segunda-feira, outubro 03, 2011

R.I.R. P/ NÃO CHORAR*
A bunda da Rihanna. O beijo da Katy Perry. A Ke$ha quebrando a guitarra. Cláudia Leitte cantando Led Zeppelin. Os canhões de fogo do Metallica. O mosh do Slipknot. A tirolesa passando em frente às câmeras. A roda gigante. A Ivete Sangalo. Shakira. Skunk. Detonautas. NXZero. Glória. Atrações do maior festival do mundo, digo, da Globo.
Mainstream, mastodôntico, milionário, o Rock In Rio é um evento feito p/ agradar gregos & baianos. A escalação dos artistas é realizada através das paradas de sucesso e pesquisas de opinião. Tudo é calculado, do investimento na produção à atitude das bandas. “No R.I.R. 2011 entende-se tudinho: João Gordo sendo chamado de ‘traidor do movimento’, as tatuagens ‘iradas’ do Dinho Ouro Preto, a máscara de Hannibal Lecter do cara do Slipknot”, enumera o jornalista DJ Camilo Rocha no blog Bate-Estaca:

Os solos de guitarra, baquetas voando, distorção, pauleira, pulos, palavrões, caretas, cabelos ao vento, dentes cerrados, roupas pretas, meninas de sutiã, bandeiras do Brasil, flertes satanistas, reboladas sexy, o vídeo anti-drogas, a cerveja oficial, espetáculo, showbiz, circo. Não deixa de ser simpático que o fator coxinha do Rock In Rio ainda provoque estranhamen- to. Que ainda se procure no rock algum traço de rebeldia e contestação anti-corporativa. Essas reações são simpáticas porque mostram que sobrevive a crença de que o rock tem algo a ver com valores contraculturais e transgressores. Infelizmente não tem. Isso está em outro lugar.

Na primeira edição do evento jogaram uma galinha pro Ozzy – mas uma cláusula no contrato o proibia de morder qualquer animal atirado ao palco. Queen, AC/DC e Iron Maiden se apresentaram em sua melhor forma, mas p/ cada Rod Stewart havia um James Taylor, p/ cada Barão Vermelho havia uma Elba Ramalho. Foi assim em 1985, foi assim em 91. O ano que revelou Faith No More e que Lobão levou latadas na noite do Megadeth também teve Engenheiros do Hawaii – precisa dizer mais? Em 2001 a maioria das atrações já era requentada: Iron, Sepultura, Rob Halford, Guns & Roses... Lembro da coletiva do Noel Gallagher do Oasis, alguém pergunta o que é necessário p/ se ter um mundo melhor [slogan daquela edição], Noel responde: “No guns!”...

É sintomático que a banda do Axl tenha encerrado o R.I.R. deste ano – uma caricatura de si mesmo.  Quantas bandas no auge fizeram shows memoráveis? Coldplay p/ quem gosta, System of a Down se eu forçar uma barra... Metallica, uma das mais elogiadas, já tem 30 anos de estrada e seu repertório é baseado em hits antigos. Situação semelhante à do Red Hot Chili Peppers – bem menos empolgante. Não é que o rock esteja morto, ele está na 3ª idade e não pode mais beber por causa da diabetes. Envelheceu, encaretou, toma remédios. Exige respeito. Motörhead e Stevie Wonder roubaram a cena c/ sua conhecida competência, mesmo assim o ceguinho teve que se desdobrar numa performance tocando teclado deitado no chão, e Lemmy pediu a platéia: “Don’t forget us! We’re Motörhead and we play rock fucking roll!

Ingressos caros, efeito manada, catarse coletiva. Megaespetáculos p/ milhões de pessoas. Cerveja quente, fila pro banheiro químico, telões p/ assistir à distância. “Não fui, não vou, tou-me a cagar”, como dizem em Lisboa, onde o Rock In Rio acontece desde 2004. Roberto Medina, publicitário mala criador do evento e dono da franquia, já confirmou a edição de 2013. Dá p/ prever as atrações: Restart, Luan Santana, Justin Bibier... Se você quer gig, não precisa esperar tanto. Em novembro acontece em Paulínia [SP] mais uma versão brasileira do SWU c/ Sonic Youth, STP, FNM, Alice In Chains, Chris Cornell... Nada de novo, mas o SWU tem mais cara de Lolapalloza, que foi o festival que começou essa história de circo & rock, e menos de Pré-Caju c/ Festa de Peão de Barretos.

Medina anunciou previamente a criação de um palco hip-hop no R.I.R. 2013. Estou precisando de grana, vou tentar me reunir c/ ele e apresentar minha idéia – o retorno de uma dupla que vendeu zilhões de discos e venceu o Grammy no início dos anos 90: Milli Vanilli! E daí que depois se descobriu que os caras não cantavam nada, apenas dançavam em cima do playback? E daí que um deles, Rob Pilatus, se suicidou em 98? É só arrumar um dançarino de break, pôr tranças de megahair e ensaiar o repertório – coreografia e dublagem – c/ o sobrevivente Fab Morvan. Se no Brasil até Axl Rose e Fernando Collor de Mello merecem uma segunda chance, por que não Milli Vanilli?

Musicalmente, somos mais talentosos do que qualquer Bob Dylan ou Paul McCartney. Mick Jagger não chega aos meus joelhos quando se trata de carisma no palco. Eu sou o novo Elvis”, disse o finado Pilatus após ganhar o prêmio de revelação. A cara do rock atual.
*PIADA DA DIZZY QUEEN / AGRADECIMENTOS: CHIVETA + WIPLASH

2 comentários:

Marcelo Viegas disse...

Opa, a parte de blogs recomendados do Zinismo andava meio abandonada, mas dei um tapa hoje e adicionei o seu. Valeu!

Viva La Brasa disse...

Valeu, Viegas! Dar um tapa é comigo mesmo, hahah.