segunda-feira, novembro 28, 2011

XANDRILÁ 

Seria Alagoas o nosso Shangri-La? Uma semana após os títulos de Siri e Marujinho no Circuito Mahalo de surf, um filme sergipano acaba de ganhar o prêmio do júri popular no 1º Festival de Cinema Universitário em Penedo.

Realizado por estudantes de audiovisual c/ apoio do Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, XANDRILÁ já havia levado o 2º lugar do júri oficial no festival Curta-SE em outubro. Foi lançado em abril numa sessão p/ 600 pessoas na Universidade Tiradentes, c/ presença maciça da mídia e pocket-shows da Karne Krua e Patrícia Polayne, autora da trilha sonora. “XANDRILÁ veio para quebrar tabus”, disse a cantora na ocasião.

O curta-metragem de 22 minutos conta a história de uma adolescente que larga a escola e vira prostituta. Baseado num conto de Isaac Dourado, o argumento lembra demais o de BRUNA SURFISTINHA, e os atores são amadores – o próprio autor do conto faz o principal papel masculino. Não se trata de um “marco”, como foi dito na premiére, nem de uma obra-prima. Mas inegavelmente tem seu valor.

Os prêmios que vem recebendo são prova de que, descontando o hype, XANDRILÁ é bom entretenimento. Destaque p/ a loirinha Huana Paula e a fotografia de Arthur Pinto, que eu conheci estagiando no Cena do Som e se tornou meu amigo. “O Arthur é um cara centrado e tem uma sensibilidade incrível para captação de imagem”, diz André Aragão, diretor do vídeo.

XANDRILÁ não é um projeto meu, do Isaac Dourado ou do Arthur Pinto. O filme carrega o nome do nosso estado e é a prova de que Sergipe é um lugar propício para o cinema.

sábado, novembro 26, 2011

MARUJADA 
O litoral de Alagoas possui alguns dos melhores picos de surf do nordeste. Marechal Deodoro tem a Praia do Francês e Coruripe, a Lagoa do Pau, onde aconteceu a 5ª e última etapa do circuito estadual no último fim-de-semana. Ondas de até 1m ½ reuniram surfistas locais e vizinhos de Pernambuco e Sergipe.

Aracaju fica a apenas 294 km de Maceió, e a marujada subiu c/ tudo. Bruno Marujinho fez a final em 4 das 5 etapas, foi vice em 3, e ao chegar na decisão em Coruripe garantiu o título da principal categoria do Circuito Mahalo. A nova geração compareceu em peso, e p/ dar idéia do nível da competição, os melhores sergipanos ranqueados na open depois do Bruno foram William Santana e Kayan Barbosa, em 23º e 25º respectivamente.

Marujinho se profissionalizou aos 19 anos, e c/ apoio da construtora Norcon competiu no circuito regional. “Pensei em morar em Floripa, liguei pra uns amigos que moram lá, Diogo Lemos e Fabrício Peixoto, mas pensava em entrar no Super Surf [hoje Brasil Surf Pro] e o nordestino na época oferecia 4 vagas, então seria melhor ficar por aqui. Tentei por 3 anos, mas perdi o patrocínio e fiquei sabendo que minha mulher estava grávida.

Aos 23, Marujo é pai de família e aprendiz de shaper. “Tive que buscar alternativas de trabalho, pois agora tenho uma filha linda”, falou ao site Ondulação. Quando o entrevistei pro programa de TV Periferia, ele usava a Biz que ganhou num campeonato p/ trampar como motoboy. “O único patrocínio que tive foi de uma empresa totalmente diferente do ramo, como Sergipe pode revelar talentos se marcas e envolvidos não chegam junto?

Bruno voltou a competir como amador, venceu o circuito estadual em 2009/10, foi o único local entre os finalistas do nordestino realizado em Aracaju e em outubro venceu o Natural Art Open, 1ª etapa do sergipano 2011. Agora o título alagoano. No longboard quem representou a bandeira verde-amarela de Sergipe foi Robson Fraga, o Siri.

Vicecampeão brasileiro em 2010, Siri ficou em 2º este ano no Pena Bahia International Classic e é penta sergipano. Em Coruripe, já entrou na água como campeão antecipado do Circuito Mahalo e faturou mais uma etapa. Como Marujinho escreveu no fundo da sua prancha, “nós nunca somos provados naquilo que a gente não possa suportar.


FOTOS MAIORES: FABRICIANO JUNIOR [EMFOCOSURF] + MIGUEL BRUSSEL

terça-feira, novembro 22, 2011

MUITO A TEMER 
2011 começou c/ a cerimônia de posse da presidente Dilma. Entre chefes de estado, primeiras-damas e dragões da independência, uma linda jovem de trança loira roubou a atenção das câmeras que cobriam o evento. Marcela Tedeschi Temer, a mulher do vice- presidente, destoava do ambiente pesado do Palácio do Planalto por sua beleza, juventude e leveza.

Se houvesse protocolo no Brasil, ela não poderia ter ido à posse vestida com aquela roupa”, alfinetou    a consultora de moda Constanza Pascolato. Eu, que não entendo nada de etiqueta, curti a blusa de seda que deixava um ombro à mostra e a saia justinha que denunciava curvas que nem Oscar Niemeyer foi capaz de antecipar em seus croquis. Ex-Miss Campinas ou coisa do tipo, Marcela tem 27 anos e é 4 décadas mais nova que seu marido, Michel Temer, 70.

Advogado, Temer já foi 3x presidente da Câmara e atualmente preside o PMDB. É uma figura de relevo na política nacional, ao ponto de ter sido apontado como beneficiário do mensalão do DEM na operação Caixa de Pandora da Polícia Federal, e ter seu nome citado 21 vezes na contabilidade paralela da construtora Camargo Correia, segundo listas apreendidas na operação Castelo de Areia.Acusações vis e infames foram assacadas contra meu nome, maior patrimônio que construí com trabalho e afinco”, defende-se o velhusco usando sua lábia profissional.

O cara é bom de papo. Não é à toa que está no poder há meio século [desde o governo de Ademar de Barros em São Paulo] e convenceu uma menina c/ idade p/ ser sua neta a se tornar sua senhora. Quando se casaram, ele tinha 63 anos e ela, 20. Papa-anjo da porra... Temer vinha de 2 casamentos e já tinha 4 filhos – sua primogênita é mais velha que a atual esposa.

Marcela, que aspirava uma carreira de modelo, formou-se em direito mas nunca prestou exame na OAB. Batizou o filho c/ o nome do marido, que por sinal tatuou na nuca. Pode ser prova de amor, mas em se tratando de Michel Temer parece mais uma prova de que ela lhe pertence, é sua propriedade. Freud explica, mas nada justifica.

O fato é que a beldade só foi vista em público mais uma vez, depois desse dia, numa cerimônia de lançamento de programa do governo – bem menos concorrida que a posse da presidente, evidentemente. Trending topic mundial no Twitter, a sra.Temer foi trancada numa torre sem portas nem escadas. Dizem que toda noite o vicepres. grita: “Joga tua trança, mulher!”... C/ a nação órfã do seu novo fetiche, o jornalismo investigativo da revista Playboy entrou em campo e fez um achado. Marcela tem uma irmã. 

Fernanda Tedeschi tem 25 anos e é tão gata quanto a mana mais velha. A galega assinou contrato em abril, brindou c/ champanhe e até topou posar de trança. “Eu assinei sem ninguém saber”, disse Fernanda, “quando viram nos jornais, todos tomaram um susto, minha mãe ficou brava, minha irmã se surpreendeu, meu cunhado não gostou muito.

A caçula deveria ter sido capa da edição 437, mas a revista de outubro saiu c/ Desirée Oliveira, a “mulata difícil” do Zorra Total. Na seção Happy Hour, um alento: 3 páginas c/ um ensaio sensual de Fernanda. “Em breve ela estará totalmente nua nas páginas da Playboy”, prometia a reportagem. “Estou me sentindo ansiosa, mas também gostosa”, dizia Tedeschi. Novembro chegou c/ Cacau, ex-BBB.

As fotos de Luis Crispino seriam um belo aperitivo se não fossem as únicas publicadas até hoje. Pelo visto não haverão outras. Estava tudo certo p/ a capa do Natal – “pensando em tirar as fotos em um iate, chique não?”, tuitou Fernanda em agosto – até o anúncio de sua renúncia via carta, igual a Jânio Quadros nos anos 50. Que forças ocultas levaram-na a mudar de idéia e desistir?

...Pedi à minha garota que trançasse o cabelo e colocasse de lado. Gil disse que tudo bem, desde que não tivesse que tatuar meu nome na nuca e eu não fingisse ser político. Ela aposta que a oferta foi coberta, incluindo a multa de 60% do valor que seria pago a Fernanda Tedeschi.

O que está acontecendo com o mundo? Sério. Onde foi que nós erramos? Quer dizer, nós não. Eles. Os outros. Olhe pela janela e reflita sobre os acontecimentos deste mês, entre uma e outra capa da Playboy”, sugere o editor da revista, Edson Aran. Censura – começa no setor privado, termina institucionalizada.

Fernanda não atende o telefone. Marcela, ouvi dizer, vive num deserto. Temendo por sua imagem, Temer encastelou sua cunhada como fez c/ a mulher. “Não é justo que eu perca um contrato por causa desse parentesco”, previu a loirinha antes da Cuca pegar.

Bárbara Evans, filha da Monique, será a capa da Playboy de dezembro: “Homem tem de ter dinheiro, vamos combinar, mas não pode ficar mostrando”... 

Puta falta de sacanagem.

LIBERTEM AS TEDESCHI
 TATTOO NA NUCA: DÁ P/ COBRIR E ATÉ APAGAR
MARCELA TEMER: UMA VICE-DAMA DE PRIMEIRA
 FERNANDA TEDESCHI FICOU SÓ NA HAPPY HOUR
BÁRBARA EVANS "SCARLETT-JOHANSSONING"
 

sexta-feira, novembro 18, 2011

VIDEO GUERRILHA
São Paulo é uma selva, e a Rua Augusta concentra a maior biodiversidade nessa mata fechada de asfalto e concreto. Cruzando a Avenida Paulista, esse trecho de 3km entre o centro e o bairro chique Jardins é endereço de bancos, cinemas, teatros, lojas e até um shopping a céu aberto. É lá que ficam clubes noturnos como o Outs, Vegas, Inferno – e a principal zona de meretrício da cidade.

Sampa, pra quem vem de fora é uma beleza, mas a única coisa que todos têm aqui é a certeza”, rima o Emicida no rap Rua Augusta. “As maquiagem forte esconde os hematoma na alma, fumando calma ela observa os faróis que vêm e vão”...

Ferveção desde os anos 60 – como mostra o curta de estréia do cineasta Carlos Reichenbach, Esta Rua Tão Augusta, de 1968 – por lá passa todo tipo de gente: artistas e putas, travecos e tiras, mendigos e ricos, trabalhadores voltando p/ casa e jovens em busca de diversão. “Entrei na Rua Augusta a 120 por hora, botei a turma toda do passeio pra fora, fiz curva em duas rodas sem usar a buzina, parei a quatro dedos da vitrina”... Lembram?

É lá que acontece a Video Guerrilha, intervenção urbana onde imagens em movimento são projetadas sobre prédios, transformando a rua em galeria de arte. “A intenção é mudar a percepção que as pessoas têm da cidade”, diz o guerrilheiro Dudão Melo da Visualfarm, produtora que explora novas linguagens visuais. 100 artistas participam da 2ª edição. Entre as novidades, recursos como o Agigantador de Pessoas e o Kinetic. “A arte-mídia acompanha a tecnologia.

O bombardeio começou ontem e vai até a madrugada de sábado p/ domingo. “High high Johnny, high high Alfredo, quem é da nossa gangue não tem medo”... 

ESTA RUA TÃO AUGUSTA

segunda-feira, novembro 14, 2011

HERÓI DA RESISTÊNCIA
Hoje tem festa punk. Karne Krua, Conexão HC e Sublevação abrem p/ os paulistas Invasores de Cérebros e Sarjeta – que comemoram aniversário na Rua da Cultura. Se 15 anos de banda parece muito, o que dizer dos 30 anos de resistência do Silvio Campos? 

Silvio ‘Sub’ montou uma banda c/ o amigo Hélder Podre em 1979: MERDA, Movimento Emancipatório Roqueiro De Aracaju. No início dos anos 80 Hélder se mudou p/ Recife, onde faria a capa do 1º disco de Chico Science & Nação Zumbi e se tornaria conhecido como DJ Dolores. Enquanto isso Silvio entrava de cabeça no rock, e c/ Marcelo Gaspar na guitarra, Márlio no baixo e Almada na bateria, cria a 1ª banda punk de Sergipe. “Nós somos a carne crua que alimenta o canibal que é o sistema!

São 4 discos oficiais, porque se contarmos as fitas demo, CD-splits e coletâneas vão p/ mais de 20 lançamentos em 26 anos de Karne Krua. O álbum de estréia, de 1994, saiu em vinil e contém vários hinos da banda – O Vinho da História, Filhos do Medo, Rumores de Guerra, Sangue Operário, Política da Seca... Muitas formações depois a KxKx se estabilizou c/ Alexandre Ghandi na guitarra, Ivo no baixo e Adriano na batera, todos da nova geração hardcore, vindos do Gee-O-Die e Triste Fim de Rosilene.

Muito respeitados na cena nacional, já ganharam tributo organizado pelo DFC de Brasília, mas tocaram pouco fora do estado. “Uma vez perdemos uma oportunidade, a Epitaph entrou em contato querendo ver um show da gente pra uma subdivisão, o Grita!. Os produtores iriam passar por RJ e SP querendo ver bandas que cantassem em português e a Karne Krua foi uma das escolhidas por já ter uma história. Mas não tínhamos como produzir um show no sudeste e eles contrataram outras bandas.

Sábado, enquanto o Ratos de Porão comemorava 30 anos no Hangar 110, Silvio cantava c/ a Máquina Blues no Capitão Cook. “As pessoas se admiram de me ver fazendo blues, mas a própria Karne tem uma música chamada ‘Violência’ que é um blues muito troncho!” Pioneiro nos zines c/ o BURACAJU e o MICROFONIA, também deu início à cena anarcopunk c/ o GrAnA [Grupo Anarquista de Aracaju] e sempre desenvolveu projetos paralelos – Words Guerrilla, Sartana, Logorréia, ExTxCx... Casado, criou 2 filhos vendendo discos nas suas lojas Lokaos, nos anos 90, e Freedom.

Há 8 anos entrevistei-o pro meu TCC de jornalismo. A entrevista foi na sua casa, nos fundos da loja, e permanece tão atual quanto o punk da Karne Krua. Aos 47, Silvio segue vociferando como fará hoje à noite na Rua da Cultura. E continua dispensando a carteirinha. Definitivamente, o Sub é *UM PUNK S/ ESTEREÓTIPOS: 

Adolfo Sá - Como começou seu envolvimento com o punk?

Silvio Karne Krua - Começou quando eu conheci Santana, em 73. Foi quando eu comecei a escutar o que se poderia chamar de rock, né? Foi em 79 que eu conheci Led Zeppelin, Black Sabbath... Porque era difícil ter loja por aqui que vendesse esse tipo de som, e quando vendiam era praticamente só os ícones do rock, Beatles, The Who... Aí na década de 80, junto com Vicente Coda, que participou da Karne Krua como guitarrista, a gente de tanto escutar, chegou um dia que falamos: ‘Cara, não! Não quero só ouvir! EU QUERO FAZER!’ A gente gostava tanto que passou a querer viver isso, né, cara? Daí eu formei com ele a Sem Freio na Língua, que já era uma banda com uma proposta anárquica, não política, tipo: ‘Tarde de domingo/ paranóia no ar/ soco na televisão/ que não tem nada pra mostrar’... [risos] Um punk descompromissado, né? A Karne Krua se formou em 85 com um conteúdo anárquico e libertário, depois que eu comecei a ler os livros de Bakunin, Malatesta, material anarquista mesmo. E daí em diante não parou mais. 

AS - O que existia de punk em Aracaju, nessa época?

SKK - Nada! Éramos quatro caras que tocavam numa banda e saíam pela rua com uma viatura acompanhando o tempo todo. Márlio usava coturno, eu usava soqueira e arrebite... Não no sentido de guerrear, era mais um visual. A gente ficava perambulando, quando encontrava alguém com uma camisa de banda chamava pra conversar... [risos] Era uma coisa raríssima um cara com uma camisa de rock! Era como quatro pessoas perdidas numa floresta que acharam uma pessoa que tava ligada ao mundo, né? Às vezes não era tão ligada quanto a gente, mas a gente achava que aquela pessoa, por estar usando uma camisa do Sex Pistols, The Clash, tinha uma conexão. Porque só existia a banda, mesmo. Naquela época éramos radicais, eu posso te mostrar material onde toda a postura da banda era radical, como é até hoje. Meu posicionamento não mudou, apenas adicionamos muito mais coisas... Hoje ao discursar eu tomo o maior cuidado com o que vou falar no microfone, talvez antes eu não tivesse tanto cuidado. Não me arrependo de nada do que falei, mas hoje quando a gente tá fazendo um show pra uma garotada eu quero passar um negócio bom pra aquelas pessoas, pra que elas passem uma idéia positiva depois, não uma coisa deturpada. 

AS - Como você vê o movimento punk hoje em dia?

SKK - Hoje tem o movimento de consciência punk, que na década de 90 funcionou mais até, a gente via muito isso em São Paulo. Havia reuniões de pessoas que gostavam do movimento punk de uma maneira mais abrangente. Aí, cada vez mais a coisa foi ficando segmentada, apareceram revistas, aparecem os anarco-punks, apareceu não-sei-o-que-mais-lá... Ninguém sabe, um monte de siglas que só fazem fragmentar mais a coisa. Hoje você vai numa reunião, é uma coisa fechada, que determina o que você tem que fazer, porque você é punk, ou você não é... Acho que isso não é legal. Se você tem uma verdade, você pode mostrar. Porque não tem mais nenhum sistema militar oprimindo ninguém. Você pode chegar nas praças, fazer suas faixas, fazer seu protesto. Mas, porra, procurar a clausura? Ficar fechado dentro do próprio movimento punk? É só divergências, brigas, fofoquinhas... Já houve eventos em que, ao invés de se debater algum assunto interessante, socialmente, foram fazer lista de bandas a serem boicotadas!

Quer dizer, esses caras que não fazem porra nenhuma, nem estão mais envolvidos com movimento punk, nem com música, nem nada, atrasaram o lado de um monte de bandas. Caras que hoje ficam em casa... Eu também tenho minha casa, eu sou pai de família, mas eu vivo em caminhos alternativos. Eu trabalho desde os 18 anos e até hoje não tenho carteira assinada... Então, como é que um ‘punk’ com carteira assinada pode vir me peitar? EU MANDO TOMAR NO CU! Digo: ‘você tá falando merda’. Porque a minha vida toda eu construí em função das minhas próprias forças. Tem muita contradição no punk. Tem muita gente burra, tem muita gente legal também. A maioria das pessoas que têm algo a dar mesmo, às vezes se afastam exatamente pelo sectarismo que rola, pela coisa fechada que é, e lhe digo mais, pela coisa emergencial que é – e não dura muito. São punks fogo-de-palha, que começam a querer radicalizar, criam inimigos... Isso é mesquinho, cara, isso não existe. Disso aí eu tou fora. Punk de carteirinha, eu tou fora. 

AS - Você acha que falta ao brasileiro um espírito ‘guerrilheiro’?

SKK - Em todas as épocas, sempre apareceu alguém, algum grupo, pra levantar a bandeira dos oprimidos e lutar contra o sistema. No Brasil, eu noto um conformismo geral. Não sei se o país por ser tão grande dificulta a organização, mas a gente vê na América Latina as pessoas se manifestando na rua, seja na Colômbia seja na Argentina... A gente, que tem envolvimento com cultura libertária, com outros movimentos, a gente sente isso, no Brasil a gente vê tantas falcatruas... Se botassem uma bomba lá em Brasília e explodisse um gabinete daqueles, num instante nego ia parar de roubar. Mas nada acontece, né? Eu não tou fazendo uma apologia à violência, mas tou me referindo ao conformismo das pessoas e à tranqüilidade das autoridades, que fazem o que querem, roubam, é comprovado que roubaram, e nada acontece. É uma coisa que você vê que realmente é o povo que dá margem pra que façam isso com ele. 

VLB - Você vota?

SKK - Sempre votei. Mas desde que comecei a votar, só votei nulo. 

*zine ODIÁRIO, março 2003
KARNE VIVA
26 ANOS DE SERVIÇOS PRESTADOS AO PUNK ROCK
 HOJE À NOITE DE VOLTA À RUA DA CULTURA

FOTOS: ARTHUR SOARES + MARCELINHO HORA + ARQUIVO PESSOAL

sexta-feira, novembro 11, 2011

DO INFERNO 
Me and the Devil was walkin’ side by side”... Robert Johnson cantava sobre seu encontro c/ o capeta, os Rolling Stones têm simpatia pelo demônio, mas foi o Black Sabbath que amplificou o blues & as trevas e gritou: “Is it the end, my friend? Satan’s coming ‘round the bend, people running ‘cause they’re scared. The people better go and beware!

O heavy metal nasceu na Inglaterra, final dos anos 60, quando 4 cabeludos cansaram do papo hippie da época e resolveram fazer um som power’ sem ‘flower’. Flor, só se fosse de cemitério. “Nós éramos pobres”, lembra John Michael ‘Ozzy’. “O Sabbath foi uma reação contra aquela merda de paz, amor e felicidade. Era só olhar em volta e ver que bosta de mundo!

Todos vinham da classe operária e viviam na feia-e-fria Birmingham. Tony Iommi perdeu a ponta dos dedos num acidente de trabalho e passou a usar próteses que lhe permitiram tocar c/ mais peso que os guitarristas normais. Bill Ward também era brutal nas baquetas e Geezer Butler muito veloz no baixo. Ozzy Osbourne tinha um jeito chapado de cantar que garantia “free-pass” nos bares da cidade. Bem melhor que “flower-power”.

Os cabulosos mostraram a que vinham logo no 1º LP, lançado pela obscura Fontana Records na alvorada dos anos 70. A capa c/ uma bruxa já criava um clima, quando a agulha tocava no sulco vinha o medo: chuva, sinos, sirene... “What is this that stands before me? Figure in black which points at me...”, Ozzy pergunta daquele jeito demente dele. Soa um trovão. Filme de terror.

As letras iam de críticas sociais – “A woman goes to work every day after day/ She just goes to work just to earn her pay/ Child sitting crying by a life that’s harder/ He doesn’t even know who is his father[Wicked World] – aos temas que os tornaram célebres, bruxaria, ocultismo, satanismo – “Look into my eyes, you will see who I am/ My name is Lucifer, please take my hand[N.I.B.]. Chegam ao 8º lugar nas paradas inglesas. Nada seria como antes.

O 2º álbum, PARANOID, alcança o 1º lugar e ganha 1 disco de ouro e 7 de platina. Nos lançamentos seguintes –  MASTERS OF REALITY, VOL. 4, SABOTAGE estabelecem as bases de toda a cultura metaleira: do cabelão às tattoos, do culto ao tinhoso às roupas pretas, afinações em ré sustenido, mi bemol pra baixo... O cão chupando manga. Em 8 LPs, deixaram o legado p/ toda a música barulhenta & violenta que viria depois.

Como é de praxe nos gênios, nunca se prenderam à fórmula que eles mesmos criaram. Flertaram c/ jazz, progressivo e gravaram balada famosa – quem nunca ouviu o teclado climático do Rick Wakeman em Changes? Em Supernaut, o solo de bateria lembra um samba... Foram 10 anos c/ a mesma formação. Em 1978, Osbourne sai p/ uma bem-sucedida carreira solo: 90 milhões de cópias vendidas em 11 álbuns. “Enquanto houver garotos chateados, haverá heavy metal!

O Sabbath vendeu 100 milhões de discos em 4 décadas e continuou tão influente que o gesto do chifrinho c/ a mão foi criado pelo cantor substituto Ronnie James Dio, falecido em 2010. Alguns vocalistas depois, a real é que sempre houve tentativas de reunião entre Ozzy e sua ex-banda. “Não entrei nessa pra ser rock star, eu nem pensava em gravar um disco quando começamos!

Em 1992 arriscam uma jam na Califórnia durante a No More Tours. Em 97 apresentam-se no OzzFest tocando clássicas como Snowblind, Sweet Leaf, War Pigs, Electric Funeral, Children of The Grave, Into The Void, Sabbath Bloody Sabbath... O momento rende o Grammy de Best Metal Performance e o CD duplo ao vivo REUNION, c/ duas novas composições – Psycho Man e Selling My Soul.

Osbourne e Iommi passaram anos brigando pelos direitos sobre a marca, até finalmente selarem  um pacto. Há uma semana, o site oficial da banda passou a exibir os números 11.11.11 abaixo do logotipo. No Facebook e no Twitter, link p/ o lugar onde se apresentaram pela 1ª vez nos EUA, o Whisky A Go Go em Los Angeles.

Ozzy, 62, Geezer, 61, Bill e Tony, 63, usaram a data cabalística como jogada de marketing p/ anunciar o lançamento de um álbum de inéditas até o fim de 2011, o primeiro dos 4 desde NEVER SAY DIE há 33 anos. Na produção, Rick Rubin. Em seguida saem em turnê – já têm datas fechadas até junho, como o Download Festival na Inglaterra. “Acho que estou ficando louco mas enfim, enquanto estiver aproveitando, tudo bem”, diz Oz.

Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo e sobreveio grande terremoto, o sol se tornou negro como um saco de crina, a lua toda como sangue, as estrelas do céu caíram como a figueira quando abalada por vento forte, e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola”, reza João no capítulo 6 do Apocalipse Depois disso, vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, conservando seguros os quatro ventos, para que nada soprasse sobre a terra, nem o mar, nem sobre árvore alguma.

O diabo é o pai do rock. Robert Johnson vendeu a alma numa encruzilhada e morreu aos 27. Os Stones já têm quase 70 e ainda pegam a estrada. Se o mundo acabar em 2012, que seja ao som de Black Sabbath. 
11/11/11
SABBATH EM 75 E HOJE, NO WHISKY A GO GO
...FIM DO MUNDO CONFIRMADO P/ 2012

ÚLTIMA APRESENTAÇÃO DO SABBATH C/ OZZY NA TV: TOP OF THE POPS - BBC 1978

quinta-feira, novembro 10, 2011

ROCK PRAIA  
Alapada é uma banda sergipana de rock. ROCK PRAIA, na definição dos próprios integrantes.

Que estilo musical é esse? Surf music c/ riffs à Dick Dale, harmonias vocais a la Beach Boys? Talvez algo mais 70/80 tipo Ramones, Midnight Oil? Hardcore melódico – Pennywise, NOFX?... Baladas folk – Jack Johnson, Donavon Frankenreiter?... É, até rolam umas baladas. Mas o som dos caras está mais p/ o “pop de atitude” de bandas como Charlie Brown Jr. e Detonautas.

No nordeste a palavra lapada tem vários significados, incluindo um de duplo sentido. O vocalista Naná Escalabre diz que o nome tem a ver c/ “pancada, pedrada e algo relativo a um forte impacto sonoro”. Ele e o guitarrista Schiruder faziam reggae na banda Java, o baixista Jamesson vem do grupo punk Karne Krua, e o baterista Júlio tocava heavy metal na Warlord. Lançaram o 1º disco em 2005, DIVERSIDADE, e migraram p/ São Paulo.

Fomos com a cara e a coragem, dividindo um apartamento e procurando ensaiar quase todo dia.” Abriram p/ NX Zero, Tihuana e Titãs, entraram em trilha sonora de novela da Record, participaram do Altas Horas e do Programa do Jô. O 2º disco – FAZENDO VALER rendeu 2 clipes e 1 DVD, mas o sucesso não foi o esperado e em 2009 retornam a Aracaju. “A melhor coisa que fizemos foi manter os pés no chão.” Desde então, tocam todo ano no Natal Contra a Fome e no Projeto Verão. Em 2011 a canção Diva do Mar foi tema dum concurso de beleza na afiliada da Globo.

Nunca tentei ser um músico de linguagem difícil, Alapada tem essa proposta de falar de uma forma simples”, diz Naná. O novo álbum foi lançado há 10 dias na boate The Office, celebrando 10 anos de banda. Eu não fui ao show e ainda não ouvi o CD. Não é minha praia. Mas Rian Santos escutou. Editor de cultura no Jornal do Dia, bom de letra e gentil no trato, ele também tem um lado abrasivo, como diria o Bob Esponja.

Incubido de resenhar o disco, Rian foi imparcial, contundente – e divertido na sua honestidade. Em tempos de rede social, fazer média é normal e falar a verdade é quase ofensivo. Em apoio ao meu colega, reproduzo o texto na íntegra. Ter coragem de dizer o que pensa independente das conseqüências. Isso é atitude.

QUANDO O MAR NÃO ESTÁ PRA PEIXE [Jornal do Dia 08/11/11]

Ossos do ofício. É hora de ouvir um disco ruim. Um disco muito ruim. Para um cara nublado como eu, arrancar o invólucro de plástico que preservava os ouvidos inocentes de um trabalho que se apresenta sob o epíteto de ‘Rock Praia’ exigiu um esforço descomunal, mas todo trampo possui os seus dias difíceis. 

É certo que há quem se satisfaça com os riffs d’Alapada, o timbre MTV emulado pelo guitarrista Evandro Schiruder e a dedicação com que a banda reproduz os dogmas de uma indústria decadente, apostando todas as fichas na diluição da linguagem. Não é o meu caso, brodagem tem limite. 

Alapada encarna o antípoda de todas as virtudes que permeiam a música produzida sob o céu azul de Aracaju. No registro lançado há poucos dias, contudo, a coerência dos valentes. Os caras não desviam nem por um segundo de seu maior propósito: se adequar a tudo o que a convenção julga mais palatável. Nas 13 faixas do disco, no trabalho gráfico e, sobretudo, nas letras das canções, a evidência de que um mergulho em águas profundas não está entre as pretensões da banda. Devotados a tudo o que é raso e plácido, eles não se arriscam nunca. Afinal, o mar não está pra peixe. 

Escute uma faixa de ALAPADA ROCK PRAIA. Será como ter ouvido todas as outras. A competência dos músicos Jamessom Santana (baixo), Júlio Fonseca (bateria), o já citado Schiruder e até mesmo do vocalista Escalabre (que cumpre bem o papel a que se propõe); a produção cuidadosa do disco (é preciso reconhecer) é sabotada pela ausência do que, no julgamento dos puristas, sustenta qualquer canção. Sem uma composição decente, meus amigos, não tem instrumentista que dê jeito. 

Tudo certo como dois e dois são cinco. O bom é que esse rock ralinho, desenhado para abrigar um solo na hora certa, o apelo do ska no miolo da gravação, já rendeu tudo o que podia. Dose é aturar marmanjo com atitude roqueira – tatuagem no braço, piercing na sobrancelha e o resto – entoando versos como Não dá pra mim/ Não vou sofrer/ Comigo é assim/ Não tem talvez/ Me ame ou me deixe ir/ Se quiser me ter/ É bom provar que é pra valer. A Calcinha Preta já está aí pra isso…

por Rian Santos - Spleen & Charutos

O COURO VAI COMER
ALAPADA É A CARA DO PROJETO VERÃO
A BANDA EM SÃO PAULO: SEM PRAIA
TOCANDO NO ALTAS HORAS EM 2008