sábado, outubro 15, 2016

TONHO 
“Nem sempre a lucidez é remédio.”  
Antonio Carlos Viana, escritor muito fino e sem excessos. Pai do meu amigo André, tradutor de Julio Verne, doutor em literatura comparada pela Universidade de Nice, publicado pela Companhia das Letras, duas vezes premiado pela APCA. 
Ele me ensinou a escrever, não que eu tenha aprendido. Ajudou a implementar a pós-graduação em Letras na UFS e dava aulas de redação no curso de Jornalismo. No dia do professor, fico sabendo que aquele que mais me influenciou morreu hoje. Seu corpo será velado na biblioteca pública Epiphanio Dória. Nada mais apropriado.
"Não entendo porque as pessoas associam arte à emoção. Pra mim, é um processo inteiramente racional."
Tonho, autor respeitado e piadista nas internas.
JEITO DE MATAR LAGARTAS [2015]
Considerado um dos melhores contistas brasileiros contemporâneos, chega ao auge do seu estilo seco e conciso que alia autobiografia e imaginação. Com referências a Beatles e à França, onde morou, traz um clima maior de velhice, solidão, morte e conclui que a humanidade divide-se entre “os de coração aflito e os de maldade extrema”.
CINE PRIVÊ [2009]
“Nos meus livros anteriores, e não só em Cine Privê, eu trabalho com os seres à margem: a família despejada do barraco, o filho cujo pai é assassinado na porta de um açougue, a alegria do enterro para os pobres, o menino que é levado a uma prostituta para a sua primeira vez pelo pai”, disse Tonho na ocasião do lançamento.
ABERTO ESTÁ O INFERNO [2004]
Perda da inocência, descoberta do sexo e brutalidade do mundo são as inspirações desse livro, o quarto lançado entre longos intervalos. “A universidade me deu muita coisa. Acontece que quando se entra na academia, dentro da gente o crítico começa a brigar com o escritor. Dessa luta, um dos dois vai sair machucado.”
O MEIO DO MUNDO E OUTROS CONTOS [1993]
“Escritor escreve sempre sobre as mesmas coisas e solidão é um tema muito caro a mim. Assim como o sexo, a morte, sempre estou recorrendo a esses assuntos. No doutorado estudei a obra de João Cabral de Melo Neto, mas acho que minha literatura tem muita influência do Nelson Rodrigues, que estudei no mestrado.”
EM PLENO CASTIGO [1981]
“Estudei em colégio de padre. A ideia de sexo em um ambiente religioso é sempre maldita. E durante muito tempo fiquei com isso na cabeça. Todas as referências que tenho transferi para as personagens. Onde não tem conflito é difícil haver um bom conto. Superei os traumas. Não tenho mais culpa nenhuma.”
BRINCAR DE MANJA [1974]
Primeira coletânea publicada. Para o autor, um livro “tosco e de péssima revisão”. Já trazia as histórias em primeira pessoa sobre temas banais e com cargas de erotismo. “Comecei a escrever por causa dos concursos literários. Aí comecei a ganhar uns desses prêmios e achei que eu era realmente contista.”
PRÊMIO ESSO DE LITERATURA [1971], PRÊMIO DA UNIÃO BRASILEIRA DOS ESCRITORES [1974], PRÊMIO TOBIAS BARRETO [1975], PRÊMIO NACIONAL DE CONTOS [1991], PRÊMIO DA ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE CRÍTICOS DE ARTE [2009/2015]

domingo, outubro 09, 2016

DISCOTECA PRIMITIVA 
Berindrums é o novo projeto de Aldemir Tacer, baterista do Lacertae que acoplou o berimbau à bateria e criou uma maneira inédita de tocar esses instrumentos. Após 28 anos, 3 discos lançados com a banda e um ponto de cultura criado – Zabumbambus no Campo do Criolo – Tacer saiu sozinho de Lagarto, no agreste de Sergipe, e caiu no mundo. Foi parar em Pelotas, Rio Grande do Sul, onde chamou atenção no Festival Internacional de Jazz e ganhou o respeito da cena local.
27 de outubro é o lançamento de Eletricultura, disco gravado em 2009 com batida mangue e inspiração no livro Folclore Brasileiro, finalmente masterizado. Perguntado se vai se radicar por lá, responde: “Vim no intuito de aprimorar projetos culturais na parceria com o Outro Sul, mas se for pelas gaúchas aí sim viro gaudério.”
Prepara outro álbum com pegada no universo da música eletrônica e estética sonora inspirada em discos voadores, frequências de sintetizadores dos anos 70, efeitos especiais dando um clima místico e astral”. Tocando com os músicos Lê Dipa, Davi Batuca, Satolep Jazz e Serginho & A Vassoura, ele mesmo está produzindo num estúdio analógico, mirando em raves e festivais. "Mantra" 1 e 2, primeiras faixas prontas, são pura psicodelia calanga. “Quero criar uma massa sonora envolvente com essa mistura de rústico e informações tecnológicas”, diz Tacer, “formando uma junção entre o orgânico e o eletrônico, daí surgindo a discoteca primitiva do Berindrums”.
LACERTAE EM LAGARTO. FOTO: ANDERGROUNDI
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