sexta-feira, fevereiro 10, 2012

OVELHA NEGRA 
Que deselegante!, deve ter dito a Sandra Annenberg ao ver as imagens do imbróglio da Rita Lee c/ a PM de Sergipe que resultou na prisão da cantora de 67 anos em seu show de despedida.

- Venham me prender, porra! (Rita Lee pede e a PM atende)”, estampou o CINFORM, jornal sensacionalista local. O episódio envolvendo o assédio policial a um moleque portando um beque ganhou manchetes de jornais, foi notícia nacional, trending toppic, dividiu opiniões e, duas semanas depois, ainda rende assunto.

Rita Lee é uma lenda viva, precursora do rock nacional c/ os sensacionais Mutantes, e recebeu o apoio de toda a classe artística, evidentemente. O que a levou a prestar declarações na delegacia nem foi tanto ter tomado as dores do jovem maconheiro – foi ter chamado os tiras de “cavalos”, “cachorros”, “filhos da puta” e mandado o “patrão” deles tomar no cu. Surtou, ao lembrar-se da ditadura.

A apresentação aconteceu na minha área, Atalaia Nova, durante o Verão Sergipe, um evento público – e o governador Marcelo Déda estava na platéia. “Ela buscou colocar o público contra a polícia, que estava cumprindo o seu papel. Induziu ao consumo de drogas, fez deliberada propaganda, o que é proibido pela legislação. Nós vamos processá-la para que ela devolva o cachê desse show”, Déda ameaçou.

Eu não tinha entendido o porquê da vovó roqueira ter escolhido logo a Barra dos Coqueiros p/ encerrar sua carreira [?!], até rolar essa treta toda. Lembrei que há 4 anos houve uma história de superfaturamento, uma conta de R$ 350.000,00 p/ cobrir despesas de um show dela em outro evento do governo, sendo que a Rita só teria recebido R$ 50 mil, num episódio conhecido como “Micareta Picareta”.

Aposto que a velhinha já veio c/ sangue no olho, a fim de aprontar alguma mesmo. “Rock’n’roll!”, gritaria o Ozzy. O jornal paulista ESTADÃO publicou um cordel de Christian Carvalho Cruz contando essa história c/ mais riqueza poética – e de detalhes. Quem está certo eu não sei, só sei que foi assim:

O DIA EM QUE LAMPIÃO SE APODEROU DE RITA LEE*

Veje homi seu menino
Sente que vou lhe contar
Do dia que baixou Virgulino
Em um palco feito altar
Na Rita que não é a santa
Mas moça boa no falar
 
Antes contudo todavia
Um bocado acabrunhado
Peço a bença dos poetas
Que nessa arte têm mestrado
Não riam aqui deste mané
Um patavina do Assaré
 
Pois aquele um, o Virgulino
É o próprio Lampião
Falecido no Sergipe
Sítio deste dramalhão
E Rita é a Lee, a negra ovelha
Nossa mais digna pentelha
 
Foi na Barra dos Coqueiros
Sua cantoria derradeira
Armou-se grande festa
Pro adeus de uma roqueira
Agora não venham os dotô
Com essa chata choradeira
 
Vocês conhecem essa cara
Essa fala, esse cheiro
Portanto se desespantem
Com os modos de carroceiro
Ela ficou só pouco mais fula
Com o espírito do cangaceiro
 
Quando a dita assombração
Empreendeu sua manobra
Ocupando aquele corpo
De cabelo cor de abobra
Ela sentindo a ditadura
De cabrita virou cobra
 
Era noite alta e fresca
Quando surgiu a soldadesca
Bulindo o povo, acintosa
Atrás da tal erva venenosa
Lá de cima Rita viu
Parou o show, o céu caiu
 
E quando súbito se viu
A lua desaparecer
Na praça antes pacata
Foi um tal de se benzer
'Vixe cr’em Deus pai
O regabofe vai feder'
 
Possuída pelo fantasma
Do bandoleiro nordestino
Rita fez da voz o bacamarte
E da bala o seu hino
Chamou major de cachorro
O tenente de eqüino
 
A roqueira do cangaço
Disse tudo sem volteio
Oiô de frente a guarda
Exibiu dedo do meio
C’atitude obscena
Só cresceu o rebosteio
 
Nem o beiço quis molhar
Com água, suco ou fruta
Se dirigiu aos capacetes 
'Seus filhos duma puta
Venham me pegar
Sou avó mas tô enxuta'
 
A razão e o motivo
De tamanho aporrinho
A Lampiona deixou claro:
A força bruta, o desalinho
No lombo da meninada
Causa dum baseadinho
 
Indo pra lá mais adiante
Não precisa de adivinho
Pra notar naquele grito
Também disparo de espinho
Contra os cabra que arrocha
Aluno, nóia e Pinheirinho
 
Por isso e mais um tanto
Que a mutante encrenqueira
Em seu verbo assoberbado
Pôs nos dente a peixeira
Dando devido sacolejo
Na triste vida brasileira
 
Quem ficou aperreado
Foi Déda governador
Disse e não é chiste
Que Rita está em seu playlist
Mas xingar homem da lei
É demais pra quem assiste
 
Não por outra o mandatário
Pensou ir ao tribunal
Cortar a paga do cachê
Mas evitou posar de mau
Se Rita lamentasse o auê 
'Causdequê?! Do fumacê?!'
 
Entremente o rebuliço
Muito apoio lhe foi dito
O filho Beto veio aqui
E confessou estar aflito
O titã Sérgio Britto:
'Fuck the police, viva Rita Lee!'
 
Ainda chefe de Corisco
64 anos e avó
Gulosa, escandalosa
Foi levada ao xilindró
E nas venta do delegado
Passou novo forrobodó
 
Causo tão misterioso
Os pelo sobe de alembrar
Mas juro ao senhor
Pela emoção não me guiar
Tava assim de cabra da peste
Que pode tudo confirmar
 
Do seio da luz brilhante
Veio o divino chanceler
Em pessoa o Padim Ciço
Com sua mágica colher
Futucou-lhe as entranhas
Rancou o capeta da mulher
 
A cantante estrebuchava
Se arrastando pelo chão
Pro marido ela explicava:
'Foi o calor da emoção'
E Roberto amparava:
'Cospe, Rita, cospe fora o dragão'
 
Exorcizado o coisa ruim
Ordenou o padroeiro
'Rita, mia fia
Não atuo de bombeiro
Pois volte já pra rede
Escandalize os tuiteiro'
 
Ela beijou a mão do santo
Agradecida e juvenil
Pensou que bem podia
Ser presidenta do Brasil
Pra dar Panis Et Circenses
A essa gente tão gentil
 
Má ideia não seria
Pois artista não sobrou
Chico só quer bola
E Caetano caducou
Então vote em Rita Lee
Prum país mais rock and roll!

Vou parando por aqui
De sua paciência abusei
Minha lira se gastou
Das fantasias que cantei
Mas garanto meu amigo
 
Se aumentei não inventei.

*XILOGRAVURA DE J.BORGES, ARTISTA PERNAMBUCANO DE 76 ANOS

Um comentário:

Schiavon disse...

Valeu a menção, Bhru, esse foi o carnaval mais fracassado, ganhar de qualquer jeito é do que se trata a "ética do torcedor", e como disse o boss Eurico Miranda, "Torcedor é otário", eu consigo ver o dia que todas as pessoas vão deixar esses pulhas falando sozinhos.