sexta-feira, março 20, 2015

A JANELA & O POSTE
A menina gira, num movimento sensual. Em seguida, pára no ar desafiando a gravidade. A única coisa que a prende à Terra é um mastro que vai do teto ao chão. Ao ritmo da música, ela evolui graciosamente em todas as direções. Pousa de cabeça pra baixo, pernas pro ar formando um “T”, e num salto fica de pé. É aplaudida, ouve-se assobios. O público está extasiado.
Pole dance é a dança do poste. Ganhou o mundo através de boates e puteiros, imagem muito explorada em filmes de Hollywood, novelas da Globo e clipes de música. Demi Moore, Flávia Alessandra, Kate Moss, Britney Spears, Madonna, Shakira e Miley Cyrus já interpretaram ou incorporaram strippers em suas atuações e performances.
O apelo erótico de um corpo feminino dançando em torno de um objeto fálico é incontestável, mas de uns tempos pra cá essa dança vem quebrando tabus e adquirindo novas adeptas - e adeptos. Surgida na Índia do século XII como exercício de lutadores, a pole dance ficou associada ao burlesco após ser incorporada pela Comédia Dell’Arte no séc. XIX. Hoje pode ser vista em academias, competições e circos. O Cirque du Soleil utiliza barras em espetáculos acrobáticos. Nos EUA há um movimento para incluí-la nas Olimpíadas. 
Em Sergipe, chegou através da paulista Fernanda Rocha. “Já fiz ballet, ginástica rítmica, dança do ventre”, diz Fernanda. “Através das aulas de circo eu conheci a pole dance. Fiz o curso em São Paulo e trouxe pra cá em 2012.” 
Aqui, começou a ensinar a prática para mulheres jovens, senhoras de meia-idade e até mesmo homens. “É só ter disposição, vontade de aprender e não ter nenhuma contraindicação médica que você pode praticar”, explica a professora de 24 anos, corpo magro e atlético. “Logo quando trouxe pra cá, as pessoas procuravam porque queriam dançar pro parceiro ou pra parceira, mas ultimamente vêm procurando como esporte mesmo.”
Ao lado de outras praticantes, como a tradutora Daisy Scarlato e a publicitária Déborah Costa, fundou a Cia. Sergipana de Pole Dance. Com o intuito de difundir a modalidade no estado, lançaram o calendário Janela de Aysha em 2015. “O nome janela deu-se por dois motivos, o local onde foram tiradas as fotos e sua relação com o fator observação da atividade”, diz Déborah. “Já o nome aysha é uma expressão árabe que significa ‘aquela que está viva’ e batiza um movimento avançado que todos os praticantes aspiram. É muito difícil e a partir dele podem ser feitos muitos outros.”
GRAÇA, LEVEZA E FORÇA
Imbuído do mais puro espírito jornalístico, este repórter observou uma aula e constatou que o treinamento no poste é 1% sex appeal e 99% transpiração. As meninas suam os tops e shortinhos e, não raro, terminam a atividade com hematomas espalhados por braços e coxas. “No meu estúdio trabalhamos com 9 níveis, que vão desde os giros básicos como o Fireman até movimentos extremos de força e flexibilidade como Rainbow Marchenko ou pranchas”, Fernanda esclarece.
A Cia. já se apresentou no Parque da Sementeira, no Festival ZONS e mais recentemente no lançamento do livro Viva La Brasa na Caverna do Jimi Lennon, com uma performance solo da atriz Inês Reis. “Acho importante as apresentações nos eventos para desmistificar a modalidade”, diz Inês.
Integração que Déborah considera essencial. “Enxergamos a pole dance como algo além de esporte ou dança, para nós é uma arte. Nessa parceria com outras manifestações culturais, um fortalece o outro, as artes se misturam, nos tornamos um só com muito mais união, o que só engrandece a cultura sergipana.”
Elad Itzkin, israelense radicado em Londres cujo trabalho alia yoga e fotografia, está fazendo sucesso com seu novo ensaio que mostra uma bailarina em posições de pole dance no metrô. É a ‘street pole’, categoria praticada em postes de sinalização de trânsito e meios de transporte urbano.
“Todo pole dancer gosta de se pendurar nos lugares, e fazer na rua é divertido. Também contribui para a quebra do preconceito. Geralmente as novelas e filmes usam o tema com prostitutas, acredito que já está na hora de mudar a abordagem. Uma médica que faz pole, por que não? Eu tenho alunas médicas, dentistas, advogadas, arquitetas. O projeto Janela de Aysha foi criado para divulgar a pole dance como arte. Para quebrar o preconceito”, finaliza Fernanda, antes de subir no poste e girar com graça, leveza e força.

* matéria publicada no jornal Folha da Praia nº 841, março de 2015