terça-feira, novembro 01, 2011

NUNCA FOMOS TÃO FELIZES
Outubro de 2011, o melhor mês do Brasil na ASP ou o quê? Duas vitórias nas duas etapas do World Tour na Europa, um dos nossos na disputa do título e a certeza de que, se Mineirinho não for o primeiro surfista brasileiro a se tornar campeão mundial, Medina um dia será.

ENFANT TERRIBLE
Cada homem deve escolher seu caminho”, aconselhava o filósofo Jean-Paul Sartre. P/ outro existencialista, Albert Camus, “não há que ter vergonha de preferir a felicidade. 

Antes da perna européia, rolou a 3ª final consecutiva entre os nºs 1 e 2 do ranking, Kelly Slater e Owen Wright, em Lower Trestles, EUA. Nunca 2 surfistas disputaram entre si 3 finais seguidas no circuito. Vitória de Slater, a 48ª no WT, 5ª só naquela praia, 3ª do ano. Monstro. Mutante. Motherfucker. Ofensas não bastam p/ descrever os feitos desse careca no surf competição. P/ dar uma noção, a 1ª vitória profissional dele foi ali mesmo em Trestles no ano que Owen nasceu. 1990.
  
Gabriel Medina nasceu em 1994, ano do tetra do Brasil na Copa do Mundo e do 2º título mundial do Slater. O caçula dos tops estreou na Califórnia, no novo sistema de rotação que é igual ao Brasileirão de futebol – os melhores colocados da 2ª divisão sobem e os piores da 1ª descem – c/ a diferença que o corte passa a ser no meio do ano e não no final, o que gerou críticas e palavrões de veteranos descontentes prestes a serem degolados. O fato é que, ou a ASP tem muita sorte, ou sabe o que está fazendo.

É a temporada mais empolgante desde no início dos anos 2000, quando KS duelava c/ Andy Irons. Altas ondas em todas as etapas e a geração mais genial dos últimos tempos chegando junto. Medina enfrentou Slater duas vezes na França, ele c/ 17 anos no seu 2º evento como membro da elite contra Kelly, 39, 10 títulos mundiais e atual líder. Na 4ª fase, em que ninguém é eliminado mas o vencedor se garante p/ duas fases adiante, a experiência venceu a juventude por míseros 3 décimos: 15.83 x 15.80.

Medina vinha de 3 vitórias na Europa no 2º semestre: um Pro-Jr. e um WQS na França, e outro 'QS na Espanha. Sempre fazendo médias altíssimas e marcando notas 10 em todos esses campeonatos c/ seus aéreos sobrenaturais. O menino tem talento de sobra, mas ninguém é campeão sem uma mãozinha do destino. Na repescagem seu adversário Jeremy Flores, maior ídolo francês, nem entrou na água contundido e Gabriel passou direto.

Quartas-de-final, novo duelo KS x GM. História sendo feita. Surfando como se estivesse em Maresias, no litoral norte paulista, o garotão humilhou o decacampeão: 18.60 x 8.60, mais que o dobro de pontos. “Acho que ele surfou bem e eu surfei mal”, disse o miseravão da Flórida que nunca dá o braço a torcer. “Infelizmente eu fiquei fora de sintonia o tempo todo e não pude oferecer resistência.” Foi assim que Napoleão perdeu a guerra.

Na semi, o massacre: 19.57 x 7.00. Score quase perfeito c/ direito a gol de placa contra Taylor Knox, 40, o mais velho do Tour23 anos de diferença de idade. “Foi um grande resultado, bom saber que meu surf ainda funciona”, disse Knox, que apelidou o brasileiro de “Medina Airlines”. A final foi contra Julian Wilson, 21. Revanche do ‘QS de Portugal vencido pelo aussie. Gabriel largou na frente c/ um 7.83, Julian tentou forçar uma interferência, reagiu c/ um sushi-roll que valeu 8.50, e assumiu a liderança c/ um 7.60.

C/ calma, Medina esperou por 10 minutos pela onda que lhe proporcionou 2 aéreos – um no início e outro na junção – e mais uma série de manobras. Recebeu 9.17 dos juízes, 10.000 pontos no ranking e U$ 75.000,00 da Quiksilver, patrocinadora do evento. “Foi fantástico, competi contra grandes surfistas, é só minha segunda etapa no Tour e quero agradecer a França, um lugar muito especial pra mim”, disse o mais jovem campeão de uma etapa do WT.

P/ dar outra noção, Slater ainda era amador aos 17. Vale lembrar que estava todo mundo lá c/ a faca nos dentes. O vice mundial Jordy Smith, de volta de uma contusão; o rebelde Dane Reynolds, que andava fora de órbita; o estreante John-John, nova promessa ianque; e o próprio Julian Wilson, também estreando na elite em 2011 e muito a fim da vitória. “Estou feliz por ter feito a final, quase ganhei uma etapa pela primeira vez mas o Medina é um fenômeno mesmo”, disse Wilson.

From grom to greatness”, era a manchete estampada no site da ESPN, numa referência ao campeonato sub-16 vencido pelo GM há apenas 2 anos nesse mesmo mar de Hossegor, o King of the Groms. Título esperto da matéria, mas os franceses têm expressão melhor. “Enfant terrible!

NAVEGAR É PRECISO
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”, rimava o poeta Camões.

Medina mal teve tempo de contar as verdinhas, e o circo da ASP já estava armado na praia de Supertubos, na região portuguesa de Peniche, onde Slater venceu ano passado. Em tubos de 5 a 7 pés, Gabriel seguiu seu “momentum” sendo o único da seleção canarinho a vencer na 1ª fase, marcando 17.87, média que nenhum outro competidor conseguiu superar naquele dia. Perdeu na fase 3, c/ a reputação de fenômeno consolidada.

Kelly Slater chegou a mais uma final, depois de parar o cearense Heitor Alves nas quartas. “É muito difícil ganhar do Kelly, as ondas parecem que vêm pro cara e ele tira manobras do nada”, conforma- se Heitor, que aos 29 anos vem fazendo sua melhor campanha no WT – ficou em 3º lugar na Califa, eliminado pelo mesmo algoz, e pela 1ª vez figura entre os Top 16 na classificação geral.

O adversário de KS10 na decisão foi Adriano de Souza, o primeiro brasileiro a liderar o mundial. Isso após a vitória no Rio em maio, porque a partir daí Mineirinho parecia amaldiçoado pelo Cacique Serigy, barrado pelos próprios compatriotas nas etapas seguintes. Perdeu p/ Alejo Muniz em J-Bay, Raoni Monteiro em Teahupoo, Jadson André em Nova York e Heitor em Trestles. Quando chegou a Portugal, era apenas o 6º no ranking.

No seu caminho em Supertubos, Mineiro venceu uma disputa apertada contra o taitiano Michel Bourez c/ uma nota 10 e na semi bateu o australiano Bede Durbidge. Enquanto isso, Slater passava por Taj Burrow no melhor tubo do evento, um 10 que lhe valeu um prêmio de U$ 10.000...

A melhor onda da final foi a primeira de Adriano, um tubão seco e rápido do qual ele já saiu c/ as mãos espalmadas, pedindo 10. Ganhou 9 e a multidão na praia vaiou os juízes. Os portugas torcendo pelo brazuca. KS tenta 2 tubos de back, só sai de um. Reage c/ uma boa direita, passa por dentro e depois por cima do lip, recebe 6.83.

Mineirinho abre 8.85 de vantagem c/ mais um barrel, cutback e batida. Kelly tenta virar c/ outro tubo p/ a esquerda, mas o 7.90 que obtém não é suficiente. 3ª vitória na carreira do guarujaense de 24 anos que também surgiu como prodígio, vencendo aos 16 o mundial sub-20 na Austrália, em 2004. Fazia 20 anos que um brasileiro não vencia duas provas numa mesma temporada, desde Fábio Gouveia na França e no Havaí em 1991.

Esta vitória vai ficar guardada para sempre, os portugueses têm uma vibração tão forte que me senti em casa, como no Brasil”, disse Adriano, de volta à disputa do título. “Foi um campeonato com ondas fantásticas, o público foi incrível lotando a praia todos os dias e posso dizer que meu coração agora é 45% Portugal e 55% Brasil.” Depois de falar isso, ajoelhou-se no pódio diante de Slater. Mais do que um gesto de submissão, uma atitude que pôs fim à animosidade alimentada pela mídia.

Quero agradecer a este cara, que já é 11 vezes campeão.” Oficialmente ainda são 10, mas basta o FreaK passar 2 baterias p/ garantir o 11º caneco. “Ele é incrível, pode tirar nota em qualquer condição de onda e é o cara a ser batido no circuito”, discursou Mineirinho. “Eu devo muito a ele por estar levantando este troféu, é o único cara no World Tour que me puxa os limites de uma forma que eu nem consigo entender. É quem me fez chegar até aqui.

Grande momento. Confirmando a fase iluminada, nosso outro novato, Miguel Pupo, venceu neste domingo um evento Prime nos EUA – pela 2ª vez este ano. O moleque de 19 voa quase tanto quanto o Medina e foi o surfista que mais pontuou nos 3 eventos O’neill Coldwater na Escócia, Tasmânia e norte da Califórnia. “Eu tava apenas tentando surfar o meu melhor e ganhei o campeonato, parece inacreditável isso!

Miguel ganhou 6.500 pontos que o impulsionaram p/ o 18º lugar no G32, e ainda recebeu uma bolada. “Esses pontos vão ajudar a me manter entre os tops, e ganhar 90 mil dólares só hoje então, é muita felicidade”, comemora o filho do shaper Wagner Pupo [campeão paulista em 1988]. “Ele deu um show”, atesta o vice Tiago Pires, único português no World Tour. “O Miguel é um dos melhores surfistas do mundo nestas condições e estou amarradão com o segundo lugar.

Gabriel Medina já é o 10º no ranking unificado. Adriano de Souza é o nº 3 na corrida ao título. Se vencer as duas últimas etapas e Slater não chegar em 9º em nenhuma, pode ser o primeiro surfista latino campeão do mundo. É difícil, improvável, mas não impossível. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, dizia um outro d’além-mar, Fernando Pessoa, no poema O INFANTE:

Deus quis que a Terra fosse toda uma, que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma. E a orla branca foi de ilha em continente, clareou, correndo, até o fim do mundo. E viu-se a Terra inteira, de repente, surgir, redonda, do azul profundo.

URO & OURO
SÓ DEU BRASIL NA EUROPA ESTE ANO
 GABRIEL MEDINA, O FUTURO HOJE
 KS11: ALGUÉM PARE ESSE CARA!
 MINEIRINHO PEGOU SUPERTUBOS
"QUEM NÃO SABE A ARTE, NÃO A ESTIMA"


FOTOS: CESTARI + FRAHARD + GOULÃO + KIRSTIN [ASP] 

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