sábado, maio 26, 2012

CHEIRO DA TERRA 
A polícia existe p/ servir e proteger. Servir a quem? Proteger de quê?

A polícia representa o aparelho repressivo do Estado que tem sua atuação pautada no uso da violência legítima”, define Celma Tavares, jornalista mestre em Ciências Políticas pela UFPE. “Mas essa violência legítima está ancorada no modelo ‘ordem sob a lei’, ou seja, a polícia tem a função de manter a ordem, prevenindo e reprimindo crimes, mas tem que atuar sob a lei, dentro dos padrões de respeito aos direitos fundamentais do cidadão – como direito à vida e à integridade física.

Durante anos, acreditou-se que a truculência e corrupção da Polícia Militar originava-se da falta de preparo e na baixa remuneração do seu quadro. Hoje, um policial militar em Sergipe ganha no mínimo R$ 2.576 por mês, chegando a mais de $13 mil nas altas patentes – acima da média nacional, superando os salários do Exército. “As carreiras mais bem aquinhoadas com aumentos de salários nos últimos anos são representadas por fortes sindicatos ou associações de classe, que lutam por seus interesses”, divulgou em nota o Clube dos Militares.

O que justifica então os episódios protagonizados pela PM em Aracaju?

Cláudio Miguel é vocalista do grupo Cataluzes, autor de um clássico do cancioneiro sergipano, ‘Cheiro da Terra’, faixa 3 do álbum de estréia da banda em 1983, VIAGEM CIGANA, gravado no Rio de Janeiro. “Um disco histórico”, atesta Rian Santos do Jornal do Dia. “Com apenas 16 canais, o Cataluzes conseguiu mais do que muito músico entupido de recursos, com a participação do saudoso Paulo Moura, que assina os arranjos e a direção artística. O grupo foi o primeiro vencedor do Festival de Música Popular Sergipana, no início dos anos 80, abrindo a porteira para a caralhada de bons músicos e compositores que desembocaria na diversidade criativa de nossos dias.

Na quarta-feira 16/05, Cláudio Miguel tocava uma composição nova que entrará no próximo disco, reunido c/ amigos em frente a uma loja de conveniência, quando um Beetle desgovernado invadiu o posto e bateu numa bomba de combustível. “Ouvi o estrondo, de repente apareceu um garoto nervoso chorando e eu o levei pra dentro da loja”, relata o músico. Em seguida, retirou seu próprio carro do local – temendo uma explosão – e voltou p/ pegar o violão. A polícia o esperava. “Eles disseram pra mim que ‘quem protege bandido é bandido também’ e aí eu disse que aquela atitude era uma molecagem porque todos me conhecem e eu não sou bandido.

Preso por desacato, foi conduzido algemado dentro de um camburão até a delegacia, onde permaneceu por duas horas e assinou um termo circunstanciado. O que ‘us hômi’ não sabiam é que estavam levando o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SE. Cláudio, advogado, abriu processo contra seus algozes. “Fui violentado enquanto cidadão. Eu é que fui desacatado e não ficarei submisso a pessoas despreparadas para exercer a função de policial.

É até bom que isso tenha acontecido c/ alguém de tal porte, c/ voz ativa e capaz de se defender. Imaginem o que pega na periferia, pelas quebradas, na calada da noite – sem ninguém saber. “Assusta, assalta os delinqüentes dos vis albergues naturais”, já dizia a letra de ‘Vida Cigana’. A OAB divulgou nota de repúdio em que “reafirma a necessidade de melhores mecanismos para avaliação do preparo técnico e psicológico dos agentes policiais do estado de Sergipe, sobretudo diante dos últimos acontecimentos.” Referência ao massacre no Hospital de Urgência.

Na noite da sexta-feira 27/04, uma tentativa de assalto descambou p/ uma troca de tiros. O irmão de um tenente da PM foi atingido nas costas e não resistiu. Os 3 ladrões foram baleados, mas conseguiram fugir de moto. O sobrinho do tira, que acompanhava o pai, também sobreviveu e foi p/ o hospital c/ uma bala na perna. De lá, ligou p/ a família avisando que os bandidos estavam sendo atendidos no mesmo setor que ele. Em poucos minutos, o tenente e seus 2 outros irmãos – um deles soldado da PM – invadem o hospital e matam 3 pessoas à queima-roupa.

Segundo testemunhas, o tenente arrancou Márcio Alberto Silva Santos da maca e atirou no peito da vítima. O irmão soldado teria disparado contra a cabeça de Adalberto Santos e assassinado Cledson dos Santos c/ 7 tiros: um na orelha, um no pescoço, um na barriga, 2 nas costas e 2 na nuca. “Após o massacre, os PMs e o outro irmão saíram tranquilamente do hospital, mesmo com a presença de policiais militares, civis e seguranças de uma empresa particular”, informa o site Alerta Notícias.

O governador destacou o coronel Maurício Iunes p/ o comando da Polícia Militar de Sergipe. “Tudo vai ser apurado”, diz o novo comandante. Iunes é conhecido por ser linha-dura, já enfrentou até rebelião de presídio, mas há 2 anos teve que entregar seu cargo de comando no policiamento militar da capital após acusação de espancar e manter sob cárcere privado um universitário de 20 anos que estava saindo c/ sua filha de 14.

Nós nos encontramos pela 1ª vez aquele dia, na porta do condomínio Mar Azul”, depôs Paulo Ítalo. “Na hora o coronel chegou, me algemou e me levou pra casa dele, onde ele e o filho me espancaram por 30 minutos.” Iunes dá sua versão: “Eu o acusei de aliciamento de menores, trouxe pra casa e o detive porque ele ficou agressivo e quebrou o braço do meu filho Tiago. Se eu tivesse batido durante meia hora, garanto que ele não poderia nem falar.

Candelária, Carandiru, Carajás, Pinheirinho. Exemplos não faltam de uso arbitrário da força e abuso de autoridade da PM. Eu não vi, não ouvi e não falei. Só sei que a polícia nunca está por perto quando a gente precisa. Servir a quem? Proteger de quê? 

Eu quero o cheiro das manhãs da minha terra, ver o sol descer na serra e o vento norte soprar/ Eu quero mesmo é ficar bem juntinho dela, na praia de Atalaia, mirando as ondas do mar”...

2 comentários:

rafa disse...

Só pra esclarecer as mortes do HUSE, o dia que rolou o tiroteio foi o dia posterior ao assalto, ou seja, o irmão do tenente e o sobrinho foram fazer "justiça" sozinhos, foram na captura dos supostos assaltantes. Enfim e dois dos três que morreram pelas investigações, nada tem a ver com crimes. Um abuso do inicio ao fim. Mas o post tá massa.

Viva La Brasa disse...

é aquele tipo de história: quanto mais mexe, mais fede.