segunda-feira, janeiro 02, 2012

Фемен
Nós somos mulheres unidas pelos princípios do desenvolvimento cultural e intelectual, da consciência e do ativismo social.

Primavera árabe, crise do Euro, ocupe Wall Street. Do Egito aos Estados Unidos, passando por Grécia, Inglaterra, Espanha, Rússia, Tunísia, Líbia, Síria e tantos outros países – alguns deles você nunca ouviu falar ou nem sabe onde ficam, como Barein, Iêmen... Nos 4 cantos do globo, 2011 foi o ano dos protestos. Estudantes foram às ruas do Chile à China, ditadores foram depostos e empalados no Oriente Médio – não necessariamente nessa ordem e até no Brasil protestou-se. Contra a corrupção, contra Belo Monte, contra a PM na USP. Cada um luta pela causa que se identifica, né, mas nunca tantos lutaram tanto.  

Se Camila Vallejo foi o rosto do ano, o grupo Фемен foi o corpo. Formado em 2008 na Ucrânia, ex-república soviética, o Femen é um conglomerado de 300 feministas cuja linha de frente se manifesta de peito aberto e palavras de ordem. “A UCRÂNIA NÃO É UM BORDEL” e “MULHER NÃO É COMMODITY” são algumas delas, expostas em cartazes difíceis de ler – primeiro porque estão em ucraniano, segundo porque quem se importa c/ o cartaz quando há loiras lindas protestando de top less?

Somos contra o turismo sexual e a prostituição”, diz Alexandra Shevchenko, uma das fundadoras ao lado da irmã Inna e da economista Anna Hutsol. “Criei o Femen porque percebi que faltavam mulheres ativistas na nossa sociedade, a Ucrânia está orientada para os homens e as mulheres têm um papel muito passivo”, conta Anna, cuja experiência em teatro influenciou no estilo performático das rebeldes. “Começamos a construir o movimento no interior e nos mudamos para Kiev.
 
Tudo começou quando uma rádio da Nova Zelândia promoveu um concurso que premiaria o sortudo c/ um encontro arranjado pela internet. Na Ucrânia. Anna e as irmãs Shevchenko tiraram a roupa em frente ao cartório matrimonial e avisaram que o vencedor teria um final infeliz, quem quer que fosse. O prêmio foi anulado. Nascia o FEMEN. “Usamos o corpo para exprimir a nossa liberdade”, diz Alexandra.

As mulheres são sexualmente escravizadas, por isso nos despimos. Em diferentes culturas, quando vemos uma mulher coberta, ela é provavelmente oprimida pelos homens, é uma mulher que foi privada de direitos humanos.” Já foram presas mais de 20 vezes, uma delas na manifestação contra o presidente Viktor Yanukovych, reeleito em 2010. “Temos uma experianciazinha de diálogo com o SBU [Serviço de Segurança da Ucrânia]”, diz Anna.

Os agentes foram na minha casa à noite, me arrastaram para um carro e me ameaçaram durante 3 horas. Os nossos defensores são os meios de comuni- cação. A nossa arma é a publicidade. Inna perdeu o emprego na Câmara Municipal de Kiev e agora se dedica de corpo e alma ao movimento. Cada vez mais ativas, tornaram sua marca conhecida no mundo todo – um F no alfabeto local que lembra um par de seios. “Nos tornamos empresárias, vendemos produtos com o nosso logotipo. Mas quase todo dinheiro que ganhamos vai pro aluguel do apartamento em que moramos.

Em 2011 fizeram intervenções contra o atual presidente, contra a ex-primeira-ministra, contra o aumento na idade da aposentadoria, contra a interrupção do fornecimento de água, contra as más condições dos animais no zoológico, contra a proibição de mulheres dirigirem na Arábia, contra a EuroCopa, contra Silvio Berlusconi... E também a favor de fotógrafos presos na Geórgia, p/ lembrar os 25 anos da tragédia de Chernobyl ou comemorar a queda de Berlusconi – elas detestavam o velho Bunga-Bunga.

Os protestos são pacíficos, mas as meninas fazem barulho. “Nós temos trabalhado nossa forma de expressão civil baseadas em coragem, criatividade, eficiên- cia e choque”, afirmam no manifesto WE ARE THE WOMEN'S MOVEMENT: “Nós demonstramos que os movimentos civis podem influenciar a opinião pública e representar os interesses de uma minoria. Nós planejamos nos tornar o maior e mais influente movimento feminista na Europa.

Voltaram a ser notícia no mês de dezembro. Em Moscou, no levante popular contra a eleição fraudulenta de Vladimir Putin, e em Belarus, outra ex-república da URSS onde 3 delas acabaram presas. Ao serem libertas, convocaram uma coletiva de imprensa. Osana Schechko diz que foram “obrigadas a tirar a roupa no meio de uma floresta” e em seguida agredidas, estupradas e ameaçadas de morte. As autoridades negam.

A jornalista Sasha Yakovleva, do site Tudo Sobre a Rússia, conversou c/ as feministas mais gost... digo, destemidas do ano. Que venham mais protestos em 2012! Como diria Che Guevara, o mais icônico revolucionário do século 20, “hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”. Viva La Brasa apóia esta causa.

Sasha Yakovleva - Como surgiu a idéia do protesto sem roupa? Alguma vez vocês já protestaram de roupa?
Фемен - Nós não somos as autoras da idéia de protesto sem roupa, apenas tentamos realizar esta ação de forma mais marcante. Pensamos: ‘Se a nudez feminina é um símbolo do mundo moderno e está no cinema e na publicidade, por que então ela não pode ser usada em campanhas políticas?’... Sempre experimentamos protestos diferentes, a nossa ideologia principal é ser irônicas e corajosas. Não é sempre que mostramos os nossos corpos, mas as pessoas só conhecem, ou lembram, os nossos protestos nus, porque o uso de roupa tem menor grau de eficiência.

SY - Vocês acham que a mídia pode distorcer a imagem do grupo e fazer as pessoas pensarem que vocês estão promovendo a si mesmas ao invés das causas que defendem?
Ф - Claro que pode. Na nossa história há um monte de casos assim. Especialmente na televisão, jornais e estações de rádio que promovem o governo ucraniano. Há alguns jornalistas que dizem que não acreditam em nossos protestos, e o próprio governo está tentando queimar a nossa imagem com apelidos humilhantes tipo ‘vacas’, ‘garotas de programa’, ‘sanguessugas’ etc. Existem até meios de comunicação que estão espalhando esta informação de que a indústria sexual internacional está nos financiando, para promover o turismo sexual na Ucrânia visando a EuroCopa 2012. As agências de notícia internacionais geralmente entendem o nosso posicionamento e destacam nossos projetos de maneira objetiva, mostrando o que queremos transmitir de verdade.

SY - Sou ucraniana e sei o que significa ser uma mulher em nosso país. E o que é ser uma feminista na Ucrânia?
Ф - Ser uma feminista na Ucrânia não é fácil!... Estamos brincando! [risos] Na Ucrânia é possível ser uma feminista e nós provamos isso quase todos os dias. A única coisa que complica e estraga nossa postura como feministas é a constante pressão por parte da polícia e autoridades.

SY - Até que ponto a cultura do povo ucraniano impede o desenvolvimento das condições sociais e econômicas do país?
Ф - A nossa cultura tem muitos aspectos negativos e positivos ao mesmo tempo. Ajudar o próximo, trabalhar duro e ser tolerante são as características mais antigas da mentalidade ucraniana. As coisas que atrapalham são os aspectos culturais adquiridos por ucranianos no século 20: a intimidação, a indiferença, a apatia, a ignorância e outras características negativas do povo soviético. O Yanukovich, por exemplo, se tornou presidente graças a resquícios da mentalidade soviética dos ucranianos. E o surgimento de fenômenos como o FEMEN já é o embrião de pensamentos europeus na Ucrânia, especialmente entre os jovens. Pensamos que no Brasil a situação é semelhante, o antigo pensamento colonial anda junto com o desejo de liberdade. Percebemos que o Brasil já conseguiu uma grande parte das reformas democráticas e isso tudo se transmite no fato de vocês terem uma mulher como presidente, a sra. Dilma Rousseff.

SY - As mulheres brasileiras, bem como as ucranianas, são estereotipadas no exterior. Que mensagem vocês enviariam para as mulheres do Brasil?
Ф - Mulheres do Brasil, vão para as ruas, dispam-se, protestem contra tudo o que interfere no seu país, que atrapalha o seu crescimento, para torná-lo mais justo. E que as mulheres brasileiras sejam as mais livres do mundo!

PEITANDO O SISTEMA
 NÃO SEI O QUE ELAS ESTÃO FALANDO,
MAS CONCORDO C/ OS ARGUMENTOS
 

2 comentários:

URUBLUESBASS disse...

Parabéns pelo post!

Marcio Venancio disse...

post muito bom