quarta-feira, novembro 09, 2016

VÁ DE RETRO 
QUARTETO FANTÁSTICO: REX, FÁBIO, MOROTÓ E JULIO

2016. Trump é eleito presidente dos EUA enquanto um dos principais países da América do Sul está sob golpe de estado engendrado pela CIA. A localização dessa república de bananas é estratégica para a geopolítica mundial, então a Rússia prepara uma invasão. O Kremlin aciona seus agentes das Indústrias Karzov, que operam no Brasil: Rex & Morotó Slim, que agora contam com o reforço dos espiões Fábio e Julio. Três baianos e um argentino.
Quando a realidade é mais estranha do que a ficção e parece roteiro de filme B, nada melhor do que uma trilha sonora à altura. ENIGMASCOPE Volume 1 [Temas Compostos e Executados pelos Retrofoguetes] é o terceiro álbum da banda de surf music surgida das cinzas dos lendários Dead Billies. Temático e sofisticado, vai do bolero à bossa nova sem perder o punch, com muito wet, tremolo, vibrato e faixas como Agente Duplo, Miss Cuba, O Homem de Moscou, Conexão Istambul, Ultrassecreto e Tic Tac Bum! 
De soundtrack eles entendem, têm no currículo um Leão de Bronze e Urso de Prata em Cannes pela trilha publicitária de War - Smoke Kills More. Durante muito tempo formando um trio com CH Straatmann no baixo, os caras sabem fazer festa. Fizeram o primeiro show na praia e, anualmente, realizam a Retrofolia no carnaval e O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes – que ganhou gravação em vinil pela Monstro Discos. Do time da Retrofolia foi recrutado o guitarrista Julio Moreno. “É um grande músico, apesar de argentino”, zoa Morotó. Sério, já peguei van com eles e as piadas não perdoavam nem os recém-finados Lemmy, David Bowie e Muhammad Ali. O produtor apenas ria e comentava: "São muito filhos-da-puta!"
A nova missão é invadir o espaço aéreo e bombardear Sudeste e Sul com riffs atômicos durante todo o mês de novembro. 17 de dezembro é a vez de Aracaju, o ataque será no Che Music Bar. Já vestidos com os macacões, interceptei os cosmonautas Rex e Julio antes da decolagem. Conversamos sobre planos secretos, arquivos confidenciais e Enigmascope, considerado unanimemente o melhor disco dos Retrofoguetes. Ao infinito e além – do rock.

VIVA LA BRASA - Pra uma banda de surf music, vocês sempre exploraram muitos ritmos e ambiências. A eletrônica lo-fi no Protótipo de Demonstração 1; a música cigana, circense, latinoamericana em Ativar Retrofoguetes; a guitarra baiana, música caipira e italiana em Chachachá… 
REX LEAL - No início, a ideia era fazer surf music instrumental e esse ainda é o viés da banda. Mas muitos outros gêneros nos influenciaram como músicos, então resolvemos trazer todas essas referências pro nosso trabalho. Foi muito bom porque acabou sendo nosso diferencial.
VLB - O quanto a mudança de formação com a entrada dos novos integrantes influenciou na composição e gravação do Enigmascope?
RL - Cada músico traz sua contribuição pro trabalho, naturalmente é assim. O som da gente mudou bastante com a entrada de Fábio e Julio, eles são músicos incríveis, muito experientes e talentosos, foi um grande upgrade pra banda. Além disso, foi a primeira vez que compusemos um disco de forma verdadeiramente coletiva e isso contribuiu muito pro resultado, pro entrosamento e consolidação dessa formação. Mas a grande mudança aconteceu com a entrada de Julio. Até então, Morotó era responsável por todas as melodias e harmonias, e precisava fazer um malabarismo incrível pra isso tudo acontecer. Com Julio foi possível elaborar mais os arranjos, tornando o som da banda mais rico em harmonias. Às vezes, Morotó sola as melodias e Julio faz as bases, em outras acontece o contrário, isso é muito bacana. O som dos dois é bem diferente e isso também trouxe uma riqueza maior. Somos bastante criteriosos e cada vez que iniciamos o processo de composição de um novo disco nos impomos o desafio de trazer algo melhor do que nos trabalhos anteriores. Sem dúvida conseguimos mais uma vez, o Enigmascope é um disco muito mais maduro, mais consistente. 
VLB - Julio, vi você tocando no Goiânia Noise Festival e pelo seu estilo sua base é jazz, talvez violão clássico. Acertei ou meu tiro passou longe?
JULIO MORENO - Hehehehe. São 40 anos de guitarra! Já passei por tudo, man, de banda cover de Lynyrd Skynyrd quando tinha 18 anos até tocar com Sarajane! Hoje tenho o Julio Moreno Trio. Sempre mantive algum projeto paralelo instrumental ao mesmo tempo em que tocava em bandas de baile e participava de coisas experimentais também. Sou curioso e gosto de encarar coisas diferentes, saltar no escuro.
VLB - Pensam em lançar o Enigmascope em vinil?
RL - Já estamos organizando tudo pra lançarmos em vinil no primeiro semestre do ano que vem.
JM - Se tudo der certo, gravaremos também o Vol. 2… Já tem músicas gravadas que ficaram fora do CD.
VLB - Todos os discos da banda foram produzidos por André T. Ele é o 5º retrofoguete? 
RL - Todos os registros, desde a demo, foram produzidos por André T, criamos uma amizade e uma parceria indestrutível ao longo desses anos. Acho que o resultado desse disco se deve muito a essa relação criada com ele, aprendemos juntos com as experiências anteriores e isso criou uma sintonia muito grande entre a gente.
VLB - Enigmascope é uma trilha sonora criada por vocês pra um filme que não existe (ainda). Mas em Chachachá já dá pra sentir uma influência forte de Henry Mancini e Ennio Morricone… 
RL - Bicho, na verdade sempre fomos influenciados pelos compositores do cinema. Mancini, Morricone, John Barry, Jerry Goldsmith, Lalo Schifrin, Piero Piccioni, todos eles foram grandes influências pros nossos temas. Esses caras usaram o que era radiofônico nos anos 1960, quando aconteceu um boom de filmes de espionagem, principalmente na Europa, pra criar as trilhas desses filmes. Juntaram surf music, rock, bossa nova, muzak, jazz, música latina, isso tudo já havia sido incorporado antes ao nosso trabalho. A diferença em relação aos outros discos é que pela primeira vez resolvemos fazer um trabalho mais temático, seguindo um roteiro predefinido. O conceito era perfeito pra gente trabalhar, foi só pensar nas cenas e criar as músicas. Resolvemos fazer a trilha sonora de um filme de espionagem que obviamente só existe nas nossas cabeças.  
VLB - No filme de vocês quem é o herói, o vilão, a mocinha e a bandida que dorme com o espião e morre depois?
RL - Vi muitos filmes de espionagem e nosso roteiro seguiu os clichês do gênero. Rola sempre o espião armado de gadgets até os dentes, irresistível para as mulheres; o vilão, um espião da KGB, frio e inescrupuloso, nosso homem de Moscou; e não uma, mas várias mocinhas se rendendo ao charme do nosso agente. Aí foi só pensar nas cenas de perseguição, mistério, suspense, romance e criar os temas.
VLB - E as Indústrias Karzov? A parte gráfica da banda tem inspiração na arte de caras como Rodchenko… Como andam os planos pra invasão russa ao Brasil?
RL - Na real, sempre cuidei da identidade visual da banda, sou designer e ilustrador e isso aconteceu naturalmente. As referências estão nos quadrinhos, cinema, livros de bolso, cartazes da guerra fria, trouxe tudo pra dentro do trabalho. Gosto muito da estética da antiga União Soviética e sempre brincamos com isso. Ano que vem, vamos entrar em estúdio pra gravar um EP só de polcas que batizamos com nomes de camaradas líderes da URSS. Já lançamos o single Brezhnev, vamos gravar as outras e lançar nas plataformas digitais.
VLB - Chachachá foi lançado na sala principal do Teatro Castro Alves com todos os músicos que participaram das gravações, dos teclados ao naipe de metais. E o lançamento de Enigmascope?
RL - As coisas andam difíceis, fazer uma produção como o lançamento do Chachachá é muito dispendioso, mas queremos lançar o Enigmascope no mesmo nível, talvez no início de 2017.
VLB - Como surgiu a ideia de lançar um disco como O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes?
RL - A gente sempre tocava uns temas natalinos nos shows que se aproximavam da data, aí André T nos convenceu a gravar e lançar o disco numa festa. Saiu em vinil pela Monstro. Depois disso, passamos a festejar todos os anos. Como somos uma banda instrumental, normalmente convidamos vocalistas e pensamos juntos em músicas que podemos tocar, isso é bem divertido. Ano passado foram só mulheres.
VLB - Este ano a gente se reencontrou em Goiânia. Vocês lançaram 2 discos pela Monstro, que é de lá. Quando os Dead Billies tocaram no Noise Festival, em 2001, botaram no bolso a principal atração da noite. Desde então vocês são adorados na cidade. Como é essa parceria?
RL - Lançamos o Ativar Retrofoguetes e o EP de natal, o Chachachá já saiu pelo nosso selo, Indústrias Karzov. A primeira vez que tocamos lá foi com a Dead Billies e tinha uma banda gringa que ia encerrar a noite depois da gente. Nós, sem querer, acabamos com eles. Foi um show incrível, estávamos na nossa melhor forma. Depois disso, tocamos três vezes com a Retrofoguetes e sempre fomos muito bem recebidos pelo público de lá, mas sempre somos parados por um monte de gente que lembra desse show dos Billies, uns dizem que montaram até banda por causa disso. Adoramos a galera da Monstro, sempre tivemos uma relação muito carinhosa com eles. Admiramos muito a garra dos caras e temos total respeito pela história que continuam escrevendo. Além de tocar com os Billies e a Retrofoguetes, toquei também com Nancyta & Os Grazzers e fiz a identidade visual da nona e da última edição do Goiânia Noise. Somos fãs de todos eles, Leo Bigode, Razuk, e Márcio Júnior e Fabrício que já não fazem parte da produtora mas são caras incríveis e totalmente responsáveis pela história.
VLB - Falando nos Dead Billies, tô sabendo que existe um disco inédito e não lançado da banda. Onde tá esse material e o que falta pra ser lançado?
RL - Tá no HD do André T, só falta mixar e masterizar, mas lançar é um assunto muito complexo. Acho melhor passarmos pra próxima pergunta…
VLB - Como foram os anos de Dead Billies? Vocês apareceram até no Programa Legal tocando psychobilly em cima de um trio elétrico…
RL - A Dead Billies sempre será nossa banda do coração, foi com ela que aprendemos nosso ofício, que amadurecemos como músicos e tivemos nossa primeira experiência profissional. Montamos a banda sem nenhuma pretensão maior, só queríamos fazer o som que a gente gostava de ouvir. Fomos a primeira e única banda de psychobilly da Bahia. Gravamos dois discos, Don’t Mess with The Dead Billies e Heartfelt Sessions, reunimos um público imenso e viramos uma lenda no cenário do rock nacional. Isso é muito foda, nos deixa muito orgulhosos.
VLB - Por que a banda acabou?
RL - Tudo um dia acaba, é assim mesmo.
VLB - Vocês são virtuoses que vêm da cidade baixa em Salvador. Quando começaram na música? Como se conheceram e passaram a tocar juntos?
RL - A cidade baixa sempre foi um reduto de grandes músicos, isso passa de geração pra geração. Eu, Morotó, Fábio, nosso atual baixista, e Joe [& a Gerência; baixista dos Dead Billies e de Pitty; um dos criadores da Retrofoguetes] começamos a tocar juntos no início de nossa adolescência, no final dos anos 80. Queríamos montar bandas e imitar nossos ídolos.
VLB - Vocês tocam com outros músicos nos intervalos das atividades da Retrofoguetes? 
RL - Sim, fazemos outras gigs, projetos paralelos como a Les Royales… Fábio, Julio e Morotó vivem exclusivamente de música e eu sigo conciliando a música com o design.
VLB - O que falta pra Retrofoguetes fazer uma tour no exterior? 
RL - Esse é um desejo antigo, estamos sempre tentando viabilizar isso mas não é assim tão fácil. Quem sabe ano que vem? Por enquanto, temos nossas músicas sendo executadas em rádios gringas e continuamos mandando nosso som pra tudo quanto é canto.
VLB - Algum de vocês surfa, ou já surfou? 
RL - Jamais, na cidade baixa não rola onda.
OS RUSSOS VÃO INVADIR O BRASIL. FOTO: CAROL ARAÚJO
GOIÂNIA NOISE FESTIVAL 2016. FOTO: VICTOR SOUZA
FILME DE ESPIÃO E LITERATURA BARATA. FOTO: BRASA

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