terça-feira, fevereiro 21, 2012

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Minha experiência com o carnaval foi a de quem enchia a cara de cachaça e vomitava no meio-fio depois de uma série de tocos de meninas gostosas. O carnaval não devia ser pra mim.

Daniel Og é um animador carioca criado na zona oeste, onde as melhores festas punks foram celebradas e onde meu espírito foi recuperado. Ele também pega onda [faz tempo que não surfo], é pai da Manuela e autor da graphic novel YURI - QUARTA-FEIRA DE CINZAS, insólita HQ de zumbi ambientada no Rio de Janeiro — em pleno carnaval.

O personagem surgiu primeiro como fantasma, diz Dog sobre o protagonista do seu livro de estréia, lançado pela editora paulista Conrad. Mas há 5 anos percebi que ia começar uma onda de zumbi, e ele ficou zumbi de vez. Quando ainda existiam locadoras minha meta era ver todos os filmes da parede de terror, sempre gostei do gênero.

Yuri é um publicitário que se suicida na véspera do carnaval e vaga por botecos, esquinas e ônibus em busca do descanso eterno, enquanto o mundo se acaba em samba. Acho que falta mostrar coisas que acontecem no Brasil, não adianta mostrar aquelas escadas de terror americano. Elas são ótimas pra suspense, mas a gente não tem isso aqui.

O que a gente tem por aqui é o aumento no número de mortos em acidentes de carro, de adolescentes grávidas, de infectados por HIV... e um ano que só começa depois da folia de Momo. Real terror. Como observou outro cartunista, o Schiavon, sobre a 'travequização' das cada vez mais bombadas rainhas de bateria:

Desespero não é alegria e crueldade não é esperteza.
Raio Laser - Você considera o Yuri o seu alter ego de alguma forma? Você viveu alguma das histórias narradas na HQ?
Daniel OG - Um pouco, mas não. O Yuri começa a história em um ponto que eu vivi. Tinha saído de um 'bom emprego', estava duro... Estava desesperançoso de chegar nas conquistas que quando menino tinha me imposto! Hahaha! Mas aí justamente por estar nessa situação (eu não pensei nisso na época, só me dei conta agora, na verdade) tive a liberdade de mudar e fazer meu quadrinho como eu queria, sem me importar com opinião de ninguém. Aproveitei essa chance de renascimento bem melhor que o Yuri. De uma certa forma, a vida que Yuri deixa pra trás é a minha. Mas a partir do momento que o Yuri encontra o Andrei, a história e o personagem já não têm mais nada a ver comigo. Mesmo assim, usei muitas referências da minha vida. Muitos amigos como base para criar os personagens... Enfim, tem muito de mim na história, mas não é nada autobiográfico! Nunca fui chifrado daquele jeito, por exemplo! 
 
RL - A HQ tem uma identidade local muito forte. Como você trabalha roteiro e personagens? 
DOG - O que eu acho que falta nos quadrinhos brasileiros é uma perspectiva diferente. Culturalmente, o Brasil produz pouca coisa com identidade nacional e divertida. Geralmente, divertido é sinônimo de cinema de ação. Japonês, americano, coreano, que seja, mas o entretenimento brasileiro é muito realista! Chato, eu diria! Então, a referência fica entre fazer uma coisa com cara de Brasil e pesada — sofrida, doída — ou fazer uma coisa com cara de europeu ou americano e sem identidade, sem referências realmente próprias. Acaba que a falta de trabalhos lúdicos com identidade própria — e divertidos — faz com que surjam menos trabalhos que sigam nessa linha também. Foi uma intenção que fosse um quadrinho divertido antes de tudo! Ainda que fosse um quadrinho burro, ainda que fosse um quadrinho tosco, tinha que ser divertido.

RL - Yuri é uma HQ de fôlego, com 272 páginas. Quanto tempo você demorou para realizá-la?
DOG - Na prática, eu levei 5 anos. Mas a história apareceu na minha cabeça há uns 8. Levei algum tempo até ter coragem de sentar e escrever. Considero que realmente comecei o projeto depois do primeiro roteiro escrito. Que depois eu acabei jogando fora quase inteiro!

RL - Qual o maior desafio da produção deste trabalho?
DOG - Tempo. Nada além disso. Paciência. Na verdade, o maior desafio talvez tenha sido juntar coragem e me forçar a levar o projeto do início ao fim. Porque, técnica e criativamente, foi fácil de fazer. Era um quadrinho que eu queria muito fazer. E por não ter uma carreira conhecida, não havia nenhuma expectativa. Eu podia ir melhorando a técnica à medida que fazia... podia errar. O duro mesmo foi me convencer de que havia chegado a hora de começar e, levando o tempo que levasse, que eu ia chegar até o fim uma hora, que ia valer a pena. Mas mais uma vez, meus resquícios de punk rock me ajudaram. Eu não me importava muito se ia ficar bom ou não. Só queria ver meu bichinho pronto. 
 
RL - Quem você considera as suas principais referências nos quadrinhos? Quais os seus autores favoritos? 
DOG - Conheço até pouco de quadrinho pra falar a verdade! Hahaha! Não achava isso até conhecer alguns outros autores e apreciadores de quadrinhos. Por que o povo conhece tudo! Então sou humilde com meus conhecimentos. Mas adoro quadrinho! Meu pai sempre teve muita Mad e Peanuts em inglês em casa, aqueles livrinhos de bolso... eu e minha irmã destruíamos a coleção dele literalmente. Minhas referências são os clássicos (Charlie Brown, Winsor McCay, Hugo Pratt, Manara, Asterix…), quadrinhos de humor (Quino, Laerte, Allan Sieber, Angeli, Fernando Gonzales), mangá, que eu gosto muito (Dr. Slump, Preto & Branco, Naruto, Vagabond, Battle Royale…), alguma coisa de quadrinho de herói também, que eu lia muito quando moleque. O Mike Mignola, inclusive, foi muito plagiado em vários sentidos… o timing dele é um negócio misterioso. Estudo muito ele.

RL - Já está preparando sua próxima HQ?
DOG - Estou! Já vinha preparando a história há um tempo, enquanto desenhava o YURI. Mas não tem muito a ver. Não repito muito as coisas. Gosto de experimentar com tudo que eu faço. Mesmo com animação e cinema, eu raramente fiquei muito tempo em uma mesma área. Apesar de meu ganha pão ser animação, é uma animação experimental... são projetos variados sempre no jeito de executar e nos roteiros. E eu quero dar um tempo. Um ano talvez. Nesse meio tempo quero fazer umas histórias curtas para revistas independentes que quiserem um colaborador e lançar um livro fechado com essas histórias. Já tenho algumas feitas até.
YURI - Quarta-Feira de Cinzas DANIEL OG [Conrad] R$ 36,00


CLIP: BRAZIL BANANA SAMBA YO-HO-DELIC [animação - MACARRÃO 'in memoriam']
AGRADECIMENTOS: blogs RAIO LASER & MALAGUETAS EXTRAORDINÁRIAS

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