quarta-feira, outubro 26, 2011

LÄJÄ REX VS MAD MAX 
My Name Is Luis Henrique Camargo Duarte. And Yours?

Quique Brown é yeah total! Pai de 2 crianças e tutor de tantas outras na escola de música Jardim Elétrico, ele também faz o Cardápio Underground, festival de artes integradas que acontece no Edith Cultura em Bragança Paulista. A 8ª edição começa hoje e vai até a semana que vem. Entre as atrações, mesa redonda c/ Panço e Caeto hoje, exibição do filme WARRIORS sexta, e shows da Dizzy Queen, Hellsakura e Guachass, do Uruguai. “Prioridade máxima p/ bandas instrumentais, punk/hardcore e grupos com garotas no vocal!

Quique berra & toca uma Gibson no Leptospirose, trio HC-jazz-metal que lançou o disco mais barulhento de 2011, AQUA MAD MAX. 19 canções c/ menos de 2 minutos, sendo que 13 delas não chegam a 1, como “Entrar Numas de Roberto Carlos Não Cola Mais” e “Não É Absolutamente Necessário Ter Ritmo e Melodia Para Haver Música”. A fixação por títulos psicodélicos começou c/ MULA-PONEY, de 2008, que já abria c/ a esporrenta “Um Dia Realmente Feliz Em Nossas Vidas Será Aquele Em Que Receberemos Uma Notificação Da Nossa Empresa Favorita Nos Convidando Para Ir A Um Hotel (Com A Gente Pagando É Claro)”.

O grupo formado por Quique, Velhote & Serginho estreou em estúdio c/ INVERNADA em 2005. Todos os discos foram lançados pela Läjä Rex, do capixaba Fábio Mozine – baixista do Mukeka Di Rato que também canta e toca guitarra nas bandas Merda e Os Pedrero. Em 2007, Mozine & Quique viajaram juntos na turnê SPREADING BRAZILIAN DISEASES IN EUROPE - with Merda And Leptospirose, que passou por Alemanha, Holanda, Polônia e... era p/ rolar outros países do leste, mas a caminho da República Checa a van dos caras se meteu num acidente.

Quique Brown voltou pro Brasil c/ um colete no pescoço e Mozine foi operado da coluna por lá mesmo. Essa história está no vídeo BREAKING BRAZILIAN BONES, no livro GUITARRA E OSSOS QUEBRADOS e até aqui no VIVA LA BRASA. Brown viu seu 2º filho nascer depois disso e lançou 2 discaços. Moz continua fazendo suas palhaçadas, viajando pelo mundo, entrou p/ o ramo das confecções e pretende produzir o próximo disco do Restart. “Tô empolgado, bixo!

Na semana do Cardápio Underground, o blog da Ideal Shop pediu p/ ele entrevistar seu amigo. O resultado é esse:

Fábio Mozine - Bom dia Quique, você é doido?
Quique Brown - Sim senhor.

FM - Qual foi a sensação de viajar pra Europa sabendo que seu filho nasceria a qualquer momento no Brasil? Como foi a divisão dessas prioridades na sua vida: a banda ou a família? Qual foi o papo reto que você levou com sua esposa pra tomar essa decisão?
QB - Pensava nisso todos os dias, tentava manter contato diário, vivia um tanto apreensivo mas como cheguei no Brasil antes dele nascer, não sei te dizer como eu teria ficado na Europa sabendo que o menino tinha nascido aqui. Acho que o bicho ia pegar geral na minha cabeça se isso acontecesse. Pra conciliar família e banda, eu procuro não fazer shows em finais de semana seguidos, programar tudo com bastante antecedência, tirar todos os anos um bom período de férias, faz um mês que a gente não toca e provavelmente só faremos shows fora de Bragança lá pra janeiro ou fevereiro. Essas férias geralmente salvam um pouco as coisas em casa. Fizemos 30 shows este ano, viajamos pra sete estados, tocamos em várias cidades e tal, mas se você por no papel os shows que a gente fez, você percebe na hora que rolaram vários intervalos entre um show e outro, umas fitas de fazer 3 ou 4 shows numa semana e depois ficar um mês sem tocar etc. O papo reto que levo com minha esposa linda (que diga-se de passagem é uma santa, firmeza total), é o papo do dia-a-dia, quando estou na área tento dar total suporte. Seguro o Júlio, meu filho mais novo, que dorme tarde quase todos os dias e dou uns passeios da hora com a criançada pra compensar a ausência, que sem sombra de dúvidas é bem sinistra de suportar.

FM - O que você projeta no futuro pros seus meninos?
QB - Quero que sejam pessoas legais, que tenham bons amigos, uma inteligência bacana, saibam trilhar seus caminhos etc.

FM - Você acha que eles já entendem o seu tipo de vida e estilo? Quando forem um pouco mais velhos, você acha que eles vão querer que você leve-os até a porta da escola, ou deixe uma esquina antes? Hehehehe
QB - Acho que eles não entendem, eu mesmo não entendo heheh. Vou achar bem normal se algum dia eles tiverem vergonha de mim. Hoje em dia, por enquanto, é tudo muito da hora, chego nos lugares, festinhas de criança, porta de escola etc e a molecada, os amiguinhos gritam: Quique Brown!, fazem símbolo do capeta com a mão e tudo mais.

FM - Você trabalha com crianças em uma escola de música, quais são seus métodos?
QB - Aqui na minha escola de música, a Jardim Elétrico, eu nem dou aula, fico mais trampando com outras coisas, mas dou aula em duas escolas regulares e lá os métodos são os seguintes: nas aulas práticas, aulas de banda, no primeiro dia real de aula, depois de ter montado os grupos, da molecada ter escolhido seus instrumentos, a gente apresenta de forma bem geral todos os instrumentos e em seguida eu mostro pro guitarrista e pro baixista o misão, pro baterista uma batida feita de bumbo/chimbau -> caixa -> bumbo/chimbau -> caixa e o jovem vai sentindo a coisa, depois de tocar um pouco a gente vai prum som com mi + sol, depois mi + sol + lá e assim vai, nas aulas seguintes o batera aprende a fazer uma virada punk estilo ta-ta-ta-ta, e depois uma batida na caixa, uma no ton um, uma no ton dois e uma no surdo, depois duas batidas em cada, depois quatro, depois oito e assim as coisas vão ficando mais complexas, o vocal começa a agitar umas letras que vão ficando cada vez melhores e é assim que funciona. Com a música pronta a gente ensaia ela que nem doido e agita, geralmente, uma apresentação por semestre. Numa das escolas, a gente acaba de gravar um CD com 13 bandas que vai sair agora em novembro.

FM - Você acredita que tem como vocês passarem pra essas crianças alguns valores ou ficam apenas na música mesmo e cada um por si?
QB - O lance vai muito além da música, principalmente com o pessoal mais jovem. Na escola que a gente dá aula teórica de música a gente trabalha a música de forma bastante ampla… além da teoria propriamente dita rolam várias aulas da hora onde a gente trata de assuntos gerais tipo: a influência dos negros na música brasileira e norte-americana, o fim da II Guerra Mundial, baby boom, Guerra do Vietnã, como era a distribuição da música antigamente e como ela é feita hoje em dia, o que é comercial, como as rádios trabalham, a importância da internet nos dias de hoje, música independente e mais um monte de coisas, dentro dessas paradas todas dá pra pegar muita coisa pra vida né? No Jardim Elétrico a gente pretende criar um curso de teoria o mais rápido possível, enquanto isso não acontece a gente vai conversando com a molecada no dia-a-dia, a gente chega de turnê e a rapaziada vem perguntar como foi, se a gente tocou em estádio, querem saber como funcionam nossos discos, pedem pra gente gravar umas coletâneas e assim vai.

FM - De alguma forma vocês acham que influenciam as crianças a tocarem e curtirem rock ou essas escolhas são livres? Se chegar um moleque aí na escola dizendo que quer aprender a tocar música baiana, como vai ser?
QB - A gente influencia 100% a molecada a curtir e a tocar rock. Mas a grande verdade é que a maioria das pessoas que nos procuram, chegam até gente por causa do rock, por causa da liberdade que existe aqui dentro. Escola muito doida, cheia de pôster de caveira! Por outro lado, esse papo de música baiana é tranquilo, rola normal, mas devo confessar que quem quer tocar esse tipo de música quase nunca nos procura, muito mais por preconceito deles do que nosso heheh, mas independente disso, sempre colam uns caras do pagode ou do sertanejo aqui na escola pra ter aula com o Velhote, são caras que já tocam bem, se matriculam aqui pois sabem que o Velhote poderá os encaminhar de uma forma bem livre e tranquila no baixo dentro daquilo que eles estão buscando na música.

FM - Qual foi o seu pior pesadelo na Europa?
QB - Quando eu me deitei numa maca com uns 10 médicos e enfermeiros do meu lado e cismei que não queria tomar anestesia geral, comecei a pirar que eu poderia não voltar mais, eu dizia pros caras que eu tinha mulher e filho no Brasil e que estava pra nascer meu segundo filho e eles me diziam que era só uma anestesia relâmpago, que em poucos minutos eu já teria voltado ao normal e por aí vai. Foi loucura isso velho. Esquizofrenia brava!

FM - Você se considera psicologicamente recuperado após o acidente?
QB - Não! Mas também não sofro diariamente por causa disso!

FM - Porque drogas não ou porque drogas não mais?
QB - Vai fazer 9 anos que eu parei de usar drogas, parei com tudo, parei porque eu não tava me sentindo bem, eu gostava muito de tomar chá de cogumelo, tomava direto e em várias circuntâncias, até que um dia o lance não bateu bem e fui parar numa viagem horrível onde eu achava a todo momento que iria morrer. Fiquei nessa por umas 5 horas, depois disso sempre que eu fumava um cigarrinho ou tomava uma cerveja, conhaque ou cana essa viagem doida vinha, até que depois de um tempo essa viagem começou a me perseguir total, ficava uns dias sem fumar cigarrinho ou beber e a viagem vinha brutal, medo doido de morrer a noite até que um dia saí de casa de madrugada fui até um médico que cuida de drogados e disse: – Quero me internar! e ele disse: – Legal, volta aqui amanhã cedo que a gente vai agitar isso logo mais. No dia seguinte eu até pensei em nem ir, mas acabei indo, fiz um tratamento de uma semana com o cara e to aí até hoje. Depois de largar o cigarrinho, o chá, a bebida e a várias outras coisas que vinham junto eu dei um pau violento nesse lance de música, virou e se marcar é até hoje minha principal válvula de escape, terapia ou sei lá o que.

FM - Você já tentou ser vereador em Bragança mas infelizmente não ganhou. Se vencer nas próximas eleições, quais serão suas ações efetivas? Quero saber algo que você tem CERTEZA que poderá executar na cidade, e não ilusões ou projetos que dependem de 10 outros órgãos, pessoas, políticos, etc.
QB - Se eu ganhar eu irei representar com bastante força e noção as áreas da educação, da cultura, do lazer e do jovem. Hoje aqui em Bragança tá rolando um impasse muito doido que dura mais de 10 anos a respeito do restauro de um prédio de mais de cem anos que era um teatro e que está prestes a se transformar em centro cultural, se você for na câmara ver uma sessão que trata desse caso, você vai ver um circo muito doido, não tem ninguém lá dentro que saiba dizer com clareza pra que serve um centro cultural, por que devemos ou não restaurar tal prédio e todo esse tipo de coisa, se eu fosse eleito eu seria um dos agentes principais dessa discussão.

FM - Mas me explica melhor o que te faz crer que poderá ser um bom político. E afinal, existe um bom político?
QB - Quase sempre, quando o assunto é pilantragem a gente esquece que existem centenas de milhares de pessoas vivendo as custas dos órgãos públicos, nas costas dos políticos, trabalhando em secretarias, ministérios, gabinetes etc. Gente que dificilmente você contrataria pra ser empacotador na Läjä e que tá aí ganhando mais de 10 mil reais por mês só de salário, fechando contratos milionários, contratando serviços gigantescos e tudo mais. Só pra você ter uma idéia, aqui em Bragança existem mais de 500 cargos de comissão, os famosos cargos de confiança, gente que tá lá porque é amigo do político ou ajudou na campanha, gente que fatalmente não tá ali porque o currículo é bom ou algo assim. É isso que fode tudo, há todo um sistema desgraçado envolvido na parada, umas 200 pessoas competentes dariam conta do recado brincando. Mas voltando a sua pergunta a parada é a seguinte, se o grupo político que eu apoiar, ou seja, se o prefeito que estiver junto comigo nas próximas eleições (se eu vier a ser candidato) de repente ganhar, boa parte da secretaria de cultura terá a minha mão e eu acredito que tanto eu, quanto você, quanto tantos outros caras, seríamos capazes de fazer um bom trabalho na maior tranqüilidade, a gente levaria um bom salário por mês (aqui em Bragança um pouco menos de 10 mil reais) e administraríamos uns bons milhões de reais por ano dependendo da situação. Aqui em Bragança o lance gira em torno de uns 3 milhões, 3 milhões pra gastar com som, banda, peça de teatro, oficinas culturais, divulgação de eventos, festivais, editais etc. Dinheiro limpo, sem risco. Dá pra fazer coisa boa ou não? Gostando desse universo do jeito que eu gosto, creio que dificilmente eu me perderia em fita torta em busca de dinheiro sujo e fácil, pra quem sai do trabalho segunda- feira a noite e carrega amplificador nas costas pra organizar show sem ganhar nenhum real por isso, ser remunerado pra fazer esse mesmo tipo de coisa com dinheiro em caixa é o paraíso não é não? Não sou um cara ambicioso, se eu fosse eu não teria uma escola de música, teria uma escola de inglês, ou emagreceria e na seqüência sairia por aí vendendo Herbalife. Acho que existem bons políticos sim, a situação é feia pra caralho, mas que tem uma quantidade aí que é honesta tem, os honestos sofrem muito nas campanhas, nas campanhas rola solto o dinheiro mais sujo do planeta e geralmente o cara que é bom, bem intencionado não faz uma campanha poderosa não, mas isso já é outra história.

FM - Sua casa está em chamas. Felizmente, todas as pessoas, animais e documentos já foram retirados de dentro dela. Você tem seguro e todos seus bens e eletrodomésticos serão ressarcidos, menos seus discos. Na sua ultima incursão ao imóvel, você tem que escolher entre dois pacotes: um contém seus LP’s de MPB e o outro seus LP’s de punk. Qual dos dois você vai pegar?
QB - Vou pegar os de MPB!

FM - E agora lançaremos o AQUA MAD MAX em vinil, 12’, prensagem nacional. Está feliz com todas as decisões tomadas? Esse é o primeiro vinil do Leptos?
QB - To feliz pra caralho, todo mundo da banda é pirado em vinil, desde que a gente montou o Leptospirose que a gente deseja prensar um LP. A arte do AQUA MAD MAX foi totalmente pensada pra ser lançada em vinil. O que a gente vê na capa do CD é só 1/9 da arte que será vista no LP.

FM - Esse disco foi produzido pelo Juninho do Discarga. Até onde podemos ver a mão do produtor no disco? Foi boa a experiência de trabalhar com ele?
QB - A experiência de trampar com ele foi boa pra caralho. Juninho é um cara que toca em mil bandas, já esteve inúmeras vezes em estúdio com suas bandas, conhece milhares de referências, banda que a gente nem imaginava que existiam e que se parecem de alguma forma com a gente, saca de timbre e todas essas paradas, a mão dele tá geral na escolha dos melhores takes, nos timbres dos instrumentos e nos altos estouros de reverb que existem, em todo o disco!

FM - O Velhote é o melhor baixista do Brasil? Cite 3 bandas esdrúxulas que ele toca como prestador de serviço.
QB - Esse papo de melhor é tenso de afirmar né? Música não é que nem esporte onde nego ganha, perde, bate recorde etc, esse papo de melhor e tal soa Expomusic demais pra mim, mas é fato que o cara toca muito e se encontra num nível altíssimo dentro do instrumento. Atualmente ele toca só com nóis mas já prestou serviços pra muitos grupos de forró como Elba Ramalho, Dominguinhos, Trio Virgulino e Bando de Maria.

FM - O Serginho é doido?
QB - O Serginho está fatalmente entre os caras mais doidos do universo!

FM - Você é doido?
QB - Você já me perguntou isso!

ACORDAR, IDEALIZAR, VOMITAR & DORMIR
 A BANDA MAIS BONITA DA CIDADE
 AQUA MAD MAX: SURF NAS RUAS DE SP
  OUTDOOR DO CARDÁPIO EM BRAGANÇA:
"KASSAB, SÃO PAULO SUJA É LINDA!" 
 
FONTE: http://blog.idealshop.com.br/2011/10/mozine-entrevista-quique-brown/

sábado, outubro 22, 2011

ESPORRO
Leonardo Panço é o primeiro amigo que eu fiz no Rio de Janeiro. Em 1996 internet ainda era coisa de nerd rico, cartas é que conectavam pessoas, bandas, cenas de cidades diferentes e distantes. Panço já estava bem conhecido no underground àquela altura: guitarrista da Soutien Xiita, banda de thrash metal c/ letras de putaria em inglês, e editor dos zines Disbablios Biblios e Gnomo da Tasmânia, que chegou a circular c/ 3000 exemplares por edição. Eu também era zineiro, já tínhamos trocado correspondência, e de férias no Rio liguei pra ele: 

- E aí Panço, o que tem pra fazer aqui na sua cidade?

- Hoje, sábado, véspera de carnaval, só tem baile funk e ensaio de escola de samba, mas tem uma banda duns amigos, Cabeça, que tá num estúdio da zona sul. Vai lá que a gente agita alguma coisa. 

Perguntei se haveria alguém que rendesse uma boa entrevista e ele respondeu: 

- Eu! 

Naquela noite conheci Fábio Kalunga e sua banda, caímos todos na gandaia, c/ direito a baculejo da PM de saideira. Panço diz que não lembra de nada. Também, do jeito que bebemos... Como ele tocou guitarra c/ os caras durante um tempo, foi fácil voltar ao estúdio na semana seguinte e fazer a matéria c/ o Cabeça que estampou as páginas centrais do zine MAUMAU, lado B do CABRUNCO.

No Hollywood Rock, Panço me apresentou a Danúbio Aguiar, do zine O Mensageiro, e Ronaldo Chorão, da Gangrena Gasosa [foto]. Teve uma hora no show do Smashing Pumpkins que a baixista parou a música e começou a reclamar que não sabia que o patrocinador do festival era uma marca de cigarro e tal. Chorão gritou: 

- Que porra é essa? É U2? Pau no cu do U2! 

- Não, é Smashing Pumpkins, disse Panço. 

- Então pau no cu do Smashing Pumpkins!, emendou o vocalista da Gangrena, que insistia p/ que fôssemos c/ ele até sua casa em Campo Grande fumar maconha.

Depois desse verão do rock, volta e meia eu me batia c/ meu chapa em algum festival. Naquele mesmo ano foi no Acendedor de Lampiões, em Maceió, em setembro voltei ao RJ p/ cobrir a Expo Alternative. Teve outra vez na Paraíba, em 98, mais alguns Abril Pro Rock, e os shows que ele fez em Aracaju c/ o Jason, supergrupo formado em 97 c/ os amigos Flávio Flock e Vital Cavalcante, do  Poindexter, e Rafael Ramos, baterista e produtor que descolou pro Panço o primeiro bom emprego da sua vida: um estágio remunerado na EMI. Sua função foi preparar a coletânea PAREDÃO. 

AMIGOS VÊM & VÃO 
Reencontrei o Panço sábado passado no Capitão Cook, na Noite Fora do Eixo. Tocaram Casa Forte e Você Me Excita, de Salvador, e ainda teve uma performance teatral c/ umas meninas de lingerie, mas fui mesmo p/ dar um abraço no meu camarada, de passagem pela cidade p/ lançar seu novo livro, ESPORRO.

Eu saí de cena, me formei em jornalismo, comecei a trabalhar c/ vídeo, criei um blog e até casei. Panço continua o mesmo, tirando os óculos – que ele não usa mais – e o cabelo – que ele cortou. “Meu livro é sobre as esperanças da juventude, cair na estrada, tocar, compor e viver o sonho do rock com alguns amigos. 

Jornalista desde 98, sempre escreveu bem. A primeira coisa que li de sua cepa foi o Guia Alternativo do Verão Carioca na revista Panacea – dicas turísticas nada óbvias como a Vila Mimosa, clássica zona de baixo meretrício no centro do Rio. Lembram do início deste post? Por que vocês acham que liguei pro cara? Hoje trabalhando no site da Globo, encaixou as férias do trampo c/ o lançamento do livro p/ fazer a turnê este mês. 
 
ESPORRO é o registro do que Panço viu e viveu no Rio de Janeiro dos anos 90. A era dos S.O.S.,  das fitas demo, do festival I Hate Lariú, dos shows do Defalla no Circo Voador e do Garage, inferninho onde tocaram todas as bandas que estão no livro: S.X., A.S.S., Cabeça, Poindexter, Sex Noise, Second Come, Beach Lizards, Dash etc. 

Garage, o mesmo inferninho onde Marcelo D2 morou nos tempos de dureza antes da fama. O Planet Hemp, por sinal, é um dos destaques, assim como Piu-Piu, um maluco [foto] que bebe mijo, toca fogo no próprio corpo e já cantava fantasiado bem antes dos Mamonas Assassinas pensarem em fazer sucesso. E Chatos & Chatolins, que se vestiam como personagens do Chaves e influenciaram o funk endiabrado dos Miami Bros.

Tá lá o episódio em que o Zumbi do Mato todo quase roda na mão dos hômi por cheirar bala Garoto; a queda do palco do JuntaTribo, quando o Resist Control [única banda não-carioca no PAREDÃO] chamou geral pra subir e o tablado não suportou o peso; a vez em que Larry Antha leu uma revista de sacanagem no ar durante um programa de rádio e deu a maior merda; e as inúmeras roubadas que o próprio Panço passou – a Soutien lançaria seu único álbum, CANTANDO PRA SUBIR, em 99, e encerrou as atividades no show de lançamento. Típico do senso de humor do autor e do vocalista Cláudio.

Mas insanos mesmo são os trechos dedicados à Gangrena Gasosa. Total terror, maldição de Omulú. Histórias de sexo, despachos, encruzilhadas, hotéis vandalizados, experiências de quase-morte e uma passagem pelo Jô Soares Onze & Meia. É uma das poucas bandas que continua na ativa até hoje, entre zumbis & feridos. Aqui vai um pedacinho do capítulo A Queda da Torre de Babel, só p/ vocês sentirem o drama:

A Torre de Babel era um dos lugares mais bonitinhos que havia na Zona Sul em meados de 93. Mais precisamente em Ipanema. Local para a classe média mais alta e muito pouco a ver com um ambiente para o rock. E muito menos a ver com Piu-Piu e Gangrena Gasosa. Piu-Piu abriu a noite vestido de baiana distribuindo acarajés feitos de cocô de cachorro. “A insanidade foi antológica”, escreve Panço, testemunha ocular da escória. A Gangrena caprichou:

Como nesse show os escaldados eram poucos, na hora de ‘Despacho from Hell’, quase ninguém sabia que era o momento de jogar despacho na galera. [...] Farofa e fubá para todo o lado e uma novidade até pra mim: ovo cru. Essa parte foi, com licença da palavra, linda. [...] As pessoas tentando se esconder, o estofado português das cadeiras totalmente detonado. O frango assado bateu em cima da mesa da dona do lugar, ricocheteou na parede e caiu no chão. Paulão jogou uma cebola gigante no telão [...]. Depois desse caos nuclear, queriam que limpassem tudo e pagassem o prejuízo. Ninguém até hoje sabe a quantia e nem o nível dos estragos. Arrumamos tudo rapidinho e demos no pé. Clássico. 

UM SONHO VIRANDO REALIDADE 
O título do livro é uma referência, e uma provocação, ao BARULHO do paulista André Barcinski, que retratou a cena alternativa americana no início da década de 90 – quando algumas bandas como Nirvana e Red Hot Chili Peppers já não eram tão alternativas assim.

Eu li numa entrevista que o Barcinski falava que não gostava das bandas brasileiras, achava o underground chato, ruim, lá fora era mais legal e tal”, ele explica no vídeo promocional feito pelo zineiro Márcio Sno: “O nome veio daí. Se ele fez o BARULHO, eu vou fazer o ESPORRO. E decidi escrever sobre o meu underground, sobre o que eu vivo no Rio de Janeiro.

A pesquisa foi feita entre 97 e 98, mas o material permaneceu arquivado até este ano. Em janeiro, Panço deixou a Jason. “Durante 14 anos fiz centenas de shows pelo Brasil, quase 100 só no nordeste, mais de 100 na Europa em 3 turnês gringas, gravei 4 discos, vários lados B, clipes, faixas saíram em coletâneas, lancei 3 discos no exterior, sendo um em LP. Uau.

Enquanto as pedras rolavam, escreveu seu livro de estréia – JASON 2001: Uma Odisséia na Europa – sobre a primeira tour internacional, quando fizeram 62 shows em 80 dias por squats do País Basco, Alemanha Oriental, Eslovênia, Suíça etc. Há 3 anos lançou CARAS DESSA IDADE NÃO LÊEM MANUAIS, sobre sua 4ª viagem à Europa, dessa vez sozinho. Em 2011, finalmente o ESPORRO.

O livro era muito difícil de terminar, ele é do tamanho dos outros 2 livros juntos”, Panço fala no teaser, referindo-se também à arte do parceiro Flock, baixista do Jason e designer responsável pelo belo trabalho gráfico, da capa às páginas internas.  “Agora já foi difícil de fazer, deu trabalho e exigiu algumas coisas da gente que 12 anos atrás teria sido completamente impossível ter feito.

Tudo no seu tempo. Hoje tem festa de lançamento no DoSol Rock Bar, em Natal/RN. Depois de fazer Sul, Sudeste e Nordeste, dia 26 ele volta a São Paulo, na cidade de Bragança, dia 29 é na Choque Cultural, 30 outra festa em Sampa, 31 Bauru, São Carlos 01/11 e Campinas dia 02. O livro tem 268 páginas, custa apenas R$ 30, e você ganha de brinde 3 discos do catálogo da Tamborete.

Muito rock e alguma música”, diz a dedicatória da cópia autografada que eu ganhei. Comprei os 2 livros anteriores, e c/ a grana Panço me pagou umas cervejas e ainda me deixou escolher 7 CDs da banquinha que ele monta em cada lugar por onde passa.

Quem viveu o sonho do rock vai se ver nas roubadas, outros vão lembrar de shows que foram. Você pode estar em qualquer cidade do mundo, mas o rock, os palcos imundos, o equipamento ruim, a cerveja e sentar na calçada de madrugada para esperar o primeiro ônibus, serão sempre iguais. 

Leonardo Panço é o primeiro amigo que eu fiz no Rio de Janeiro. 15 anos depois, aí está a entrevista. 

Viva La Brasa - Cadê seus óculos? 
Leonardo Panço - Isso mostra que você ainda não conseguiu ler os três livros, já que no segundo eu conto como foi a extremamente bem sucedida cirurgia de miopia que fiz em 2006. Mas você chega lá. 

VLB - Quando eu te conheci vc tinha uma banda e dois zines. O que veio primeiro, a roqueiragem ou o zinismo? 
LP - O rock, sempre. Sempre tive um único sonho, que foi o de ser guitarrista de uma banda de rock. Todas as outras coisas vieram depois, ao acaso, com o passar do tempo eu fui viajando em outras paradas, desenvolvendo novas ideias, e daí vieram os zines, os livros, a gravadora, as turnês de banda e livro, e tudo mais. 

VLB - Você lembra do baculejo que nós tomamos na noite do meu aniversário, em 96? Na verdade quem tomou a dura foram vc e os caras do Cabeça, eu e o Hugo [Leonardo, autor do livro DA FÚRIA À MELANCOLIA] dissemos que éramos turistas e os hômi liberaram de boa... 
LP - Incrível, tenho zero memória disso. Às vezes as pessoas contam coisas antigas e eu consigo lembrar aos poucos, mas essa nem com você contando me veio à mente. Mas acredito. 

VLB - Pegou nada, ninguém tava de cima. Bom, pra quem não conheceu, poderíamos dizer que se a Soutien Xiita fosse uma pizza seria uma grande 3 sabores: Anthrax, Pantera e Faith No More? 
LP - Acho que o Cabelada diria que faltou um Red Hot aí e eu diria que faltou Cólera, Replicantes e Garotos Podres em alguns momentos. Mas principalmente FNM e Pantera total. Anthrax também, mas acho que menos. 

VLB - Vc trampava na EMI qdo nos conhecemos, tava no projeto PAREDÃO. Continuou lá depois que a coletânea saiu? 
LP - Enquanto o PAREDÃO foi divulgado, eu estava lá sim, inclusive a festa de Curitiba eu ajudei com toques, a do Rio também, eles me consultavam para saber o que seria melhor, etc. Fui estagiário da EMI por pouco mais de um ano e hoje vejo que não deveria ter saído. Eu ficava ouvindo fitas demo o dia todo, de tudo que é estilo, e tentava indicar ao pai do Rafael o que eu gostava. Mas não sei identificar um pagode bom, um axé bom, e achava chato ficar lá fazendo aquilo. Saí da EMI porque me achava meio inútil lá. 

VLB - Foi daí que vc e o Rafael começaram a Tamborete? 
LP - Comecei a Tamborete com o Rafael nessa época e acho que teria dado para conciliar as duas coisas por um tempo, principalmente por causa do dinheiro que eu recebia e fazia muita falta. 

VLB - Falando no Rafael, quando vcs e os 2 do Poindexter montaram o Jason, foi tipo uma superbanda do underground carioca né? Só figura carimbada... Vcs tinham essa idéia qdo começaram a tocar juntos? 
LP - A ideia era fazer uma coisa que a gente não vinha conseguindo fazer nas nossas três bandas (apesar de que eu acho que o Soutien já tinha acabado), que era não se aborrecer, não ter pessoas que faltassem aos ensaios, que não fossem aos shows, e acima de tudo, fazer músicas de maneira mais rápida, sem muita firula. Então criamos uma regra de cada um levar as músicas prontas e o Flock levou o caderninho com letras, tanto que 'Marra de Cão' é 100% igual agora a primeira vez em que ela foi tocada. Tudo muito simples e rápido. Mas não tínhamos ideia de ser uma superbanda não. Essa é o Superheavy de Jagger, Marley, Stone... 

VLB - O Soutien durou quase 10 anos, mas viajou pouco, tocou em poucos festivais e só lançou 1 disco, depois de muitas demos. Já c/ o Jason foi o contrário, as coisas sempre aconteceram mais rápido: discos, viagens e sei lá, festivais?! Além de vcs estarem mais experientes e espertos, a banda nova tinha um esquema mais redondinho que funcionava melhor? 
LP - Se a gente pensar direitinho, o Soutien praticamente só durou 2 anos, que foram 92 e 93. Nesses anos a gente compôs acho que 99% das músicas que entraram no CD, foi quando não mudamos de formação, conseguimos tocar mais, etc. Depois o que eu considero foi o ano que tivemos com Pedro e Melvin na bateria e baixo. Tocamos em SP, interior, PR, SC, na Expo Alternative em 96. Em 99 a gente voltou com a formação das antigas para uns 4 ensaios e a gravação do disco, e encerramos para sempre no show de lançamento. Já realmente com o Jason foi ao contrário, porque as coisas eram mais diretas, cada um tinha uma área de atuação mais clara, Rafael na produção, eu nos shows, Flock com a arte, e toda semana tinha ensaio, a gente criava em casa, levava coisas prontas, era tudo mais interessante e produtivo. Depois coloquei pilha para começarmos a viajar e por aí foi. 

VLB - O disco de estréia do Jason, ODEIA EU, é puro hardcore e só tem hit! Depois a banda seguiu numa direção mais... new metal? C/ umas letras mais... abstratas? Se bem que o REGRESSÃO tem uns HC nervosão... 
LP - Eu ainda acho que o segundo é parecido com o disco de estreia de certo modo. Ele ainda é bem direto, as letras são mais diretas. Mas o terceiro realmente é bem mais viajante, rolou uma outra época na vida de todo mundo, é normal. E mais viagem ainda é a leva que gerou um CD split lá na Europa, com o Glerm (ex-Boi Mamão) no vocal. Capaz que nestas músicas estão minhas melhores guitarras, que inclusive gravei no nordeste, com a produção de Marcelo Gomão (Vamoz), na minha modesta opinião, um dos três melhores guitarristas do Brasil, sendo que diria o de melhor gosto. 

VLB - Vcs fizeram mais alguma tour européia além da que tá no livro JASON 2001? 
LP - Fizemos sim. Em 2003 foram 26 shows em 4 países. Tivemos um problema com o Glerm, ele teve que voltar para o Brasil, e perdemos uns 3 ou 4 shows e fizemos 19 como um trio. Em 2006 voltamos para 38 concertos em uns 6 países, eu acho. 

VLB - Tocaram pela América do Sul tb? 
LP - A gente esteve prestes a ir duas vezes, mas não aconteceu. Hoje eu vejo que foi melhor, seria muito mambembe e traria complicações muito maiores que os êxitos. 

VLB - Esse livro que eu citei já tem 10 anos. Qdo vc tocou pela 1ª vez na Europa, uma coisa que te chamou atenção foi o esquema profissa c/ que os squats funcionam lá e a infra que as bandas têm, tipo vans, amps delas mesmas. Vc disse que ainda faltava muito pro Brasil chegar nesse nível. E agora, falta quanto? 
LP - Agora a gente está diferente de uma maneira muito melhor, mas acho que nunca vamos ser como eles, porque nós somos nós, não eles. Acho que nunca vamos ter tantos squats como eles, nem tantos centros culturais, nem vans, etc. Seria legal que as bandas tivessem seus próprios amps, isso ainda acho que é viável, e que vamos ter ainda. Mas estamos melhorando. 

VLB - Quais foram os shows mais memoráveis da sua vida? Quais as bandas c/ quem vc mais gostou de tocar junto na mesma noite? 
LP - Pô, são quase 500 shows, difícil lembrar de tudo. Poderia falar de um monte, mas vou falar do mais emocionante na minha opinião. Provavelmente os outros têm outras opiniões. A gente passou por dificuldades gigantes, muito complexas mesmo, na tour de 2003 na Europa, coisas que o próprio Glerm explicou no blog dele na época. E numa segunda-feira tivemos que viajar uns 600km pra ir levar ele ao aeroporto de Frankfurt para ele voltar ao Brasil, foi tudo muito difícil. Tínhamos show nesse dia na Alemanha e ligamos para o promotor para dizer que a gente tava longe para caralho e não daria para chegar, uma segunda, já era tarde, etc. Isso com a gente já na estrada. Daí o cara falou 'mete bronca, vem para cá, que ninguém vai embora enquanto vocês não chegarem'. Marcelo meteu 190 na van e chegamos lá quase 11 da noite. Tinha umas 50 pessoas esperando, a gente fez o show como trio, sem saber nem quais músicas tocar, o que fazer, e foi fuderoso. As pessoas gritaram, deram muita força, pediram bis, mosh, pogo. Para mim é o meu dia mais emocionante. 

VLB - Qdo vcs vieram tocar em Aracaju em 98, numa festa que eu tava ajudando a organizar, tu colecionava credenciais e o Flock cartões telefônicos [!!!]... Continuam as coleções? 
LP - Eu não, Flock também não creio. Na verdade não sei se era uma coleção exatamente, mas eu guardava todas as credenciais. Na verdade guardo até hoje, mas agora não tenho mais credenciais. Era uma época em que eu estava muito mais envolvido com o show business, eu acho. Ia nas festas, recebia convites para festivais, ganhava camisetas, discos, as pessoas queriam que eu estivesse por lá por causa de reflexos da EMI, do começo da Tamborete, etc. Em algum momento da minha vida eu fiquei de saco cheio disso e me afastei um pouco, comecei a achar tudo chato, e na real, hoje acho que ainda acho, pouco apareço nos shows, eventos, a não ser que tenha bebida e comida liberada, aí dependendo do que for, eu até vou. Então não ganho mais muitas credenciais, ainda mais agora sem tocar no Jason, né. 

VLB - Por que vc saiu do Jason e aposentou a guitarra? 
LP - São mil motivos, mil razões, etc, mas acho que dá para resumir no último ensaio que eu fui. Não sei o que toquei, estava achando um saco estar ali, não via a hora de ir embora fazer o que eu tinha marcado para logo depois, não queria estar lá, simples assim. Acho que foi aos poucos, mas fui me enchendo de tocar, de pegar ônibus para ensaiar, uma outra fase na vida mesmo. Mas a guitarra eu sigo tocando em casa todos os dias de brincadeira, como deveria ser na verdade, sem obrigação. Quem sabe sai alguma música ali e eu dou para alguém gravar... 

VLB - Vc manteve todas as suas guitarras? 
LP - Eu sou, guardadas algumas proporções, como Tony Iommi do Black Sabbath. Um marshall, uma palheta, uma correia, um cabo e uma Gibson SG. Ele tem a vantagem de ter um dedo de metal e tocar mais pesado que eu. :) Mas é o que digo acima, toco todos os dias um pouquinho. Mas só tenho essa guitarra agora. A Finch Les Paul vendi quando estava sem emprego e a Washburn que usei para gravar o ODEIA EU, dei de presente para o filho da minha prima, o Matheus. Ele tinha três anos, agora cinco, e eu vi o talento dele com duas colheres de pau num tamborete, incrível mesmo. Daí minha prima disse que ele ficava brincando de raquete de tênis como se fosse uma guitarra e peguei a minha e dei de presente para ele. Ele surtou: 'Minha guirrata, minha guirrata!'... Acho que foi bem feito e espero que ele aproveite bastante.

VLB - Mesmo assim vc e os caras continuam parceirões né. O Flock fez a arte do livro novo e os cartazes da tour... 
LP - Olha, para ser sincero, minha relação com o Marcelo sempre foi 100% ligada ao Jason, é possível contar nos dedos de uma única mão as vezes que nos vimos fora de algo relacionado à banda. Acho que temos uma relação boa, mas distante. Capaz que a gente é meio parecido, de ficar muito em casa, fazendo suas coisas, etc. O Vital não vejo desde janeiro e nem falei mais. Acredito que não haja nenhum problema, mas também a vida acaba levando cada um para lados diferentes. É uma cidade muito grande, temos empregos que já nos colocam muito ocupados e geograficamente distantes. Para ser sincero, acho que vejo poucas pessoas, sem ser as que trabalham comigo no dia-a-dia. Flock realmente eu encontrei agora para as coisas do ESPORRO e nos falamos bastante para resolver tudo da edição do livro, tomar milhões de decisões juntos. As fotos de divulgação foram feitas na minha casa. Aquela parede grafitada é a minha sala, que ele pintou na festa do meu aniversário de 2009. Não pude ir na exposição dele porque saio 22h do trabalho e não era compatível com os horários do café onde ele estava expondo. 

VLB - Panço, essa sua tour de lançamento do ESPORRO é um negócio meio inédito no Brasil, mas nem tanto. Vc mesmo já tinha feito coisa parecida em 2009 qdo lançou o CARAS DESSA IDADE NÃO LÊEM MANUAIS... 
LP - Tenho para mim que não é inédito porque eu mesmo inventei de fazer uma outra do segundo livro em 2008/2009, isso é mais comum nos EUA, acho que até na Europa não se faz muito, para ser honesto não sei. Sei que na 'América' é comum. 

VLB - E agora, já passou por quantas cidades? 
LP - Já lancei em Curitiba, Joinville, São José, Florianópolis, Porto Alegre, Campo Bom, Sapiranga, Sapucaia do Sul, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa e Natal. Agora tenho dois eventos em SP, Bauru, São Carlos, Bragança Paulista e Campinas. Daí volto para casa e estou fechando Rio, Nova Iguaçu, Resende e Volta Redonda, todas cidades no RJ. Espero que novos convites cheguem. 

VLB - Quais as noitadas mais legais da tour até agora? 
LP - Tenho uma noite preferida, mas não falaria qual é, soaria deselegante com as outras. 

VLB - O livro tem vendido bem? Vale a pena esse esquema de pegar a estrada p/ lançar livro? 
LP - Se vale a pena ou não, é sempre uma discussão grande. Se você vende 15 livros em uma cidade do outro lado do Brasil, pode achar que não foi grande coisa, e eu particularmente, acho pouco, mas as pessoas com quem eu converso dizem que foi bom. Eu sigo achando que poderia ser melhor, mas já é claramente melhor que a tour anterior. 

VLB - Cara, as histórias do Gangrena Gasosa são as mais insanas do ESPORRO, terrorismo total. Ficou alguma coisa de fora, tipo impublicável? 
LP - Ficou sim. Eu achei que hoje em dia algumas coisas não valem mais a pena, o povo tem filhos, empregos, casamentos. Não exatamente da Gangrena, mas no geral, espero ter tirado o que não cabia ali. Só se eu tivesse uma editora grande, que assumisse possíveis processos. 

VLB - Por que o Fumê, vocalista mais louco do Zumbi do Mato, passa meio batido no livro? Não descolou nenhuma foto dele? 
LP - Nunca vi um show do Zumbi com o Fumê, de repente pode ter sido um erro meu, mas não cogitei entrevistar ele, nem nunca falei com ele na verdade. Acho a gravação da demo com ele absolutamente genial, um espetáculo do mundo moderno, mas no final das contas não falei com ele. 

VLB - Eu conheci ele em 96, de moicano e jaqueta de couro distribuindo sopa pros mendigos no centro. Só gosto do Zumbi do Mato c/ o Fumê, c/ o Löis é mais cabeça, o cara é músico, universitário, e o Fumê era mais demente, quando ele cantava “vai chupar cocô pra ver disco voador” vc sentia que o negócio era mais ameaçador... e engraçado! A última notícia que eu tive foi de um cartaz anarco-punk que é a foto dele beijando um cara, essa poderia entrar no livro hahah... 
LP - Ele beijando um cara? Seria só mais um cara beijando outro cara, não há nada demais nisso. 

VLB - Adelvan me falou que uma vez levou o Jason inteiro pra um puteiro aqui de Aracaju depois de um show de vcs... 
LP - Já fui em puteiro com Adelvan umas duas vezes, eu acho, e essa noite a que ele se refere foi muito divertida. Um senhor, que era professor de uma Universidade do SE, ficou pelado e brochou. Foram horas divertidas e de cerveja barata, mas nada de conjunção carnal. 

VLB - Vc é autêntico carioca suburbano... As zonas norte e oeste são tipo um outro Rio, comparadas à zona sul e Barra né. Como se fosse outra cidade. Eu nunca fui na sua casa, então diz aí: a Vila da Penha é legal de se morar? É sossegada ou rola aquelas fitas de tiroteio e tals? 
LP - Eu acho tranquilaço de morar na Vila da Penha, é onde eu nasci e cresci e onde morei a vida inteira. Tem tiroteios de vez em quando, já caiu bala no meu quintal, mas eu sigo lá e gosto no geral. A parte ruim é ser tão longe do trabalho, na Barra da Tijuca. São quatro ônibus por dia, 90km ida e volta, 3h perdidas. Mas para eu sair de lá, numa casa com meus cachorros, árvores, etc, e ir morar mais perto, teria que morar num quitinete apertado, pagar aluguel, jogar meus cachorros nas ruas, de onde eles vieram, não faz muito meu estilo. 

VLB - Vc trabalhou um tempo no globoesporte.com e agora tá na globo.com. Qual sua função e como vc começou a trabalhar lá? 
LP - Fiquei 7 meses no globoesporte.com como TR, que é o mocambo que narra os jogos de futebol escrevendo, uma tortura chinesa. Além disso era redator quando não tinha jogos. Me demiti e fui para a Europa de bobeira por três meses. Longa história. Depois voltei para um contrato de quatro meses para o amador, ou seja, todos os esportes que não futebol. Era só um apoio para as Olimpíadas. Agora já estou há 3 anos como um dos editores da home, do portal da globo.com. Agora sim eu gosto, acho mais divertido, não precisa ver jogos de futebol o tempo todo. Apesar de entender, mais ou menos gostar, ter um time (Vasco), não gosto de ver jogos de futebol, muito menos por obrigação. 

VLB - A Tamborete é um selo que começou como gravadora mas hj tb funciona como editora. Qual o futuro que vc vê pro mercado de música? 
LP - Acho que a tendência é cada vez ser tudo mais gratuito do que já é agora, não creio que os CDs resistam por muito mais tempo. Ainda tem amantes do formato físico, pessoas que gostam de vinis também, mas as novas gerações não dão a mínima no geral. 

VLB - E a cena do RJ, como tá hoje? 
LP - Acho que está como sempre esteve, mas para ser sincero eu mal frequento shows, não conheço as bandas novas, não apareço muito nos lugares. Nova geração, seja bem-vinda. 

VLB - A pergunta que não quer calar: O que é o 'meneghetti'? 
LP - Essa só o Claudio do Soutien Xiita pode responder, já que ele é o criador.

MUITO ROCK & ALGUMA MÚSICA
EU VOU CHAMAR O SÍNDICO! MEU AMIGO...
 ALEMANHA ORIENTAL, TOUR EUROPA 2001
JAM SESSION C/ A BANDA ELMO, JAMPA 2009
ENTREVISTA P/ O ZINEIRO MÁRCIO SNO, 2011
LANÇAMENTO DO ESPORRO EM RECIFE, TERÇA
PANÇO, O TONY IOMMI DA VILA DA PENHA

AGRADECIMENTOS: ADELVAN [Programa de Rock], CRISTHIANO [Virote Coletivo]
FOTOS: MICHAEL MENESES, FELIPE LIMA, FLÁVIO FLOCK + ARQUIVO PESSOAL