terça-feira, abril 26, 2011

SURFIN’ BIRD 
Em 1978 Joey Ramone participou de um ensaio fotográfico feito por Roberta Bayley p/ o fanzine PUNK de Legs McNeil – que anos depois editaria o livro Mate-Me Por Favor. O resultado foi a fotonovela Monster Beach Park*, onde Joey mostra aos locais do Hawaii como se pega onda, c/ seu estilo “surfista de Rockaway Beach”. Os Ramones tinham acabado de lançar ROCKET TO RUSSIA, discaço que trazia um cover de Surfin’ Bird, da banda garageira The Trashmen. “Well, everybody’s heard about the bird”...

*clique nas imagens p/ vê-las ampliadas

segunda-feira, abril 25, 2011

SEMANA SANTA ROCKS
Hoje o Viva La Brasa chegou a 100.000 acessos. Considerando que o blog existe há 6 anos, não sei se esse número representa uma soma expressiva ou uma média medíocre. Só p/ comparar, o blog do Programa de Rock foi criado há apenas 3 anos e já teve 115.666 acessos até o momento em que digito estas linhas. Hoje o Adelvan Kenobi, editor do blog e apresentador do programa, postou a resenha das gigs do feriadão de Páscoa. Rolou desde voz e violão na zona sul até festival de rock no interior e hardcore na domingueira. Eu fui no Tio Maneco na quinta e saí de lá bêbado. Agora, se me dão licença, vou beber p/ comemorar os 100.098 acessos... 100.099... 100.100...

Não me canso de falar pros mais jovens: Se vocês acham o cenário atual ruim (e é) precisavam ver como era até a metade dos anos 90, quando a gente esperava semanas, às vezes meses, pra curtir um showzinho de rock tosco na cidade. Hoje em dia até num mega feriadão como o da semana santa passada, bem ou mal, rolam uns rocks.

Tudo começou já na quarta à noite quando os Baggios se reuniram mais uma vez no Capitão Cook para celebrar seus 7 aninhos de vida. Casa cheia – de gente na porta, pra variar! Difícil abandonar velhos hábitos, né? Lá dentro não estava vazio, mas se 1/3 dos que estavam fora tivessem entrado, estaria lotado. O show foi especial, com muitos covers e participações de amigos. Destaque para a presença de Lucas, o primeiro baterista dos Baggios, que tocou bateria em algumas das primeiras músicas compostas pela banda (mandou bem, sem muita técnica mas com muita garra e feeling pra compensar) e baixo nos dois maravilhosos covers do Black Sabbath, ‘NIB’ e ‘War Pigs’. Muito bom o show, alto astral total.

‘Totalmente excelente’, diria Flavia Lins, que estava presente entre os que lotaram o boteco Tio Maneco na noite seguinte, numa apresentação acústica solo de Fábio Snoozer, baixista/vocalista da Snooze e um dos fundadores do Programa de Rock. Bem legal, excelentes petiscos regados a boa música e muitos amigos. Com gente ‘saindo pelo ladrão’, tiveram até que fechar os portões porque não havia mais mesas disponíveis, muito embora houvesse bastante espaço para novas mesas (fiquei imaginando que os proprietários não devem ser de Itabaiana, pois um comerciante itabaianense não se conformaria em ver espaço disponível em seu estabelecimento com gente fora disposta a entrar e consumir, iria pegar mesa até no inferno). No repertório várias pérolas do Flaming Lips, Velvet Underground, REM, Pixies, Smashing Pumpkins, etc, etc, etc. O Tio Maneco tem ‘bombado’ todas as quintas-feiras, quando abre espaço para apresentações de figuras célebres de nosso pequeno porém bem servido cenário alternativo. O próximo será Júlio da The Baggios, recomendo.

Na sexta-feira, que eu saiba, não teve show, mas teve Programa de Rock, que é um show a parte, imperdível, maravilhoso, o melhor programa de rádio do universo de todos os tempos da última semana. No sábado fui a Itabaiana conferir mais uma edição do projeto Cebolada. Infelizmente a The End, banda de metal/hard rock oitentista de Poço Redondo, não pôde comparecer. Quando chegamos estava rolando Estúdio Box & Azulejo, uma boa nova banda (de Lagarto, se não me engano) com um dos nomes mais horríveis que eu já vi. O show, no entanto, não foi bom: o som estava embolado e a microfonia comia solta sempre que o vocalista cismava de tocar gaita. Na platéia, uns 4 ou 5 gatos pingados – isso já descontando a presença das namoradas dos caras, alojadas numa mesa. Na sequência, Thee Swampbeat Brothers, o projeto garageiro/pantanoso de Maicon Stooge e Givanildo. Bem legal, souberam equalizar melhor o som e deu pra rolar numa boa. Altos riffs, boa performance de palco e alguns cover espertos do Cramps e até da clássica bagaceira ‘Sílvia’, do Camisa de Vênus. Impossível não lembrar de minha adolescência roqueira nos anos 80 ao ouvir coisas do tipo. Uma pena que o público continuou minguado: contei exatos 24 expectadores num momento de ‘pico’, desta vez contando com as namoradas dos caras de Lagarto e os próprios, que haviam virado platéia.

A Karranca iria substituir a The End mas o sono bateu e eu me retirei. Na mesma noite estava rolando Lacertae num encontro de estudantes de História na UFS e, no domingo de páscoa, o Centro de Criatividade seria o palco de mais uma edição do Macacore. Não fui.

por Adelvan Kenobi
foto e vídeo: Snapic

sábado, abril 23, 2011

RAMONES TRI

Me sentava com Dee Dee na esquina em frente ao Queens Boulevard e bebia, insultava as pessoas e coisa e tal. Foi quando fui expulso da minha casa. Minha mãe me disse que era pro meu próprio bem.

Jeffrey Hyman tinha 2 metros de altura, mas não foi seu tamanho que o tornou um dos maiores ícones da cidade de Nova York. Mais conhecido como Joey, ele revolucionou os rumos da música e influenciou o comportamento dos jovens ao lado de Johnny, Dee Dee, Tommy, Marky, Richie e C.J., a família Ramones, do Queens.

Quando começaram a banda não conseguiam tocar os sons que curtiam, então compuseram sua primeira canção logo no primeiro ensaio, I Don’t Wanna Walk Around with You. Em seguida vieram I Don’t Wanna Get Involved with You, I Don’t Wanna Be Learned, I Don’t Wanna Be Tamed e I Don’t Wanna Go Down to the Basement.

Niilistas. A primeira canção dos caras a não ter “eu não quero” no título foi Now I Wanna Sniff Some Glue, “agora eu quero cheirar cola”. Gravaram um disco em 1975 c/ 14 faixas curtas e sujas que reunidas não duravam nem meia hora. Criaram o punk rock, lideraram a cena do CBGB – que contava c/ Blondie, Television, Talking Heads, The Cramps e Patti Smith – e germinaram o movimento na Inglaterra – após se apresentarem em Londres em 76 surgiram Sex Pistols e The Clash.

O resto é História. Foram 14 álbuns de estúdio em pouco mais de 20 anos de carreira, sempre fiéis aos 3 acordes e à batida acelerada. Os Ramones entraram p/ o Rock and Roll Hall of Fame, receberam o Grammy Life Achievement Award e participaram até dos Simpsons [maior de todas as honrarias], sem nunca deixar de ser o que eram em 74: punks.

Joey Ramone morreu em 15 de abril de 2001, aos 49 anos, vítima de um câncer linfático contra o qual lutou ao longo de 7 anos. Sua doença foi o motivo p/ o fim da banda em 96. Ele ainda gravou um disco solo DON’T WORRY ABOUT ME – e produziu a banda The Independents e um disco de Phil Spector. Coincidência ou fatalidade, Dee Dee morreu 1 ano depois, em 05 de junho de 2002, aos 51, e Johnny em 15 de setembro de 2004, aos 55.

É como se só tivesse sobrado o Ringo Starr dos Beatles. O batera Marky tocou até em Aracaju c/ sua banda The Intruders, e o baixista CJ lidera a Bad Chopper. Joey fez 2.263 apresentações c/ os Ramones em todos os cantos do planeta – 15 delas no Sul e Sudeste do Brasil. “O som deles incentivou centenas de desajustados sociais a montar bandas”, define o jornalista Eduardo Almeida.

Eu nunca fui num show dos Ramones. Mas Michael Meneses estava presente nas 3 vezes em que tocaram no Rio de Janeiro: 1992, 94 e 96. “Sou tricampeão de Ramones no Rio!” Fotógrafo carioca suburbano, filho de nordestinos e fundador do selo Parayba Records, Michael ‘Ramone’ conta c/ exclusividade p/ o Viva La Brasa como conseguiu entrar – e sair vivo – nas 3 gigs. Gabba Gabba Hey!

1, 2, 3, 4...
Os meus primeiros contatos com os Ramones aconteceram ainda em Aracaju, na saudosa loja Walmir Foto Som. Estava analisando bandas e capas de discos em companhia do falecido Bruxo quando ele falou ao observar o LP RAMONES MANIA: ‘Não gosto de Ramones, acho muito rock and roll’... Fiquei me questionando qual era o problema de uma banda de ROCK ser ‘rock and roll’? Isso ocorreu no final dos anos 80, tinha uns 13 ou 14 anos. Outra coisa que me deixava intrigado era o fato dos Ramones serem uma banda PUNK, e eu tinha uma imagem preconceituosa de que todo punk tinha que usar moicano ou cabelo curto e todo heavy tinha que ser cabeludo. Então me perguntava como uma banda podia ser punk e usar cabelo e visual heavy? Por incrível que pareça, não lembro de ter visto um único punk de Aracaju ouvindo Ramones, Sex Pistols ou The Clash... Ouvíamos muito punk nacional ou as bandas sergipanas – Karne Krua, Logorréia, Manikômio – e também sons gringos porém ainda no underground como Napalm Death e D.R.I. – até pela influências thrash metal da época. Uma curiosidade dos punks é que por mais que achassem metal chato, alguns curtiam Guns’n’Roses e ouvíamos ‘Sweet Child O' Mine’, ‘Patience’ etc.  na Praça da Catedral em fitas K7 ao fim da tarde... Ouvir Guns naquela época não era nenhum pecado.

ROCK AND ROLL RADIO - 1991

Em 1991 voltei a morar no Rio de Janeiro por conta do Rock in Rio II e ainda no primeiro semestre do ano os Ramones quase vieram ao Rio, mas o show não aconteceu. A primeira banda que vi tocando Ramones foi a Volkana com ‘Pet Sematary’ na turnê com Ratos de Porão que teve dois shows em julho no Circo Voador (a Bizz resenhou e eu apareço de costas na foto). Na ocasião RDP tocou ‘Commando’. O Hollywood Rock 1992 trouxe o Skid Row, uma banda que gosto até hoje, mas sem o entusiasmo dos anos 90. Tinha lido, ouvido ou visto em algum lugar que eles tocavam ‘Psycho Therapy com o baixista no vocal. Fui ao festival sabendo que o show calaria a boca de quem achava que a banda era apenas de baladinhas de amor. ‘Psycho Therapy’ sacudiu a Apoteose, tenho o áudio da música no Hollywood Rock em K7 e MP3, e costumo pensar que talvez, não fosse o Skid Row, eu não gostasse de Ramones. Heresia? Prefiro ser fiel em minhas palavras...

SOU CAMPEÃO [GÁS IN RIO] - CANECÃO 1992
O ano de 1992 foi uma maravilha de shows no Brasil, a meu ver depois daquele ano entramos definitivamente na rota das turnês internacionais. Aquilo tudo era demais pra mim, dois anos antes passava 6 meses esperando shows de bandas sergipanas, e de repente assistia shows internacionais direto. Citando só alguns, tivemos: Hollywood Rock com Living Colour, Extreme, Skid Row... depois shows com Kreator, Jello Biafra com Ratos de Porão, além dos shows nacionais acontecendo no Circo Voador, Garage Art Cult, Caverna II, Bar do Paulinho, Bar Sem Destino, e em outros picos da cidade. Tivemos os históricos primeiros shows do Black Sabbath no país, menos de um mês depois teve Iron Maiden no Maracanãzinho, uns 10 dias depois teve a volta do Skid Row ao Brasil e até o Sepultura fez seu primeiro show no Canecão.

A essa altura eu já era fã dos Ramones, aí foi anunciado que eles voltariam ao Brasil e dessa vez com show no Rio. O sucesso do filme Cemitério Maldito ajudou bastante na popularidade da banda, além de ter publico garantido por conta dos fãs. Na época o país era um caos, a batata do presidente Collor assava e a inflação na casa do caralho. Vejo a garotada de hoje achando que tudo tem que ser BAIXADO e reclamando ao pagar por show, comprar um CD, mas essa garotada que em 1992 usava chupetinha, não sabe o quanto era difícil ir a shows ou comprar discos com toda aquela inflação, é só olhar para trás e ver que tudo hoje é mais acessível.

Minha namorada da época tinha uns 16 anos, nos dias de hoje qualquer jovem viaja de um estado para outro sem autorização dos pais, mas em 1992 não era assim, e nem era qualquer mãe que deixava uma filha com 16 ir de Realengo (Zona Oeste) ao Canecão em Botafogo (Zona Sul) para um show punk, ainda mais na companhia do namorado, ou seja, minha ex-namorada só iria ao show comigo se sua irmã mais velha fosse também, a exemplo do que aconteceu no Skid Row no Maracanãzinho, onde sobrou pra mim pagar ingressos para as duas – na verdade paguei para ex, emprestei pra irmã e nunca fui ressarcido, mas isso faz parte. Alguns dias antes da esperada apresentação dos Ramones, vi que ficaria inviável com aquela inflação pagar mais que um ingresso e falei que não teria como pagar para elas. Para ter ideia da inflação em 92, os ingressos para os shows do Black Sabbath custaram 35 mil cruzeiros, menos de um mês depois o Iron Maiden custava uns 45 mil, uns 10 dias depois, Skid Row 55 mil, já o ingresso de pista do Ramones custou 60 mil cruzeiros. Enfim, a namorada me deu um pé na bunda, não tenho certeza se por esse motivo ou não, mas o fato é que eu fui ao show no maior bode! Rsrs...

Vamos ao show: a clássica intro começou a soar e certamente muita gente foi às lagrimas, fico arrepiado só de lembrar, o Canecão era uma festa! O set foi idêntico ao do LOCO LIVE, o álbum ao vivo em Barcelona, com modificações que ocorreram na segunda parte do show. Tudo corria tranqüilo e animado, e o ambiente ajudava, afinal o Canecão é um dos espaços culturais mais legais do Rio de Janeiro, funciona que é uma beleza para eventos de qualquer estilo musical, inclusive o Ronaldo Bôscoli foi feliz ao dizer: ‘Nessa casa se escreve a história da música popular brasileira’. A frase é mais que justa ao Canecão, seja MPB, rock, samba, pop, jazz... Não importa, ali tudo soa bem. Eu até tava xavecando uma garota que conheci no show, porém...

Fazia uns 5 anos que ouvia falar de carecas & skinheads. Em Aracaju, dos meus 13 aos 15 anos, tinha o maior medo de cruzar com eles na rua*, afinal eles eram mais velhos, maiores, mais fortes e sempre em maior número. O que lia nas revistas e/ou cartas de fanzineiros e o que via na TV só me dava mais medo, em especial pela porrada distribuída pela carecada no show do Motörhead em 1989 no Maracanãzinho e exibido pela TV Manchete. Até esse show eu raramente tinha contato com eles. Mas eles resolveram bater ponto pra fazer merda em show dos Ramones, souberam direitinho como estragar a noite, sabiam como estragar o prazer e quando tudo parecia a mais completa diversão, eles surgiram na pista. Inicialmente abriram uma roda e ficavam pogando aparentemente de forma normal, porém começaram agredir a todos ou corriam em direção ao pessoal da frente e se jogavam – quem estava na grade era esmagado.

Eram mais ou menos uns quinze carecas que, segundo disseram, saíram da baixada fluminense e do ABC paulista. Entre eles havia duas garotas que me deixaram chocado, pois desde quando comecei a andar com a cena rock da Zona Oeste, em especial no Largo de Bangu (o ponto de encontro rock das noites de domingo), elas estavam lá, eram amigas de punks e heavies, embora tivessem mais ligação com os punks. Achei aquilo maior traição, e se não fosse a merda que aconteceu nesse show, talvez elas estivessem armando uma emboscada pra galera de Bangu. Uma delas veio em minha direção, e deu um soco na boca da menina que estava xavecando, deu tempo de puxar a menina, e o soco pegou de raspão nos lábios, chegou a aparecer um leve filete de sangue, mas nada grave. Depois, não demorou e uma fumaça começou a sair do público, mais ou menos em frente de onde eu estava, inicialmente imaginei que fosse gelo seco (‘santa ingenuidade, Batman’), mas bastou minha garganta, boca, nariz, pele começarem a arder para falar para a garota: ‘Isso é gás lacrimogênio!’... 

Nunca tinha sentido o cheiro desse gás, mas algo em mim falou que era e saí puxando a garota. Todo o Canecão era um caos, gente correndo para todos os lados, não adiantava fugir pelo lado convencional, resolvi sair pelo setor das mesas (o mais caro do Canecão). Tentei subir pelo local onde funcionava a mesa de som, mas o técnico me olhou assustado e disse: ‘Por aqui não!’, dei um passo ao lado, subi e ajudei a tal garota a subir, buscamos proteção perto da saída do Canecão respirando e ouvindo os Ramones tocarem varias músicas até pararem. Anos depois soube que no momento dessa confusão, o Renato Russo entrava no Canecão, olhou o caos e na mesma hora foi embora de táxi. Passaram-se longos minutos, os efeitos do gás continuavam e a garota pra lá de nervosa preocupada com suas amigas, que com a confusão se separaram, e falava que não iria ao show do Napalm Death que estava cogitado para acontecer no Garage até o final do ano (mas não rolou) alegando medo dos carecas. Coube a mim tentar a acalmá-la.

Uns 40 minutos depois o show voltou, mas a festa tinha estragado para alguns. Parecia um jogo de futebol encerrado depois de alguma fatalidade e que a volta acontece apenas para cumprir tabela. O sossego inicial do show tinha ido embora junto com a carecada que havia sido presa, não sabíamos se ainda tinha carecas em meio às três mil pessoas e isso deixava o clima tenso. E vale mencionar que um público desses no Canecão é casa cheia. Com aquela bagunça, quem havia comprado mesa vip perdeu! Muita gente aproveitou o caos e com medo de ir para pista, subiu nas mesas. Lembro da dona da mesa onde eu subi com a garota se lamentando que tinha pago caro pela mesa. Era perigoso até ficar em pé nessas mesas, imaginem uma mesa para seis com umas oito pessoas em pé nelas, a mesa envergava, pensei que partiria ao meio.

Aos poucos, o show voltou a ser enérgico! O que se viu por parte dos Ramones foi lindo, e todo o Canecão curtiu. Em relação ao set list, só nessa segunda etapa do show aconteceram algumas mudanças em relação ao LOCO LIVE. Outra coisa tosca que ainda veio a acontecer naquela ‘Noite-Mondo-Bizarro’ foi uma fã subindo no palco e se jogando e abraçando o Johnny Ramone, que tocava distraidamente e tomou um bom susto – sua reação foi empurrá-la com a guitarra, ela caiu de bunda no palco, foi levada por um técnico e ainda deu pra ver o Johnny gritando algo para garota.

O show chegou ao fim e com ele outro medo, pois havia a suspeita de que os carecas estavam do lado de fora à espreita, o que não aconteceu. A menina se despediu de mim com aquele papo de ‘Você salvou minha vida’... Seja como for não dei nenhum beijo nela! Rsrs...

Do Canecão à minha casa são dois ônibus, no segundo ônibus (260 - Pça.XV x Vila Valqueiro) ocorreu um fato engraçado, mas que na época me deixou puto. Na altura do Meier na Zona Norte, entrou um homossexual (sem homofobia ok?) pedindo trocados aos passageiros, uma garota que parecia voltar da faculdade deu, ele agradeceu e começou a falar algo como: ‘Boa noite, senhores passageiros, quero agradecer a doação da nossa amiga e em retribuição vou cantar para vocês!’... Olhei para o lado e pensei: ‘Puts, fudeu!’... O cara seguiu viagem cantando ‘To Be with You’ do Mr.Big, só cantava o refrão, às vezes traduzia a letra, justificando que alguns poderiam não saber inglês. Falou que conheceu a música num baile no Cassino Bangu, desceu uns 20 minutos depois em Cascadura e vários passageiros vibraram por ele descer.

Na manhã seguinte só o jornal sensacionalista A Noticia deu uma nota pequena sobre a bomba, já os telejornais e rádios adoram noticiar que uma bomba de gás lacrimogênio foi acionada em um show de rock, deu até no programa do Casseta & Planeta, que falou que o PC Farias era o líder dos carecas! Rsrs... Contudo gostei de ouvir a locutora Mônika Venerabile da FLU FM comentar o fato por volta das 18h. Ela não teve pena, desceu o pau nos carecas que saíram de SP para bagunçar um show que os cariocas pagaram basicamente em dólar pra ver, o texto dela misturava revolta e decepção e me deu muito orgulho.

SOU BICAMPEÃO [MELHOR SHOW] - CIRCO VOADOR 1994
Durante muito tempo ouviu-se falar da tal bomba no Canecão, ou melhor, até hoje me perguntam: ‘Você foi no show da bomba?’... A essa altura era já era um ‘ramonesmaníaco’, a banda foi uma das que mais ouvi entre os anos de 1993 e 95. LOCO LIVE foi segundo CD que tive na vida juntamente com um Aerosmith que comprei nas Americanas em seus primeiros saldões de CDs. Também comprei o vídeo pirata do show no canecão. Foi aí que começaram a divulgar uma turnê do Ramones com Sepultura, mas ficou a questão: onde seria esse show no Rio? Começaram a falar que o show seria no Estádio de Remo da Lagoa, mas com o Sepultura no auge, Ramones idem, o show ficaria caro! Por fim o show aconteceu no Circo Voador sem o Sepultura.

O Show... Show não, espetáculo! Primeiramente nunca vi o Circo Voador daquele jeito, existia segurança de todas as formas, grades por todos os lados, dentro e fora do Circo, e até no teto tinha proteção. No caso do teto a proteção consistia em muita graxa espalhada nas barras do Circo, evitando a tradição de alguns mais exaltados em se pendurarem nas grades e/ou irem andando por elas, com a graxa não seria possível isso. O show aconteceu no dia em que completava um ano que uma outra ex-namorada tinha me dado um pé na bunda. Rsrs...

Abrindo a noite, o Little Quail and the Mad Birds, que na época tinha um hit tudo a ver com o show, ‘1,2,3,4’... Deu um gás, ops!, deu uma esquentada na galera. Como o medo de dar algo errado ainda imperava, preferi ficar na arquibancada que parecia Maracanã em dia de clássico, maior cabeçada.

Ramones inicia o show, no set list basicamente o de sempre, porém com alguns covers do ACID EATERS. Ainda no início um engraçadinho tentou arrumar uma briga, mas a segurança agiu rápido e com originalidade, estavam à paisana no meio do público e ao que notei vestiam camisas estilos havaianas. Funcionou.

Mesmo estando em pé na aquibancada agitei o show todo, a carga emocional que vivenciava naquele momento era tão grande que chorei em ‘Bonzo Goes to Bitburg’. Existiu um Michael Meneses até aquela música e outro Michael após ela. E curti muito o estilo CJ Ramone de tocar/cantar. Tudo funcionou na noite, não conheço uma só pessoa que foi naquele show que prefira os outros shows do Rio! O clima foi perfeito, sem falar que ficou provado que o Circo Voador era o melhor lugar para os Ramones tocarem no Rio, pois não existe nenhum outro espaço que tivesse a cara deles como o Circo. Toda a tradição de shows punks da casa ao longo de 12 anos estava impregnada naquele palco e coube ao Ramones colocar sua marca no lendário território do rock carioca. Pena que fazia pouco mais de um mês que a Fluminense FM [94.9 Mhz] estava fora do ar, tinha dado lugar à Jovem Pan.

Entre o Circo e Fundição Progresso, basicamente embaixo dos Arcos da Lapa, uma Kombi vendia posters do Ramones por 1 real (ou algo assim). Tinha tanta gente querendo poster que a situação ficou sem controle. Um amigo me contou que depois que tudo se normalizou ele foi no cara da Kombi e mentiu dizendo algo como: ‘Já lhe dei o dinheiro, mas na confusão você acabou não me dando o poster’... Em seguida ele recebeu um poster! Voltei pra casa com o espírito renovado, mas com o pescoço doendo de tanto bater cabeça. Pelo menos ninguém cantou Mr.Big no ônibus.

O TRICAMPEONATO [SALVO POR 3 REAIS] - METROPOLITAN 1996
Em 96 os Ramones voltaram ao Brasil para dizer ¡ADIOS AMIGOS!... Nascia no Rio de Janeiro a geração Rádio Cidade, uma garotada influenciada que acreditava que o Ramones era uma banda de 3 músicas – ‘Pet Sematary’, ‘Poison Heart’ e uma tal de ‘Hey Ho, Let's Go  (eles achavam que o nome da música era esse) – e que tocavam o tema do Homem-Aranha! A rádio tocava essas músicas de forma exaustiva e o resultado foi uma nova geração de eternos fãs e fãs de momento lotando o Metropolitan na Barra da Tijuca, uma casa bem maior que o Canecão e o Circo Voador juntos.

Por outro lado o Rio vivia o auge da consolidação de uma nova cena rock altenativa, com revistas, programas em rádios comunitárias, zines, selos, bandas pipocavam na cidade... De lamentável apenas a ausência da FLU FM. Essa cena ficou conhecida como os ‘órfãos da Maldita’.

Quase não fui nesse show por falta de grana, já que em 1996 basicamente não trabalhei. Tudo para me dedicar aos estudos fotográficos. O pouco $$ que recebia era para comprar material fotográfico (filmes e papel, revelações etc.)... A lógica era que não fosse ao show, porém tinha o peso que era a última turnê, eu estava gostando mais da banda e tudo levava a crer que seria um show ainda melhor por conta do local, do palco e do som, o que tecnicamente faria desse show melhor que o do Circo Voador, mas só tecnicamente, pois a magia do Circo para um show dos Ramones foi insuperável. Enfim, estava sem dinheiro mas resolvi ir catando as moedas...

No dia do show fui à casa de um primo. Faltavam uns três reais para o ingresso e ao chegar lá uma amiga me perguntou se iria ao show, respondi: ‘Não sei, faltam três reais, e não tenho de onde tirar’... R$ 3 na época valia muito mais que hoje. Essa garota, que aliás tem seus vínculos com Sergipe, falou que iria interar pra mim! ‘Oba! Morderam a isca, irei ver Ramones mais uma vez’. Rsrs...

Em parte, o único problema era que entre as pessoas que iriam ao show com a gente estava um amigo que morava no bairro mas trabalhava em Volta Redonda, uma cidade do sul fluminense, já eram 18h, o show tinha previsão de inicio às 21:30. Claro que chegamos atrasados e ainda tive que comprar meu ingresso, entrei na segunda ou terceira música, num primeiro momento tentei ficar mais perto do palco mas acabei desistindo, me senti sufocado no meio da geração Rádio Cidade, achava aquele povo pop-rock demais e recuei. Resolvi ficar atrás, assistir mais o show e não agitar no meio das dezenas de ‘roqueiros gerados pela rádio dos doidinhos’.** Parei perto da minha amiga que pagou a diferença do ingresso e do seu namorado, um cara que esperou uns 10 anos para ver os Ramones ao vivo. Só que o casal estava brigando e ficaram assim o tempo todo, ou seja, eles não viram nada, pagaram para brigar no Metropolitan.

O show foi uma ‘Carta de Despedida com Final Feliz’. De longe o maior público dos Ramones no Rio, podia não existir o clima de ‘primeira vez’ do Canecão e o clima de ‘rock and roll’ do Circo Voador nunca vai se fazer presente no Metropolitan, hoje Citibank Hall. O show não foi ruim, muito pelo contrário, novamente foi excelente e entrou pra história para muitos novos ‘doidinhos’. Felizes os que descobriram que: ‘Hey Ho, Let's Go’ não é nome de música e que vieram a conhecer a vasta discografia do Ramones, que contém muitos sons além dos que a Rádio Cidade empurrava.

Ao término do show o casal parou de brigar, juntamos o povo de Marechal Hermes e voltamos para casa de forma tosca, não que tivesse aparecido novamente o cara cantando Mr.Big, mas alguém teve a ideia de pegarmos um ônibus que deixava na Sulacap, um bairro relativamente perto do nosso, porém se fazia preciso pegar outro ônibus que podia demorar ou não pra passar, e com isso voltamos a pé pra casa. Caminhamos uns 40 minutos até chegar. Depois dessa noite nunca mais vi um músico dos Ramones ao vivo.

UMA NOVA HISTÓRIA - 2011

Tomei conhecimento do falecimento do Joey Ramone no domingo da páscoa de 2001, ao fazer uso de uma nova mania, a internet, e receber a notícia via ICQ. Hoje, trabalhando com a Parayba Recs., já vendi LPs da banda e os CDs solos dos músicos.

Em maio estarei no show do Paul McCartney. Segundo reza a lenda, o Beatle inspirou o nome ‘Ramones’, pois no início de carreira Paul autografava como Paul Ramone. Mas isso confirmo aos leitores do Viva La Brasa se o Paul me der um autógrafo!

Namastê!

NOTAS
* Na época da Copa do Mundo de 90, fui ameaçado duas vezes por carecas em Aracaju. Eles tinham uma banda e ensaiavam no Conj. Santa Tereza, onde eu morava.
**Forma como a Rádio Cidade se dirigia aos seus ouvintes, a tal nova geração do rock carioca.

MICHAEL MENESES é a soma de um pai paraibano de João Pessoa com uma mãe sergipana de Itabaiana. Torcedor do Campo Grande A.C. no RJ, Itabaiana/SE no Brasil e Flamengo no Universo. Fotógrafo e jornalista, tem trabalhos publicados em várias revistas, sites e jornais, além de ter um orgulho da PORRA em colaborar sempre que pode com o Programa de Rock da Rádio Aperipê FM de Sergipe.

RAMONES MANIA
1,2,3,4: MARKY, JOEY, DEE DEE E JOHNNY
A BANDA RETRATADA POR J.LADRONE
 GUITARRAS MOSRITE MODELO JOHNNY
HOLLYWOOD: EM CARTAZ NOS ANOS 80
 TOCANDO 'HAPPY BIRTHDAY' NOS SIMPSONS:
- I JUST LIKE TO SAY THIS GIG SUCKS! [JOEY]
- YEAH! UP YOURS, SPRINGFIELD! [JOHNNY]

sexta-feira, abril 15, 2011

BIKE RIDE
Começa hoje o Abril Pro Rock, evento que há 19 anos promove o encontro de artistas de Pernambuco c/ bandas de todas as partes do Brasil e do mundo. Já passaram por lá os belgas da dEUS, os californianos Dead Fucking Last e Suicidal Tendencies, o novaiorquino Jon Spencer c/ seu Blues Explosion, e os ingleses do Asian Dub Foundation e do Motörhead, p/ citar apenas os gringos. Foi lá que Chico Science fez seu melhor show c/ a Nação Zumbi, que Tom Zé rasgou uma nota de dólar e que Otto lançou sua carreira solo depois que saiu do Mundo Livre. Este ano, além da diversidade de bandas nacionais – que vai da rapaziada do Eddie, Matanza e Musica Diablo aos veteranos da Ave Sangria – e das atrações internacionais – DxRxIx, Misfits e Skatalites – um nome chama atenção no cartaz, ali no canto em fontes bem pequenas:

Bicicleta Sem Freio. Há 3 anos assinando a arte do festival, Renato Reno, Douglas de Castro e Victor Rocha são o trio de desenhistas goianos que compõe o coletivo BSF. Conheceram-se em 2003 no curso de Artes Visuais da UFG e em 2005 montaram um estúdio “de criação focado em animação e ilustração”, diz Reno. “Preferimos aguardar que os clientes nos procurem pela linguagem autoral dos nossos trabalhos ao invés de garimpar o mercado.” Mesmo sendo alternativos e morando em Goiânia, já fecharam contratos c/ gigantes corporativos como Sony, Nike e Converse, garantindo seu modus-operandi em grande estilo. A marca registrada do grupo são os desenhos de pin-ups c/ corpos perfeitos em motivos psicodélicos.

A referência principal dos ilustradores do Bicicleta Sem Freio é o universo rock’n’roll”, diz a amiga Vanessa Cavalcante. “Os desenhos são feitos à mão, tendo o lápis, a caneta nanquim e a mesa de luz como grandes companheiros do processo de criação. Não é difícil encontrar composições que foram desenhadas na íntegra, incluindo a tipografia dos textos. Dessa forma, muitas vezes o computador é usado apenas para tornar o trabalho reproduzível.” Dão seu suporte à cena rock local c/ cartazes de festas e capas de discos que se tornaram lendários – já fizeram as artes dos festivais Bananada e Goiânia Noise e colaboram c/ MQN, Macaco Bong e outras bandas da região Centro-Oeste.

Douglas e Victor fazem parte da Black Drawing Chalks, os “Desenhos Pretos de Giz de Cera”, banda de stoner-rock onde tocam guitarra e bateria ao lado de Renato Cunha e Denis de Castro. Já lançaram 3 discos, abriram p/ Nashville Pussy, excursionaram no Canadá e tocaram no SWU. Victor é o principal vocalista e autor de My Favorite Way, melhor single de 2009 segundo a revista Rolling Stone. P/ esta música o BSF produziu uma animação insana repleta de garotas de sonho num ambiente onírico – uma espécie de Yellow Submarine p/ adultos. O clip foi feito “depois de muita conversa fiada e rabiscos”, diz Reno. “O importante é sair bem-feito e c/ nossa identidade”.

Não é a toa que o lema dos caras é “MUITO FETICHE E BELAS MULHERES”.

CARTAZ DO ABRIL PRO ROCK 2011
 PRÓXIMO SHOW DA BLACK D.C.
 VIDEOARTE NO EL CLUB (foto: Kai Labre)
CENAS DE 'MY FAVORITE WAY'

quinta-feira, abril 14, 2011

ATLETAS DE FRISTO
O som do Mukeka di Rato é uma pedrada. Tipo crack. Hardcore crust chapado e sujo de Vila Velha, cidade praiana do Espírito Santo onde só dá “atleta de fristo”. Quebrando pedra no underground desde 1995, Sandro, Mozine, Paulista & Brek já lançaram 5 álbuns de estúdio e fizeram turnês em squats na América do Sul e Europa, e em casas de show no Japão. Seus 2 primeiros discos venderam 12.000 cópias e renderam um contrato c/ a gravadora Deckdisc, do produtor Rafael Ramos [ex-Baba Cósmica, ex-Jason].

Amanhã a banda joga no ar a música ATLETAS DE FRISTO, título do novo disco que será lançado pelo selo independente Läjä Records, do baixista Fábio Mozine. A faixa estará disponível p/download grátis durante todo o dia no site da TramaVirtual – primeiro oferecem de graça e quando você vê, tá viciado. O jornalista Ricardo Tibiu conversou c/ Moz, big boss da Läjä, que também toca nas bandas Merda e Os Pedrero. E ouviu a maldição do Saci Crackêro: “Quem não baixá leva fumo!” Sem nóia...

RICARDO TIBIU - Qual o motivo do disco sair pela Läjä Recs.?
FÁBIO MOZINE - Porque no momento não era interessante pra Deck lançar esse disco, não rompemos contratos com eles oficialmente... Eu, particularmente, falo c/ o Rafa quase todo dia e temos uns outros projetos, como alguns LPs, mas por enquanto estamos na Läjä novamente.

RT - E esse nome, ATLETAS DE FRISTO?
MOZ - O disco basicamente fala sobre violência, morte, pobreza, drogas, tráfico, exploração, ou seja, tudo que vivemos no Brasil e em Vila Velha... E dentro disso tudo temos visto como o crack tem desgraçado a molecada. Por mais que a gente até faça brincadeiras com isso, pelo fato de sermos irônicos, a coisa tem chegado a um ponto aqui que não tem esse de doutor ou mendigo não: ta todo mundo na linha de fogo da parada! Então resolvemos fazer um disco chamado ATLETAS DE FRISTO. ‘Fristo’ no Espírito Santo significa o cigarro de maconha com crack, deve ter outros nomes pelo Brasil... Mas a gente sempre gostou dessa coisa de usar gírias escrotas capixabas. Por exemplo, tem uma música chamada CROCA, eu tô ligado que muitos de vocês nem sabem o que é ‘croca’, são gírias ridículas capixabas que a gente tanto ama!

RT - Quem são os maiores ‘atletas de fristo’ da atualidade?
MOZ - Ah, advogados, mendigos, playboys, zumbis...

RT - Essa música está na TramaVirtual c/ exclusividade p/ vocês ganharem um troco c/ o download remunerado. Assim como acontecerá c/ o disco, certo?
MOZ - Sim, isso mesmo!

RT - O que acontecerá com quem baixar e colocar em outro lugar? (risos)
MOZ - Será considerado um grande filho da puta por nós. Não quer comprar o disco, beleza, mas por favor, será que tem como baixar na TramaVirtual, pra gente pelo menos tentar ganhar algo c/ isso? Obrigado!

SAMBA'S NOT DEAD 
HERÓIS DA NAÇÃO FALIDA
 SANDRO, NEW WAVE ÍNDIO
"I WANNA SPEAK TUPI GUARANI!"
SÓ CAPETA CUSPINDO FOGO
 http://www.mukekadirato.com.br/ 

terça-feira, abril 12, 2011

ABUTRES EM REALENGO por Adelvan Kenobi
"Os abutres têm fome, e é um apetite insaciável. Não respeita a dignidade humana nem a dor de mães que acabaram de perder seus filhos da forma mais cruel e sem sentido. Dizem agir com uma missão, a princípio, justa e legítima: levar a informação ao cidadão. Mas numa sociedade regida pela ‘mão invisível’ do mercado (termo fora de moda, mas como não sigo modas, continuo usando), o que se leva é um produto/mercadoria (a notícia) ao consumidor (o público pagante que consome os jornais, seja de forma direta, ao comprar as edições impressas nas bancas, ou indireta, ao bancar a audiência que atrai anunciantes nas emissoras de rádio e televisão abertas).

Foi de uma coincidência macabra que um dos fatos mais violentos e aterrorizantes da História recente do Brasil, já tão cheia de fatos violentos e aterrorizantes, tenha acontecido justamente no dia do jornalista, 7 de abril de 2011. No entanto me recuso a afirmar, como alguns fizeram, que o ocorrido tenha servido para ‘separar o joio do trigo’, porque algo tão ultrajante e sem sentido não pode servir para absolutamente nada, a não ser para mostrar mais uma vez que, em busca do furo jornalístico, os abutres não hesitam em voltar a se amontoar sem piedade em torno da desgraça alheia para produzir sandices como a de que o maluco atirador era um suposto ‘terrorista muçulmano’. Uma vez descoberta a carta do suicida, com referências a Jesus Cristo, no entanto, ninguém passou a chamá-lo de ‘terrorista cristão’. Calaram-se  ou melhor, limitaram-se a continuar expondo pornograficamente imagens da tragédia e o sofrimento das famílias, acompanhados dos indefectíveis diagnósticos psiquiátricos forenses também repletos de suposições.

Em meio ao oba-oba sensacionalista, salva-se a quase falta de cobertura feita pela revista Carta Capital desta semana, que não deu chamada de capa nem repercutiu nenhuma teoria mirabolante. Apenas lamentou profundamente o ocorrido, tanto o fato em si quanto o tratatamento dado ao mesmo pela chamada ‘grande mídia’ – e mencionou, muito apropriadamente, o clássico A Montanha dos Sete Abutres, genial filme de Billy Wilder lançado em 1951 e com tema, desgraçadamente, ainda atual.

A exibição deste filme deveria ser obrigatória em cursos de jornalismo. Seria também de bom gosto exibi-lo na televisão aberta pelo menos no dia dedicado ao profissional da notícia, mas aí é pedir demais nestes tempos regidos pela ganância: trata-se de um filme esquecido, porque foi um fracasso de público, além de ser em preto e branco. Fracassou com o público, muito provavelmente, porque as pessoas devem ter se sentido incomodadas ao verem-se retratadas como consumidores de carniça. Outro motivo pode ter sido a má repercussão na imprensa da época, que também não deve ter gostado de se ver na tela como fornecedora de tão questionável mercadoria.

Trata-se, no entanto, de um verdadeiro clássico do cinema americano, apontado por muitos como o melhor filme feito pelo diretor Billy Wilder. Conta a história de um jornalista desempregado por má conduta nos grandes centros que busca refúgio numa pequena publicação provinciana em Albuquerque, Novo México. É um refugio temporário, como ele deixa bem claro, e a chance de se catapultar de volta aos holofotes acontece quando, a caminho do registro de mais uma reportagem banal, se depara com um homem soterrado num buracão em velhas ruínas indígenas, justamente na Montanha dos Sete Abutres que dá título ao filme em português – até mais adequado que o original, ‘Ace in the Hole’.

Para valorizar o material que tem em mãos, Charles 'Chuck' Tatum, o tal jornalista (interpretado por Kirk Douglas), usa de todos os artifícios, como convencer a empresa responsável pelo resgate a usar um método mais demorado, dando tempo para que a notícia se espalhe pelo país, e a Lorraine, a mulher de Leo, a vítima, a se fazer passar por uma esposa arrasada, quando na verdade ela estava prestes abandonar o marido nesse trágico momento. Tatum a faz notar que ela pode ganhar um bom dinheiro em sua lanchonete quando as pessoas começarem a chegar para ver o que está ocorrendo. Tudo em nome do que ele teria aprendido não na faculdade, mas nas ruas, como entregador de jornal: a notícia que interessa é a notícia que vende, não importa se verdadeira, manipulada ou, simplesmente, inventada.

O final é redentor, 'pero no mucho'. Ao se ver confrontado com um desfecho trágico, fruto de suas manipulações inconsequentes, Tatum questiona seus métodos de trabalho um pouco tarde demais para ele mesmo, mas melhor não entrar em detalhes para não estragar a surpresa. Já os outros jornalistas presentes lamentam apenas o fato de que suas articulações tenham lhe dado acesso privilegiado às fontes. Todos voltam pra casa e, como podemos ver claramente ao nosso redor (tenho aqui em minha mesa uma edição do jornal Cinform com mais uma foto de um cadáver na primeira página), tudo volta a ser como antes no 'quartel de Abrantes'.

Assista."

ADELVAN KENOBI não é jornalista * artigo postado em 10/04 no blog ESCARRO NAPALM