contato com duas revistas de skate do Brasil e no outro dia uma delas tinha respondido o e-mail já querendo comprar a idéia. Nossa, foi louco demais! Viajei e fechei pessoalmente com a revista 100%. E então tudo deu certo, apesar de que a gente improvisou demais a viagem. A idéia inicial seria de ir somente até Fortaleza-CE e acabamos indo até São Luís do Maranhão, ou seja, percorremos todo o Nordeste numa moto CG 150 com dois skatistas, sete shapes, duas mochilas pesadas, câmera fotográfica e muita coragem.

AG - Como surgiu a idéia da revista ÔXE! [editada por Detefon, Sabrina e Tiago Rocha de 2007 a 2009]?
JD -
O Tiago Rocha já tinha o site Cyberboard e um zine de quatro páginas, uma folha dobrada, e comentou comigo que queria fazer o zine crescer. Entre reuniões para escolher um nome para a empreitada, surgiu o nome ÔXE!, pois a gente falava os nomes e o outro dizia: “Ôxe! Que nome é esse?” Hahaha! Mas no Nordeste é difícil manter uma revista só de skate, não existem muitas marcas, na verdade tem muitas mas ainda pequenas, e com isso fica complicado fazer algo só relacionado ao skate. 

AG - Como você acha que ficará o skate no nordeste daqui a alguns anos?
JD -
Olha, na verdade não sei, tipo: estou achando a renovação do skate muito devagar, antes tinha mais gente andando muito bem, os eventos eram mais disputados, muitos nomes surgiam – e para ficar! Hoje surgem poucos, alguns desistem, a idade vem, as responsabilidades crescem e a galera opta em trabalhar para sobreviver. É só olhar em volta, os caras que estão andando bem e que estão se mantendo no skate têm certa condição financeira e não precisam se preocupar com trabalho, e sim em apenas estudar, passar de ano e ganhar dos pais presentes por isso. Muita gente que andava muito parou de andar ou no mínimo parou de competir por causa das obrigações. Skate não é barato, as peças boas são caras e daí já sabe, ou o cara que não tem condições consegue logo um patrocínio ou o cara fica sem andar por falta de peças, tênis etc. Tem que ter estrutura familiar. E apesar de estarem surgindo milhares de pistas de skate em todos os lugares, não sei como o skate vai ficar, pelo menos aqui no Nordeste, por causa também do nosso mercado. 

AG - Quais seus planos para o futuro?
JD -
Hummm... Olha, por tantas coisas que vejo acontecer no mundo, não penso mais dessa forma, sobre fazer planos para o futuro. Metas? Sim, tenho! Mas todas elas para agora! O futuro é transformado em presente a cada minuto, os minutos que passam já pertencem ao passado. Portanto, vou vivendo de acordo com as situações. 

AG - Agradecimentos finais...
JD -
A todos os skatistas do Brasil, principalmente os nordestinos que são guerreiros, aqueles que dão o sangue mesmo! Que andam de verdade! Não falo de andar bem, falo daqueles skatistas que amam mesmo andar, que pensam COLETIVO para o skate mudar aqui na região de uma vez por todas. E isso vem acontecendo: skatistas montando suas próprias marcas, fazendo a grana circular entre eles, realizando eventos etc. Agradeço a todos que arregaçam as mangas e não esperam por prefeituras e governos, que em vários lugares só se metem com pessoas que querem ganhar em cima – e muito, viu! Agradeço a todas as marcas das quais fiz parte como skatista e uma pá de gente de todos os estados do Nordeste!

TERRÍVEL CONTRA OS INSETOS
 CAPA DA REVISTA ÔXE! Nº 7, EDITADA POR DETEFON
PLANETA DOS SKATISTAS - A ORIGEM. RECIFE, 2011
 REGISTRANDO O SHOW DA PUMP EM CARUARU, PE...
...E O 900º DO MITCHIE BRUSCO NA MEGA-RAMPA, RJ
 'FON NOEL EM CAMPANHA DE FIM DE ANO DA MYLLYS

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