segunda-feira, novembro 14, 2011

HERÓI DA RESISTÊNCIA
Hoje tem festa punk. Karne Krua, Conexão HC e Sublevação abrem p/ os paulistas Invasores de Cérebros e Sarjeta – que comemoram aniversário na Rua da Cultura. Se 15 anos de banda parece muito, o que dizer dos 30 anos de resistência do Silvio Campos? 

Silvio ‘Sub’ montou uma banda c/ o amigo Hélder Podre em 1979: MERDA, Movimento Emancipatório Roqueiro De Aracaju. No início dos anos 80 Hélder se mudou p/ Recife, onde faria a capa do 1º disco de Chico Science & Nação Zumbi e se tornaria conhecido como DJ Dolores. Enquanto isso Silvio entrava de cabeça no rock, e c/ Marcelo Gaspar na guitarra, Márlio no baixo e Almada na bateria, cria a 1ª banda punk de Sergipe. “Nós somos a carne crua que alimenta o canibal que é o sistema!

São 4 discos oficiais, porque se contarmos as fitas demo, CD-splits e coletâneas vão p/ mais de 20 lançamentos em 26 anos de Karne Krua. O álbum de estréia, de 1994, saiu em vinil e contém vários hinos da banda – O Vinho da História, Filhos do Medo, Rumores de Guerra, Sangue Operário, Política da Seca... Muitas formações depois a KxKx se estabilizou c/ Alexandre Ghandi na guitarra, Ivo no baixo e Adriano na batera, todos da nova geração hardcore, vindos do Gee-O-Die e Triste Fim de Rosilene.

Muito respeitados na cena nacional, já ganharam tributo organizado pelo DFC de Brasília, mas tocaram pouco fora do estado. “Uma vez perdemos uma oportunidade, a Epitaph entrou em contato querendo ver um show da gente pra uma subdivisão, o Grita!. Os produtores iriam passar por RJ e SP querendo ver bandas que cantassem em português e a Karne Krua foi uma das escolhidas por já ter uma história. Mas não tínhamos como produzir um show no sudeste e eles contrataram outras bandas.

Sábado, enquanto o Ratos de Porão comemorava 30 anos no Hangar 110, Silvio cantava c/ a Máquina Blues no Capitão Cook. “As pessoas se admiram de me ver fazendo blues, mas a própria Karne tem uma música chamada ‘Violência’ que é um blues muito troncho!” Pioneiro nos zines c/ o BURACAJU e o MICROFONIA, também deu início à cena anarcopunk c/ o GrAnA [Grupo Anarquista de Aracaju] e sempre desenvolveu projetos paralelos – Words Guerrilla, Sartana, Logorréia, ExTxCx... Casado, criou 2 filhos vendendo discos nas suas lojas Lokaos, nos anos 90, e Freedom.

Há 8 anos entrevistei-o pro meu TCC de jornalismo. A entrevista foi na sua casa, nos fundos da loja, e permanece tão atual quanto o punk da Karne Krua. Aos 47, Silvio segue vociferando como fará hoje à noite na Rua da Cultura. E continua dispensando a carteirinha. Definitivamente, o Sub é *UM PUNK S/ ESTEREÓTIPOS: 

Adolfo Sá - Como começou seu envolvimento com o punk?

Silvio Karne Krua - Começou quando eu conheci Santana, em 73. Foi quando eu comecei a escutar o que se poderia chamar de rock, né? Foi em 79 que eu conheci Led Zeppelin, Black Sabbath... Porque era difícil ter loja por aqui que vendesse esse tipo de som, e quando vendiam era praticamente só os ícones do rock, Beatles, The Who... Aí na década de 80, junto com Vicente Coda, que participou da Karne Krua como guitarrista, a gente de tanto escutar, chegou um dia que falamos: ‘Cara, não! Não quero só ouvir! EU QUERO FAZER!’ A gente gostava tanto que passou a querer viver isso, né, cara? Daí eu formei com ele a Sem Freio na Língua, que já era uma banda com uma proposta anárquica, não política, tipo: ‘Tarde de domingo/ paranóia no ar/ soco na televisão/ que não tem nada pra mostrar’... [risos] Um punk descompromissado, né? A Karne Krua se formou em 85 com um conteúdo anárquico e libertário, depois que eu comecei a ler os livros de Bakunin, Malatesta, material anarquista mesmo. E daí em diante não parou mais. 

AS - O que existia de punk em Aracaju, nessa época?

SKK - Nada! Éramos quatro caras que tocavam numa banda e saíam pela rua com uma viatura acompanhando o tempo todo. Márlio usava coturno, eu usava soqueira e arrebite... Não no sentido de guerrear, era mais um visual. A gente ficava perambulando, quando encontrava alguém com uma camisa de banda chamava pra conversar... [risos] Era uma coisa raríssima um cara com uma camisa de rock! Era como quatro pessoas perdidas numa floresta que acharam uma pessoa que tava ligada ao mundo, né? Às vezes não era tão ligada quanto a gente, mas a gente achava que aquela pessoa, por estar usando uma camisa do Sex Pistols, The Clash, tinha uma conexão. Porque só existia a banda, mesmo. Naquela época éramos radicais, eu posso te mostrar material onde toda a postura da banda era radical, como é até hoje. Meu posicionamento não mudou, apenas adicionamos muito mais coisas... Hoje ao discursar eu tomo o maior cuidado com o que vou falar no microfone, talvez antes eu não tivesse tanto cuidado. Não me arrependo de nada do que falei, mas hoje quando a gente tá fazendo um show pra uma garotada eu quero passar um negócio bom pra aquelas pessoas, pra que elas passem uma idéia positiva depois, não uma coisa deturpada. 

AS - Como você vê o movimento punk hoje em dia?

SKK - Hoje tem o movimento de consciência punk, que na década de 90 funcionou mais até, a gente via muito isso em São Paulo. Havia reuniões de pessoas que gostavam do movimento punk de uma maneira mais abrangente. Aí, cada vez mais a coisa foi ficando segmentada, apareceram revistas, aparecem os anarco-punks, apareceu não-sei-o-que-mais-lá... Ninguém sabe, um monte de siglas que só fazem fragmentar mais a coisa. Hoje você vai numa reunião, é uma coisa fechada, que determina o que você tem que fazer, porque você é punk, ou você não é... Acho que isso não é legal. Se você tem uma verdade, você pode mostrar. Porque não tem mais nenhum sistema militar oprimindo ninguém. Você pode chegar nas praças, fazer suas faixas, fazer seu protesto. Mas, porra, procurar a clausura? Ficar fechado dentro do próprio movimento punk? É só divergências, brigas, fofoquinhas... Já houve eventos em que, ao invés de se debater algum assunto interessante, socialmente, foram fazer lista de bandas a serem boicotadas!

Quer dizer, esses caras que não fazem porra nenhuma, nem estão mais envolvidos com movimento punk, nem com música, nem nada, atrasaram o lado de um monte de bandas. Caras que hoje ficam em casa... Eu também tenho minha casa, eu sou pai de família, mas eu vivo em caminhos alternativos. Eu trabalho desde os 18 anos e até hoje não tenho carteira assinada... Então, como é que um ‘punk’ com carteira assinada pode vir me peitar? EU MANDO TOMAR NO CU! Digo: ‘você tá falando merda’. Porque a minha vida toda eu construí em função das minhas próprias forças. Tem muita contradição no punk. Tem muita gente burra, tem muita gente legal também. A maioria das pessoas que têm algo a dar mesmo, às vezes se afastam exatamente pelo sectarismo que rola, pela coisa fechada que é, e lhe digo mais, pela coisa emergencial que é – e não dura muito. São punks fogo-de-palha, que começam a querer radicalizar, criam inimigos... Isso é mesquinho, cara, isso não existe. Disso aí eu tou fora. Punk de carteirinha, eu tou fora. 

AS - Você acha que falta ao brasileiro um espírito ‘guerrilheiro’?

SKK - Em todas as épocas, sempre apareceu alguém, algum grupo, pra levantar a bandeira dos oprimidos e lutar contra o sistema. No Brasil, eu noto um conformismo geral. Não sei se o país por ser tão grande dificulta a organização, mas a gente vê na América Latina as pessoas se manifestando na rua, seja na Colômbia seja na Argentina... A gente, que tem envolvimento com cultura libertária, com outros movimentos, a gente sente isso, no Brasil a gente vê tantas falcatruas... Se botassem uma bomba lá em Brasília e explodisse um gabinete daqueles, num instante nego ia parar de roubar. Mas nada acontece, né? Eu não tou fazendo uma apologia à violência, mas tou me referindo ao conformismo das pessoas e à tranqüilidade das autoridades, que fazem o que querem, roubam, é comprovado que roubaram, e nada acontece. É uma coisa que você vê que realmente é o povo que dá margem pra que façam isso com ele. 

VLB - Você vota?

SKK - Sempre votei. Mas desde que comecei a votar, só votei nulo. 

*zine ODIÁRIO, março 2003
KARNE VIVA
26 ANOS DE SERVIÇOS PRESTADOS AO PUNK ROCK
 HOJE À NOITE DE VOLTA À RUA DA CULTURA

FOTOS: ARTHUR SOARES + MARCELINHO HORA + ARQUIVO PESSOAL

2 comentários:

PURGATORIUS RECORDS disse...

parabéns pelo texto,só alguns equivocos que podem ser corrigidos;
a primeira formação da banda foi com o vicente coda na guitarra e não com o marcelo que entrou depois,a karne só tem 2 discos oficiais lançados o LP de 1994 e o CD EM CARNE VIVA 2002,o 3º intitulado de INANIÇÃO era pra ter saido agora em 2011 só que ocorreu uns problemas com a fabrica que acabou atrasando o lançamento,outro erro foi quando vc citou que o pessoal da banda D.F.C. organizou o tributo ao k.k.,na verdade quem organizou essa homenagem foi eu,no mais como citei acima o texto ficou ótimo,desculpe-me pela intromissão.
luiz umberto rodrigues
visite o blog PELAS BANDAS DE SERGIPE www.rocknacasadopadre.blogspot.com

Adelvan disse...

Ótimo texto. Ainda melhor com as importantes correções de Luis Humberto.