segunda-feira, junho 27, 2011

VATO LOCO
Bobby Martinez está puto. Aos 30 anos, o único surfista de ascendência mexicana no circuito mundial está prestes a perder a vaga na elite, apesar de ser o nº 14 na corrida ao título.

Nascido no subúrbio latino da cidade de Santa Barbara, na Califórnia, Bobby foi o amador mais vitorioso dos EUA, vencendo o circuito nacional escolar por 7 vezes – recorde ainda não superado. Virou profissional no ano 2000, mas penou 5 anos no Qualifying Series até conseguir a classificação p/ o World Tour c/ vitórias nas ondas geladas de Santa Cruz e nos tubos de Fernando de Noronha. Chegando lá, desencantou.

Estreou na 1ª divisão vencendo as provas de Teahupoo, no Tahiti, e em Mundaka, na Espanha. Terminou como Top 5, sua melhor classificação até hoje e a melhor estréia da história, roubando o prêmio de Rookie of the Year das mãos do Mineirinho*, que também estreava aos 19 anos – Martinez já estava c/ 25. Em 2007 voltaria a vencer em Mundaka, e em 2009, Teahupoo, mantendo-se entre os Top 10. Venceu todas as finais que disputou no WT.

Tube rider, dono de um repertório que alia força e modernidade, jogando muita água nas manobras e mandando aéreos p/ os dois lados, Bobby às vezes lembra Kelly Slater de base trocada – a cabeça raspada contribui, mas o surf no pé também.  Os dois usam a mesma marca de prancha, Channel Islands, do shaper Al Merrick. No Brasil, Martinez derrotou Slater e chegou às quartas-de-final. O 5º lugar no Billabong Rio Pro foi seu melhor resultado em 2011.

Mesmo voltando a figurar entre os 16 primeiros, ele aparece lá embaixo no ranking unificado, em 44º lugar, distante da zona de corte dos 32 p/ o 2º semestre. “Um ranking unificado é estúpido, porra!”, tuitou semana passada. “Como posso estar atrás de gente com quem eu nem competi? Fucking stupid!” Desde o ano passado os campeonatos do QS também contam pontos p/ o WT, e quem quiser se manter no topo tem que correr uma quantidade mínima de eventos nos dois circuitos.

Quanto mais eu penso neste novo sistema de pontos mais me dá vontade de socar o infeliz que teve essa idéia miserável”, desabafou @Bobby805 numa série de tweets que podem pôr sua cabeça a prêmio. “Eu já posso ver o advogado da ASP me mandando um e-mail dizendo que vai me processar. Quer saber? Fodam-se!” Os havaianos Fred Patacchia e Dusty Payne postaram mensagens de apoio. “Eu concordo, algo tem que mudar”, disse @FreddyP808, que perdeu sua vaga em 2010. “I’m with ya”, digitou Dusty_P.

Surfista mais tatuado do Tour ao lado do brasileiro Raoni Monteiro [28º no ranking unificado], Bobby poderia atuar num daqueles seriados de TV tipo OZ ou Prison Break. Sua história deverá ser filmada em breve por um estúdio de Hollywood. Mas seu negócio é surf. Ironicamente, há cada vez menos espaço no circuito da ASP p/ os bad boys as regras premiam quem joga de acordo c/ elas. E entre tantos loirinhos bem-comportados, o chicano segue sendo uma voz dissonante.

Em 2009 peitou o australiano Damien Hardman, diretor de prova em Portugal, que queria cancelar as disputas num dia de tubos pesados. “Nós não estamos mais no seu tempo”, mandou na cara do ex-campeão mundial, notório maroleiro. Ao ser perguntado pelo repórter da revista Huck sobre comentários racistas que o bicampeão Mick Fanning teria feito, respondeu: “Ninguém disse nada na minha frente. Eu sei que tem gente que gosta de falar pelas costas, mas ninguém tem coragem de vir até mim fazer piada sobre minha origem ou o fato de eu não ser branco.

C/ vocês, a íntegra da entrevista de Bobby Martinez, o ‘vato loco’ que combate o sistema por dentro. A questão é: até quando?
HUCK - Como é o surf em Santa Barbara?
BOBBY MARTINEZ - Dá boas ondas mas às vezes passam 6 meses sem dar nada, o mar fica parecendo um lago. Todos os picos estão crowdeados. Eu tento surfar onde ninguém está. Gosto de surfar sozinho e fazer meu próprio caminho. Não curto essa coisa de ser ‘local’. É legal estar pronto para surfar sozinho ou com um amigo. Traz mais paz.

H - Você se sente confortável em competições? Fica nervoso ou apenas encara o que vem?
BM - Um pouco dos dois. Eu tento encarar o que vier. Fico muito nervoso quando a bateria começa, mas essa sensação sempre passa rapidamente.

H - Você observa os outros competidores para saber como superá-los ou só se preocupa com seu próprio surf nas baterias?
BM - Você tem que fazer a sua parada, sacou? Eu não caio no jogo de ninguém. Acho que basicamente você tem que surfar contra os juízes porque são eles que dão as notas. Depende de você conseguir o que precisa para passar a bateria. Mais que nas ondas, é no julgamento que você tem que prestar atenção.

H - Você também pratica boxe. Como começou?
BM - Desde moleque que eu gosto e um monte de gente que eu conheço começou a praticar. No México, boxe é grande. Tipo o esporte nacional. Não é um esporte para qualquer um, observo isso quando treino ou faço sparring para meus amigos. Eu admiro qualquer um que lute, porque é mais duro do que a maioria pensa.

H - Você acha que o boxe te ajuda a surfar melhor?
BM - Acho que me ajuda mentalmente. Eu já fiz vários outros treinamentos e nada é tão difícil quanto boxe. Se meu corpo estiver em forma pro boxe, então estarei em forma para fazer qualquer outra coisa, inclusive surfar. As pessoas não têm noção do preparo físico de um boxeador.

H - Você já surfou no mundo todo. Qual seu pico preferido?
BM - Eu amo a Indonésia. Para um surfista, não creio que possam existir ondas mais perfeitas. É provavelmente o lugar mais incrível que já conheci.

H - Você acha que o turismo do surf beneficia os países pobres ou, ao contrário, ajuda a degradar o meio ambiente?
BM - Eu não sei. Nunca vivi nos países que visitei nem vi os efeitos do que fizemos depois que partimos. O turismo gera dinheiro para a economia local. Presentes simples como camisetas e pranchas representam muito para pessoas que não têm quase nada. São pequenos gestos que fazem a diferença. Mas acho que os surfistas que vão aos países pobres não ajudam muito.

H - Você gostaria de ver mais surfistas de origem mexicana no Tour?
BM - Claro! Eu sei que há grandes surfistas no México. O surf pode ter seus estereótipos mas existe um monte de surfistas bons no mundo todo.

H - A indústria do surf poderia fazer mais para atrair surfistas de diferentes nacionalidades?
BM - Talvez não. Surf é um esporte estranho. Não tem apelo para as massas. Ou você vive perto da praia, curte surf e o oceano, ou você simplesmente não vai dar a mínima. Eu tenho dezenas de amigos que não estão nem aí pro surf. Não importa o que seja feito, o esporte não tem muito para onde crescer.

H - Parece que há um interesse de Hollywood na sua história...
BM - Eu vendi minha história para uns produtores de Hollywood. Eles queriam saber tudo sobre minha juventude, me pagaram por isso e agora detém os direitos sobre minha história. Eu não sei em que pé está o filme, não estou acompanhando. Tenho outras coisas com que me preocupar.

LOS GRANDES ÉXITOS EN ESPAÑOL
 BOBBY VENCEU 2X EM TEAHUPOO, NO TAHITI...
 ...E 2X EM MUNDAKA, NO PAÍS BASCO, ESPANHA
 FERNANDO DE NORONHA, ONDE VENCEU EM 2005
 VOANDO P/ DERROTAR SLATER NO BRASIL, 2011
 CORRENDO ATRÁS DO PREJUÍZO EM TRESTLES
 O CHICANO SEM MEIAS PALAVRAS NO TWITTER

fotos: Cestari, Childs, Fagan, Kirstin, Lomba, Rowland, Smorigo, Tostee
entrevista: Ed Andrews [Huck Magazine] / tradução: Viva La Brasa
*Líder do ranking principal, Mineiro é apenas o 7º no unificado

quinta-feira, junho 23, 2011

PÉ VERMELHO
Barbudo, barrigudo e vestido como um caminhoneiro. É assim que Bob Wayne se apresenta p/ tocar country outlaw, a música caipira fora-da-lei que Johnny Cash fazia – e outros menos conhecidos como Hank Williams, Waylon Jennings, Wayne Hancock e Townes Van Zandt. “Para mim Van Zandt é um dos maiores compositores que já caminharam sobre a Terra, apesar de não ser um nome conhecido como Cash ou Willie Nelson”, diz o cantor americano que está no Brasil desde o início do mês e faz amanhã seu último show por aqui.

Será no Red Foot Stomp, festival que acontece em Londrina pelo 5º ano consecutivo c/ atrações como Nigel Lewis, criador do psychobilly na época dos Meteors. Nigel toca no sábado c/ sua nova banda, The Zorchmen, formada por outro ex-Meteor, Steve Medhan, e o guitarrista Doyley, ex-Klingonz. Bob faz nesta sexta sua apresentação em menos de 15 dias. Até chegar a Londrina, passou pelo Rio de Janeiro; Belo Horizonte e Ipatinga, em Minas; Santos e mais 3 cidades do interior paulista.

Pé vermelho é uma expressão do norte do Paraná”, explica um dos Red Foot Stompers, grupo de apoio de Wayne formado por músicos londrinenses. “Londrina é conhecida por ser a terra vermelha, então o pessoal só internacionalizou o apelido.” Os pés-vermelhos seriam a versão nacional dos red-necks dos EUA. Serão 10 bandas na programação oficial e mais 3 no ‘esquenta’ hoje, no mesmo Garagem Hermética onde acontece o festival, que além de country e psycho, também traz atrações de garage rock e surf music.

O estilo vintage está cada vez mais forte no interior do Sul e Sudeste. No último domingo a estância turística de Salto, no estado de São Paulo, comemorou os 313 anos de sua fundação c/ um grande evento de rockabilly, tatuagem & carros tunados. Bandas do gênero surgem em cada cidade: Gatos Feios, Billys BastardosFabulous Bandits... Tocar c/ músicos locais é um esquema que Bob Wayne sempre usa em suas turnês internacionais, como você verá na entrevista reproduzida aqui, conduzida por Karen Abney Korn, do webzine Unite.

Bob já teve banda de thrash metal, foi roadie de Hank Williams III e dos punks do Zeke, que o acompanharam no início de sua carreira solo. Ele também fez shows c/ a .357 String Band e lançou 4 álbuns nos últimos 3 anos – BLOOD TO DUST e 13 TRUCKIN’ SONGS em 2008, DRIVEN BY DEMONS em 2009 e OUTLAW CARNIE ano passado. O último disco batizou sua atual banda, The Outlaw Carnies que ficou nos States p/ economizar nas passagens.

Aos 34 anos, o autor de Fuck the Law, La Diabla e Everything’s Legal in Alabama é o nome mais promissor do outlaw e detesta o country que toca nas rádios. “Really sucks! Me faz passar mal sempre que eu ouço. Acho que me encaixo melhor na categoria punk, se você quer saber. Eu agendo minhas próprias tours! EU sou a minha loja de discos!

Unite Zine - Onde você nasceu?
BOB WAYNE - Eu nasci num Cadillac! Kadlec Hospital (risos)... Fica no oeste de Washington, uma cidade chamada Richland. Um lugar deserto. Vivi lá até os 16.

UZ - Você fugiu de casa?
BW - Roubei um carro e dirigi até a Califórnia.

UZ - Sério?
BW - Sério. Tudo bem, a essa altura o crime já prescreveu. Meus pais encontraram maconha no meu armário. Eles fumaram tudo, não me deixaram com nada, e tinha uns mexicanos na minha cola por causa da grana dessa coisa. Acabou que alguém esqueceu a chave na ignição de um carro estacionado e eu falei para a minha namorada na época: ‘Vamos nessa!’... Nós pulamos dentro e dirigimos até chegar na Califórnia. Eu tinha 16 e ela, 15.

UZ - Conheciam alguém por lá?
BW - Não! Nós queríamos começar nossas vidas lá e acabamos morando na praia em Santa Cruz. Um dia estávamos andando na rua e conhecemos uns moleques que vendiam ácido a $0.75 a dose, de onde a gente veio era $5.00, daí a gente pensou: ‘Este é o lugar!’... Eram os anos 90... Vivi nas ruas um tempo, onde fiz um monte de amigos. Uma noite fomos no show do Grateful Dead. Eu nunca tinha ido a um show, e a primeira coisa que fizemos foi nos chapar no estacionamento. Moramos naquela área até a polícia aparecer. Eu e minha namorada estávamos no carro, uma policial mulher tirou a gente de lá e quando descobriu que o carro era roubado, me algemou gritando ‘Freeze you son of a bitch!’. Minha namorada fugiu na outra direção mas pegaram ela num restaurante. Eles tinham cachorros e helicópteros. Como éramos menores de idade e réus primários, passamos pouco tempo presos. O pior de tudo é que meu primeiro violão estava naquele carro.

UZ - E o que aconteceu depois?
BW - Eu já estava há um ano e meio fora de casa, decidi voltar. Minha namorada já havia voltado e estava me odiando, então eu era procurado em dois estados, Califórnia e Washington. (risos)

UZ - Você procurou seus pais?
BW - Eu nunca fiquei com raiva deles por terem fumado a minha maconha, meus pais são boas pessoas. Quando eu expliquei o que ia acontecer comigo se eu não pagasse o que devia àqueles mexicanos, eles me deram a grana. Mas logo que paguei a dívida fui a uma festa, e a certa altura estava andando nos trilhos do trem com uns amigos, todo mundo bêbado... Aí dois policiais aparecem dando sinais de luz com suas lanternas. Eu achei que seria divertido dar um susto neles, fui para trás de uma moita e quando eles passaram eu saltei e gritei ‘PARADOS!’... Os tiras se cagaram de medo e reagiram me jogando no chão e me levando pra cadeia. A alegação da prisão foi o consumo de álcool.

UZ - Cumpriu pena dessa vez?
BW - Eu já tinha quase 18, mas legalmente ainda era de menor, e isso livrou a minha cara mais uma vez. A acusação foi deferida, eu continuei enchendo a cara e montei uma banda de metal. A gente sempre acabava expulso das festas em que tocava, até que fui preso de novo quando tinha 20 anos, depois de ser pego pela 6ª vez por embriaguez. Mas não tinha jeito, eu ia esperar até os 21 pra poder beber? Fui advertido pelo juiz, arrumei minha bagagem e me mudei para Seattle. Meus amigos estavam vivendo numa casa de 7 quartos, nossa rotina era festas, bebidas e drogas.

UZ - Vamos voltar à música, qual foi seu primeiro instrumento e com que idade começou a tocar?
BW - Foi um violão, aos 8 anos. Minha mãe é pianista e tocou em bandas toda a vida. Eu sempre quis tocar violão porque era o instrumento que eu mais gostava na banda dela. As primeiras músicas que aprendi foram ‘Tear in my Beer’ e ‘Hey Good Lookin (What You Got Cookin)’, do Hank Williams, porque eram parecidas. Mas parei nisso e só retomei com 15 anos, quando comecei a ouvir Slayer, Megadeth, Metallica e Pantera. Até de Guns’n’Roses eu gostava. Aos 19 ou 20 foi que comecei a fazer minhas coisas, minha própria música.

UZ - Sozinho ou com banda?
BW - Com uma banda chamada Stickman. Toquei com eles por 3 anos. Nós nunca fizemos muitos shows, não viajamos nem nada. Só tocávamos em Seattle. Lugares não muito bons. Uma vez nós tocamos num restaurante que ficava num parque e ninguém ali prestava atenção na gente.

UZ - Quando foi isso?
BW - Shit, final dos anos 90, mudei para Seattle em 97 ou 98. Talvez 2000. Pós-Nirvana e tudo aquilo. A chama do Grunge já tinha se consumido. Foi uma época divertida. Nós fomos fortes.

UZ - E qual foi o próximo passo?
BW - Nós fomos despejados da casa. Eu e minha ex-namorada estávamos voltando a ficar juntos, aquela mesma com quem eu fugi, ela se mudou para Seattle e nos mudamos para um apartamento. Foram 6 meses até ela começar a me trair com um dos meus amigos, mas nesse ponto eu já tinha um pequeno estúdio para ensaiar e me mudei pra lá. Aí comecei a me drogar pesado... Usei de tudo e desci a ladeira. Heroína, crack, tudo... Muito ruim. Fiquei nessa até os 25. No meu 25º aniversário eu me internei para tratamento.

UZ - O que aconteceu?
BW - Cheguei no fundo do poço. Eu morava no estúdio e vendi todo o equipamento pra comprar droga, até o lugar ficar vazio. Um dos membros da Stickman, Miles, morreu. Escrevi ‘Blood to Dust’ para ele...

UZ - Isso te assustou?
BW - Não. A espuma já tinha transbordado. Eu vivia num estúdio e não tinha nem um violão. Eu tava ouvindo muita música. Era tudo que eu tinha. Aí descolei o American Recordings que o Johnny Cash estava lançando. Comecei a ouvir aquilo no ‘repeat’ várias e várias vezes. Eu abri a lista telefônica, liguei pra primeira clínica que vi e disse: ‘Eu preciso de ajuda’... Eles me pegaram, e eu comemorei meu aniversário de 25 anos internado. A partir daí minha vida mudou, porque eu fiquei sóbrio e tenho me mantido sóbrio desde então.

UZ - Sem recaídas?
BW - No começo, no meu primeiro ano... Tive umas duas recaídas. Já faz 8 anos. Eu saía com umas garotas muito junkies, e não deu mais. Eu sabia que não dava pra ir na casa delas. Eu tinha que mudar de verdade. Aí acabei trabalhando na construção civil. Entrei pro sindicato, eles pagaram meu acompanhamento médico – porque eu continuei me tratando. Até que eu arrumei um violão novo. Foi a primeira coisa que comprei com meu salário. A segunda foi uma van, porque eu queria montar uma banda e pegar a estrada. É claro que montei uma banda de metal. Só que a essa altura eu só ouvia Johnny Cash. Foi aí que comecei a escrever as canções que vocês conhecem.  A primeira foi ‘Road Bound’, a segunda, ‘Devil’s Son’, e em seguida, ‘Ghost Town’, que diz: ‘The ghost of Johnny Cash saved my life’... Foi tipo subliminar.

UZ - Absolutamente.
BW - Eu continuava fazendo metal mas escrevia essas coisas sem perceber, tipo ‘What the hell is this strange shit?’... O que eu podia fazer? Reformei o Stickman.

UZ - Foi difícil continuar a tocar com as mesmas pessoas do tempo em que era doidão?
BW - Não, o baterista também encaretou. Miles morreu, arrumamos um novo baixista. Então, não foi difícil. Começamos a fazer nosso som, abrimos pro Nevermore e pro Zeke... Comecei a fazer camisetas pra vender e me tornei roadie do Zeke. Foi aí que eu comecei a botar o pé na estrada. Só de rolê com os caras. Eles sabiam das minhas canções country e viviam botando pilha para eu gravar. Um dia eu levei Mike Kesslering, tour manager do Zeke, para assistir um show do Hank III, o Johnny Cash dos nossos tempos. E Hank convidou Mike para organizar as tours dele também.

UZ - O cara que você levou...
BW - O tour manager do Zeke. Em seguida eu quebrei 5 costelas trabalhando numa obra e fiquei afastado do trabalho por 1 ano – tentei voltar antes disso mas as costas doíam.

UZ - Não tomava analgésicos?
BW - Eu tomava Diloted. Mas assim que eu pude mudei para uma medicação não-narcótica. Eu tentei voltar pro trabalho, mas não agüentava correr pra lá e pra cá com sacos de cimento nas costas. Acabei em casa, me perguntando: “O que vou fazer se não posso trabalhar na construção? Ninguém deu a mínima pra minha banda de metal, que merda!’... De repente o telefone toca e é Mike: ‘Cara, o técnico de guitarra caiu fora no meio da tour! Você é roadie do Zeke, toca metal e toca country, então pode fazer isso. É o trabalho perfeito pra você!’ E eu: ‘Wow! HELL YEAH!’ Peguei um avião na mesma noite e encontrei eles na Flórida.

UZ - E isso acarretou em quê?
BW - Hank III toca country, hillbilly, punk, rock no show... E grita por duas horas e meia. Meu trabalho era basicamente trocar as cordas, acertar o equipamento durante o dia no palco e me certificar de que o som estava ok. Dois meses antes eu achava que nunca iria tocar com músicos tão bons, e lá estava eu tocando o violão do Hank e trabalhando com a banda dele. Fiz isso por um tempo, é claro que fiquei amigo de todo mundo, e naturalmente fui mostrando minhas coisas durante as passagens de som. Só por diversão. Alguns começaram a perguntar ‘Que som é esse?’, e eu dizia, ‘É uma das minhas’... Não lembro bem como começou, acho que uma vez uma banda faltou e alguém disse: ‘Não quer abrir a noite?’...

UZ - Oh meu Deus...
BW - Foi assim que eu comecei. E foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, porque os fãs dele são muito leais e amam qualquer coisa com banjos, rabecas e letras sombrias... E minhas canções têm letras sombrias e ‘love songs suck’ e ‘fuck you’ e tal... Então, qualquer um nesse tipo de platéia diria ‘Hell yeah! Esse cara é legal... Abri alguns shows e continuei com meu trabalho de roadie, mas quando a gente voltava nos lugares as pessoas exigiam ‘Ghost Town’ e pediam meu autógrafo. ‘Wow, eles lembram’, eu pensei. Comecei a receber pedidos de shows pelo MySpace e os caras do Zeke me deram uma força como banda de apoio. Começamos a viajar nas folgas das tours de Hank III, partimos na van tocando a $50 dólares por noite e tentando vender alguns CDs e camisetas. De lá pra cá a coisa tem crescido aos poucos.

UZ - E a .357 String Band?
BW - Comecei a tocar acompanhado por eles para cortar custos na tour que fizemos na Europa, porque é muito caro comprar passagens de avião para muita gente, então eu sugeri à .357 tocarmos juntos. Antes de partirmos para a Europa fizemos uma tour de 6 meses pelos EUA.

UZ - Você faz esse tipo de colaboração no palco, e nos discos também.
BW - Yeah, exato... Colaboro com todos e é isso que eu gosto nesse negócio. Tipo: ‘Você toca banjo? Traga ele aqui!’

UZ - Onde é sua casa agora?
BW - Essa é difícil de responder. Eu comprei um motorhome há 5 anos. Antes eu tive um trailer, que eu acoplava na van. O motorhome é muito maior e melhor. É um John Deere de 36 pés. Atualmente está estacionado em Nashville, mas eu estou sempre viajando. Eu também tenho uma limusine Cadillac, estilo anos 80 toda preta. Gosto de pular nela e dirigir pela Costa Oeste.

CAUBÓI FORA-DA-LEI
LEMBRANÇA DA EX-NAMORADA NA LIMO PRETA
ALGUNS VÍCIOS SÃO DIFÍCEIS DE LARGAR
VIVA RÁPIDO, MORRA JOVEM...
MAS DEIXE UMA VIÚVA BONITA

clip: ROAD BOUND [BLOOD TO DUST, 2008]
entrevista: KAREN ABNEY KORN / tradução: VIVA LA BRASA 

sábado, junho 18, 2011

CHAPA QUENTE
Tarja Preta é um coletivo que existe desde 2001 produzindo animações, curtas-metragens e eventos no Rio de Janeiro. A revista surgiu dois anos depois, e há oito funciona como uma cooperativa de cartunistas underground – Adão, Allan Sieber, Arnaldo Branco, Chiquinha, Dúnia, Fábio Zimbres, Guazelli, Goose, Leonardo, Jaca, MZK, Schiavon, Sylvio Ayala... Ao todo 60 desenhistas, jornalistas e músicos já passaram pelas páginas de papel-jornal nas 6 edições lançadas. Até eu.

O bonde dos fumetas sem freio da Tarja Preta sempre foi super-antenado e descoladex com as maravilhas do mundo moderno, desde a primeira edição nunca faltou piada sobre Orkut, Facebook, ‘relationship status’ e o escambau”, diz o CEO Matias Maxx. Sintonizado em sistemas colaborativos, ele bolou um esquema p/ viabilizar a 7ª edição: o financiamento por crowdfunding. Pela internet, o(a) leitor(a) pode investir qualquer valor a partir de R$ 5,00 e unir-se ao projeto da revista, c/ direito a recompensas.

O ‘financiamento pela multidão’ [tradução literal de ‘crowdfunding’] é a mais forte tendência na nova onda de compras coletivas. Você apresenta sua idéia numa plataforma on-line informando o capital necessário p/ a realização, e quem se interessar doa dinheiro p/ o projeto. Se a quantia não for alcançada, os apoiadores recebem tudo de volta. “Este modelo dá poder para os consumidores e os transforma em produtores”, explica o webdesigner Felipe Matos. “É um movimento que começa no Linux e que está por trás de outros serviços de sucesso, como a Wikipedia e o YouTube.

Nos EUA, o site Kickstarter já arrecadou mais de US$ 30 milhões em recursos, soma dos 380 mil projetos tornados possíveis graças à colaboração mútua em torno de objetivos específicos – algumas iniciativas chegaram a receber $ 100 mil dólares. No Brasil, o pioneiro Queremos realizou os shows de Mike Snow e Belle & Sebastian no Rio após campanhas virtuais. O rapper carioca BNegão e a banda Autoramas estão vendendo cotas de R$ 40 pelo Mobsocial p/ fazerem um show juntos. Se a bilheteria superar os R$ 10.000 necessários, haverá reembolso do valor excedente.

P/ a próxima Tarja, o site escolhido foi o Incentivador. “Você só precisa se logar no site com sua conta do Google ou Facebook e escolher quanto você pretende doar”, indica Maxx, “e cada valor tem uma contrapartida que vai de agradecimentos na revista até uma préza do Capitão Presença! O pagamento é feito através do Paypal e seu cartão de crédito só é debitado no final da campanha, se conseguirmos atingir a meta de R$ 6000. Clica aê e tire onda pro resto da vida que você foi um dos responsáveis pela sétima edição da revista em quadrinhos mais enfumaçada do país!

Colaboro c/ a revista desde 2006, quando enviei minha primeira história, SURF É COMPROMISSO, p/ a nº 5. Em 2007 mandei mais duas contribuições, a charge dos pingüins que abre este post e a HQ ZWEIG, essas duas páginas de garranchos que você pode ler a seguir [clique nas imagens p/ vê-las ampliadas]. A nº 6 só saiu um ano depois, em 2008. A falta de grana sempre fodeu a periodicidade.

A #7 vem toda em papel couchê e c/ 156 págs. Ontem Matias me pediu coisa nova. Mais uma vez estou em cima do deadline, mas vou fazer a minha parte. E você? Salve o Préza que ele te salva.

http://www.incentivador.com.br/projeto/revista/tarja-preta--7/111



sexta-feira, junho 17, 2011

DICHAVANDO 
Juca & Matias c/ a mão na massa, preparando a  Tarja #7, c/ lançamento previsto p/ a GibiCon em Curitiba mês que vem. Julho já tá em cima, é um prazo quase impossível de ser cumpridomas a lógica nunca fez sentido p/  essa dupla. A idéia é celebrar a decisão unânime dos 8 juízes do STF de garantir o direito à liberdade de expressão a quem quiser marchar por qualquer causa no país. A Tarja Preta é parte dessa história!, diz Daniel Juca, autor destes quadrinhos aqui. Conheça o estatuto da revista:



quarta-feira, junho 15, 2011

SALVE GERAL
Mês que vem. É o prazo de lançamento da nova leva daquele remédio forte em forma de revista em quadrinhos: Tarja Preta. Quer fazer parte dela? Na sequência eu digo como. Por enquanto, deguste uma história completa do Capitão Presença, o simbólico herói do gibi. Publicada no jornal O Globo em agosto de 2009, a HQ de Leonardo & Arnaldo Branco – criador do Préza – permanece atual, é só prestar atenção nos personagens [clique na imagem p/ ler na resolução original]. De bônus, a animação BONDE DO BREJO - Engolindo Sapos, de Matias Maxx & Juca, a chapada dupla de editores da Tarja. Em julho numa drogaria perto de você. Vai preparando a receita.


terça-feira, junho 14, 2011

QUANTO PIOR, MELHOR
  

Milton Nascimento. Martinho da Vila. Ivete Sangalo. Cláudia Leitte. Maria Gadú. NxZero. E mais umas 80 atrações em 6 dias de... quê mesmo?

Rock in Rio é que nem Rexona, sempre cabe mais um. A 4ª edição do milionário festival criado pelo empresário carioca Roberto Medina em 1985 promete ser um balaio de gatos na tentativa de agradar a todos os gostos – olha que eu nem citei Ed Motta, Zeca Baleiro ou Rui Veloso [quem?]. Tudo bem, no palco alternativo, chamado “Sunset”, tocarão excelentes bandas tipo Nação Zumbi, Júpiter Maçã, Sepultura, Mutantes e a Mondo Cane do Mike Patton, mas p/ cada atração dessas haverá um Monobloco, Cidade Negra ou Mariana Aydar da vida. No principal quem vai segurar a onda do ROCK serão os velhinhos do Motörhead, Metallica, Red Hot Chili Peppers e, veja bem, Guns’n’Roses. Porque os outros grandes nomes do evento serão Jay-Z, Coldplay, Shakira, Rihanna, Lenny Kravitz, Elton John e Katy Perry – nada contra a Katy, muito pelo contrário, mas rock é rock, menino é menino, macaco é macaco e...

Rock in Rio sem mim é o mesmo que nada”, falou Falcão, o Rei do Brega, ao ficar sabendo da campanha lançada sexta-feira no Twitter pelo âncora do Jornal Nacional, Willian Bonner, vejam só. “À meia-noite vamos juntos: Queremos Falcão no Rock in Rio! Vamos dar RT!”, tuitou o global. A hashtag #brega_falcaonorockinrio chegou ao 1º lugar dos Trending Topics na página nacional do site. “Meu tablet informa que brega_falcaoRockinRio é TT mundial”, escreveu Bonner na manhã de sábado, “é isso mesmo!”. Até agora a família Medina não se pronunciou, mas diante das atrações que eles arrumaram este ano, por que não incluir um cantor que já emplacou sucessos como I’m Not Dog No e Black People Car – versões em inglês-do-Ceará p/ os hits Eu Não Sou Cachorro Não de Waldick Soriano e Fuscão Preto de Carlos Alexandre – e se apresentou até c/ a banda de metal Massacration?

Se me chamarem pra tocar com os Beatles, eu vou no lugar de John Lennon sem cobrar cachê”, dispôs-se de boa fé o autor de I Love You Tonight e das máximas “dinheiro não é tudo mas é 100%”, “a besteira é a base da sabedoria” e “mulher feia só presta pra peidar em festa”. Falcão também topa ser acompanhado pelos Rolling Stones, Pink Floyd ou The Fevers. São 8 discos em 20 anos de carreira, o último deles lançado em 2006, WHAT PORRA IS THIS?. Sobre a escalação dos artistas p/ o Rock in Rio 2011, ele disse: “Nem ‘tou sabendo, mas mesmo sem saber, já não gostei!