quarta-feira, fevereiro 29, 2012

ANO BISSÉTIMO
7 anos de VIVA LA BRASA e 15 de fim do CABRUNCO ZINE. Fevereiro é mês de festa p/ mim, e carnaval não tem nada a ver c/ isso.

Começo dos anos 1990. O mundo dos fanzines ia seguindo a sua vida habitual. Cada um no seu quadrado, fazendo seu protesto aqui, divulgando sua banda acolá, espalhando suas histórias em quadrinhos mais adiante...”, lembra o paulista Márcio Sno, autor do zine AAAH!! na década de 90 e do recente documentário FANZINEIROS DO SÉCULO PASSADO.

Quando comecei c/ essa história de zine, eu era balconista de locadora e tava mais interessado em fazer vídeos. Achava que seria o próximo Quentin Tarantino, hahah... Mas o que vingou foi o CABRUNCO. O “filho bastardo de Aracaju”, segundo o Sno [gostei disso], era feito em parceria c/ Rafael Jr., batera da Snooze, e Márcio André, mais conhecido atualmente como o Márcio de Dona Litinha da Naurêa.

Foi uma viagem e tanto. Ou melhor, foram várias. Corri quase todo o Brasil cobrindo festivais, fizemos reportagens, publicamos HQs, entrevistamos lendas como o forrozeiro Zenilton e até antecipamos carreiras solo bem-sucedidas, como Pitty e Marcelo D2, na época nas bandas Inkoma e Planet Hemp respectivamente.

Agregamos um time peso-pesado de colaboradores: nos quadrinhos os locais Beto Hendrix e Luiz Eduardo, o cearense Lupin, o maranhense Joacy Jamis, o mineiro Luciano Irrthum, o paranaense Marcel Pauluk, o catarinense Henry Jaepelt, o gaúcho Allan Sieber e os cariocas Lauro Roberto e Alberto Monteiro, que hoje expõem em galerias de arte; nos textos contávamos c/ o trasher Petter Baiestorf, os rockers Adelvan Kenobi e Leonardo Panço, e até minasDenise Garcia e Pitty colaboraram c/ o zine.

2 anos e 8 edições depois, desencanei de tudo e acabei c/ o zine no verão de 97, ao voltar de uma temporada em Recife. Talvez a morte de Chico Science tenha me influenciado, vai saber... O fato é que o nº 9 já tava pronto mas nunca foi lançado.

Fiz um monte de coisas – uma produtora, um festival de rock e um curso de jornalismo. Me formei, mas quase nada deu certo. Em 2005, desempregado e voltando de outra temporada fora, dessa vez no Rio, eu tava c/ novas idéias queimando por dentro e desiludido o suficiente. Cenário perfeito pro surgimento do blog. E VIVA LA BRASA!

Aqui estamos, 7 anos depois. Essa viagem vocês têm acompanhado de perto. Antes que o mundo acabe, pretendo comemorar o número cabalístico neste ano bissexto c/ uma série de novidades, e a primeira delas nem foi idéia minha.

Por conta própria, Sno escaneou suas cópias do CABRUNCO, converteu-as em PDF e disponibilizou toda a coleção p/ download. “Uma espécie de celebração a este importante fanzine dos anos 1990”, diz o blogueiro Jamer, do ZINESCÓPIO. “Marca também o início das postagens de zines para download em 2012.

Quanto a mim, não me tornei um Tarantino mas trabalho c/ vídeo e dirijo uma TV. Nada mal p/ um zineiro, hein? 

CABRUNCO por Márcio Sno

Tudo ia muito calmo até que Rafael Jr. e Adolfo Sá resolveram dar o seu recado por intermédio de um fanzine. Então, nascia em abril de 1995 o CABRUNCO. Poderia passar batido se fosse um zine assim como os demais contemporâneos, mas essa publicação tinha alguns diferenciais.

Primeiro, por deixar de lado o habitual recorta e cola manual e partir já, naquela época, com uma editoração mais moderna, diagramado em computador e com um visual mais clean. Bacana, né? Para a ‘polícia do underground’ isso era uma traição inadmissível em épocas em que o computador começava a ser um item dentro das casas. 

E por ser polêmico. Os editores não tinham papas nas línguas para questionar a qualidade de uma banda ou de outra publicação, assim como alimentavam e conduziam discussões de assuntos velados por uma maioria. Não tardou para também serem enquadrados nesse quesito pelos ‘undergroundmente corretos’.

Para ambos os casos, tocaram o foda-se e continuaram produzindo, mantendo a mesma linha editorial que se manteve (e evoluiu) nas oito edições que formam a saga desse filho bastardo de Aracaju. Por essas e por outras, tornou-se um dos zines mais significativos, respeitados e influentes do fanzinato nacional. Mesmo lançado há quase duas décadas, esse fanzine se mostra muito à frente de seu tempo até mesmo se levarmos em consideração os tempos atuais. 

Durante as gravações para o documentário FANZINEIROS DO SÉCULO PASSADO, uma das perguntas que fiz para os entrevistados foi: ‘qual é o zine que você gostaria de ter feito?’. Posso garantir que 70% citou este zine. E eu sempre o cito quando sou questionado.  

Esse é o meu presente para o primeiro aniversário do ZINESCÓPIO e a maioridade que o CABRUNCO completaria se estivesse em atividade. 

Pensando bem…  

Na verdade, é um presente para o fanzinato nacional! 

Divirtam-se! 

CABRUNCO 01 - abril/maio 1995
Com as suas modestas oito páginas, o CABRUNCO já chegou chutando a porta, com uma capa polêmica, feita pelo desenhista oficial do zine, Luiz Eduardo. Tem uma matéria sobre o fim dos Ramones (sim, éramos nascidos naquela época!), uma retrospectiva do rock de Sergipe, a seção de demotapes, Subway, e ainda a VDO que a cada edição fazia comentários sobre filmes, já que Adolfo Sá trabalhou em uma locadora de vídeos e tinha propriedade no que escrevia. Ainda tem um pequeno espaço para se falar mal de Paulo Coelho, no texto de Márcio André Andrade. DOWNLOAD
NOTA DO EDITOR: A MELHOR COISA DESTA EDIÇÃO ERA O DESENHO NA CAPA

CABRUNCO 02 - junho/julho 1995
Embalados e com alguns patrocínios, dobraram a quantidade de páginas para essa segunda edição. E mais uma polêmica na capa, com uma charadinha que era uma dica do tema do zine: onanismo. Inauguram a seção de cartas, curtas e a Inquisição, que era entrevista com alguma personalidade, a estreia ficou com a banda Lacertae. Uma ótima HQ de Beto Hendrix nas páginas centrais, dão um toque especial. A seção de demos passou a se chamar Demostarre e a VDO ocupa duas páginas. Na Letrose, destaque para Thais Bezerra, uma escritora diferente. DOWNLOAD
N.E.: PERDI O TESÃO NA IRA BARBIERI QUANDO ELA DEU PRO HUMBERTO GESSINGER

CABRUNCO 03 - agosto/setembro 1995
O apelo sexual das primeiras capas agora dá vez para os super-heróis dando uma surrupiada na grana de um jovem leitor, para anunciar a grande matéria sobre a invasão dos personagens nas telas dos cinemas. No editorial já aparecem os primeiros sinais da crítica de alguns que acusaram o zine ser ‘limpo’. Márcio André é promovido a ‘editor excepcional’. Anúncio da então nova banda de David Grohl, o Foo Fighters. Na Inquisição um bate-papo rápido com Zenilton, que na época era conhecido por acompanhar os Raimundos. Estreia da seção Los Otros, com divulgação de fanzines. A Demostarre continua forte e na VDO agora tem fotos dos filmes. Letrose tem duas páginas dedicados a Emil Michel Cioran. Beto Hendrix fecha com uma HQ na contra-capa. A fotocópia está superior aos números anteriores. DOWNLOAD
N.E.: POIS É, TAMBÉM ANTECIPAMOS ESSA MODINHA DE FILMES DE HERÓIS

CABRUNCO 04 - novembro/dezembro 1995
Com o preço na capa, o destaque fica para a banda Mundo Livre S/A, por meio de uma entrevista com Fred 04. A lista de colaboradores aumenta consideravel- mente com Henry Jaepelt e Allan Sieber mostrando um pouco do muito que sabem rabiscar. Na seção de cartas polêmica com o editor do zine Sinagoga’s Butterflies. Los Otros já conta com três páginas, demonstrando que a produção impressa daquela época crescia gradualmente. Resenhas de shows começam a aparecer, com destaque para Intercom 95. DOWNLOAD
N.E.: ZERO QUATRO E MIRANDA BEBERAM C/ A GENTE A NOITE TODA

CABRUNCO 05 - janeiro/fevereiro 1995
Uma das capas mais fodas já apresentadas na história dos zines também foi alvo de polêmicas: algumas meninas acharam que os editores estavam incentivando o machismo. Independente de qualquer coisa, a capa (que faz link com a matéria sobre o verão) é linda. Estreia de Lauro Roberto com seu personagem Leocad. Rovel também dá as graças com seu humor barato (no melhor sentido, claro!). A banda brincando de deus fala para o Inquisição. Com a chegada do CD é inaugurada a seção Discorama e a Demostarre continua cheia de títulos. Beto Hendrix continua firme e forte com uma história que dava uma beliscada na igreja. Letrose homenageia o personagem Calvin. Na VDO, Adolfo Sá mostra seus primeiros sinais de profeta, quando comenta sobre o talento do então desconhecido diretor Peter Jackson. DOWNLOAD
N.E.: DESTAQUE P/ O TOPLESS DE VERA VIEL NAS PÁGINAS CENTRAIS

CABRUNCO 06 - abril/maio/junho 1995
Na edição especial de aniversário, o zine passa a ser trimestral e dá uma atenção especial aos quadrinhos, a começar pela capa (polêmica, diga-se de passagem) de Luiz Eduardo, que é o entrevistado do Inquisição, matéria com Daniel Clowes e com lindas histórias de Lauro Roberto, Marcel Pauluk (sim, um dos editores do PAPAKAPIKA), Antônio Éder, Allan Sieber, André Leal, Rovel e do próprio Adolfo. Papo rápido com Marcelo D2, resenhas de shows e ainda um texto de Adelvan Barbosa (editor do Escarro Napalm) em homenagem a 1 ano do zine. Matéria sobre Diogo Mainardi e o lançamento do polêmico filme KIDS. Curiosamente, essa foi a única edição que saiu com o nome de O CABRUNCO. DOWNLOAD
N.E.: EU FAZIA UMAS HISTÓRIAS E PASSAVA P/ OUTROS CARAS DESENHAREM

CABRUNCO 07 - julho/agosto/setembro 1996
Como o zine estava com a bola toda, essa edição veio com capa vermelha em homenagem aos trash movies brasileiros, que tiveram uma matéria especial. A editoração já estava mais limpa e mais profissional, uma inovação para a época. Matéria sobre o Abril Pro Rock, que registrou show de Gilberto Gil com Chico Science, o festival Acendedor de Lampiões, de Alagoas, e mais os shows locais. O Lacertae cede mais uma entrevista pro Inquisição. Luciano Irrthum mostra uma HQ de duas páginas, em uma adaptação de Franz Kafka. A matéria sobre trash movies está muito boa e traça bem o panorama audiovisual B da ocasião. DOWNLOAD
N.E.: MATÉRIA MONSTRA DO PETTER BAIESTORF C/ OS TRASH MOVIES 

CABRUNCO 08 - outubro/novembro/dezembro 1996
Frank Zappa em um buraco ilustra a capa que faz a singela pergunta: Underground vale a pena?Essa pergunta se faz por dois motivos: pelo fato de os editores estarem de saco cheio das panelinhas, camaradagens da cena da época e também para demonstrar a dificuldade de se lançar um disco de uma banda, como é mostrado em Independência… ou morte?Bastante resenhas de shows como o Garage Rock e Expo Alternative, HQs, as seções habituais e ainda entrevista com o skatista Mosquito e uma história de Joacy Jamys. A qualidade gráfica dessa edição saiu impecável, mas pena que foi a derradeira… DOWNLOAD
N.E.: MELHOR HQ PUBLICADA EM SERGIPE, MANGUE DEATH JAM

 

terça-feira, fevereiro 21, 2012

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Minha experiência com o carnaval foi a de quem enchia a cara de cachaça e vomitava no meio-fio depois de uma série de tocos de meninas gostosas. O carnaval não devia ser pra mim.

Daniel Og é um animador carioca criado na zona oeste, onde as melhores festas punks foram celebradas e onde meu espírito foi recuperado. Ele também pega onda [faz tempo que não surfo], é pai da Manuela e autor da graphic novel YURI - QUARTA-FEIRA DE CINZAS, insólita HQ de zumbi ambientada no Rio de Janeiro — em pleno carnaval.

O personagem surgiu primeiro como fantasma, diz Dog sobre o protagonista do seu livro de estréia, lançado pela editora paulista Conrad. Mas há 5 anos percebi que ia começar uma onda de zumbi, e ele ficou zumbi de vez. Quando ainda existiam locadoras minha meta era ver todos os filmes da parede de terror, sempre gostei do gênero.

Yuri é um publicitário que se suicida na véspera do carnaval e vaga por botecos, esquinas e ônibus em busca do descanso eterno, enquanto o mundo se acaba em samba. Acho que falta mostrar coisas que acontecem no Brasil, não adianta mostrar aquelas escadas de terror americano. Elas são ótimas pra suspense, mas a gente não tem isso aqui.

O que a gente tem por aqui é o aumento no número de mortos em acidentes de carro, de adolescentes grávidas, de infectados por HIV... e um ano que só começa depois da folia de Momo. Real terror. Como observou outro cartunista, o Schiavon, sobre a 'travequização' das cada vez mais bombadas rainhas de bateria:

Desespero não é alegria e crueldade não é esperteza.
Raio Laser - Você considera o Yuri o seu alter ego de alguma forma? Você viveu alguma das histórias narradas na HQ?
Daniel OG - Um pouco, mas não. O Yuri começa a história em um ponto que eu vivi. Tinha saído de um 'bom emprego', estava duro... Estava desesperançoso de chegar nas conquistas que quando menino tinha me imposto! Hahaha! Mas aí justamente por estar nessa situação (eu não pensei nisso na época, só me dei conta agora, na verdade) tive a liberdade de mudar e fazer meu quadrinho como eu queria, sem me importar com opinião de ninguém. Aproveitei essa chance de renascimento bem melhor que o Yuri. De uma certa forma, a vida que Yuri deixa pra trás é a minha. Mas a partir do momento que o Yuri encontra o Andrei, a história e o personagem já não têm mais nada a ver comigo. Mesmo assim, usei muitas referências da minha vida. Muitos amigos como base para criar os personagens... Enfim, tem muito de mim na história, mas não é nada autobiográfico! Nunca fui chifrado daquele jeito, por exemplo! 
 
RL - A HQ tem uma identidade local muito forte. Como você trabalha roteiro e personagens? 
DOG - O que eu acho que falta nos quadrinhos brasileiros é uma perspectiva diferente. Culturalmente, o Brasil produz pouca coisa com identidade nacional e divertida. Geralmente, divertido é sinônimo de cinema de ação. Japonês, americano, coreano, que seja, mas o entretenimento brasileiro é muito realista! Chato, eu diria! Então, a referência fica entre fazer uma coisa com cara de Brasil e pesada — sofrida, doída — ou fazer uma coisa com cara de europeu ou americano e sem identidade, sem referências realmente próprias. Acaba que a falta de trabalhos lúdicos com identidade própria — e divertidos — faz com que surjam menos trabalhos que sigam nessa linha também. Foi uma intenção que fosse um quadrinho divertido antes de tudo! Ainda que fosse um quadrinho burro, ainda que fosse um quadrinho tosco, tinha que ser divertido.

RL - Yuri é uma HQ de fôlego, com 272 páginas. Quanto tempo você demorou para realizá-la?
DOG - Na prática, eu levei 5 anos. Mas a história apareceu na minha cabeça há uns 8. Levei algum tempo até ter coragem de sentar e escrever. Considero que realmente comecei o projeto depois do primeiro roteiro escrito. Que depois eu acabei jogando fora quase inteiro!

RL - Qual o maior desafio da produção deste trabalho?
DOG - Tempo. Nada além disso. Paciência. Na verdade, o maior desafio talvez tenha sido juntar coragem e me forçar a levar o projeto do início ao fim. Porque, técnica e criativamente, foi fácil de fazer. Era um quadrinho que eu queria muito fazer. E por não ter uma carreira conhecida, não havia nenhuma expectativa. Eu podia ir melhorando a técnica à medida que fazia... podia errar. O duro mesmo foi me convencer de que havia chegado a hora de começar e, levando o tempo que levasse, que eu ia chegar até o fim uma hora, que ia valer a pena. Mas mais uma vez, meus resquícios de punk rock me ajudaram. Eu não me importava muito se ia ficar bom ou não. Só queria ver meu bichinho pronto. 
 
RL - Quem você considera as suas principais referências nos quadrinhos? Quais os seus autores favoritos? 
DOG - Conheço até pouco de quadrinho pra falar a verdade! Hahaha! Não achava isso até conhecer alguns outros autores e apreciadores de quadrinhos. Por que o povo conhece tudo! Então sou humilde com meus conhecimentos. Mas adoro quadrinho! Meu pai sempre teve muita Mad e Peanuts em inglês em casa, aqueles livrinhos de bolso... eu e minha irmã destruíamos a coleção dele literalmente. Minhas referências são os clássicos (Charlie Brown, Winsor McCay, Hugo Pratt, Manara, Asterix…), quadrinhos de humor (Quino, Laerte, Allan Sieber, Angeli, Fernando Gonzales), mangá, que eu gosto muito (Dr. Slump, Preto & Branco, Naruto, Vagabond, Battle Royale…), alguma coisa de quadrinho de herói também, que eu lia muito quando moleque. O Mike Mignola, inclusive, foi muito plagiado em vários sentidos… o timing dele é um negócio misterioso. Estudo muito ele.

RL - Já está preparando sua próxima HQ?
DOG - Estou! Já vinha preparando a história há um tempo, enquanto desenhava o YURI. Mas não tem muito a ver. Não repito muito as coisas. Gosto de experimentar com tudo que eu faço. Mesmo com animação e cinema, eu raramente fiquei muito tempo em uma mesma área. Apesar de meu ganha pão ser animação, é uma animação experimental... são projetos variados sempre no jeito de executar e nos roteiros. E eu quero dar um tempo. Um ano talvez. Nesse meio tempo quero fazer umas histórias curtas para revistas independentes que quiserem um colaborador e lançar um livro fechado com essas histórias. Já tenho algumas feitas até.
YURI - Quarta-Feira de Cinzas DANIEL OG [Conrad] R$ 36,00


CLIP: BRAZIL BANANA SAMBA YO-HO-DELIC [animação - MACARRÃO 'in memoriam']
AGRADECIMENTOS: blogs RAIO LASER & MALAGUETAS EXTRAORDINÁRIAS

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

OVELHA NEGRA 
Que deselegante!, deve ter dito a Sandra Annenberg ao ver as imagens do imbróglio da Rita Lee c/ a PM de Sergipe que resultou na prisão da cantora de 67 anos em seu show de despedida.

- Venham me prender, porra! (Rita Lee pede e a PM atende)”, estampou o CINFORM, jornal sensacionalista local. O episódio envolvendo o assédio policial a um moleque portando um beque ganhou manchetes de jornais, foi notícia nacional, trending toppic, dividiu opiniões e, duas semanas depois, ainda rende assunto.

Rita Lee é uma lenda viva, precursora do rock nacional c/ os sensacionais Mutantes, e recebeu o apoio de toda a classe artística, evidentemente. O que a levou a prestar declarações na delegacia nem foi tanto ter tomado as dores do jovem maconheiro – foi ter chamado os tiras de “cavalos”, “cachorros”, “filhos da puta” e mandado o “patrão” deles tomar no cu. Surtou, ao lembrar-se da ditadura.

A apresentação aconteceu na minha área, Atalaia Nova, durante o Verão Sergipe, um evento público – e o governador Marcelo Déda estava na platéia. “Ela buscou colocar o público contra a polícia, que estava cumprindo o seu papel. Induziu ao consumo de drogas, fez deliberada propaganda, o que é proibido pela legislação. Nós vamos processá-la para que ela devolva o cachê desse show”, Déda ameaçou.

Eu não tinha entendido o porquê da vovó roqueira ter escolhido logo a Barra dos Coqueiros p/ encerrar sua carreira [?!], até rolar essa treta toda. Lembrei que há 4 anos houve uma história de superfaturamento, uma conta de R$ 350.000,00 p/ cobrir despesas de um show dela em outro evento do governo, sendo que a Rita só teria recebido R$ 50 mil, num episódio conhecido como “Micareta Picareta”.

Aposto que a velhinha já veio c/ sangue no olho, a fim de aprontar alguma mesmo. “Rock’n’roll!”, gritaria o Ozzy. O jornal paulista ESTADÃO publicou um cordel de Christian Carvalho Cruz contando essa história c/ mais riqueza poética – e de detalhes. Quem está certo eu não sei, só sei que foi assim:

O DIA EM QUE LAMPIÃO SE APODEROU DE RITA LEE*

Veje homi seu menino
Sente que vou lhe contar
Do dia que baixou Virgulino
Em um palco feito altar
Na Rita que não é a santa
Mas moça boa no falar
 
Antes contudo todavia
Um bocado acabrunhado
Peço a bença dos poetas
Que nessa arte têm mestrado
Não riam aqui deste mané
Um patavina do Assaré
 
Pois aquele um, o Virgulino
É o próprio Lampião
Falecido no Sergipe
Sítio deste dramalhão
E Rita é a Lee, a negra ovelha
Nossa mais digna pentelha
 
Foi na Barra dos Coqueiros
Sua cantoria derradeira
Armou-se grande festa
Pro adeus de uma roqueira
Agora não venham os dotô
Com essa chata choradeira
 
Vocês conhecem essa cara
Essa fala, esse cheiro
Portanto se desespantem
Com os modos de carroceiro
Ela ficou só pouco mais fula
Com o espírito do cangaceiro
 
Quando a dita assombração
Empreendeu sua manobra
Ocupando aquele corpo
De cabelo cor de abobra
Ela sentindo a ditadura
De cabrita virou cobra
 
Era noite alta e fresca
Quando surgiu a soldadesca
Bulindo o povo, acintosa
Atrás da tal erva venenosa
Lá de cima Rita viu
Parou o show, o céu caiu
 
E quando súbito se viu
A lua desaparecer
Na praça antes pacata
Foi um tal de se benzer
'Vixe cr’em Deus pai
O regabofe vai feder'
 
Possuída pelo fantasma
Do bandoleiro nordestino
Rita fez da voz o bacamarte
E da bala o seu hino
Chamou major de cachorro
O tenente de eqüino
 
A roqueira do cangaço
Disse tudo sem volteio
Oiô de frente a guarda
Exibiu dedo do meio
C’atitude obscena
Só cresceu o rebosteio
 
Nem o beiço quis molhar
Com água, suco ou fruta
Se dirigiu aos capacetes 
'Seus filhos duma puta
Venham me pegar
Sou avó mas tô enxuta'
 
A razão e o motivo
De tamanho aporrinho
A Lampiona deixou claro:
A força bruta, o desalinho
No lombo da meninada
Causa dum baseadinho
 
Indo pra lá mais adiante
Não precisa de adivinho
Pra notar naquele grito
Também disparo de espinho
Contra os cabra que arrocha
Aluno, nóia e Pinheirinho
 
Por isso e mais um tanto
Que a mutante encrenqueira
Em seu verbo assoberbado
Pôs nos dente a peixeira
Dando devido sacolejo
Na triste vida brasileira
 
Quem ficou aperreado
Foi Déda governador
Disse e não é chiste
Que Rita está em seu playlist
Mas xingar homem da lei
É demais pra quem assiste
 
Não por outra o mandatário
Pensou ir ao tribunal
Cortar a paga do cachê
Mas evitou posar de mau
Se Rita lamentasse o auê 
'Causdequê?! Do fumacê?!'
 
Entremente o rebuliço
Muito apoio lhe foi dito
O filho Beto veio aqui
E confessou estar aflito
O titã Sérgio Britto:
'Fuck the police, viva Rita Lee!'
 
Ainda chefe de Corisco
64 anos e avó
Gulosa, escandalosa
Foi levada ao xilindró
E nas venta do delegado
Passou novo forrobodó
 
Causo tão misterioso
Os pelo sobe de alembrar
Mas juro ao senhor
Pela emoção não me guiar
Tava assim de cabra da peste
Que pode tudo confirmar
 
Do seio da luz brilhante
Veio o divino chanceler
Em pessoa o Padim Ciço
Com sua mágica colher
Futucou-lhe as entranhas
Rancou o capeta da mulher
 
A cantante estrebuchava
Se arrastando pelo chão
Pro marido ela explicava:
'Foi o calor da emoção'
E Roberto amparava:
'Cospe, Rita, cospe fora o dragão'
 
Exorcizado o coisa ruim
Ordenou o padroeiro
'Rita, mia fia
Não atuo de bombeiro
Pois volte já pra rede
Escandalize os tuiteiro'
 
Ela beijou a mão do santo
Agradecida e juvenil
Pensou que bem podia
Ser presidenta do Brasil
Pra dar Panis Et Circenses
A essa gente tão gentil
 
Má ideia não seria
Pois artista não sobrou
Chico só quer bola
E Caetano caducou
Então vote em Rita Lee
Prum país mais rock and roll!

Vou parando por aqui
De sua paciência abusei
Minha lira se gastou
Das fantasias que cantei
Mas garanto meu amigo
 
Se aumentei não inventei.

*XILOGRAVURA DE J.BORGES, ARTISTA PERNAMBUCANO DE 76 ANOS