domingo, março 25, 2012

A NOITE DO SOL
Cenários surrealistas assaltam uma realidade suja, disforme, avarenta, fútil e insana, transformando-a em alento, esperança, calmaria, um sonho sem fim. Os dias são mais azuis e as noites mais brandas. As mais belas flores irão beijar seus pés. 

Paulo Henrique é um poeta selvagem. Vocalista original da Lacertae, lendária banda experimental de Lagarto, interior de Sergipe, surgiu no início dos anos 90 destruindo violões e martelando escapamentos de carros em shows insanos nos festivais União das Tribos em Aracaju, Garage Rock em Salvador, Expo Alternative no Rio e Abril Pro Rock em Recife. Gravou fitas-demo e participou da coletânea BRASIL COMPACTO, do selo carioca Rock It!, c/ as canções ‘100 Km c/ Um Sapato’ e ‘O Assassino’. Fez contatos, foi ouvido e tocou pelo Brasil bem antes da internet interligar cenas.

Em 1997, suas variações de humor entre depressão e hiperatividade chegaram a um ponto tão extremo que a família o internou numa instituição psiquiátrica e a banda seguiu em frente como um duo guitarra-bateria, sem ele. Diagnosticado c/ transtorno bipolar, aprendeu a lidar c/ seus demônios – e criou novas músicas nesse processo. “Usar a imaginação, a pura imaginação é a saída”, diz Paulinho. “Os tempos são nefastos, mas permita que um raio de luar invada sua retina. Feche os olhos! Deus está dançando.

15 anos depois, PH ressurge das sombras c/ 5 músicas num EP gravado na casa do tecladista Léo Airplane, c/ quem dividiu os instrumentos. Paulinho canta, toca guitarra, violão, flauta, pífano e o cabaçofone que ele inventou; Léo tocou baixo, teclado, programou a bateria e meteu uns dubs e samplers aqui e ali. 

COISAS BELAS E SUJAS, “gravado no 10º inverno do Séc. XXI” e lançado há alguns meses, vai do lirismo e melodia da faixa-título ao peso de ‘Circus Orchestra Primitiva’. ‘Chovendo Querosone’ tem guitarras phaser, o riff de ‘Os Corvos e Van Gogh’ lembra Sonic Youth e a regravação de ‘100 Km...’ remete ao grunge. O selo pode ser Anti-Pop, mas qualquer faixa desse disco poderia tocar no rádio. Num mundo melhor. 

CINEMERNE, seu novo projeto, é a festa proposta por Thomas More p/ celebrar os últimos e primeiros dias dos meses e do ano, no clássico livro UTOPIA, que satirizava o regime burguês da Inglaterra pós-medieval e traçava o primeiro esboço teórico de uma sociedade igualitária, baseada na comunidade de bens. “De optimo statu reipublicae deque nova insula Utopia.

Talvez Paulinho seja só mais um sonhador, mas antes de tirar o cara de lóki, confira as duas entrevistas – uma p/ o blog MEUS SONS e outra p/ o programa de TV CENA DO SOM – ou vá direto na fonte e ouça no SoundCloud. “Dedique uma canção de 1 minuto pra você, sinta arrepios nos braços quando uma lágrima despencar na sua face. Não é tristeza, é alívio. O mundo girando e você sonhando.
MEUS SONS - Após longo tempo distante da música, como tem sido seu retorno?
PAULO HENRIQUE -
Estou achando agradável. A música pra mim é o meu norte. Passei 15 anos longe, devido à minha loucura e ao uso e abuso de drogas e álcool. Estou limpo há mais de uma década e a psicose está controlada. Padeci, caí, levantei, sonhei e agora estou livre. A produção desse EP veio como um bálsamo. Estou compondo mais algumas canções, vou continuar a batalha e insistir, o meu retorno está sendo de uma magia serena. Vou aproveitar.

MS - Como você avalia o cenário independente atual?
PH - Hoje em dia as coisas estão mais fáceis: produção, divulgação, equipamentos... Muitos espaços pra tocar, apesar das panelinhas.Tem muita gente boa fazendo som com atitude e boa vontade. A rapaziada de Recife faz um som muito bom, Salvador, Aracaju. Enfim, o nordeste continua parindo bandas muito boas, apesar do brega e do forró do mal. Eu avalio positivamente a cena independente.

MS - O que de novo tens escutado e lhe agradado?
PH -
Cara, lá nos idos dos 90 eu ficava viajando no Séc. XXI, na virada do milênio, pensava eu que as artes iam se mistificar, um transbordar de almas e pensamentos novos e únicos... Que decepção! A arte do Séc. XXI é a pior coisa que aconteceu na história humana. Música, literatura, cinema e artes plásticas são de uma decadência, uma falta de inspiração e vazio imensuráveis. Deprimente. Tenho os pés e os ouvidos fincados nos anos 60 e 70. Desses sons novos gosto de The Dead Weather, Cage the Elephant, The Mars Volta e At the Drive-Inn. É o que deu para citar.

MS - Você passou por um longo período de turbulência pessoal. Poderia dizer como isso afetou na sua vida e como saiu dessa?
PH -
Passei por uma longa ‘tempestade cerebral’, foi terrível. Fui ao inferno várias vezes, sorvi o cálice da estupidez humana. Mas não há mal que não traga um bem nas suas asas sujas. Aprendi muita coisa, hoje estou mais forte do que nunca. Tudo agora é proveitoso, tem cor, tem som, tem gosto. Pra eu sair dessa, deixei bem pra trás o álcool e as drogas. Não tenho religião – religião é um terreno muito perigoso – mas Deus soprou no meu ouvido lições edificadoras. Minha ótica agora é serena e limpa.

MS -Como surgiu essa parceria com o talentoso Leo Airplane?
PH -
Mantenho contato com os irmãos Snooze, conheci o Léo através do Fábio Snoozer. Estava à procura de um lugar para gravar um EP e Fabinho me deu o toque de Léo. Nos encontramos, apresentei os sons e ele fez os overdubs de bateria, tocou baixo e teclados.

MS - Qual sua pretensão depois de ter feito esse EP?
PH -
No meio do ano vou gravar mais umas canções para fechar um CD que vai se chamar A NOITE DO SOL. Tenho a pretensão de formar uma banda, mas isso é uma mera conseqüência, hoje em dia as coisas estão mais fáceis. A minha idéia é divulgar o EP pela internet. Vou batalhar para colocá-lo nas mãos de pessoas certas, estou aliviado. Tirei um fardo enorme da cabeça.


entrevistas realizadas por Jesuíno André [Meus Sons] e Nino Karvan [Cena do Som]

Um comentário:

Anderson Ribeiro disse...

Pô, BrasaMan, bom saber disso. As pessoas da cidade rastejante não me deixam inteirado dessas coisas. Paulinho é um artista de mão cheia, um poeta virtuoso e de muita energia. Parabéns!