sábado, outubro 22, 2011

ESPORRO
Leonardo Panço é o primeiro amigo que eu fiz no Rio de Janeiro. Em 1996 internet ainda era coisa de nerd rico, cartas é que conectavam pessoas, bandas, cenas de cidades diferentes e distantes. Panço já estava bem conhecido no underground àquela altura: guitarrista da Soutien Xiita, banda de thrash metal c/ letras de putaria em inglês, e editor dos zines Disbablios Biblios e Gnomo da Tasmânia, que chegou a circular c/ 3000 exemplares por edição. Eu também era zineiro, já tínhamos trocado correspondência, e de férias no Rio liguei pra ele: 

- E aí Panço, o que tem pra fazer aqui na sua cidade?

- Hoje, sábado, véspera de carnaval, só tem baile funk e ensaio de escola de samba, mas tem uma banda duns amigos, Cabeça, que tá num estúdio da zona sul. Vai lá que a gente agita alguma coisa. 

Perguntei se haveria alguém que rendesse uma boa entrevista e ele respondeu: 

- Eu! 

Naquela noite conheci Fábio Kalunga e sua banda, caímos todos na gandaia, c/ direito a baculejo da PM de saideira. Panço diz que não lembra de nada. Também, do jeito que bebemos... Como ele tocou guitarra c/ os caras durante um tempo, foi fácil voltar ao estúdio na semana seguinte e fazer a matéria c/ o Cabeça que estampou as páginas centrais do zine MAUMAU, lado B do CABRUNCO.

No Hollywood Rock, Panço me apresentou a Danúbio Aguiar, do zine O Mensageiro, e Ronaldo Chorão, da Gangrena Gasosa [foto]. Teve uma hora no show do Smashing Pumpkins que a baixista parou a música e começou a reclamar que não sabia que o patrocinador do festival era uma marca de cigarro e tal. Chorão gritou: 

- Que porra é essa? É U2? Pau no cu do U2! 

- Não, é Smashing Pumpkins, disse Panço. 

- Então pau no cu do Smashing Pumpkins!, emendou o vocalista da Gangrena, que insistia p/ que fôssemos c/ ele até sua casa em Campo Grande fumar maconha.

Depois desse verão do rock, volta e meia eu me batia c/ meu chapa em algum festival. Naquele mesmo ano foi no Acendedor de Lampiões, em Maceió, em setembro voltei ao RJ p/ cobrir a Expo Alternative. Teve outra vez na Paraíba, em 98, mais alguns Abril Pro Rock, e os shows que ele fez em Aracaju c/ o Jason, supergrupo formado em 97 c/ os amigos Flávio Flock e Vital Cavalcante, do  Poindexter, e Rafael Ramos, baterista e produtor que descolou pro Panço o primeiro bom emprego da sua vida: um estágio remunerado na EMI. Sua função foi preparar a coletânea PAREDÃO. 

AMIGOS VÊM & VÃO 
Reencontrei o Panço sábado passado no Capitão Cook, na Noite Fora do Eixo. Tocaram Casa Forte e Você Me Excita, de Salvador, e ainda teve uma performance teatral c/ umas meninas de lingerie, mas fui mesmo p/ dar um abraço no meu camarada, de passagem pela cidade p/ lançar seu novo livro, ESPORRO.

Eu saí de cena, me formei em jornalismo, comecei a trabalhar c/ vídeo, criei um blog e até casei. Panço continua o mesmo, tirando os óculos – que ele não usa mais – e o cabelo – que ele cortou. “Meu livro é sobre as esperanças da juventude, cair na estrada, tocar, compor e viver o sonho do rock com alguns amigos. 

Jornalista desde 98, sempre escreveu bem. A primeira coisa que li de sua cepa foi o Guia Alternativo do Verão Carioca na revista Panacea – dicas turísticas nada óbvias como a Vila Mimosa, clássica zona de baixo meretrício no centro do Rio. Lembram do início deste post? Por que vocês acham que liguei pro cara? Hoje trabalhando no site da Globo, encaixou as férias do trampo c/ o lançamento do livro p/ fazer a turnê este mês. 
 
ESPORRO é o registro do que Panço viu e viveu no Rio de Janeiro dos anos 90. A era dos S.O.S.,  das fitas demo, do festival I Hate Lariú, dos shows do Defalla no Circo Voador e do Garage, inferninho onde tocaram todas as bandas que estão no livro: S.X., A.S.S., Cabeça, Poindexter, Sex Noise, Second Come, Beach Lizards, Dash etc. 

Garage, o mesmo inferninho onde Marcelo D2 morou nos tempos de dureza antes da fama. O Planet Hemp, por sinal, é um dos destaques, assim como Piu-Piu, um maluco [foto] que bebe mijo, toca fogo no próprio corpo e já cantava fantasiado bem antes dos Mamonas Assassinas pensarem em fazer sucesso. E Chatos & Chatolins, que se vestiam como personagens do Chaves e influenciaram o funk endiabrado dos Miami Bros.

Tá lá o episódio em que o Zumbi do Mato todo quase roda na mão dos hômi por cheirar bala Garoto; a queda do palco do JuntaTribo, quando o Resist Control [única banda não-carioca no PAREDÃO] chamou geral pra subir e o tablado não suportou o peso; a vez em que Larry Antha leu uma revista de sacanagem no ar durante um programa de rádio e deu a maior merda; e as inúmeras roubadas que o próprio Panço passou – a Soutien lançaria seu único álbum, CANTANDO PRA SUBIR, em 99, e encerrou as atividades no show de lançamento. Típico do senso de humor do autor e do vocalista Cláudio.

Mas insanos mesmo são os trechos dedicados à Gangrena Gasosa. Total terror, maldição de Omulú. Histórias de sexo, despachos, encruzilhadas, hotéis vandalizados, experiências de quase-morte e uma passagem pelo Jô Soares Onze & Meia. É uma das poucas bandas que continua na ativa até hoje, entre zumbis & feridos. Aqui vai um pedacinho do capítulo A Queda da Torre de Babel, só p/ vocês sentirem o drama:

A Torre de Babel era um dos lugares mais bonitinhos que havia na Zona Sul em meados de 93. Mais precisamente em Ipanema. Local para a classe média mais alta e muito pouco a ver com um ambiente para o rock. E muito menos a ver com Piu-Piu e Gangrena Gasosa. Piu-Piu abriu a noite vestido de baiana distribuindo acarajés feitos de cocô de cachorro. “A insanidade foi antológica”, escreve Panço, testemunha ocular da escória. A Gangrena caprichou:

Como nesse show os escaldados eram poucos, na hora de ‘Despacho from Hell’, quase ninguém sabia que era o momento de jogar despacho na galera. [...] Farofa e fubá para todo o lado e uma novidade até pra mim: ovo cru. Essa parte foi, com licença da palavra, linda. [...] As pessoas tentando se esconder, o estofado português das cadeiras totalmente detonado. O frango assado bateu em cima da mesa da dona do lugar, ricocheteou na parede e caiu no chão. Paulão jogou uma cebola gigante no telão [...]. Depois desse caos nuclear, queriam que limpassem tudo e pagassem o prejuízo. Ninguém até hoje sabe a quantia e nem o nível dos estragos. Arrumamos tudo rapidinho e demos no pé. Clássico. 

UM SONHO VIRANDO REALIDADE 
O título do livro é uma referência, e uma provocação, ao BARULHO do paulista André Barcinski, que retratou a cena alternativa americana no início da década de 90 – quando algumas bandas como Nirvana e Red Hot Chili Peppers já não eram tão alternativas assim.

Eu li numa entrevista que o Barcinski falava que não gostava das bandas brasileiras, achava o underground chato, ruim, lá fora era mais legal e tal”, ele explica no vídeo promocional feito pelo zineiro Márcio Sno: “O nome veio daí. Se ele fez o BARULHO, eu vou fazer o ESPORRO. E decidi escrever sobre o meu underground, sobre o que eu vivo no Rio de Janeiro.

A pesquisa foi feita entre 97 e 98, mas o material permaneceu arquivado até este ano. Em janeiro, Panço deixou a Jason. “Durante 14 anos fiz centenas de shows pelo Brasil, quase 100 só no nordeste, mais de 100 na Europa em 3 turnês gringas, gravei 4 discos, vários lados B, clipes, faixas saíram em coletâneas, lancei 3 discos no exterior, sendo um em LP. Uau.

Enquanto as pedras rolavam, escreveu seu livro de estréia – JASON 2001: Uma Odisséia na Europa – sobre a primeira tour internacional, quando fizeram 62 shows em 80 dias por squats do País Basco, Alemanha Oriental, Eslovênia, Suíça etc. Há 3 anos lançou CARAS DESSA IDADE NÃO LÊEM MANUAIS, sobre sua 4ª viagem à Europa, dessa vez sozinho. Em 2011, finalmente o ESPORRO.

O livro era muito difícil de terminar, ele é do tamanho dos outros 2 livros juntos”, Panço fala no teaser, referindo-se também à arte do parceiro Flock, baixista do Jason e designer responsável pelo belo trabalho gráfico, da capa às páginas internas.  “Agora já foi difícil de fazer, deu trabalho e exigiu algumas coisas da gente que 12 anos atrás teria sido completamente impossível ter feito.

Tudo no seu tempo. Hoje tem festa de lançamento no DoSol Rock Bar, em Natal/RN. Depois de fazer Sul, Sudeste e Nordeste, dia 26 ele volta a São Paulo, na cidade de Bragança, dia 29 é na Choque Cultural, 30 outra festa em Sampa, 31 Bauru, São Carlos 01/11 e Campinas dia 02. O livro tem 268 páginas, custa apenas R$ 30, e você ganha de brinde 3 discos do catálogo da Tamborete.

Muito rock e alguma música”, diz a dedicatória da cópia autografada que eu ganhei. Comprei os 2 livros anteriores, e c/ a grana Panço me pagou umas cervejas e ainda me deixou escolher 7 CDs da banquinha que ele monta em cada lugar por onde passa.

Quem viveu o sonho do rock vai se ver nas roubadas, outros vão lembrar de shows que foram. Você pode estar em qualquer cidade do mundo, mas o rock, os palcos imundos, o equipamento ruim, a cerveja e sentar na calçada de madrugada para esperar o primeiro ônibus, serão sempre iguais. 

Leonardo Panço é o primeiro amigo que eu fiz no Rio de Janeiro. 15 anos depois, aí está a entrevista. 

Viva La Brasa - Cadê seus óculos? 
Leonardo Panço - Isso mostra que você ainda não conseguiu ler os três livros, já que no segundo eu conto como foi a extremamente bem sucedida cirurgia de miopia que fiz em 2006. Mas você chega lá. 

VLB - Quando eu te conheci vc tinha uma banda e dois zines. O que veio primeiro, a roqueiragem ou o zinismo? 
LP - O rock, sempre. Sempre tive um único sonho, que foi o de ser guitarrista de uma banda de rock. Todas as outras coisas vieram depois, ao acaso, com o passar do tempo eu fui viajando em outras paradas, desenvolvendo novas ideias, e daí vieram os zines, os livros, a gravadora, as turnês de banda e livro, e tudo mais. 

VLB - Você lembra do baculejo que nós tomamos na noite do meu aniversário, em 96? Na verdade quem tomou a dura foram vc e os caras do Cabeça, eu e o Hugo [Leonardo, autor do livro DA FÚRIA À MELANCOLIA] dissemos que éramos turistas e os hômi liberaram de boa... 
LP - Incrível, tenho zero memória disso. Às vezes as pessoas contam coisas antigas e eu consigo lembrar aos poucos, mas essa nem com você contando me veio à mente. Mas acredito. 

VLB - Pegou nada, ninguém tava de cima. Bom, pra quem não conheceu, poderíamos dizer que se a Soutien Xiita fosse uma pizza seria uma grande 3 sabores: Anthrax, Pantera e Faith No More? 
LP - Acho que o Cabelada diria que faltou um Red Hot aí e eu diria que faltou Cólera, Replicantes e Garotos Podres em alguns momentos. Mas principalmente FNM e Pantera total. Anthrax também, mas acho que menos. 

VLB - Vc trampava na EMI qdo nos conhecemos, tava no projeto PAREDÃO. Continuou lá depois que a coletânea saiu? 
LP - Enquanto o PAREDÃO foi divulgado, eu estava lá sim, inclusive a festa de Curitiba eu ajudei com toques, a do Rio também, eles me consultavam para saber o que seria melhor, etc. Fui estagiário da EMI por pouco mais de um ano e hoje vejo que não deveria ter saído. Eu ficava ouvindo fitas demo o dia todo, de tudo que é estilo, e tentava indicar ao pai do Rafael o que eu gostava. Mas não sei identificar um pagode bom, um axé bom, e achava chato ficar lá fazendo aquilo. Saí da EMI porque me achava meio inútil lá. 

VLB - Foi daí que vc e o Rafael começaram a Tamborete? 
LP - Comecei a Tamborete com o Rafael nessa época e acho que teria dado para conciliar as duas coisas por um tempo, principalmente por causa do dinheiro que eu recebia e fazia muita falta. 

VLB - Falando no Rafael, quando vcs e os 2 do Poindexter montaram o Jason, foi tipo uma superbanda do underground carioca né? Só figura carimbada... Vcs tinham essa idéia qdo começaram a tocar juntos? 
LP - A ideia era fazer uma coisa que a gente não vinha conseguindo fazer nas nossas três bandas (apesar de que eu acho que o Soutien já tinha acabado), que era não se aborrecer, não ter pessoas que faltassem aos ensaios, que não fossem aos shows, e acima de tudo, fazer músicas de maneira mais rápida, sem muita firula. Então criamos uma regra de cada um levar as músicas prontas e o Flock levou o caderninho com letras, tanto que 'Marra de Cão' é 100% igual agora a primeira vez em que ela foi tocada. Tudo muito simples e rápido. Mas não tínhamos ideia de ser uma superbanda não. Essa é o Superheavy de Jagger, Marley, Stone... 

VLB - O Soutien durou quase 10 anos, mas viajou pouco, tocou em poucos festivais e só lançou 1 disco, depois de muitas demos. Já c/ o Jason foi o contrário, as coisas sempre aconteceram mais rápido: discos, viagens e sei lá, festivais?! Além de vcs estarem mais experientes e espertos, a banda nova tinha um esquema mais redondinho que funcionava melhor? 
LP - Se a gente pensar direitinho, o Soutien praticamente só durou 2 anos, que foram 92 e 93. Nesses anos a gente compôs acho que 99% das músicas que entraram no CD, foi quando não mudamos de formação, conseguimos tocar mais, etc. Depois o que eu considero foi o ano que tivemos com Pedro e Melvin na bateria e baixo. Tocamos em SP, interior, PR, SC, na Expo Alternative em 96. Em 99 a gente voltou com a formação das antigas para uns 4 ensaios e a gravação do disco, e encerramos para sempre no show de lançamento. Já realmente com o Jason foi ao contrário, porque as coisas eram mais diretas, cada um tinha uma área de atuação mais clara, Rafael na produção, eu nos shows, Flock com a arte, e toda semana tinha ensaio, a gente criava em casa, levava coisas prontas, era tudo mais interessante e produtivo. Depois coloquei pilha para começarmos a viajar e por aí foi. 

VLB - O disco de estréia do Jason, ODEIA EU, é puro hardcore e só tem hit! Depois a banda seguiu numa direção mais... new metal? C/ umas letras mais... abstratas? Se bem que o REGRESSÃO tem uns HC nervosão... 
LP - Eu ainda acho que o segundo é parecido com o disco de estreia de certo modo. Ele ainda é bem direto, as letras são mais diretas. Mas o terceiro realmente é bem mais viajante, rolou uma outra época na vida de todo mundo, é normal. E mais viagem ainda é a leva que gerou um CD split lá na Europa, com o Glerm (ex-Boi Mamão) no vocal. Capaz que nestas músicas estão minhas melhores guitarras, que inclusive gravei no nordeste, com a produção de Marcelo Gomão (Vamoz), na minha modesta opinião, um dos três melhores guitarristas do Brasil, sendo que diria o de melhor gosto. 

VLB - Vcs fizeram mais alguma tour européia além da que tá no livro JASON 2001? 
LP - Fizemos sim. Em 2003 foram 26 shows em 4 países. Tivemos um problema com o Glerm, ele teve que voltar para o Brasil, e perdemos uns 3 ou 4 shows e fizemos 19 como um trio. Em 2006 voltamos para 38 concertos em uns 6 países, eu acho. 

VLB - Tocaram pela América do Sul tb? 
LP - A gente esteve prestes a ir duas vezes, mas não aconteceu. Hoje eu vejo que foi melhor, seria muito mambembe e traria complicações muito maiores que os êxitos. 

VLB - Esse livro que eu citei já tem 10 anos. Qdo vc tocou pela 1ª vez na Europa, uma coisa que te chamou atenção foi o esquema profissa c/ que os squats funcionam lá e a infra que as bandas têm, tipo vans, amps delas mesmas. Vc disse que ainda faltava muito pro Brasil chegar nesse nível. E agora, falta quanto? 
LP - Agora a gente está diferente de uma maneira muito melhor, mas acho que nunca vamos ser como eles, porque nós somos nós, não eles. Acho que nunca vamos ter tantos squats como eles, nem tantos centros culturais, nem vans, etc. Seria legal que as bandas tivessem seus próprios amps, isso ainda acho que é viável, e que vamos ter ainda. Mas estamos melhorando. 

VLB - Quais foram os shows mais memoráveis da sua vida? Quais as bandas c/ quem vc mais gostou de tocar junto na mesma noite? 
LP - Pô, são quase 500 shows, difícil lembrar de tudo. Poderia falar de um monte, mas vou falar do mais emocionante na minha opinião. Provavelmente os outros têm outras opiniões. A gente passou por dificuldades gigantes, muito complexas mesmo, na tour de 2003 na Europa, coisas que o próprio Glerm explicou no blog dele na época. E numa segunda-feira tivemos que viajar uns 600km pra ir levar ele ao aeroporto de Frankfurt para ele voltar ao Brasil, foi tudo muito difícil. Tínhamos show nesse dia na Alemanha e ligamos para o promotor para dizer que a gente tava longe para caralho e não daria para chegar, uma segunda, já era tarde, etc. Isso com a gente já na estrada. Daí o cara falou 'mete bronca, vem para cá, que ninguém vai embora enquanto vocês não chegarem'. Marcelo meteu 190 na van e chegamos lá quase 11 da noite. Tinha umas 50 pessoas esperando, a gente fez o show como trio, sem saber nem quais músicas tocar, o que fazer, e foi fuderoso. As pessoas gritaram, deram muita força, pediram bis, mosh, pogo. Para mim é o meu dia mais emocionante. 

VLB - Qdo vcs vieram tocar em Aracaju em 98, numa festa que eu tava ajudando a organizar, tu colecionava credenciais e o Flock cartões telefônicos [!!!]... Continuam as coleções? 
LP - Eu não, Flock também não creio. Na verdade não sei se era uma coleção exatamente, mas eu guardava todas as credenciais. Na verdade guardo até hoje, mas agora não tenho mais credenciais. Era uma época em que eu estava muito mais envolvido com o show business, eu acho. Ia nas festas, recebia convites para festivais, ganhava camisetas, discos, as pessoas queriam que eu estivesse por lá por causa de reflexos da EMI, do começo da Tamborete, etc. Em algum momento da minha vida eu fiquei de saco cheio disso e me afastei um pouco, comecei a achar tudo chato, e na real, hoje acho que ainda acho, pouco apareço nos shows, eventos, a não ser que tenha bebida e comida liberada, aí dependendo do que for, eu até vou. Então não ganho mais muitas credenciais, ainda mais agora sem tocar no Jason, né. 

VLB - Por que vc saiu do Jason e aposentou a guitarra? 
LP - São mil motivos, mil razões, etc, mas acho que dá para resumir no último ensaio que eu fui. Não sei o que toquei, estava achando um saco estar ali, não via a hora de ir embora fazer o que eu tinha marcado para logo depois, não queria estar lá, simples assim. Acho que foi aos poucos, mas fui me enchendo de tocar, de pegar ônibus para ensaiar, uma outra fase na vida mesmo. Mas a guitarra eu sigo tocando em casa todos os dias de brincadeira, como deveria ser na verdade, sem obrigação. Quem sabe sai alguma música ali e eu dou para alguém gravar... 

VLB - Vc manteve todas as suas guitarras? 
LP - Eu sou, guardadas algumas proporções, como Tony Iommi do Black Sabbath. Um marshall, uma palheta, uma correia, um cabo e uma Gibson SG. Ele tem a vantagem de ter um dedo de metal e tocar mais pesado que eu. :) Mas é o que digo acima, toco todos os dias um pouquinho. Mas só tenho essa guitarra agora. A Finch Les Paul vendi quando estava sem emprego e a Washburn que usei para gravar o ODEIA EU, dei de presente para o filho da minha prima, o Matheus. Ele tinha três anos, agora cinco, e eu vi o talento dele com duas colheres de pau num tamborete, incrível mesmo. Daí minha prima disse que ele ficava brincando de raquete de tênis como se fosse uma guitarra e peguei a minha e dei de presente para ele. Ele surtou: 'Minha guirrata, minha guirrata!'... Acho que foi bem feito e espero que ele aproveite bastante.

VLB - Mesmo assim vc e os caras continuam parceirões né. O Flock fez a arte do livro novo e os cartazes da tour... 
LP - Olha, para ser sincero, minha relação com o Marcelo sempre foi 100% ligada ao Jason, é possível contar nos dedos de uma única mão as vezes que nos vimos fora de algo relacionado à banda. Acho que temos uma relação boa, mas distante. Capaz que a gente é meio parecido, de ficar muito em casa, fazendo suas coisas, etc. O Vital não vejo desde janeiro e nem falei mais. Acredito que não haja nenhum problema, mas também a vida acaba levando cada um para lados diferentes. É uma cidade muito grande, temos empregos que já nos colocam muito ocupados e geograficamente distantes. Para ser sincero, acho que vejo poucas pessoas, sem ser as que trabalham comigo no dia-a-dia. Flock realmente eu encontrei agora para as coisas do ESPORRO e nos falamos bastante para resolver tudo da edição do livro, tomar milhões de decisões juntos. As fotos de divulgação foram feitas na minha casa. Aquela parede grafitada é a minha sala, que ele pintou na festa do meu aniversário de 2009. Não pude ir na exposição dele porque saio 22h do trabalho e não era compatível com os horários do café onde ele estava expondo. 

VLB - Panço, essa sua tour de lançamento do ESPORRO é um negócio meio inédito no Brasil, mas nem tanto. Vc mesmo já tinha feito coisa parecida em 2009 qdo lançou o CARAS DESSA IDADE NÃO LÊEM MANUAIS... 
LP - Tenho para mim que não é inédito porque eu mesmo inventei de fazer uma outra do segundo livro em 2008/2009, isso é mais comum nos EUA, acho que até na Europa não se faz muito, para ser honesto não sei. Sei que na 'América' é comum. 

VLB - E agora, já passou por quantas cidades? 
LP - Já lancei em Curitiba, Joinville, São José, Florianópolis, Porto Alegre, Campo Bom, Sapiranga, Sapucaia do Sul, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa e Natal. Agora tenho dois eventos em SP, Bauru, São Carlos, Bragança Paulista e Campinas. Daí volto para casa e estou fechando Rio, Nova Iguaçu, Resende e Volta Redonda, todas cidades no RJ. Espero que novos convites cheguem. 

VLB - Quais as noitadas mais legais da tour até agora? 
LP - Tenho uma noite preferida, mas não falaria qual é, soaria deselegante com as outras. 

VLB - O livro tem vendido bem? Vale a pena esse esquema de pegar a estrada p/ lançar livro? 
LP - Se vale a pena ou não, é sempre uma discussão grande. Se você vende 15 livros em uma cidade do outro lado do Brasil, pode achar que não foi grande coisa, e eu particularmente, acho pouco, mas as pessoas com quem eu converso dizem que foi bom. Eu sigo achando que poderia ser melhor, mas já é claramente melhor que a tour anterior. 

VLB - Cara, as histórias do Gangrena Gasosa são as mais insanas do ESPORRO, terrorismo total. Ficou alguma coisa de fora, tipo impublicável? 
LP - Ficou sim. Eu achei que hoje em dia algumas coisas não valem mais a pena, o povo tem filhos, empregos, casamentos. Não exatamente da Gangrena, mas no geral, espero ter tirado o que não cabia ali. Só se eu tivesse uma editora grande, que assumisse possíveis processos. 

VLB - Por que o Fumê, vocalista mais louco do Zumbi do Mato, passa meio batido no livro? Não descolou nenhuma foto dele? 
LP - Nunca vi um show do Zumbi com o Fumê, de repente pode ter sido um erro meu, mas não cogitei entrevistar ele, nem nunca falei com ele na verdade. Acho a gravação da demo com ele absolutamente genial, um espetáculo do mundo moderno, mas no final das contas não falei com ele. 

VLB - Eu conheci ele em 96, de moicano e jaqueta de couro distribuindo sopa pros mendigos no centro. Só gosto do Zumbi do Mato c/ o Fumê, c/ o Löis é mais cabeça, o cara é músico, universitário, e o Fumê era mais demente, quando ele cantava “vai chupar cocô pra ver disco voador” vc sentia que o negócio era mais ameaçador... e engraçado! A última notícia que eu tive foi de um cartaz anarco-punk que é a foto dele beijando um cara, essa poderia entrar no livro hahah... 
LP - Ele beijando um cara? Seria só mais um cara beijando outro cara, não há nada demais nisso. 

VLB - Adelvan me falou que uma vez levou o Jason inteiro pra um puteiro aqui de Aracaju depois de um show de vcs... 
LP - Já fui em puteiro com Adelvan umas duas vezes, eu acho, e essa noite a que ele se refere foi muito divertida. Um senhor, que era professor de uma Universidade do SE, ficou pelado e brochou. Foram horas divertidas e de cerveja barata, mas nada de conjunção carnal. 

VLB - Vc é autêntico carioca suburbano... As zonas norte e oeste são tipo um outro Rio, comparadas à zona sul e Barra né. Como se fosse outra cidade. Eu nunca fui na sua casa, então diz aí: a Vila da Penha é legal de se morar? É sossegada ou rola aquelas fitas de tiroteio e tals? 
LP - Eu acho tranquilaço de morar na Vila da Penha, é onde eu nasci e cresci e onde morei a vida inteira. Tem tiroteios de vez em quando, já caiu bala no meu quintal, mas eu sigo lá e gosto no geral. A parte ruim é ser tão longe do trabalho, na Barra da Tijuca. São quatro ônibus por dia, 90km ida e volta, 3h perdidas. Mas para eu sair de lá, numa casa com meus cachorros, árvores, etc, e ir morar mais perto, teria que morar num quitinete apertado, pagar aluguel, jogar meus cachorros nas ruas, de onde eles vieram, não faz muito meu estilo. 

VLB - Vc trabalhou um tempo no globoesporte.com e agora tá na globo.com. Qual sua função e como vc começou a trabalhar lá? 
LP - Fiquei 7 meses no globoesporte.com como TR, que é o mocambo que narra os jogos de futebol escrevendo, uma tortura chinesa. Além disso era redator quando não tinha jogos. Me demiti e fui para a Europa de bobeira por três meses. Longa história. Depois voltei para um contrato de quatro meses para o amador, ou seja, todos os esportes que não futebol. Era só um apoio para as Olimpíadas. Agora já estou há 3 anos como um dos editores da home, do portal da globo.com. Agora sim eu gosto, acho mais divertido, não precisa ver jogos de futebol o tempo todo. Apesar de entender, mais ou menos gostar, ter um time (Vasco), não gosto de ver jogos de futebol, muito menos por obrigação. 

VLB - A Tamborete é um selo que começou como gravadora mas hj tb funciona como editora. Qual o futuro que vc vê pro mercado de música? 
LP - Acho que a tendência é cada vez ser tudo mais gratuito do que já é agora, não creio que os CDs resistam por muito mais tempo. Ainda tem amantes do formato físico, pessoas que gostam de vinis também, mas as novas gerações não dão a mínima no geral. 

VLB - E a cena do RJ, como tá hoje? 
LP - Acho que está como sempre esteve, mas para ser sincero eu mal frequento shows, não conheço as bandas novas, não apareço muito nos lugares. Nova geração, seja bem-vinda. 

VLB - A pergunta que não quer calar: O que é o 'meneghetti'? 
LP - Essa só o Claudio do Soutien Xiita pode responder, já que ele é o criador.

MUITO ROCK & ALGUMA MÚSICA
EU VOU CHAMAR O SÍNDICO! MEU AMIGO...
 ALEMANHA ORIENTAL, TOUR EUROPA 2001
JAM SESSION C/ A BANDA ELMO, JAMPA 2009
ENTREVISTA P/ O ZINEIRO MÁRCIO SNO, 2011
LANÇAMENTO DO ESPORRO EM RECIFE, TERÇA
PANÇO, O TONY IOMMI DA VILA DA PENHA

AGRADECIMENTOS: ADELVAN [Programa de Rock], CRISTHIANO [Virote Coletivo]
FOTOS: MICHAEL MENESES, FELIPE LIMA, FLÁVIO FLOCK + ARQUIVO PESSOAL

3 comentários:

Renato Portugal disse...

Grande entrevista com o grande brasileiro, grande amigo e grande conterrâneo vilapenhense, Leonardo panço. Mas o que eu mais gostei foi de reencontrar virtualmente o Adolfo Sá, do ótimo zine Cabrunco, com quem tive a oportunidade de trocar zines e correspondências naquela época boa que não volta mais.

Alex Dusky Araujo disse...

O livro é uma bela publicação e tenho muito prazer em ter feito parte dessa história. Parabéns pela entrevista e ao Panço pelo livro!

Adelvan disse...

Adolfo, foda, entrevista longa e nem um pouco chata. supercompleta. Grandes figuras. Amém.