domingo, agosto 19, 2012

BUCETA TRETA
PUSSY RIOT: EM AÇÃO [ACIMA] E NA PRISÃO [ABAIXO]


2 anos de cadeia. É o tempo que vão pegar Nadezhda Tolokonnikova, 22 anos, Maria Alvokhina, 24, e Yekaterina Sumtsevich, 30 – as 3 roqueiras presas por protestarem em uma igreja em Moscou.
 
No dia 21 de fevereiro, a catedral do Cristo Salvador foi invadida por garotas mascaradas usando vestidos coloridos, empunhando guitarras, socando o ar e chutando alto, na coreografia da canção ‘Punk Prayer’, cuja letra pede à Virgem Maria que afaste a Rússia das garras de Vladimir Putin, às vésperas de sua reeleição p/ o 3º mandato como presidente.

O protesto, apesar de caótico, foi pacífico – e até engraçado. Mas o que se seguiu foi um processo kafkiano, uma condenação injusta e a comoção mundial em torno de um grupo que existe há menos de 1 ano.

REVOLT IN RUSSIA
Mais do que uma banda de rock, Pussy Riot é um coletivo de mulheres ativistas. “Nosso objetivo é nos afastar das personalidades em direção aos símbolos de protesto puro”, diz Serafima, uma das integrantes em liberdade. Todas usam codinomes, como Tyurya: “Trocamos frequentemente de nomes, balaclavas, vestido e papéis dentro do grupo. Alguém sai, um novo membro se junta e a escalação em cada apresentação pode ser inteiramente diferente.

Criado em setembro de 2011 após o anúncio da candidatura de Putin, o grupo adota tática de guerrilha nos shows: aparece sem avisar e toca sem autorização em locais públicos como a Praça Vermelha. Foi lá, em janeiro, que foram detidas pela 1ª vez, mas por serem réus primárias, as 8 envolvidas na ocasião foram liberadas. No episódio da catedral, elas já eram reincidentes.

A motivação desse protesto foi uma promessa de campanha, 13 dias antes, p/ investimentos na ordem de £120 milhões em construções da Igreja Ortodoxa. “Temos que nos afastar da noção primitiva que separa Estado e Igreja”, disse o candidato referindo-se ao Secularismo e contrariando a constituição russa, segundo a qual não existe religião oficial.

BACK IN THE URSS
Desde que foi eleito, Putin vem enfrentando manifestações públicas e usando a força policial contra a oposição. “Tudo aquilo que fragiliza o país e divide a sociedade é inaceitável para nós. Qualquer decisão ou medida que leve a distúrbios sociais e econômicos é inaceitável”, discursou o ex-agente da KGB que se mantém no poder há quase 15 anos, seja como presidente ou primeiro-ministro.

O Estado russo é visto por críticos como um sistema político em que o Kremlin gerencia muito além do esperado”, analisa Daniel Sandford, correspondente da BBC no Brasil: “A linha entre o Estado e a Igreja é tênue e no sistema legal promotores e juízes parecem não ter qualquer independência.” Democrática na aparência, a mão forte do governo influencia até a cena musical.

O que o Pussy Riot tem para obter apoio internacional?”, pergunta a veterana cantora Valeria. “As maiores estrelas do país tentam não se desentender com o presidente para não pôr em risco sua principal fonte de renda, os shows particulares para os super-ricos, que pagam muito bem”, diz Alissa de Carbonnel direto de Moscou. “Todos sabem que perderiam espaço na televisão estatal se tomassem uma posição contra o Kremlin.

FREE PUSSY RIOT
Enjauladas desde março, Nadezhda, Maria e Yekaterina ganharam visibilidade mundial quando a Anistia Internacional comprou a briga e lançou a campanha FREE PUSSY RIOT. O abaixo-assinado pedindo a libertação do trio incluiu nomes como Bjork, Pete Townshend e Paul McCartney. “Eu e tantos outros que acreditam na liberdade de expressão faremos tudo ao nosso alcance para dar apoio a vocês e à idéia de liberdade artística”, disse o velho Macca.

A cantora canadense Peaches postou um vídeo sugerindo o linchamento de Putin, c/ a participação duma dúzia de amigos, dos Hives ao Cheap Trick, e também organizou um protesto em Berlim que reuniu centenas de pessoas – pouco comparado aos milhares que marcharam pelas ruas de Moscou no dia 12 de junho. “A Rússia será livre!”, gritavam os manifestantes em desafio à política anti-protesto.

É difícil encarar a apresentação da Pussy Riot como arte”, analisa o artista plástico Leonid Sokov, russo radicado nos EUA. “Aquilo foi uma ação primitiva, mas de qualquer forma, elas conseguiram o que todo artista quer e precisa: uma reação ampla e viva da sociedade.

PROTEST AND SURVIVE
Enquadradas por “crime de vandalismo motivado por ódio religioso”, as Pussy Riot foram perdoadas pelo clero ortodoxo, ganharam a empatia do Ocidente e atraíram atenção p/ a liberdade de expressão na Rússia – ou a falta de. A chanceler alemã Angela Merkel considerou o julgamento “excessivamente duro e não compatível com os valores democráticos da União Européia, c/ a qual a Rússia se comprometeu”.

A Grã-Bretanha divulgou em nota que o veredito “questiona o comprometimento da Rússia em proteger os direitos e as liberdades individuais. A Casa Branca disse que “entende que o comportamento do grupo foi ofensivo a alguns, mas nos preocupa a maneira como essas mulheres estão sendo tratadas pelo sistema judical russo.

É possível que a pena seja revista e abrandada p/ 1 ano de prisão – o que ainda soa absurdo se pensarmos que elas deveriam ter respondido por perturbação da ordem pública e punidas com trabalhos comunitários, no máximo. “Este caso se junta a outros de intimidação política e perseguição de ativistas por parte da Federação Russa”, reforça o coro a representante da União Européia, Catherine Ashton.

ANARCHY AND PEACE
Spencer Ackerman, jornalista americano especializado em segurança nacional, lembra do caso dos Crass, punks ingleses que foram presos e julgados durante a guerra das Malvinas por causa do hit que perguntava à primeira-ministra Margareth ThatcherHow Does It Feel (To Be The Mother of a Thousand Dead?)’. A diferença é que os Crass foram inocentados e escaparam das garras das autoridades. As 3 do Pussy Riot, não.

O punk rock, filho ilegítimo, mais sujo, mais esperto e mais irritante do rock’n’roll, normalmente não vence. O movimento tem um longo histórico de aspirações a derrubar governos corruptos e autoritários, multinacionais e outras estruturas de poder internacional – mas não tem um longo histórico de vitórias", diz Ackerman. “Ainda que ninguém fale do grupo pela sua música, uma olhada para a história de êxitos geopolíticos do punk rock mostra que as Pussy Riot já os ultrapassaram, e talvez tenham dado ao punk um futuro como força global para a justiça e a liberdade.

Henry Langston, da revista VICE, esteve c/ outras 4 integrantes do grupo: Garadzha, Kot, Kyurya e Serafima. A revolução já estava no ar. C/ suas balaclavas fluorescentes e postura anti-establishment, as ‘riot grrrls’ russas galvanizaram o zeitgeist.

C/ vocês, a única banda que importa:

VICE - Por que ‘PUSSY RIOT’?

Garadzha - Um órgão sexual feminino que deveria apenas receber de repente começa uma rebelião radical contra a ordem cultural que tenta constantemente defini-lo e mostrar qual é o seu lugar. Os sexistas têm certas ideias de como as mulheres devem se comportar, e Putin também tem alguns pensamentos sobre como os russos devem viver. Lutar contra tudo isso é a Pussy Riot.

Kot - Você não devia ter respondido essa pergunta, Garadzha, porque geralmente não fazemos isso. Quando os policiais e os agentes da FSB nos interrogam e perguntam: ‘O que essas letras em inglês no seu banner significam’ — colocamos um banner durante alguns dos nossos shows ilegais e dificilmente qualquer um desses babacas sabe falar qualquer língua estrangeira — então a gente geralmente responde: ‘Bom, senhor policial, não é nada de especial, essas palavras significam ‘Rebelião das Gatinhas de Estimação’. Na Rússia você nunca deve dizer a verdade para um policial ou agente do regime putinista.

Serafima - Este país precisava de uma banda militante de street punk feminista que pudesse tocar nas ruas e praças de Moscou e mobilizar a energia pública contra os bandidos da junta putinista, enriquecendo a oposição cultural e política com temas que são importantes para nós: gênero e direitos LGBT, problemas da conformidade masculina e a dominância dos machos em todas as áreas do discurso político.

VICE - Quais são suas influências musicais?

Garadzha - Muito do crédito vai para o Bikini Kill e as bandas da cena RIOT GRRRL — de certa maneira nós desenvolvemos o que elas fizeram nos anos 90, embora o contexto seja absolutamente diferente, e com uma postura exageradamente política, o que leva todos os nossos shows a serem ilegais. Nunca fizemos um show num clube ou em qualquer espaço especial para música. Esse é um princípio importante para nós.

Kot - Algumas de nós se inspiram nas bandas clássicas de punk OI! do começo dos anos 80: The Angelic Upstarts, Cockney Rejects, Sham 69 e outras — todas essas bandas tem uma energia musical e social incrível, seu som rompeu a atmosfera de sua década, espalhando confusão por toda parte. A vibração deles realmente capta a essência do punk, que é o protesto agressivo.

VICE - Quais são suas principais influências feministas?

Serafima - Em teoria feminista seriam Simone de Beauvoir com O SEGUNDO SEXO; Dvorkin, Pankhurst com suas corajosas ações sufragistas; Firestone com suas teorias de reprodução loucas; e o pensamento nômade de Braidotti, Millett e Judith Butler.

Garadzha - E como foi dito, em termos de cenas musicais feministas, ativismo e construção de comunidade, nós damos o crédito ao movimento Riot Grrrl.

VICE - Pussy Riot está procurando novos membros?

Garadzha - Sempre! A Pussy Riot precisa continuar se expandindo. Essa é uma das razões porque escolhemos usar sempre balaclavas — novos membros podem se juntar ao grupo e realmente não importa quem vai fazer parte do próximo show — podem ser 3 de nós ou 8, como nosso último show na Praça Vermelha, ou até 15. A Pussy Riot é um corpo pulsante em crescimento.

Tyurya - Você conhece alguém que queira vir para Moscou, tocar em concertos ilegais e nos ajudar a lutar contra Putin e os russos chauvinistas? Ou talvez as pessoas possam começar suas Pussy Riots locais, se acharem que a Rússia é muito distante e muito gelada.

VICE - Melhor eu arranjar uma balaclava neon pra mim também. Vocês se preocupam com a perseguição da polícia ou do Estado conforme vocês ficam mais e mais conhecidas?

Kot - Não temos nada com que nos preocupar, porque se os bandidos repressivos putinistas jogarem uma de nós na cadeia, 5, 10, 15 garotas mais vão colocar balaclavas coloridas e continuar a luta contra seus símbolos de poder.

Serafima - E hoje, com dezenas de milhares de pessoas nos apoiando, o Estado vai pensar duas vezes antes de tentar fabricar um caso criminal para nos tirar de circulação.

VICE - Como vocês vêm a Rússia sob um novo governo liderado por Putin?

Tyurya - Como uma ditadura de Terceiro Mundo com todas as suas características divertidas e cheias de classe: uma horrível economia baseada em recursos naturais, níveis inacreditáveis de corrupção, ausência de tribunais independentes e um sistema político disfuncional. E sob o governo de Putin é bom se preparar para mais uma década de sexismo brutal e conformismo com as políticas oficiais do governo.

Serafima - Como você via a Líbia sob o governo de Gaddafi? Como você vê a Coreia do Norte sob o governo de Kim Jong-Un, o ‘brilhante camarada’ de 28 anos? Para nós, a Rússia sob o governo de Putin, aka ‘O Líder Nacional’, não é diferente.

VICE - O que vocês acham sobre os outros grupos antigovernamentais, como o Voina e o Femen da Ucrânia?

Tyurya - O Voina é legal, acompanhamos eles de perto, gostamos mais do seu período de 2007/08, quando eles fizeram ações simbólicas muito loucas como o ‘Fuck for The Heir Puppy Bear na véspera das eleições presidenciais de 2008. Eles desenharam uma caveira com os ossos cruzados com laser verde no parlamento russo e fizeram um enforcamento cerimonial de homossexuais e imigrantes ilegais como um presente para o prefeito de Moscou, foram coisas poderosas.

Serafima - Nossa opinião sobre o Femen é uma história complicada. Por um lado elas exploram uma retórica muito masculina e sexista em seus protestos — os homens querem ver garotas nuas agressivas sendo atacadas por policiais. Por outro lado, sua energia e capacidade de continuar em frente não importa o que aconteça é incrível e inspiradora: um dia elas estão na Suíça escalando a cerca do Fórum Econômico Mundial e no outro já estão em Moscou atacando o quartel-general da maior produtora de gás natural russa. E mesmo depois de terem sido torturadas e humilhadas pelos agentes da KGB na Bielorrússia, elas prometeram continuar lutando ainda mais. Energia é uma coisa muito importante nos dias de hoje; grupos de rua na Europa e na América frequentemente carecem de força, mas essas garotas realmente têm isso.

VICE - Qual foi o show favorito de vocês?

Garadzha - Fora o da Praça Vermelha, todas nós realmente gostamos do nosso show no telhado de um dos prédios do Centro de Detenção de Moscou, onde as pessoas foram presas depois dos protestos pós-eleição do dia 5 de dezembro. Os presos políticos podiam nos ver de dentro das celas e gritavam e aplaudiam enquanto a gente tocava ‘Death to Prisons - Freedom to Protest’. Os guardas e os funcionários da prisão ficaram correndo de um lado pro outro porque não sabiam como tirar a gente imediatamente daquele telhado. Eles ficaram tão assustados que ordenaram um trancamento total imediato — acho que eles pensaram que ia começar um cerco ao Centro de Detenção depois que a gente terminasse de tocar. Foi muito legal.

VICE - Vocês têm planos de armar shows nas aparições públicas do Putin?

Tyurya - Putin tem muito medo de fazer qualquer aparição realmente pública — todas as suas ‘reuniões públicas’ são fortemente vigiadas, com partidários do Kremlin gritando e mandando beijos. Mas um dia vamos pegá-lo desprevenido, com certeza.

Serafima - Então é melhor ele dar o fora antes da gente conseguir por as mãos nele. Que o Putin nunca queira encontrar a Pussy Riot cara a cara!

LIBERDADE PARA AS BUCETAS
PUSSY RIOT TOCANDO O TERROR
  NADEZHDA, MUSA DO MOVIMENTO
 ANTHONY KIEDS VESTE A CAMISA...
...MADONNA PÕE A BALACLAVA...
...PEACHES PUXA O CORDÃO...
...E O PREFEITO DE REYKJAVIC ADERE
FEMEN DERRUBA CRUZ NA UCRÂNIA
CENA DE PROTESTO EM MOSCOU