sábado, outubro 15, 2011

ESTA VIDA PUTA
Revolucionário é um termo tão desgastado na música que basta posar c/ roupa camuflada e cara de mau p/ ser considerado como tal. Rappers e rockers pagam de bad boys e durões, mas quantos teriam colhões p/ enfrentar um exército?

FELA KUTI, multiins- trumentista e ativista político que criou um país pra si & uma música pro mundo, disse: Criatividade, não destruição, deve ser medida de grandeza. Nascido em 15/10/1938 no estado de Ogun, na Nigéria, Olufela Ransome-Kuti teve uma boa educação de classe média – seu pai era pastor & professor, sua mãe foi militante do movimento anticolonial [e também a primeira mulher nigeriana a dirigir um carro], seus irmãos são médicos. 

Fela estudou na Inglaterra de 1958 a 62, na Trinity College of Music, onde montou o grupo Koola Lobitos e forjou a mistura de jazz, funk e ritmos africanos que ficaria conhecida como AFROBEAT. Voltou à terra natal após se formar e lançou seus primeiros discos, enquanto trabalhava como produtor de rádio. No final dos anos 60 passa 8 meses nos Estados Unidos, conhece o movimento Black Power através de Sandra Smith dos Panteras Negras e grava o álbum THE '69 LOS ANGELES SESSIONS.

Muda seu nome p/ Fela Anikulapo Kuti, “aquele que carrega a morte no bolso”, dizendo que Ransome, seu nome do meio, era herança escrava. Rebatiza sua banda p/ AFRICA 70 e institui nos domínios da sua casa a República Kalakuta, uma comunidade em torno de um estúdio de gravação. Declara-se independente do Estado da Nigéria e monta as boates Afro-Spot & Afrika Shrine p/ fazer seus shows. Tudo isso enquanto lança EPs e LPs clássicos como WHY BLACK MAN DEY SUFFER, NAPOI, OPEN & CLOSE, SHAKARA, ROFOROFO FIGHT, AFRODISIAC, GENTLEMAN e até 2 discos c/ o batera Ginger Baker, do Cream.

Sua música une a percussão africana, os metais do funk e a estrutura do jazz. “Nós criamos estilos de músicas, mas ele criou um gênero”, dizia o trompetista Miles Davis, mestre do cool jazz e criador do fusion: “Fela encontrou uma linguagem. No século XX, é o único artista que pode dizer que criou um gênero musical.” O crítico Ronaldo Evangelista, do UOL, nos ajuda a entender as inovações do negão: “Bateria polirrítmica, percussão acentuando os contratempos, diálogos de baixo e guitarra, solos de sax e piano elétrico, vocais de chamado-e-resposta”...

Elementos que ele desenvolveu, como o “endless groove”, c/ cozinha e guitarra marcando o ritmo, e a estratégia do “call-and-response”, c/ palavras repetidas pelo coro em rifes breves, são usados à exaustão no hip-hop e R&B atuais. As canções duravam mais de 10 minutos, puro groove c/ solos e instroduções de sax ou teclado, seus principais instrumentos. Também tocava guitarra, trompete e bateria. Era como se o James Brown e o John Coltrane fossem um cara só – e morasse na África. 

Enquanto Bob Marley profetizava a volta às raízes, Fela Kuti expandia o panafricanismo de dentro das entranhas. A Nigéria é o país mais populoso do continente africano, tem a maior população negra do mundo, terceira maior indústria cinematográfica do planeta e um dos maiores crescimentos econômicos – média de 8,5% ao ano. Mesmo assim, grande parte da população vive em pobreza absoluta. Fela denunciava essa exploração em alto e bom som, batia de frente c/ o sistema e pagava caro por isso.

Em 74 a polícia invadiu sua casa c/ um mandado de busca e encontrou um baseado – que Kuti tomou da mão do guarda e engoliu. Levaram ele p/ a cadeia e examinaram as fezes, mas o malandro entregou a amostra de outro detento e acabou liberado por falta de provas. Este episódio inspirou o hit Expensive Shit. Em 77, lança o álbum ZOMBIE criticando as forças armadas zumbificadas. A execução da faixa-título nas rádios enfurece o governo, que envia 1000 soldados p/ a República Kalakuta.

O exército invade a comuna, estupra as mulheres, incendeia a casa – destruindo o estúdio cheio de instrumentos e gravações originais – , tritura o líder na porrada e arremessa a mãe do cara pela janela. Funmilayo Ransome-Kuti não resiste aos ferimentos e morre no hospital. Fela envia o caixão c/ o corpo da mãe p/ o quartel-general em Lagos e escreve mais duas canções: Coffin for Head of State e Unknown Soldier. “Ele estava deprimido, dizendo que ia se suicidar”, revela o cientista político Carlos Moore, cubano radicado no Brasil.

Moore conheceu Kuti logo após o ataque das tropas federais e a partir daí escreveu a biografia FELA - ESTA VIDA PUTA, lançada em 1982. “Na primeira vez que fui à Nigéria, ouvi o som do Fela num mercado. Fiquei louco e comecei a perguntar quem tinha feito aquela música, onde eu poderia comprar. Me responderam que não, eu não podia, aquela música estava proibida. Aí eu me interessei ainda mais. Até que amigos uma noite me levaram para conhecê-lo. Ele me disse: - Bem-vindo, Carlos, a essa merda que chamam de Nigéria!

Queixo-duro. Em resposta à investida do governo, transfere a sede da sua república pessoal p/ o Crossroads Hotel e realiza uma cerimônia de casamento c/ 27 mulheres ao mesmo tempo, incluindo suas bailarinas e backing-vocals. Isso é que é sangue-de-tigre, Charlie Sheen ainda tem que dançar muito o afrobeat p/ chegar nesse nível... Em 79, funda um partido, o Movimento do Povo, e se candidata a presidente nas primeiras eleições abertas em 10 anos. Durante a campanha é abandonado pela banda e ainda tem sua candidatura recusada pelo sistema eleitoral nigeriano, que só admitia 2 partidos – os já existentes.

Fela cantava em inglês usando palavras-chaves em Pidgin e Yorubá, podendo assim ser compreendido em todos os países africanos e nas grandes potências. Suas letras engajadas em canções que chegavam facilmente aos 20 minutos impediram uma assimilação maior no Ocidente, mas seu status de pop star na África o levou a turnês bem-sucedidas nos EUA e Europa, fazendo shows emblemáticos como no Berlin Jazz Festival. “Ele nunca tocava a mesma música novamente”, diz Moore. “Havia encontrado uma riqueza de ouvir e interpretar em um universo de criação onde não precisava repetir-se.

Na década seguinte monta a EGYPT 80, divorcia-se das 12 esposas que lhe restavam – “casamento traz ciúmes e egoísmo” – e é novamente preso em 1984, por citar os nomes do General Olusegun Obasanjo e do vice-presidente Moshood Abiola no hit International Thief Thief. Liberto após 20 meses graças à pressão da Anistia Internacional, apresenta-se junto a Carlos Santana, Neville Brothers e Bono do U2 no Giants Stadium. Em 89 lança BEASTS OF NO NATION, manifesto anti-apartheid que trazia na capa Ronald Reagan, Margareth Thatcher e PW Botha [primeiro-ministro da África do Sul] como vampiros c/ caninos sujos de sangue.

Mantendo-se na oposição ao ditador Sani Abacha, segue gravando discos ao longo dos anos 90 até falecer em 03/08/1997, vítima da AIDS – epidemia que ainda assola a África. Tinha 58 anos e foi enterrado c/ honras de chefe de Estado. Mais de 1 milhão de pessoas acompanharam o seu funeral. Desde então, todo dia 15 de outubro a data do seu nascimento é lembrada. 14 anos depois da sua morte, a música de Fela continua viva – e celebrando! É o Fela Day, c/ eventos simultâneos em vários continentes.

Femi Kuti, filho do seu primeiro casamento c/ Remi Taylor em 1961, segue a carreira do pai e esteve no Brasil em dezembro de 2010, quando foi a principal atração do festival BATUQUE - Conexão África/Brasil. Este ano, a editora Nandyala relançou ESTA VIDA PUTA c/ direito a noites de autógrafo nas capitais brasileiras c/ maior concentração de população negra: Salvador, Recife e Rio de Janeiro. Dois dos astros negros mais poderosos do momento, Jay-Z e Will Smith, são os produtores do musical FELA!, sucesso da Broadway que levou 3 prêmios Tony.

Hoje elementos do afrobeat se tornaram parte da linguagem musical contemporânea, mas enquanto Fela estava presente seu poder de criação era tão amplo e único que chegava a intimidar, tributos não eram tão comuns”, diz Evangelista. “Essa sempre foi a dificuldade do afrobeat”, conclui o dr. Moore. “Ninguém sabia de onde vinha aquilo, ninguém conseguia tocar aquela música. Veja que todas as orquestras de afrobeat só existem depois que ele morre. Foi a morte de Fela Kuti que liberou o afrobeat. 

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This is brother Fela Ransome-Kuti,
This is one time I would like to say a few things.
Men are born, kings are made, tributes are sang, wars are fought,
Every country has its own problems,
So has Nigeria. So has Africa.
Let us bind our wounds and live together in peace,
Nigeria. One nation. Indivisible.
Long live Nigeria. Viva Africa.
 

The history of mankind is full of obvious turning points, 
And significant events.
Though tongue and tribe may differ,
We are all Nigerians, we are all Africans.
War is not the answer.

It has never been the answer,
And it will never be the answer,
Fight amongst each other.

Lets live together in peace,
Nigeria. One nation. Indivisible.
Long live Nigeria. Viva Africa.
 
Lets eat together like we used to eat,
Lets plan together like we used to plan,
Sing together like we used to sing,
Dance together like we used to dance.
United we stand,

Divided we fall.
You know what I mean,
Let us bind our wounds,
And live together in peace,
Nigeria. One nation. 

Indivisible.
Long live Nigeria. Viva Africa.

Brothers and sisters in Africa,
Never should we learn to wage war against each other.
Let Nigeria be a lesson to all,
We have more to learn building than destroying.
Our people cant afford anymore suffering,
Lets join hands, Africa,
We have nothing to lose, but a lot to gain.
War is not the answer, war has never been the answer
,
And it will never be the answer,
Fighting amongst each other.
One nation. Indivisible.

Long live Nigeria. Viva Africa.

A MÚSICA É A ARMA
FELA DAY 15/10: FELABRATION WORLD WIDE
PRESIDENTE KUTI, REI DO TESTE DO SOFÁ
FELA & FEMI, AFROBEAT DE PAI PRA FILHO
REPÚBLICA KALAKUTA, PAÍS QUE ELE FUNDOU
 O MUSICAL 'FELA!', CO-PRODUZIDO POR JAY-Z

DEDICO ESTE POST AO MEU AMIGO MARCÃO [E EM MEMÓRIA DO MANO NEGO JOHN]

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