sábado, fevereiro 26, 2011

INVASÃO SERGIPANA

Em julho de 2009, 3 bandas saíram de Aracaju p/ uma turnê no nordeste batizada de Invasão Sergipana. Em janeiro de 2010, 2 representantes locais disputaram o 1º Festival  de Música das Rádios Públicas do Brasil – vencido pela cantora Patrícia Polayne, carioca radicada em Sergipe. Um dos grupos da tour nordestina era The Baggios. No festival, nosso outro nome era o Café Pequeno.

The Baggios & Café Pequeno surgiram em 2004, e em novembro de 2010 venceram a 2ª seletiva estadual, entrando na disputa do prêmio nacional de 2011 – R$ 15.000,00 p/ a melhor música c/ vocal e mais R$ 15.000,00 p/ a melhor instrumental. “O Festival visa revelar e divulgar gravações de obras musicais inéditas, abrindo espaço na programação das rádios para cantores, compositores, instrumentistas e arranjadores, valorizando a produção e a diversidade da música local”, diz a assessoria da ARPUB, a associação das rádios públicas.

O resultado saiu nesta sexta. 400 inscritos, 16 finalistas e 2 grandes campeões: Café levou a melhor instrumental e Baggios, música c/ vocal. Por 2 anos consecutivos artistas de Sergipe são eleitos os melhores, levando 3 dos 4 troféus oferecidos até agora. “É tanto significado que isso carrega que eu nem sei se consigo dizer tudo”, festeja Indira Amaral, presidente da Fundação Aperipê, que realiza a etapa local: “Somos o menor estado do país. Orgulho por vencermos um MURO imposto por um mercado míope e colonizado. Mas também pelo que significa aqui, em nossas fronteiras. Fomos acostumados a achar que bom é o que vem de fora, e isso não se sustenta mais.

E o melhor é ver duas bandas com trajetórias tão distintas, sons tão distintos, confirmando isso, sem deixar espaço para dúvidas sobre o que estamos fazendo aqui”, completa Aline Braga, repórter cultural do jornal Cinform. Há uma verdadeira cena musical acontecendo, longe da grande mídia. Polayne gravou seu disco de estréia em Recife c/ músicos pernambucanos e sergipanos. O vinil 7” dos Renegades of Punk saiu por um selo alemão, Thrashbastard. Plástico Lunar lançou seu 1º álbum pelo selo paulista Baratos Afins. Todo dia surge uma banda nova.

Julico, vocal, guitarra e metade da Baggios, também toca na Plástico – entrou em 2007 substituindo o solista Rafael ‘Costello’. “Julico tem muita personalidade”, diz seu companheiro de banda Daniel Torres: “Quando o vi tocando guitarra já foi aquela coisa inacreditável, depois quando ouvi o trabalho dele, vi que era completo. Ele sabe segurar uma noitada no palco, nasceu pra ser frontman mesmo. Tenho muito orgulho de tocar com ele, justo eu que sou um músico meia-boca, hahahaha”.

Ontem a noite foi de comemoração. Hoje, passada a ressaca, perguntei a Julico qual o sabor da vitória. “Sentimento de felicidade e de um reconhecimento maior pra nossa música”, ele respondeu. The Baggios têm 3 EPs, um álbum saindo do forno, e acabam de retornar de uma série de shows em São Paulo e no Rio de Janeiro. Café Pequeno tem um disco independente, Na Cozinha de Badyally, e já se apresentou até na França.

A invasão continua.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

OS ALQUIMISTAS ESTÃO CHEGANDO 
"É VERDADE SEM MENTIRA CERTO MUITO VERDADEIRO"

A Tábua de Esmeralda é o texto que deu origem à alquimia, protociência que almejava  a criação da vida artificial, a obtenção do elixir da longa vida – um remédio p/ todos os males – e da pedra filosofal – substância que transmutaria metais inferiores em ouro. Foi escrito pelo faraó Hermes Trismegisto e encontrado por soldados de Alexandre da Macedônia na Pirâmide de Gizé. Os hieróglifos foram talhados c/ uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda.

Soa familiar? A TÁBUA DE ESMERALDA também é título & tema do 10º álbum de estúdio de Jorge Ben, gravado em 1974 e considerado o melhor de sua produtiva, extensa e bem-sucedida carreira. Apesar do fracasso comercial quando foi lançado, o disco resistiu ao tempo e influenciou um sem-número de artistas que vieram depois, do Planet Hemp [lembra?] a Belô Velloso [quem?].

Tábua de Esmeralda é Jorge Ben no auge de sua criatividade e experimentação”, escreveu em seu blog o jornalista André Barcinski, autor dos livros Barulho e Maldito: “Um disco produzido e tocado com perfeccionismo, mas que mantém uma sensação leve, quase de jam session, como se tivesse sido gravado de improviso.

Diz a lenda que o disco foi gravado ao vivo na íntegra”, especula o pessoal do blog Eu Ovo. “É um clássico da música popular brasileira, criado numa fase de iluminação e alquimia, e foi o último em que Ben Jor tocou exclusivamente violão.” P/ Barcinski, “o melhor disco pop já gravado no Brasil”. Elogios e especulações à parte, as informações são verdadeiras.

É um disco-conceito, concebido no ápice criativo de um músico que já havia introduzido uma nova maneira de tocar violão – usando palheta e incorporando elementos de soul, funk e rock na batida do samba – e quebrado a banca logo em seu disco de estréia, SAMBA ESQUEMA NOVO, de 1963 – cuja faixa Mas Que Nada é sucesso internacional até hoje [a 2ª canção brasileira mais executada no mundo depois de Garota de Ipanema].

Abre c/ a pegada rock’n’roll de Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas e suas viradas de bateria, segue c/ O Homem da Gravata Florida, homenagem ao suíço Paracelso [que além de alquimista foi astrólogo, físico e médico], até chegar em Errare Humanum Est, onde um sintetizador une-se ao arranjo sinfônico p/ dar um clima espacial na faixa influenciada pelo livro Eram Os Deuses Astronautas, de Erich Von Daniken.

Procuro mostrar se eram os deuses astronautas ou não. É uma mecânica quase celeste”, disse Jorge na época do lançamento: “Tenho muito respeito e admiração pelo trabalho de um alquimista, pois ele dedica toda a sua vida a estudar e procurar com uma fé e perseverança não comparável a coisa alguma. Desde o LP As Rosas Eram Todas Amarelas já há o reflexo do estudo e da tentativa de aplicar tudo isto à música.

A quarta faixa, Menina Mulher da Pele Preta, é um xaveco numa mulata de olhos azuis, e ele segue assim, transitando do misticismo à malandragem, como em Eu Vou Torcer, Magnólia e Minha Teimosia Uma Arma para Te Conquistar, que abre o lado B. Depois vem Zumbi, que se tornaria um hino da causa negra no Brasil, e Brother, um soul-gospel em inglês caô-caô.

O Namorado da Viúva é engraçada, Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda é a transcrição do texto original – como ele fez em Jorge da Capadócia, uma oração musicada – e 5 Minutos (Cinco Minutos) encerra os trabalhos num lamento triste – uma das muitas sacações que fazem de A TÁBUA... uma obra-prima.

Jorge sempre foi um grande melodista. Aos 32, acumulava mais de 10 anos de carreira fonográfica e acabara de lançar ON STAGE no Japão, gravado ao vivo. A despeito do que cantava em País Tropical, era um band-leader experiente apesar de ainda jovem, na flor da idade. Sem falar que sua banda de apoio era o Trio Mocotó. No estúdio ele dispunha de um recurso que não existe mais, a orquestra da gravadora. E estava inspiradíssimo.

Um ano depois, Tim Maia gravaria os dois volumes da sua fase RACIONAL, álbuns temáticos misturando exoterismo, filosofia, pseudociência e religião. Também passou a vestir só roupa branca, enquanto Ben, que veste branco por causa do candomblé, abandonava o violão no disco ÁFRICA BRASIL e se tornava adepto das Fender Stratocaster – modelo de guitarra eternizado por Jimi Hendrix.

Culpa os estúdios, que passaram a ter pé-direito mais baixo. “Dizia que os estúdios modernos não conseguiam gravar o instrumento da forma que ele gosta, ‘com respiração’”, diz Barcinski. “Desculpa fajuta, claro. Ele não quer e pronto.” O fato é que diferentes gerações descobriram Jorge Ben & A TÁBUA DE ESMERALDAS mas, exceto pelo acústico da Mtv gravado em 2002, nunca viram o ‘Babulina’ empunhar seu mítico violão.

Eu assisti um show dele em 2008, durante o Projeto Verão na praia de Atalaia. Inteiro aos 66, acompanhado da Banda do Zé Pretinho, mandou todos os seus hits naquele esquema de pout-pourri, emendando País Tropical c/ Fio Maravilha, Taj Mahal, Chove Chuva e W/Brasil. Tocou duas de A TÁBUA..., Brother e Zumbi. E assim ele vinha levando os fãs em banho-maria, fosse num evento de porte médio em Aracaju ou em grandes festivais como o Live Earth no Rio.

Até que o jornalista Bruno Natal deciciu criar uma campanha em seu site Queremos, que trabalha c/ o conceito do crowdsourcing, uma espécie de ‘vaquinha’ onde um grupo de pessoas se compromete a cobrir os custos de um evento, viabilizando sua realização. A idéia começou lá fora c/ projeções de cinema, mas aqui pegou c/ os shows. Bruno e seus amigos já trouxeram ao país Belle & Sebastian, LCD Soundsystem e Vampire Weekend, entre outros.

Artistas como Emicida, Pitty, B.Negão, Marcelinho da Lua e Pupillo da Nação Zumbi deixaram seu depoimento no site e 1.697 pessoas curtiram a página no Facebook. Até que, numa apresentação no Morro da Urca na noite de sexta-feira 11, o homem anunciou: “Agradeço as mensagens no Twitter, no blog e tudo. Eu quero dizer que estou ensaiando música por música do LP pra gente fazer um show, pelos pedidos que tem, que são muitos. Manda o recado pro pessoal, manda no Twitteeer!

Não se sabe se será um show ou uma tour, nem quando ocorrerá, mas Natal já comemora: “Jorge foi o Pelé do violão! A minha geração, todos esses jovens músicos, ninguém c/ nossa idade viu Jorge ao violão.” O Barça casou dinheiro no bolo: “Se a turma do Rio convencer Ben Jor a voltar a ser Jorge Ben, nem que seja por uma noite, eu pago pra ver”.

Nem Hermes nem Paracelso encontraram a pedra filosofal, mas c/ A TÁBUA DE ESMERALDAS Jorge Ben conseguiu transformar vinil em ouro. “A maioria das músicas são alquímicas, mas sempre pela filosofia musical. Eu pretendo que a minha música traga paz de espírito e tranqüilidade para quem a escuta. Parto das coisas mais sérias até as mais simples, como o meu time de futebol, porque todas elas têm muita importância e motivo de existirem.

TABULA SMARAGDINA ou O SEGREDO DE HERMES

1) É verdade, certo e muito verdadeiro 2) O que está em baixo é como o que está em cima é como o que está em baixo, para realizar os milagres de uma única coisa 3) E assim como todas as coisas vieram do Um, assim todas as coisas são únicas, por adaptação 4) O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o vento o embalou em seu ventre, a Terra é sua ama 5) O Pai de toda Telesma do mundo está nisto 6) Seu poder é pleno, se convertido em Terra 7) Separarás a Terra do Fogo, o sutil do denso, suavemente e com grande perícia 8) Sobe da Terra para o Céu e desce novamente à Terra e recolhe a força das coisas superiores e inferiores 9) Desse modo obterás a glória do mundo 10) E se afastarão de ti todas as trevas 11) Nisso consiste o poder poderoso de todo poder: vencerás todas as coisas sutis e penetrarás em tudo o que é sólido 12) Assim o mundo foi criado 13) Esta é a fonte das admiráveis adaptações aqui indicadas 14) Por esta razão fui chamado de Hermes Trismegisto, pois possuo as três partes da filosofia universal 15) O que eu disse da Obra Solar é completo.

NEM DEUSES NEM ASTRONAUTAS
>  Mas Que Nada estourou nos EUA ainda nos anos 60, c/ a versão do pianista Sérgio Mendes
>  País Tropical fez sucesso c/ Wilson Simonal
> Minha Menina foi composta p/ Os Mutantes
>  Nos anos 70 Fio Maravilha venceria o Festival da Canção na voz de Maria Alcina
>  Nos anos 80 Jorge Ben se tornaria Ben Jor p/ sanar o desvio dos royalties internacionais das suas músicas, que estavam indo p/ a conta do americano George Benson
>  O samba-rock de Jorge é influência básica p/ Fred Zero Quatro, vocal/guitarra/cavaquinho do Mundo Livre S.A., que batizou seu trabalho de estreia como SAMBA ESQUEMA NOISE 
>  E a faixa 11 desse disco, O Rapaz do B... Preto, é uma homenagem a O Homem da Gravata Florida
>  A gentileza seria retribuída c/ Mexe Mexe, que Jorge deu de presente a Zero Quatro p/ o disco POR POUCO
>  A banda Planet Hemp incluiu um trecho de Zumbi em Dig Dig Dig, no álbum USUÁRIO
>  Umbabarauma (Ponta de Lonça Africano) foi regravada por Max Cavalera quando ele saiu do Sepultura e montou o Soulfly
Racionais MC's o samplearam em Fim de Semana no Parque e o rapper Dexter em O Oitavo Anjo
>  Integrantes da Nação Zumbi mantém um projeto paralelo chamado Los Sebozos Postizos, só p/ tocar músicas de Ben Jor
> Em 2006 o grupo Black Eyed Peas revisitou Mas Que Nada e sua versão alcançou o Top 13 na parada da Billboard

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

ROOTSY HIP

FOTO: FERNANDO VIVAS [A TARDE]

Quando conheci Daniel Wildberger & Isabel Machado, ele tocava uma Flying V numa banda de rock e ela estudava História na universidade. Foi em 96, quando eu andava nas gigs em Salvador. Eles nem namoravam ainda, mas já estão juntos há 10 anos e radicados nos EUA há sete. Em 2009 fizeram o filme ROOTSY HIP, um inesperado sucesso.

Ressonante documentário que mapeia as fronteiras entre os sonhos idílicos e a desagradável realidade de uma coleção de rappers brancos de Mobile, Alabama, e Memphis, Tenessee”, escreveu Phil Maher do blog The Allmovie: “Sob obrigações financeiras, pressão da família, desdém social e até mesmo despejos, esses resistentes artistas agarram-se às virtudes do hip-hop como um laço e um código moral que os habilita não só a aguentar, mas a se desenvolverem espiritualmente face à adversidade.” Uau. 

Daniel, que sempre desenhou bem, formou-se designer gráfico e fez capas de discos, livros, revistas etc. Isabel está fazendo pós e produzindo seu próximo filme, Grand Fugue on The Art of GumboO casal esteve na Bahia durante algumas semanas de janeiro e fevereiro, onde concedeu entrevistas a jornais como A Tarde e blogs como o Rock Loco, que postou a melhor matéria sobre “a galera do Rootsy Hip”:

NERD CORE

Todo mundo já viu uma história mais ou menos parecida com esta em um filme: estrangeiros chegam em cidade pequena e são, em um primeiro momento, recebidos com certa indiferença. Os estrangeiros fazem amizade com os losers do lugar. Estrangeiros e losers se unem para fazer alguma coisa bacana juntos que chama a atenção da comunidade – e acabam por se tornar heróis locais.

A diferença é que, desta vez, não se trata de filme, e sim, de uma história real, vivida por um casal de soteropolitanos: a historiadora e cineasta Isabel Machado e o designer e professor Daniel Wildberger. Ela é irmã do cineasta Sérgio Machado (Quincas Berro D’Água). E ele, membro da família de imigrantes suíços radicados na Bahia.

Casados há cerca de dez anos, se conheceram no underground roqueiro de Salvador, quando ele tocava guitarra na banda Dinky-Dau e ela frequentava os shows.

Desde 2004, vivem nos Estados Unidos. Inicialmente moraram na gélida Iowa CityPassamos 4 anos lá para Bel concluir mestrado em cinema. Passei um ano procurando trabalho, conta Daniel.

Foi lá que ele vivenciou o emprego mais estressante de sua vida, dirigindo um ônibus escolar cheio de crianças, em pleno inverno. ‘O bicho deslizava no gelo o tempo todo’, ri.

Depois que Isabel concluiu seus estudos, Daniel, que acabou fazendo ele mesmo seu próprio mestrado em design, acabou arrumando trabalho de professor assistente na University of South Alabama, localizada na aprazível cidade de Mobile.

‘A gente se identificou logo com o lugar. Tem praia, uma cultura negra forte na música e na culinária, um clima melhor e fica perto de Memphis e Nova Orleans’, diz.

Devidamente instalados, Isabel se viu na situação inversa a que viveu no Iowa. Ele tinha o que fazer, mas ela, não. Depois de constatar que não arrumaria emprego na TV local sem um curso técnico, tratou de se matricular logo em um.

Uma das tarefas era preparar uma reportagem sobre algum assunto local. Não conhecia ninguém. Começamos a procurar no Google o que a cidade tinha, lembra Isabel. 

Logo ela se deparou com o MySpace de uma inusitada dupla de rappers locais. ‘O lance deles é nerd core, ou seja, os caras falam de Star Wars, séries de TV e histórias em quadrinhos. Fomos em um show, tinha três pessoas na plateia, mais eu e Daniel. Pensamos: pô, os caras são brancos, fazendo rap no Alabama. Estranho. Aí resolvi entrevistá-los. Entrei em contato com um deles, o Justin MC’, relata Isabel.

E foi Justin quem deu a ideia: em vez de falar só do trabalho deles, por que não mostrar a cena do hip hop underground de Mobile?

De início, Isabel não levou muita fé. ‘Eu disse: não me levem a mal, mas isso aqui é o movimento hip hop de Mobile e vocês são brancos? Eles ficaram super desconfortáveis. Porque existe a galera do hip hop negro de Mobile. Só que eles são completamente mainstream, só falam de bunda, carrões etc. E eles ainda sofrem com o estigma dos rappers brancos, de ser aquela coisa meio caricata, né?’, ri.

De qualquer jeito, Isabel, com a ajuda do maridão, responsável pela edição, concluiu o vídeo para o curso e presenteou seus entrevistados com uma versão ampliada e melhorada.

Poderia ter acabado aí. Só que no meio do caminho, havia um festival de cinema. ‘Naquela mesma semana, anunciaram as inscrições para o South Alabama Film Festival, que estava selecionando filmes com temática local. O problema é que o deadline era apertadíssimo e não deu para aproveitar quase nada do filme escolar’.

Logo, o casal começou a preparar uma versão para o festival. ‘Eu ficava ligando para os organizadores, pedindo mais prazo. Cheguei a mandar só os quarenta minutos iniciais’, lembra.

Qual não foi sua surpresa quando um belo dia o telefone toca e era o pessoal do festival, dizendo que não só haviam adorado a versão preliminar do documentário, como ele já estava selecionado e mais: seria o filme de abertura do evento, ocorrido em novembro de 2009.

‘Logo depois me liga um dos rappers do filme, o Afterschock, dizendo que estava sendo despejado. Lá vamos nós, pegar mais essa cena para incluir no documentário’, conta Bel.

Resumo dos fatos: Rootsy Hip, o documentário dirigido por Isabel e editado por Daniel, não ficou pronto a tempo. ‘Pensei: vai passar assim e depois eu reedito. No dia da estreia, a gente lá com várias mordomias de estrela do festival, tapete vermelho e tudo. E eu: como assim?’, ri.

O filme foi um sucesso local, com o público se levantando e cantando as músicas dentro da sala. ‘O dono do cinema deixou o filme em cartaz durante meses e ainda queria que a gente fizesse uma versão sing-a-long, com aquela bolinha pulando sobre as letras. Teve até sessões com os caras tocando antes do filme. Eu brinco com Daniel dizendo que viramos minicelebridades locais. Agora somos a galera do Rootsy Hip. Até dois dias antes de viajarmos para o Brasil, eu ainda dava entrevista’, jura.

No momento, Isabel se dedica a um novo documentário com temática local, desta vez sobre o gumbo, prato típico da culinária sulista afroamericana, em parceria com o cineasta Gideon Carson Kennedy.

Já Daniel prepara uma graphic novel de western, ambientada na Guerra da Secessão. Taí um casal que ainda vai dar muito o que falar, seja na América do Norte ou do Sul.

por Franchico ROCK LOCO

DE SSA A USA
CASAL 'ROOTSY' CHEGANDO À PREMIERE
ISABEL EM NOITE DE AUTÓGRAFOS
REAÇÃO DA PLATÉIA APÓS A EXIBIÇÃO
 


Todas as ilustrações neste post estão disponíveis no site WILD INC.

sábado, fevereiro 19, 2011

MAIS RÁPIDO, GATINHA! MATA! MATA!  
Eu quero que meus filmes pareçam comédias porque sexo é engraçado!

Diretor de filmes divertidos & violentos c/ mulheres bonitas em situações surreais. Não, não estou falando de Quentin Tarantino. 30 anos antes, Russ Meyer já filmava histórias absurdas & barra-pesada c/ garotas peitudas. Escreveu, dirigiu e produziu 26 filmes. Tarantino fez 7 até agora, e pelo menos 2 dos mais recentes bebem direto na fonte do Rei da Exploitation.

As vingadoras de KILL BILL e DEATH PROOF trazem referências óbvias a FASTER, PUSSYCAT! KILL! KILL!, desde o uniforme da noiva Mamba Negra na trilogia K.B. [o terceiro está sendo produzido] até a perseguição de carro no deserto c/ as mulheres porrando o psicopata no final de À PROVA DE MORTE. Uma das atrizes até usa uma camiseta c/ a estampa de FASTER...

Pois o que era referência tem tudo p/ virar reverência. Tarantino estaria filmando um remake do clássico de 1965. O boato foi espalhado pela revista Variety em 2008, que anunciou que o diretor de PULP FICTION faria uma versão “ainda mais vulgar” c/ Eva Mendes, Kim Kardashian e, por incrível que pareça, Britney Spears no papel principal de líder da gangue.

Passaram-se 3 anos, o nome de Britney foi descartado, cogitou-se Lady Gaga – de quem Quentin ficou amigo após o clip de Telephone – e agora parece que a coisa vai, c/ Tera Patrick interpretando Varla. Apesar de desconhecida do grande público, Tera é uma veterana do circuito alternativo.

Seu nome verdadeiro é Linda Ann Shapiro, mas já atuou como Brooke Thomas, Sadie Jordan e até Tara Patrick [nome real da atriz Carmen Electra]. Tem 35 anos, trabalhou em mais de 80 filmes e ganhou 12 prêmios como o Foxe, Hot d’Or, Venus e CAVR, sigla de Cyberspace Adult Video Reviews. Sim, filmes adultos. Ela é uma lenda da pornografia.

Em 2009 criou sua própria empresa, c/ lucros de US$ 30 milhões até aqui. De origem inglesa e tailandesa, foi casada por 7 anos c/ Evan Seinfeld, baixo e vocal da banda Biohazard, que sob o pseudônimo Spyder Jonez dirigiu e contracenou c/ ela nos filmes Island Fever e Reign of Tera 1 e 2. O casal não está mais junto desde que Tera abandonou a indústria pornô – enquanto Evan entrou de cabeça.

Em sua autobiografia Sinner Takes All, Patrick descreve a separação. “Sou sua esposa e esse é o laço mais forte que duas pessoas podem ter, e isso tem que vir primeiro!", disse ao marido: "Eu saí do pornô, e quero que você pare! Você me prometeu que faria filmes somente por alguns anos... Seus ‘alguns anos’ acabaram!

Segundo a Variety, Tarantino a adora. “Eu fui feita p/ este papel”, diz Tera, que tem os atributos físicos necessários p/ substituir Tura. Se ela sabe brigar eu não sei, mas já provou que é boa no corpo-a-corpo. “Estou honrada c/ o convite. Será o remake mais quente de todos os tempos!” A estréia é prevista p/ 2012, antes mesmo de KILL BILL 3.

Enquanto isso, fiquem c/ cenas de Common Law Cabin e VIXEN, clássicos de Russ Meyer de 1967 e 68, e o clip de Laisse Tomber Les Filles da cantora France Gall, de 64, cuja versão americana, batizada de Chick Habit e interpretada por April March, encerra DEATH PROOF.

Essa é a original, composta pelo genial Serge Gainsbourg”, explica Maicon do blog Canço Mariano: “Laisse Tomber Les Filles foi feita p/ ser gravada pela France Gall, o Serge devia estar comendo ela...

DE TURA A TERA
SATANA E SUAS AMIGAS DETONANDO NO GO-GO DANCING
ERICA GAVIN, DE VIXEN, RETRATADA POR EUAN MACTAVISH
TERA PATRICK FOTOGRAFA BEM EM PRETO & BRANCO

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

SEXPLOITATION  
UMA SÓ QUERIA SER AMADA, A OUTRA GOSTAVA DE DAR PORRADA
A revolução feminina não é uma invenção do século XX, mas só nos últimos 100 anos ela aconteceu de verdade, na ressaca da revolução industrial c/ as sufragetes – proletárias da Europa e EUA que lutaram pelo sufrágio universal [voto] e por salários iguais aos dos homens. Foi o que as feministas Maggie Humm e Rebecca Walker chamam de “1ª Onda”. A segunda rolou nos anos 60 e 70, na esteira do movimento pelos direitos civis e da invenção da pílula anticoncepcional.

Mais do que mulheres como Simone de Beauvoir [filósofa existencialista que mantinha um casamento aberto c/ o marido Jean-Paul Sartre], Jane Fonda [atriz que interpretou Barbarella e saldou o público c/ o punho fechado no Oscar de 1969] e Annie Leibovitz [fotógrafa lésbica célebre pelo ensaio c/ John Lennon nu na cama c/ Yoko no último dia de vida do cantor], dois nomes daquela época personificam toda a amplitude da revolução sexual: “Varla” & “Jeanne”. Ou Tura & Maria, se preferirem.

Tura Satana nasceu no Japão em 1938, filha de um ator de cinema japonês c/ ascendência filipina e de uma americana descendente de índios Cheyenne. Durante a 2ª Guerra Mundial, seus pais fugiram p/ os EUA, onde foram enviados p/ o campo de internamento Manzanar, na Califórnia – uma prisão p/ refugiados japoneses onde Tura Luna Pascual Yamaguchi viveu seus primeiros anos. Ao fim do conflito, foram libertados e mudaram p/ Chicago.

Os seios de Tura se desenvolveram cedo demais, e sua figura asiática logo atrairia os olhares dos garotos da vizinhança. Era muito assediada, e aos 9 anos foi estuprada por cinco deles. Apesar das excelentes notas na escola, a Justiça americana fez ouvidos de mercador às queixas da menina imigrante, liberou os acusados e ainda a enviou a um reformatório juvenil. Desiludida c/ o sistema aos 10 anos, ela jurou a si mesma um dia vingar-se dos estupradores fazendo justiça c/ as próprias mãos.

No internato virou líder de gangue. “Nós usávamos jaquetas de couro estilo motoqueiro, jeans e botas, e a gente detonava!” Ao deixar o reformatório aos 13, fugiu p/ Los Angeles a fim de cantar blues. Tudo o que conseguiu foi posar como modelo de maiôs, e mesmo assim a alergia à maquiagem impediu sua tenra carreira de deslanchar. Voltou p/ a casa dos pais e começou a treinar artes marciais – aikidô & karatê. Aos 15, como num roteiro de filme, vingou-se dos 5 pivetes que a haviam estuprado enchendo-os de porrada. “Nunca saberiam quem eu era se eu não dissesse a eles!

Em Chicago, voltou a dançar e começou a posar nua. Tornou-se uma bem-sucedida dançarina exótica, fazendo US$ 1500 dólares por semana c/ apresentações nas boates Candy Barr, Club Rendevouz, Purple Lady, Rose La Rose, The Skyscraper Girl, etc. Apresentava-se como Galatea, a Estátua que Ganhou Vida“. Namorou Elvis Presley, que a pediu em casamento e ela recusou – “Guarde seu anel!”, disse Tura – , e foi eleita por Bill Hanna [dos estúdios Hanna-Barbera] uma das 10 Mais Bem Despidas do Século XX – um trocadilho c/ as votações de ‘mais bem-vestidas’.

Quando o diretor Russ Meyer a convidou p/ o papel principal em seu próximo filme, Tura Satana já era uma estrela do underground. Participara de programas de TV como The Greatest Show on Earth e The Man from U.N.C.L.E., interpretou uma dançarina em Who’s Been Sleeping in My Bed, filme estrelado pelo Dean Martin, e uma prostituta francesa em Irma La Douce, sucesso c/ Jack Lemmon e Shirley Maclaine.

Russ, por sua vez, era um enfánt-térrible do mundo softporn – o máximo da sacanagem naqueles tempos. Depois de uma carreira meteórica como fotógrafo de nus p/ a recém-lançada revista Playboy, estreou no cinema em 1959 dirigindo The Immoral Mr.Teas, película que custou $24 mil e rendeu mais de $1 milhão no circuito independente de exibições, c/ veiculação basicamente em ’drive-inns’.

Dizia que a mulher mais bonita que ele fotografou foi Anita Ekberg, a loira do banho noturno na Fontana di Trevi em La Dolce Vita, de Fellini. Meyer gostava de garotas de seios grandes, um arquétipo físico que permeou toda sua obra. Seus filmes se caracterizavam pelo humor ’camp’, crítica de costumes, uso de narração em off... e também pela alta voltagem de erotismo. P/ seu novo projeto não bastavam atrizes de peitos enormes – eles teriam que ser firmes, durinhos.

Antes que as mulheres se reunissem p/ queimar seus sutiãs em protesto contra a realização do concurso de Miss America em Atlantic City, Russ Meyer já abolira esse “símbolo da imposição do gosto machista” em seus filmes. O Bra-Burning, a grande Queima dos Sutiãs, aconteceu em 1968. FASTER, PUSSYCAT! KILL! KILL! foi filmado e lançado em 1965.

Peitos que desafiam a gravidade” era o que ele queria, e encontrou em Tura, que além de peituda preenchia outro requisito do papel: ela sabia brigar. “Ela é uma amazona”, celebrou Russ: “É extremamente capaz, sabe se virar bem sozinha. Não foda c/ ela! Mas se foder, faça direito! Porque ela virá p/ cima de você!

FASTER, PUSSYCAT!... conta a história de uma gangue feminina composta pelas ‘go-go dancers’ Billie [a loira Lori Williams], Rosie [a hindu Haji] e a líder Varla [Tura Satana]. Fazendo racha – sem trocadilho – em carrões esportivos pelo oeste americano, encontram na estrada um jovem casal. Varla mata o cara na mão – sem trocadilho de novo – e depois droga e seqüestra a namorada dele [Susan Bernard]. Ao parar p/ abastecer, conhecem um velho numa cadeira de rodas [Stuart Lancaster] e seu filho atleta, Vegetable [Dennis Busch]. No posto de gasolina, Varla fica sabendo que há uma pequena fortuna escondida no rancho do coroa e decide roubá-lo.

Soa subversivo até hoje. Apesar de visto como filme B, de baixo orçamento e pouca pretensão intelectual, FASTER PUSSY... antecipou muitos elementos usados no ‘cinema de autor’ da Nova Hollywood, movimento semelhante ao Cinema Novo no Brasil e à Nouvelle Vague francesa que renovou a maneira de fazer filmes nos EUA. Um roadie-movie protagonizado por foras-da-lei, feito 2 anos antes de Bonnie and Clyde [Uma Rajada de Balas, 1967], de Arthur Penn, e 4 anos antes Easy Rider [Sem Destino, 1969], de Dennis Hopper.

Um roteiro que não passava nenhuma mensagem construtiva, apenas sexo & caos. Violência gratuita, 6 anos antes da versão cinematográfica de A Laranja Mecânica, best-seller de Anthony Burgess – não é por acaso que o cadeirante do filme de Stanley Kubrick é auxiliado por um halterofilista. Anjos do inferno em Porshes no deserto de Mojave – filmar em locações também era raro e desafiador. Sonho hippie virando pesadelo, c/ Varla e suas comparsas agindo como uma espécie de família Manson – procurar e destruir“.

Satana, oriental naturalizada americana, já estrelava seu filme de luta quando Bruce Lee ainda era coadjuvante na série de TV Besouro Verde. Sagaz, ela adicionou vários elementos à sua personagem, desde a roupa e maquiagem até os diálogos e coreografias. E dispensava dublês nas cenas de ação. “Ela fez o filme junto comigo”, dava o crédito Russ Meyer. A carreira de ambos seria marcada por este trabalho.

Meyer tornou-se o Rei do Exploitation, gênero que explorava a sensualidade feminina praticamente inventado por ele, que escrevia, fotografava, dirigia, editava e distribuía seus próprios filmes – processo econômico que o tornou rico. Em 68 filmou Vixen!, mais um sucesso que lhe abriu as portas de Hollywood. Em 69, a 20th Century Fox contratou-o p/ dirigir Beyond the Valley of the Dolls, que custou $1 milhão e rendeu 6 vezes mais do que o valor da produção.

Depois de fazer mais um p/ a Fox – The Seven Minutes, 1971 – Russ voltou ao cinema independente c/ Black Snake, de 73, um dos primeiros ‘blacksploitation’. Em 75 obteve seu maior êxito comercial c/ Supervixens, um retorno ao Mojave que lhe valeu $17 milhões nas bilheterias americanas. Ele ainda faria Up! em 76, Who Killed Bambi? em 77 e Beneath the Valley of the Ultravixens em 79, mas, esperto que era, sabia que os tempos haviam mudado.

Os anos 70 foram o auge da revolução sexual. Suruba estava na moda e ninguém era de ninguém. Filmes como Deep Throath [Garganta Profunda, 1972], Emanuelle [74] e Sometime Sweet Susan [75] mostravam nu frontal, pelos pubianos e cenas quase explícitas. Perto de Linda Lovelace, Sylvia Kristel e Shawn Harris, o erotismo camp das gatas de Russ Meyer – Super Vixen, Margo Winchester, Lavonia Shed, entre outras – parecia quase pueril.

Período de transição do softporn dos 60 p/ o hardcore dos 80, os 70 quebraram tabus tanto do cinema quanto da sociedade. Paralelo à putaria, foi a época de O Poderoso Chefão, Taxi Driver, Star Wars, Tubarão. Nesse período tão fértil, nenhum filme erótico chocou tanto nem foi tão comentado quanto O ÚLTIMO TANGO EM PARIS, de Bernardo Bertolucci: a história de um americano de meia-idade em luto pela morte da esposa na França que encontra ao acaso uma jovem parisiense num apartamento p/ alugar; rola a química, eles transam e tornam-se amantes sem ao menos saber o nome um do outro.

Essa é a condição estipulada por Paul, interpretado por Marlon Brando. Ele aluga o apê, que se torna o ninho de amor do casal. Até o dia que Jeanne chega lá e não encontra mais nada – o gringo havia fugido c/ mala e tudo. Mas logo os dois se encontram na rua, ele a leva p/ uma casa de tango, onde diz que pretende começar uma nova relação c/ ela, e revela seu nome e conta sobre sua vida. A garota perde o tesão c/ o fim do anonimato e rompe o namoro. Inconformado, ele a segue até o prédio em que ela morava c/ a mãe e... bem, melhor você ver o filme, considerado uma obra-prima.

Nascido das fantasias do diretor italiano, ganhou ar de ‘cult’ c/ seus cuidadosos – e constantes – movimentos de câmera e trilha sonora jazz do argentino Gato Barbieri. A crítica especializada Pauline Kael escreveu na revista The New Yorker que Bertolucci havia “mudado a face de uma forma de arte, um filme pelo qual as pessoas esperam há muito, muito tempo, desde que filmes existem”. THE LAST TANGO...  ganhou capa da Time e da Newsweek. E foi proibido em 7 países do mundo livre.

Enquanto em Paris formavam-se filas de duas horas de espera nos quarteirões em volta dos cinemas, na Itália o filme só foi lançado 3 anos depois, e mesmo assim teve as cópias confiscadas c/ uma semana de exibição. Bertolucci foi processado por obcenidade e condenado a 4 meses de prisão, sentença substituída pela cassação de seus direitos civis e políticos por 5 anos.

O pomo da discórdia foram duas cenas de sexo anal. Em uma, Paul pede a Jeanne que lhe dê uma dedada e prometa “fazer sexo como um porco”; na outra, ele a sodomiza usando manteiga como lubrificante, enquanto diz: “Vou te contar segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: Sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo. Família, porra de família!

Foi humilhante”, diria Maria Schneider anos depois. Ela é Jeanne. “Eu deveria ter chamado meu agente ou meu advogado ao set, porque não se pode forçar alguém a fazer algo que não esteja no roteiro, mas na época, eu não sabia disso. Marlon me disse: -Maria, não se preocupe, é só um filme! Mas durante a famosa cena, mesmo que ele não estivesse me possuindo realmente, eu me senti humilhada e as minhas lágrimas eram verdadeiras. Me senti estuprada, tanto por Brando quanto por Bertolucci. Após a cena, Marlon não me consolou nem se desculpou. Felizmente, gravamos só um take!

Maria tinha 19 anos quando estreou no cinema, protagonizando um filme de alcance mundial que abordava tão delicado tema. Ela ainda faria Profissão: Repórter, de Antonioni, em 75, A Mais Velha Profissão do Mundo em 79 e Merry-Go-Round em 81, mas Jeanne jamais a abandonou. P/ ela, O ÚLTIMO TANGO... havia arruinado sua vida e era seu único arrependimento. Chamava Bertolucci de “gangster e cafetão”. O próprio Brando também admitiria que se “sentia completamente e interiormente violado por ele” e que jamais faria “outro filme como aquele”.

Na década de 80, Schneider se afundou no pó e tentou o suicídio. Atuou em 50 filmes ao longo da carreira, mas sempre será lembrada pela cena da manteiga. Ganhou uma estrela na Calçada da Fama em 2004, no entanto passou os últimos anos deprimida e morreu sozinha, dia 03 de fevereiro, sem deixar filhos. Tinha 58 anos. No dia seguinte, 04/02, morreria Tura Satana, aos 72.

Estamos na 3ª Onda do feminismo, segundo Humm & Walker. As mulheres não só votam como são presidentes, apesar de ainda ganharem menos do que os homens no mercado de trabalho. Irônico que duas representantes tão icônicas dos anos 60 e 70 tenham ido embora praticamente juntas. O fim de uma era.

Maria Schneider, ainda ninfeta, interpretou uma mulher que se entregava aos seus desejos, e acabou morrendo traumatizada por uma encenação. Tura Satana teve uma vida digna de literatura ‘pulp’, mas nunca se abalou c/ as vicissitudes e deixou sua marca como uma garota sensual e dura na queda. “Sempre acreditei no trabalho e construí meu caminho neste mundo”, escreveu ela em seu site: “Fui enfermeira, assistente social, guarda-costas, dançarina, atriz e fêmea fatal. Hoje eu sou viúva e tenho filhas maravilhosas.

Em 1973, Tura foi baleada por um ex-namorado. Abandonou o cinema e tornou-se enfermeira no Firmin Deloos Hospital. Em 1981, fraturou a coluna em um acidente de carro. Durante 2 anos, passou por 17 operações. Arrumou emprego de despachante na polícia e casou c/ um oficial. Permaneceram juntos até a morte dele, no ano 2000. Seu amigo Russ Meyer morreria em 2004, aos 82 anos, de pneumonia, após uma aposentadoria tranqüila.

Tura teve tudo p/ um triste fim, e embora tenha ganho muitos quilos nas últimas décadas, sempre manteve o sorriso, tirando os problemas de letra. Em 94 ganhou o prêmio Lifetime Femme Fatale e seu legado permanece entre a nova geração, seja no clip de I Dig You da banda Boss Hog, da guitarrista Cristina Martinez [casada c/ Jon Spencer, que também toca c/ ela], inspirado em Faster, Pussycat! Kill! Kill!, ou batizando um grupo de heavy metal liderado por uma garota, Tairrie B. – que montou a My Ruin após o fim da Tura Satana, a banda.

Dizzy Queen, roqueira capixaba que acaba de vencer o concurso da Levi’s FM e vai cobrir o festival South by Southwest nos EUA, dá a dimensão da influência de Satana p/ as ‘riot grrrls’ atuais: “Ela é um ícone. Em 65 desempenhou um papel que mostrava que mulher também tem força, sexualidade, independência e maldade. Diria que filmes do Tarantino como Kill Bill e Death Proof têm essa vibe do FASTER, PUSSYCAT!... Na vida real também foi uma mulher c/ muita garra. Aceitou esse papel numa época muito mais machista que hoje. Ainda mais usando aquele decote todo!
  
BRA-BURNING
NO SÉC.XIX AS SUFRAGISTAS JÁ BOTAVAM P/ QUEBRAR
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-TEM CERTEZA QUE MANTEIGA É UMA BOA IDÉIA?
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