domingo, abril 29, 2012

HELLCIFE
Abril Pro Rock 20 anos. O festival que surgiu junto c/ o manguebeat e alavancou a carreira de Chico Science é hoje um dos maiores do país, oferecendo 3 dias de música e atrações internacionais aos recifenses – e quem mais tiver disposição de se jogar na Manguetown.

Estive em 5 das 20 edições, de 1997 a 2001, sempre cobrindo o evento p/ a revista Rock Press [que virou portal na internet]. Vi Seu Jorge na Farioca CariocaOtto estreando carreira solo, Marcelo Camelo distribuindo fitas demo, Tom Zé rasgando nota de dólar, as primeiras bandas gringas a tocar lá, como o Dead Fuckin’ Last da Califórnia, e peças-raras como Júpiter Maçã, Wander Wildner e Textículos de Mary – alguém lembra dessas bichas do inferno?

Esta foto em que apareço no metrô ao lado dos DJs Patrick Tor4 e Eduardo Montezuma foi feita na minha última viagem a Hellcife, quando vi Jon Spencer Blues Explosion e Asian Dub Foundation. E não, eu não ando por aí c/ DJs, os caras foram no mesmo ônibus que eu. Nos últimos 10 anos, bandas clássicas do rock pesado apresentaram-se no APR, como Motörhead, Misfits e Suicidal Tendencies. Mas nesse quesito nenhuma edição do Abril Pro Rock superou a 20ª, realizada no último fim-de-semana.

A primeira noite foi ‘sold-out’ c/ a venda de 15.000 ingressos p/ a volta dos Los Hermanos. Mas foi no sábado que o bicho pegou no Chevrolet Hall. Podia não estar tão lotado mas 7.000 camisas pretas são capazes de fazer um bom estrago, e não deu outra na noite em que tocaram Test, Leptospirose, Ratos de Porão, e as estrangeiras Cripple Bastards da Itália, Exodus dos EUA e Brujeria do México.

Eu não fui, mas Sergipe compareceu em peso, apesar de nenhuma banda local estar escalada – o que já aconteceu em outros anos c/ a Lacertae [96] e a Plástico Lunar [2009]. Entre anônimos e ilustres, estavam lá os fotógrafos Marcelinho Hora e Victor Balde do Snapic, os punks Sílvio Campos da Karne Krua, Dani Rodrigues e Ivo Delmondes da Renegades of Punk, e o radialista Adelvan Kenobi do Programa de Rock, que todo ano bate ponto.

Como van ustedes cabrones locos de Brasil?”, perguntou o Brujeria. “Estavam todos usando máscaras”, conta Adelvan em seu blog, “com exceção de Pinche Peache, o gnomo mexicano que é a cara pública do Brujeria, segundo o próprio Brujo, um dos vocalistas – que estavam mais pra MCs do capeta.” Guitarras no último volume, baixo distorcido no talo, rodas de pogo beligerantes, “e muita maconha & satanismo”, completa Dani da Renegades, sobre a noite mais pesada nos 20 anos de Abril Pro Rock.

Bem melhor que o malfadado Metal Open Air, pseudofestival que ocorreria no Maranhão no mesmo fim de semana e que teve apenas uma das 3 noites anunciadas, deixando milhares de metaleiros na mão. “Se não fosse por minha equipe, especificamente, nem o show de sexta teria acontecido”, explanou um indignado Dave Mustaine, que tocou na raça c/ o seu Megadeth. “Queiram fazer cobertores de seda com pele de porco.

Ponto p/ Paulo André, produtor do APR, que nunca deu falha c/ as bandas que prestigiam seu festival. Domingo as atrações gringas foram Antibalas e Nada Surf dos EUA, e Buraka Som Sistema de Portugal – mas na mesma noite um tal de Paul PcCartney se apresentava no estádio do Arruda, ali pertinho. “Povo arretado!”, mandou o Macca.

APR20 por Adelvan Kenobi
Em 'La Migra' o Brujeria chama o Gordo do Ratos ao palco. Antológico.
Se dizem anticomunistas, chegando a sentenciar que 'comunismo/
satanismo/PRI es lo mismo' – o PRI é o Partido Revolucionário
Institucional, 'cria' da mesma revolução mexicana liderada por
Zapata e que esteve no poder por décadas no México.
Cerca de 7.000 'rockeros locos' (como diria o pessoal do Brujeria)
compareceram para conferir aquela que foi, provavelmente, a
noite mais pesada e ensandecida de toda a história do evento.
O publico acompanhou de perto a insanidade produzida no palco,
o que eu pude comprovar pessoalmente ao atravessar uma roda
de pogo e ser esmagado contra uma parede humana.
Test, uma dupla jazzy/grind de São Paulo que ficou célebre por
tocar na rua na porta de shows de bandas como DRI e Slayer,
tocou no chão. Ficou difícil de ver, mas deu pra curtir – e muito!







LEIA RESENHA COMPLETA NO BLOG DO PROGRAMA DE ROCK
http://pdrock-sergipe.blogspot.com.br/

domingo, abril 22, 2012

POP
Quando gravei FUN HOUSE, em 1970, ninguém queria me entrevistar. Era maravilhoso!

Iggy Pop, 65 anos de rock em estado bruto.

Adolescente, largou a escola em Detroit, o emprego numa loja de discos – Discount Records – e a banda em que tocava bateria – Prime Movers – p/ morar em Chicago. Foi c/ 19 centavos no bolso e ficou num bairro negro onde era o único branco [nos EUA dos anos 60]. Aprendeu que “o lance é tocar o meu próprio blues simples.” 

Eu poderia descrever minha experiência baseado no jeito que aqueles caras descreviam as deles. Um dia eu estava na beira de um rio, conversando com alguns amigos, e alguém me passou um cigarro de maconha. Nunca tinha experimentado. Fumei pela primeira vez e fiquei louco. Foi fumando maconha que eu tive a idéia de cantar numa banda.” 

Voltou p/ Detroit, chamou uns amigos e o resto é História. “Era uma porra tão real que simplesmente era inacreditável”, diz John Sinclair, ex-empresário do MC5, sobre o show de estréia dos Stooges. “Iggy não se parecia com nada já visto. Não era como uma banda, não era como o MC5, não era como Jeff Beck, não era como coisa nenhuma. Não era rock’n’roll.

Os caras faziam barulho, abusavam das drogas e moravam na mesma casa – a Fun House. “Na primeira vez que fomos para Nova York, Iggy tomou STP”, conta o finado guitarrista dos Stooges, Ron Asheton, no livro MATE-ME POR FAVOR. “Amarrei uma corda na cintura dele e o guiava pela cidade. Iggy ficava dizendo: ‘Uau, cara, posso ver através dos edifícios!’...

Quando a gente chegou pra fazer o disco, Jac Holzman me perguntou: ‘Vocês têm material suficiente pra fazer um álbum, certo?’. A gente disse: ‘Claro!’. A gente só tinha 3 canções. Então voltei pro hotel e em uma hora bolei os riffs de ‘Little Doll’, ‘Not Right’ e ‘Real Cool Time’.” 

I Wanna Be Your Dog’ provavelmente é resultado da minha má interpretação de ‘Baby Please Don’t Go’...”, diz Iggy. Ele berrava letras sujas, rolava em cacos de vidro e sempre tinha problemas c/ a polícia. “Eu não conseguia entender como Iggy conseguia que as garotas ficassem à volta dele”, lembra o batera Scott Asheton, irmão de Ron. “Uma vez, vi ele pegar suas 5 garotas de sempre e ir caminhando de volta pra casa com todas essas meninas agrupadas em volta dele, ‘-Oh Iggy, oh Iggy’...”.

Pop e os Stooges anteciparam o niilismo e os 3 acordes do punk em sons como ‘No Fun’, ‘Raw Power’ e ‘Search and Destroy’. A banda acabou em 1974 e voltou em 2003. Nesse hiato, Iggy se tornou um ícone do rock emplacando hits como ‘Candy’, ‘Lust for Life’ e ‘The Passenger’. Fez parcerias c/ David Bowie e Lou Reed, pegou gonorréia c/ a Nico e influenciou bandas como Ramones e Sex Pistols.

Iggy era mítico”, confirma Legs McNeil, autor do zine PUNK, que batizou o movimento. “Iggy era provavelmente a única pessoa universalmente respeitada por todo mundo na cena – e nós éramos uma gente que não respeitava coisa nenhuma. Quer dizer, ok, havia Lou Reed. Lou era brilhante, mas era um babaca. Iggy era Deus.” 

O Iguana quebrou ossos apanhando na rua, quebrou ossos caindo de palco e, igual ao Wolverine, sempre se regenerou. Atuou em filmes de Hollywood e participou de discos do White Zombie, At The Drive-Inn, Peaches etc. Disse que ia parar c/ os stage-dives após uma aterrissagem mal-sucedida em 2010, mas já voltou a se jogar em shows na Alemanha, Inglaterra e Espanha. 

Tenho orgulho de um Stooge, man. Tenho orgulho até das piores coisas que fizemos. Tenho orgulho de ter passado com um caminhão de 4m por baixo de uma ponte de 3m e cortado a parte de cima do caminhão como se fosse uma lata de atum, hahaha. Tenho orgulho das vezes em que desmaiei na frente de pessoas importantes, tenho muito orgulho disso.

Aos 65 recém-completos, continua rolando as pedras e quebrando tabus. Em 2007 lançou THE WEIRDNESS c/ os irmãos Asheton, e em 2009 gravou um álbum de jazz, PRELIMINAIRES, c/ uma versão p/ ‘Insensatez’ de Tom Jobim. Em 2010 foi homenageado no Rock and Roll Hall of Fame, e em 2012 escolhido embaixador do Record Store Day

Quando os Stooges subiam no palco, você sabia que alguma coisa podia acontecer. As nossas excursões eram as mais loucas, duvido que qualquer outra banda tenha feito tanta putaria quanto a gente. Eu sempre acordava sem saber onde estava, deitado com uma mulher que eu nunca tinha visto. Uma vez agarrei uma dona na platéia e comi ela.” 

Casado há uma década c/ a gata Nina Alu, posou em janeiro dentro de um modelito Dior p/ uma campanha feminista. “Eu não tenho vergonha de me vestir como mulher porque não acho vergonhoso ser mulher.” 

Promete um disco de inéditas dos Stooges até o fim do ano. “Só vou me aposentar depois dos 70.

Parabéns, Iggy.

Rei da cachorrada.

KING OF THE DOGS
 “HEY GIRL, I'M NOT ASHAMED TO DRESS LIKE A WOMAN,
BECAUSE I DON'T THINK IT'S SHAMEFUL TO BE A WOMAN


SAIBA COMO JAMES OSTERBERG GANHOU SEU APELIDO:

sábado, abril 07, 2012

FALA COMIGO DOCE COMO A CHUVA 
Sempre tive duas fantasias: uma é fazer ménage à trois, a outra é ser dominada. Não sei muito, mas astou procurando casas, sites, pessoas que tenham o mesmo desejo que eu. Não sei muito sobre o assunto, você pode me ensinar?

Ver a atriz Anne Samara Torres propondo isso dentro de um shortinho 2 números abaixo do necessário p/ conter seu sensacional derriére é uma experiência que eu recomendo.

Nos anos 90 usei até gastar uma camiseta estampada VÁ AO TEATRO... MAS NÃO ME CHAME. Nos anos 2000 freqüentei cabarés chiques, casas de striptease e puteiros baratos. Só pela diversão. Casei, parei c/ essa vida, mudei alguns [pré] conceitos. E minha mulher pegou a camisa pra pano de chão.

Ganhei uns convites do Projeto Temporada na Casa Rua da Cultura, espaço teatral bem localizado na Praça Camerino, centro de Aracaju – perto da própria Rua da Cultura, onde toda essa história começou. Lá também rolam shows, como o lançamento do disco dos Baggios em 2011 e o Grito Rock no carnaval.

9 peças estão em cartaz, assisti 3. CABARET DOS INSENSATOS foi a primeira. Baseada em poemas e textos eróticos de Jean Genet e Bertold Brecht, a montagem tem 4 cenas – ou atos, sei lá, já falei que não sou especialista em teatro...

No 1º ato [vamos lá], a ninfeta Anne é uma aprendiz nas artes do amor e recebe umas lições da tutora. No ato seguinte, uma meretriz canta umas canções e fala umas sacanagens enquanto se prepara p/ dar duro em mais uma noite de trabalho. A platéia segue andando pelos ambientes, até chegar num sobrado onde uma loirinha de lingerie desce as escadas e abre as pernas bem na nossa cara. Grande momento, interpretação impecável.

Esqueci de dizer que o CABARET começa do lado de fora, quando um vendedor de balas fica impregnando a platéia e o palhaço Kassem sai p/ expulsá-lo. No final ele retorna p/ um monólogo sobre masturbação. Engraçado, mas por mim terminaria c/ um peepshow do elenco feminino. Fica a dica.

Ensaiamos 9 meses até estrear”, diz o diretor Lindemberg Monteiro, que também administra o projeto e estréia hoje na TV Aperipê um programa sobre teatro, o TEMPORADA. “Acompanho o processo de criação deste espetáculo desde o início. Foram muitos ensaios e mudanças de elenco, sempre tinha alguém entrando no grupo, mas esse processo de renovação acabou fortalecendo a atual formação.

E que formação. Além da Anne Samara, atrizes como Suellen Viana e Stefaní Cornélio, do grupo Stultifera Navis, e Inês Reis, do A Tua Lona, valem o ingresso – R$ 20 inteira, R$ 10 meia. Mais barato do que outros tipos de entretenimento que têm por aí. E antes que me chamem de sexista, uma informação: CABARET DOS INSENSATOS ganhou o Prêmio O Capital de melhor espetáculo, ator e direção em 2011.

As peças do Lindemberg têm aquele estilo Gerald Thomas/ Zé Celso Martinez de interação c/ a platéia. Ele também dirige e atua em ANTÍGONA, interpretando o protagonista Creonte, rei de Tebas, no clássico de Sófocles. Sua abordagem bem moderna mistura o paganismo pré-cristão da tragédia grega a pontos de candomblé e até um som da Nação Zumbi, No Olimpo: “Todos os dias nascem deuses, alguns maiores e outros menores do que você”...

Durante quase duas horas, 22 atores trepam em andaimes, lutam c/ paus e um puto ainda fica pelado perto do fim. Artístico demais p/ mim, que curti mesmo as meninas em roupa de dormir na noite anterior. Ironicamente, a montagem que mais gostei não tinha garotas bonitas em trajes módicos falando safadeza nem nada erótico do tipo.

PELA JANELA é uma adaptação livre de Fala Comigo Doce Como a Chuva, do autor novaiorquino Tennessee Williams. Apenas 2 atores – Diane Veloso e Thiago Marques do grupo Caixa Cênica – num quarto encenando uma história triste. Diane é uma de nossas maiores atrizes, c/ passagens pelo cinema e um programa de TV, o OLHA AÍ.

Vá ao teatro. A 5ª edição do Projeto Temporada segue até 03 de junho. Só não aceite o convite da atriz do 2º ato do CABARET p/ sentar na cadeira dela. A morena vai te seduzir, embriagar, sussurrar no pé do seu ouvido e depois é só prejuízo. Ainda bem que não era eu. A cena me fez lembrar do William Shatner perguntando pro Charlie Sheen: “Por que você paga por putas se as atrizes dão de graça?

O mundo é um palco. E homens e mulheres, não mais que meros atores. Entram e saem de cena e durante a sua vida não fazem mais do que desempenhar alguns papéis.” Eu poderia tentar impressionar finalizando c/ essa do Shakespeare, mas vou encerrar c/ uma citação do Millôr Fernandes, sagaz jornalista, cartunista e autor teatral falecido em março:

Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres fica muito melhor.” Perguntei a minha mulher se gostou do texto da Anne Samara, ela me pegou pra pano de chão. Fazer o que, se p/ mim “o melhor movimento feminino ainda é o dos quadris”?

E antes que me chamem de machista, essa também é do Millôr.

PRECISO IR MAIS AO TEATRO*
“GOZE. QUEM SABE ESSA É A ÚLTIMA DOSE?”
CABARET DOS INSENSATOS, STULTIFERA NAVIS
 ANTÍGONA, MAIS UMA DO STULTIFERA
MORCEGOS, DO GRUPO ARTMANHAS
OS MARGINAIS, GRUPO A TUA LONA
ACIMA E ABAIXO, PELA JANELA DO CAIXA CÊNICA

TEMPORADA todo sábado 19h na TV Aperipê

POST EM HOMENAGEM A MILLÔR FERNANDES | 16/08/1923* - 27/03/2012+