segunda-feira, dezembro 31, 2012

É TUDO VERDADE 
2012 não foi um bom ano p/ a música. Grandes perdas  Adam Yauch, o MCA dos Beastie Boys, Jon Lord do Deep Purple, e Dave Brubeck, ícone do jazz, foram as baixas mais sentidas no playlist do Viva La Brasa  e os maiore$ ganho$ indo pro tipo de som mais descartável desde a invenção do axé. O paranaense Michel Teló liderou duas paradas latinas e chegou ao Hot 100 da Billboard c/ "Ai Se Eu Te Pego" e o goiano Gustavo Limma alcançou o nº 1 na Bélgica, França, Itália, Holanda e Suíça c/ seu "Tchê Tchererê Tchê Tchê"… 'Sertanejo universitário' é o ritmo que comprova o baixo nível do nosso ensino e ajuda a explicar a crise nos EUA e Europa.

Mas nem tudo foi perdido no ano que passou. Em 13 de dezembro comemorou-se o centenário do 'Rei do Baião' Luiz Gonzaga, o cara que imprimiu no consciente coletivo a imagem do sertanejo: gibão e chapéu de couro. Retirante radicado no Rio de Janeiro, adotou o visual do cangaço e virou sinônimo de sanfona no Brasil. Autor de incontáveis 'hits'  a minha favorita é "A Sorte É Cega"  sua influência é total em Sergipe, estado cantado como o "País do Forró". Desde a incontável quantidade de tocadores em trios pé-de-serra até as bandas mais modernas que usam música eletrônica, como Naurêa e Coutto Orchestra de Cabeça, que têm sanfoneiros em suas formações.

O que pouca gente sabe é que uma vez Gonzagão apeou em carne-e-osso, "Asa Branca" e "Assum Preto", aqui em Aracaju. Tocou no rádio, brigou com o dono e arrastou uma ruma de gente pruma 'jam' no meio da rua. História bem melhor que a do filme lançado há pouco tempo, e quem conta é Ivan Valença, ele próprio uma lenda do jornalismo sergipano. A crônica foi publicada no Jornal da Cidade, e eu só sei que foi assim:  

"Quando foi que tudo isso aconteceu, isso eu não me lembro mais. Só posso me lembrar dos fatos e alguns nomes dos personagens. E garantir-lhes que tudo o que vai ser narrado pode ter seu gostinho 'kitsch', mas tudo é verdade, como já dizia o título de um antigo filme de Orson Welles.

O causo se passou na antiga Rádio Difusora, quando a emissora ocupava um andar do Palácio Serigy, ali em frente a Praça General Valadão, mas com entrada pela Rua José do Prado Franco, já então conhecida como a rua do Mercado, embora os mercados municipais ficassem pelo menos um trecho adiante. A rádio tinha estúdios acanhados, mas fez história porque foi a primeira emissora de rádio na capital sergipana. A PRJ-6 abrigou em seus estúdios tanta gente que fez história no rádio sergipano, de Alfredo Gomes aos irmãos Silva, Claudio e Wolney, além de Paulo Silva, que preferia usar sua voz no carro de propaganda Guarani, de propriedade de Augusto Luz, o dono do Cinema Guarany. Depois, Paulo virou-se para o empreendedorismo e manteve por muitos e muitos anos o Café Sul Americano, que rivalizava com o Café Império na preferência dos sergipanos.

Um dos seus irmãos, Claudio, foi ser locutor na Voz da América, que era transmitido dos Estados Unidos para o Brasil. O outro, Wolney, permaneceu no Rio de Janeiro, não sei bem se na Rádio Nacional ou na Rádio Mayrink Veiga. Falava inglês fluentemente, mas preferiu ficar no Brasil. Foi, por um certo período, o apresentador do programa oficial A Voz do Brasil. O certo é que foi lá que Wolney conheceu Luiz Gonzaga e fez muitos programas radiofônicos com ele. Tanto que o indicou ao irmão Paulo: 'quando ele aparecer pelo Sergipe, faça o patrocínio dele que você vai se dar bem'.

O café Sul Americano era o patrocinador de um programa na Rádio Difusora que começava às 8h da manhã e durava uma hora. Era um programa de música popular, nada desses indigestos programas falatórios de hoje, onde se debate tudo e não se aproveita nada. Luiz Gonzaga vem então fazer uma temporada em Sergipe e Paulo o convida a ir ao seu programa.


Gonzaga vai. Só ele e sua sanfona. Com as portas do auditório da rádio abertas para quem quisesse ir conferir pessoalmente a apresentação. Não é preciso dizer que, se o auditório já era pequeno, ficou menor ainda com aquela multidão extasiada que via Gonzaga puxar o fole e extravasar seu vozeirão em baiões memoráveis.

Deu nove horas e nada do programa acabar. 9h10, 9h15… nada. O programa ainda estava no ar. O diretor da rádio - quem seria?, minha memória fica em dúvidas se Santos Santana ou o durão Sodré Jr., Ribeirinho para os íntimos - manda então desligar o som do auditório e dar o programa por encerrado de qualquer jeito.

Ao saber que sua voz já não estava mais no ar para todo Sergipe, Luiz Gonzaga ficou furioso. Passou, ao vivo e a cores, uma reprimenda no diretor da rádio e convidou a multidão a acompanhá-lo até a rua. A multidão abriu passagem no auditório e o seguiu escada abaixo. Lá embaixo, ele esperou que todos descessem, puxou o fole e tascou mais uma de suas inebriantes melodias.

Veio, então, pela Rua João Pessoa, com a sanfona perpassada no corpo e cantando. A multidão o acompanhava, contristada, mas alegre. O show só parou na esquina da João Pessoa com Laranjeiras. Ele então dispensou a todos e foi embora…

Aquelas imagens nunca saíram, evidentemente, de minha mente. Nunca vi nenhum cantor, ator ou atriz se dispor a marchar frente a uma multidão e controlá-la de todo jeito. Procópio Ferreira, um comediante pelo qual o povo tinha verdadeira admiração, morria de um medo danado de multidão. Tanto que só entrava no Cine Teatro Rio Branco pela porta dos fundos e só ia embora quando, encerrado o espetáculo,  o último espectador desaparecesse pela Rua João Pessoa. Paulo Autran, findo qualquer espetáculo no Rio Branco, ia sempre tomar um cafezinho ou uma água gelada na Chic, ali na João Pessoa e Laranjeiras. Mas o povão tinha medo de se aproximar dele, que era muito solene…

***

Tudo isso me vem à mente por conta da passagem do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, exatamente a 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, padroeira dos olhos. Luiz Gonzaga foi o segundo dos oito filhos do sanfoneiro Januário dos Santos e de Ana Batista de Jesus, a Santana.

Nasceu na pequena Exu, ao pé da Serra do Araripe, no semi-árido Pernambuco. Exu vem a ser uma variante de Axu, corruptela de Açu, tribo indígena da região. Lugar barbo, feudo de duas famílias sempre em guerra de poder, os Alencar e os Saraiva.

Gonzaga era gente dos Alencar, sua família servia no chão de suserania daquele povo caririense que tem entre suas glórias o romancista José de Alencar, a revolucionária barba do Crato, e o político Miguel Arraes. Interessante é que só depois de adulto e já personalidade nacional é que Gonzaga veio a saber do seu próprio parentesco sangüíneo. O talento do moleque da Gameleira o fez, porém, maior do que os Alencar e os Saraiva. A fama de Luiz Gonzaga correu o mundo e anos mais tarde ele tentou utilizar o prestígio pessoal para apaziguar os clãs rivais.

Aquele que viria a ser coroado como o 'Rei do Baião' na época de ouro do rádio morreu em 2 de agosto de 1989, no Recife, aos 77 anos. seu Luiz, como os amigos e admiradores gostavam de chamá-lo, construiu uma saga e uma carreira que o singularizaram como artista excepcional, criador de clássicos como 'Asa Branca', uma de suas inúmeras parcerias com Humberto Teixeira, e a pungente 'Juazeiro'. Gonzaga fixou e difundiu o baião, as vozes, os sotaques e os cantares nordestinos, incorporando o Nordeste no mapa musical do país.

Foram mais de 300 composições, sozinho ou em parcerias com Humberto Teixeira, Zé Dantas, Nestor de Hollanda, o filho Gonzaguinha, Hervie Cordovil, Assis Valente, Guio de Moraes. Eram aboios, xotes, rancheiras, canções juninas, toadas, marchas, polcas, choros, valsas, calangos, maxixes, cocos, mazurcas, emboladas, xaxados e até batucada. Mas tudo era baião porque tudo era Luiz Gonzaga. Todo mundo é herdeiro dele. De Gilberto Gil e Caetano a Alceu valença, Elba Ramalho, Marinês e Sua gente. de Mestre Salu a Geraldo Azevedo, a Chico Science, a banda Cascabulho, Mestre Ambrósio e o garoto Kiko Horta, sanfoneiro carioca do Cordão do Boitatá.

Dos tocadores de fole, triângulo e ganzá das feiras nordestinas que se espalharam pelo Sul, aos berimbaus casados com guitarra que desconstroem o forró para construir de novo. O próprio Luiz Gonzaga disse a si mesmo numa toada inesquecível: 'Minha vida é andar/ por esse país/ pra ver se um dia/ descanso feliz/ guardando as recordações/ das terras onde passei/ andando pelos sertões/ e dos amigos que lá deixei/ mar e terra/ inverno e verão/ mostro o sorriso/ mostro alegria/ mas eu mesmo não!"...

domingo, dezembro 23, 2012

ROCK NA VEIA 








THE BAGGIOS [ACIMA] & RENEGADES OF PUNK: O VENENO & A CURA

Conheci a arte de Thiago Neumann freqüentando o Backstage, um apartamento no centro da cidade transformado em estúdio p/ as bandas de rock de Aracaju no início dos anos 2000. As paredes do lugar eram forradas com desenhos sacanas do Angeli, do Manara, do Moebius e do Cachorrão.

Já falei dele aqui há 2 anos, e se vc acompanha o blog tá ligado(a) que o bicho vai na jugular. Seu traço raivoso estampa capas de EPs e CDs dos Mamutes, Nantes e Plástico Lunar. Foi um dos artistas convidados a expor no lançamento do álbum MÚSICA PRA VER, da dupla de fotógrafos Snapic  e sua interferência sobre os registros das bandas ao vivo foi tão impactante que saiu das galerias p/ o site da Zupi, a revista de arte mais irada do Brasil.

Da Karne Krua aos Baggios, ninguém escapa da seringa que injeta rock'n'roll na veia. Destaque do mês de dezembro, "Thiago Neumann faz intervenções artísticas muito legais em fotos", diz a matéria que também apresenta outros trabalhos do Cachorrão nessa linha  como o tomate-cereja que foge da pizza ou os Renegades of Punk se fundindo à paisagem decadente.

Falando em decadência, o Backstage fechou porque a estrutura do prédio antigo no calçadão da Laranjeiras não tava segurando o tranco. Mesmo c/ todo o isolamento acústico, dava pra ouvir o som antes mesmo de subir até o 2º andar do inferninho. Sempre colavam umas meninas e rolavam umas festas. Se aquelas paredes falassem…

A ARTE DE CACHORRÃO: ROCK'N'ROLL NA JUGULAR