quarta-feira, novembro 09, 2016

VÁ DE RETRO 
QUARTETO FANTÁSTICO: REX, FÁBIO, MOROTÓ E JULIO

2016. Trump é eleito presidente dos EUA enquanto um dos principais países da América do Sul está sob golpe de estado engendrado pela CIA. A localização dessa república de bananas é estratégica para a geopolítica mundial, então a Rússia prepara uma invasão. O Kremlin aciona seus agentes das Indústrias Karzov, que operam no Brasil: Rex & Morotó Slim, que agora contam com o reforço dos espiões Fábio e Julio. Três baianos e um argentino.
Quando a realidade é mais estranha do que a ficção e parece roteiro de filme B, nada melhor do que uma trilha sonora à altura. ENIGMASCOPE Volume 1 [Temas Compostos e Executados pelos Retrofoguetes] é o terceiro álbum da banda de surf music surgida das cinzas dos lendários Dead Billies. Temático e sofisticado, vai do bolero à bossa nova sem perder o punch, com muito wet, tremolo, vibrato e faixas como Agente Duplo, Miss Cuba, O Homem de Moscou, Conexão Istambul, Ultrassecreto e Tic Tac Bum! 
De soundtrack eles entendem, têm no currículo um Leão de Bronze e Urso de Prata em Cannes pela trilha publicitária de War - Smoke Kills More. Durante muito tempo formando um trio com CH Straatmann no baixo, os caras sabem fazer festa. Fizeram o primeiro show na praia e, anualmente, realizam a Retrofolia no carnaval e O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes – que ganhou gravação em vinil pela Monstro Discos. Do time da Retrofolia foi recrutado o guitarrista Julio Moreno. “É um grande músico, apesar de argentino”, zoa Morotó. Sério, já peguei van com eles e as piadas não perdoavam nem os recém-finados Lemmy, David Bowie e Muhammad Ali. O produtor apenas ria e comentava: "São muito filhos-da-puta!"
A nova missão é invadir o espaço aéreo e bombardear Sudeste e Sul com riffs atômicos durante todo o mês de novembro. 17 de dezembro é a vez de Aracaju, o ataque será no Che Music Bar. Já vestidos com os macacões, interceptei os cosmonautas Rex e Julio antes da decolagem. Conversamos sobre planos secretos, arquivos confidenciais e Enigmascope, considerado unanimemente o melhor disco dos Retrofoguetes. Ao infinito e além – do rock.

VIVA LA BRASA - Pra uma banda de surf music, vocês sempre exploraram muitos ritmos e ambiências. A eletrônica lo-fi no Protótipo de Demonstração 1; a música cigana, circense, latinoamericana em Ativar Retrofoguetes; a guitarra baiana, música caipira e italiana em Chachachá… 
REX LEAL - No início, a ideia era fazer surf music instrumental e esse ainda é o viés da banda. Mas muitos outros gêneros nos influenciaram como músicos, então resolvemos trazer todas essas referências pro nosso trabalho. Foi muito bom porque acabou sendo nosso diferencial.
VLB - O quanto a mudança de formação com a entrada dos novos integrantes influenciou na composição e gravação do Enigmascope?
RL - Cada músico traz sua contribuição pro trabalho, naturalmente é assim. O som da gente mudou bastante com a entrada de Fábio e Julio, eles são músicos incríveis, muito experientes e talentosos, foi um grande upgrade pra banda. Além disso, foi a primeira vez que compusemos um disco de forma verdadeiramente coletiva e isso contribuiu muito pro resultado, pro entrosamento e consolidação dessa formação. Mas a grande mudança aconteceu com a entrada de Julio. Até então, Morotó era responsável por todas as melodias e harmonias, e precisava fazer um malabarismo incrível pra isso tudo acontecer. Com Julio foi possível elaborar mais os arranjos, tornando o som da banda mais rico em harmonias. Às vezes, Morotó sola as melodias e Julio faz as bases, em outras acontece o contrário, isso é muito bacana. O som dos dois é bem diferente e isso também trouxe uma riqueza maior. Somos bastante criteriosos e cada vez que iniciamos o processo de composição de um novo disco nos impomos o desafio de trazer algo melhor do que nos trabalhos anteriores. Sem dúvida conseguimos mais uma vez, o Enigmascope é um disco muito mais maduro, mais consistente. 
VLB - Julio, vi você tocando no Goiânia Noise Festival e pelo seu estilo sua base é jazz, talvez violão clássico. Acertei ou meu tiro passou longe?
JULIO MORENO - Hehehehe. São 40 anos de guitarra! Já passei por tudo, man, de banda cover de Lynyrd Skynyrd quando tinha 18 anos até tocar com Sarajane! Hoje tenho o Julio Moreno Trio. Sempre mantive algum projeto paralelo instrumental ao mesmo tempo em que tocava em bandas de baile e participava de coisas experimentais também. Sou curioso e gosto de encarar coisas diferentes, saltar no escuro.
VLB - Pensam em lançar o Enigmascope em vinil?
RL - Já estamos organizando tudo pra lançarmos em vinil no primeiro semestre do ano que vem.
JM - Se tudo der certo, gravaremos também o Vol. 2… Já tem músicas gravadas que ficaram fora do CD.
VLB - Todos os discos da banda foram produzidos por André T. Ele é o 5º retrofoguete? 
RL - Todos os registros, desde a demo, foram produzidos por André T, criamos uma amizade e uma parceria indestrutível ao longo desses anos. Acho que o resultado desse disco se deve muito a essa relação criada com ele, aprendemos juntos com as experiências anteriores e isso criou uma sintonia muito grande entre a gente.
VLB - Enigmascope é uma trilha sonora criada por vocês pra um filme que não existe (ainda). Mas em Chachachá já dá pra sentir uma influência forte de Henry Mancini e Ennio Morricone… 
RL - Bicho, na verdade sempre fomos influenciados pelos compositores do cinema. Mancini, Morricone, John Barry, Jerry Goldsmith, Lalo Schifrin, Piero Piccioni, todos eles foram grandes influências pros nossos temas. Esses caras usaram o que era radiofônico nos anos 1960, quando aconteceu um boom de filmes de espionagem, principalmente na Europa, pra criar as trilhas desses filmes. Juntaram surf music, rock, bossa nova, muzak, jazz, música latina, isso tudo já havia sido incorporado antes ao nosso trabalho. A diferença em relação aos outros discos é que pela primeira vez resolvemos fazer um trabalho mais temático, seguindo um roteiro predefinido. O conceito era perfeito pra gente trabalhar, foi só pensar nas cenas e criar as músicas. Resolvemos fazer a trilha sonora de um filme de espionagem que obviamente só existe nas nossas cabeças.  
VLB - No filme de vocês quem é o herói, o vilão, a mocinha e a bandida que dorme com o espião e morre depois?
RL - Vi muitos filmes de espionagem e nosso roteiro seguiu os clichês do gênero. Rola sempre o espião armado de gadgets até os dentes, irresistível para as mulheres; o vilão, um espião da KGB, frio e inescrupuloso, nosso homem de Moscou; e não uma, mas várias mocinhas se rendendo ao charme do nosso agente. Aí foi só pensar nas cenas de perseguição, mistério, suspense, romance e criar os temas.
VLB - E as Indústrias Karzov? A parte gráfica da banda tem inspiração na arte de caras como Rodchenko… Como andam os planos pra invasão russa ao Brasil?
RL - Na real, sempre cuidei da identidade visual da banda, sou designer e ilustrador e isso aconteceu naturalmente. As referências estão nos quadrinhos, cinema, livros de bolso, cartazes da guerra fria, trouxe tudo pra dentro do trabalho. Gosto muito da estética da antiga União Soviética e sempre brincamos com isso. Ano que vem, vamos entrar em estúdio pra gravar um EP só de polcas que batizamos com nomes de camaradas líderes da URSS. Já lançamos o single Brezhnev, vamos gravar as outras e lançar nas plataformas digitais.
VLB - Chachachá foi lançado na sala principal do Teatro Castro Alves com todos os músicos que participaram das gravações, dos teclados ao naipe de metais. E o lançamento de Enigmascope?
RL - As coisas andam difíceis, fazer uma produção como o lançamento do Chachachá é muito dispendioso, mas queremos lançar o Enigmascope no mesmo nível, talvez no início de 2017.
VLB - Como surgiu a ideia de lançar um disco como O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes?
RL - A gente sempre tocava uns temas natalinos nos shows que se aproximavam da data, aí André T nos convenceu a gravar e lançar o disco numa festa. Saiu em vinil pela Monstro. Depois disso, passamos a festejar todos os anos. Como somos uma banda instrumental, normalmente convidamos vocalistas e pensamos juntos em músicas que podemos tocar, isso é bem divertido. Ano passado foram só mulheres.
VLB - Este ano a gente se reencontrou em Goiânia. Vocês lançaram 2 discos pela Monstro, que é de lá. Quando os Dead Billies tocaram no Noise Festival, em 2001, botaram no bolso a principal atração da noite. Desde então vocês são adorados na cidade. Como é essa parceria?
RL - Lançamos o Ativar Retrofoguetes e o EP de natal, o Chachachá já saiu pelo nosso selo, Indústrias Karzov. A primeira vez que tocamos lá foi com a Dead Billies e tinha uma banda gringa que ia encerrar a noite depois da gente. Nós, sem querer, acabamos com eles. Foi um show incrível, estávamos na nossa melhor forma. Depois disso, tocamos três vezes com a Retrofoguetes e sempre fomos muito bem recebidos pelo público de lá, mas sempre somos parados por um monte de gente que lembra desse show dos Billies, uns dizem que montaram até banda por causa disso. Adoramos a galera da Monstro, sempre tivemos uma relação muito carinhosa com eles. Admiramos muito a garra dos caras e temos total respeito pela história que continuam escrevendo. Além de tocar com os Billies e a Retrofoguetes, toquei também com Nancyta & Os Grazzers e fiz a identidade visual da nona e da última edição do Goiânia Noise. Somos fãs de todos eles, Leo Bigode, Razuk, e Márcio Júnior e Fabrício que já não fazem parte da produtora mas são caras incríveis e totalmente responsáveis pela história.
VLB - Falando nos Dead Billies, tô sabendo que existe um disco inédito e não lançado da banda. Onde tá esse material e o que falta pra ser lançado?
RL - Tá no HD do André T, só falta mixar e masterizar, mas lançar é um assunto muito complexo. Acho melhor passarmos pra próxima pergunta…
VLB - Como foram os anos de Dead Billies? Vocês apareceram até no Programa Legal tocando psychobilly em cima de um trio elétrico…
RL - A Dead Billies sempre será nossa banda do coração, foi com ela que aprendemos nosso ofício, que amadurecemos como músicos e tivemos nossa primeira experiência profissional. Montamos a banda sem nenhuma pretensão maior, só queríamos fazer o som que a gente gostava de ouvir. Fomos a primeira e única banda de psychobilly da Bahia. Gravamos dois discos, Don’t Mess with The Dead Billies e Heartfelt Sessions, reunimos um público imenso e viramos uma lenda no cenário do rock nacional. Isso é muito foda, nos deixa muito orgulhosos.
VLB - Por que a banda acabou?
RL - Tudo um dia acaba, é assim mesmo.
VLB - Vocês são virtuoses que vêm da cidade baixa em Salvador. Quando começaram na música? Como se conheceram e passaram a tocar juntos?
RL - A cidade baixa sempre foi um reduto de grandes músicos, isso passa de geração pra geração. Eu, Morotó, Fábio, nosso atual baixista, e Joe [& a Gerência; baixista dos Dead Billies e de Pitty; um dos criadores da Retrofoguetes] começamos a tocar juntos no início de nossa adolescência, no final dos anos 80. Queríamos montar bandas e imitar nossos ídolos.
VLB - Vocês tocam com outros músicos nos intervalos das atividades da Retrofoguetes? 
RL - Sim, fazemos outras gigs, projetos paralelos como a Les Royales… Fábio, Julio e Morotó vivem exclusivamente de música e eu sigo conciliando a música com o design.
VLB - O que falta pra Retrofoguetes fazer uma tour no exterior? 
RL - Esse é um desejo antigo, estamos sempre tentando viabilizar isso mas não é assim tão fácil. Quem sabe ano que vem? Por enquanto, temos nossas músicas sendo executadas em rádios gringas e continuamos mandando nosso som pra tudo quanto é canto.
VLB - Algum de vocês surfa, ou já surfou? 
RL - Jamais, na cidade baixa não rola onda.
OS RUSSOS VÃO INVADIR O BRASIL. FOTO: CAROL ARAÚJO
GOIÂNIA NOISE FESTIVAL 2016. FOTO: VICTOR SOUZA
FILME DE ESPIÃO E LITERATURA BARATA. FOTO: BRASA

terça-feira, novembro 01, 2016

SONECA 
Reunião da Snooze é motivo de comemoração.
Quando começaram a tocar juntos, os irmãos Fábio Oliveira e Rafael Júnior eram apenas moleques que curtiam Pixies, Sonic Youth e Hüsker Dü. Fabinho tinha 14 anos na gravação da primeira fita demo e Rafael divulgava a banda através de cartas. Mesmo vivendo numa cidade pequena e distante dos grandes centros como a Aracaju dos anos 90, quebraram barreiras: emplacaram clipe na MTV, participaram de coletâneas nacionais e foram trilha sonora em comercial de surf.
Mais de duas décadas, três álbuns e inúmeras formações depois, a Snooze tá saindo de um longo período de hibernação. O último show foi em 30 de dezembro de 2014, na Festa da Antevéspera. O motivo é que seus integrantes são músicos requisitadíssimos. Rafael é baterista do Ferraro Trio, Maria Scombona, Classex Brothers, toca em bares acompanhando Julico dos Baggios e ainda participa de algumas apresentações da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Fábio já foi professor de contrabaixo no Conservatório, volta e meia acompanha nomes como Patricia Polayne, Nino Karvan, Deilson Pessoa e Paulinho Araújo. O guitarrista Luiz Oliva, caçula do grupo, é engenheiro de som, produz discos e faz mesa em shows e festivais.
Amanhã, esse trio de ases volta a se reunir pra uma rara apresentação no Clandestino, evento sem fins lucrativos organizado pelo casal Ivo e Daniela da Renegades of Punk – banda em que Luiz também tocou. Só dos caras estarem de volta, já é lucro. Comentários como "aí eu vi vantagem" e "amo vocês" não faltaram nas redes sociais. Comoção geral. Afinal, a Snooze nunca acabou. Só tava tirando um cochilo.
VIVA LA BRASA - A demo que vocês lançaram em 95 abriu muitas portas numa era em que a internet ainda não tava tão disseminada e as informações não eram tão disponíveis…
RAFAEL JÚNIOR - Sim, a gente utilizava correios e telefone, não tinha internet. Fizemos de forma despretensiosa, não sabíamos onde ia dar, mas eu acompanhava o movimento dos zines e sabia que a qualidade da demo era muito boa. Mesmo assim foi surpresa ver tantas resenhas positivas em jornais e revistas como Folha de SP, Estadão, Rock Brigade etc. 
VLB - Quando lançaram o primeiro álbum em 98 vocês fizeram uma turnê pelo sudeste. Como foi gravar o disco de estreia por um selo paulista e fazer esse rolê? 
RJ - Marcelo Viegas, do selo Short Records que hoje é editor de livros pela Ideal, desenvolveu uma empatia com a banda logo no início e ficamos bem amigos. Ele foi o canal pra coletâneas, matérias, além de ter lançado os dois primeiros discos. Articulou parte da tour no sudeste também, hospedou a gente e tal. Mas antes dessa viagem já tínhamos viajado o nordeste inteiro por 3 anos seguidos. Só não visitamos São Luís no Maranhão. Fomos pro Piauí de carro, fazíamos 4 cidades de quinta a domingo, show em Salvador direto… Então a gente já tinha uma estradinha. No lançamento do disco em 98 passamos por Niterói no Rio e tocamos em São Paulo, São Bernardo do Campo e Jundiaí. Anos depois também fizemos Sorocaba e fomos em Goiânia duas vezes, através do pessoal da Monstro Discos.
VLB - Lembranças especiais, já que Daniel, guitarrista da banda falecido em 2010, também tava com vocês?
RJ - Daniel cativava a todos com seu jeito tímido e na dele, mas soltava os cachorros com as guitarradas no palco… Era bem brincalhão nas viagens.
VLB - Fabinho, como foi crescer na Snooze?
FÁBIO OLIVEIRA - Dá uma sensação boa olhar pra trás e a história da banda se confundir com minha própria história pessoal. Isso também é refletido no decréscimo da produção, na medida em que fui envelhecendo, o que é a parte chata mas, enfim, faz parte quando a premissa foi sempre ser um hobby levado a sério, e não meio de vida.
VLB - Luiz, como você entrou na banda?
LUIZ OLIVA - Em 2004, eu tocava na Triste Fim de Rosilene e fizemos uma minitour por São Paulo. Fabinho tava morando lá e foi ver o show, fomos apresentados e no dia seguinte nos encontramos por acaso numa loja de discos. Eu tinha 18 anos e tava imerso no circuito hardcore. Fabinho era o cara da Snooze e foi massa conhecê-lo naquela situação, já que eu tinha o maior carinho e respeito pela banda que conheci por causa da minha irmã Kika, que me apresentou a demotape quando eu era guri. Tempos depois, de volta a Aracaju, Fabinho apresentava o Programa de Rock junto com Adelvan Kenobi, eu tava no quarteto instrumental Perdeu a Língua e fomos convidados pra uma entrevista. Durante a conversa, surgiu o convite pra tirar um som com a Snooze. Isso aconteceu em 2007 e entrei na banda logo no primeiro ensaio.
VLB - O EP "Empty Star" é a única gravação com você na banda?
LO - Gravamos tributos pro Second Come e Pastel de Miolos. Poucos registros em estúdio, mas temos novas ideias e composições. Nunca conseguimos nos organizar pra gravar um novo disco, mas o ímpeto existe e penso que isso pode acontecer a qualquer momento.
FO - Eu tenho um quarto disco na cabeça há uns bons anos, e parei de me preocupar. Quando chegar a hora a gente vai gravá-lo e vai ser bem diferente de tudo que a banda fez até hoje.
VLB - Como cada disco marcou vocês, já que foram gravados entre grandes intervalos de tempo e com diversas formações?
FO - À medida que convive com pessoas diferentes, que se tornam próximas, sua personalidade também vai mudando. Com certeza existe um Fabinho em cada um dos trabalhos…
RJ - Todos os músicos que passaram deram sua influência, isso é um processo bem natural. A única formação meio criticada pelos fãs mais antigos foi sem a presença de Fabinho, ele continuava na banda mas tava morando em SP e era importante manter a atividade naquele momento específico em que lançamos o terceiro álbum.
VLB - Rafael, voce sempre foi um cara muito ativo: é bombeiro, surfista fissurado, pai de 3 filhos e toca com meio mundo de gente. Como arruma tempo e disposição pra tanta coisa?
RJ - Sou músico full time e é o que sei fazer na vida. Encontrei remuneração fixa na área através de concursos públicos, em 1995 pra Orquestra e em 2002 pra Banda de Música do Corpo de Bombeiros. Sempre conciliei essas atividades com o surf e a criação dos filhos, tocando com artistas que me chamam e em casas noturnas e bares. Paralelamente, também dou aulas. Entre 2007 e 2013 ainda encontrei tempo pra fazer graduação em Música pela UFS.
VLB - Fabinho também tem formação musical, além de Psicologia, confere?
FO - Confere, mas ainda sou formando em licenciatura em Música. Também dei aulas de inglês e atualmente sou coordenador musical no Sesc.
VLB - E Luiz se especializou em engenharia de som…
LO - Eu já brincava com áudio desde moleque, quando comecei a tocar aos 13 e gravar minhas idéias em K7 num microsystem Aiwa que tinha uma entrada de microfone e num gravador de jornalista que me permitia gravar ambientes na rua. Logo depois chegou o computador e pude implementar a danação. Em 2009 me candidatei a uma vaga de estágio na Fundação Aperipê, logo após ter feito o curso de desenho de som e captação de som direto no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, e foi aí que a parada ficou mais séria. Fui selecionado e depois de um ano de trampo meu ex-chefe saiu e fui convidado a assumir o lugar dele. Fiquei lá até 2012, tive a chance de aprofundar meus conhecimentos em diversos segmentos da produção de áudio e aproveitava todas as férias e folgas pra fazer cursos dentro e fora do estado. Entre o som ao vivo, estúdio e audiovisual, pude trabalhar com orquestra sinfônica, grupos folclóricos, bandas do pé-de-serra ao thrash metal, documentários e longas-metragens.
VLB - O clip de "704", cover do Second Come, foi gravado no seu estúdio em casa?
LO - Eu tinha acabado de me mudar pra um apartamento e o registro aconteceu nesse fluxo. Tudo muito simples, filmamos com uma condição: os takes que constam no vídeo deveriam ser os mesmos da faixa gravada. Sem dublagem. Elialdo Galdino, grande comparsa e editor deveras competente, foi o responsável por tornar a ideia possível. O Second Come é uma banda histórica e o tributo saiu pela Midsummer Madness, do Rodrigo Lariú.
VLB - A clássica pergunta: por que cantar em inglês? Sei que vocês não gostam dela e que a Snooze surgiu num período em que as guitar bands brasileiras procuravam mesmo se distanciar do "Rock Brasil" dos anos 80. Mas nunca surgiu a inspiração pra uma letra em português?
FO - O que posso dizer é que, apesar de não ser minha língua mãe e eu nem sequer ter morado na gringa, as letras em inglês soam pra mim naturais, descobri esse universo através dos discos. O rock brasileiro eu já havia esgotado na pré-adolescência, então tudo o que soava e eu internalizava era em inglês. Então é meio fazer algo que você já tem prática. Compor em português seria começar do zero e, não, não estou interessado.
VLB - As letras da Snooze são existenciais e sentimentais. Como é tocar num evento mais engajado e combativo como o Clandestino? Onde essas linhas se cruzam?
FO - Nossa linha de combate é o rock, quer mais? 20 anos de suicídio comercial e você quer mais? Brincadeiras à parte, nós fomos convidados pra tocar na última edição com o Wry, mas a data chocou com minhas atividades no Sesc. Ficamos felizes com a insistência e o convite pra esse agora.
LO - Toquei a primeira vez no Clandestino em 2014, numa edição especial da Triste Fim de Rosilene e Karne Krua. Aconteceu no half pipe do conjunto Inácio Barbosa e foi surreal! Chego junto com o projeto sempre que posso, realizei um minidocumentário da décima edição, gravei o áudio de outras tantas e só de comparecer e ocupar os espaços já sei da importância que isso confere. O hardcore exerceu uma influência brutal na minha vida. Aos 17, quando recebi o convite do Ivo pra entrar na TFR, eu era o típico moleque que não tinha família com condições pra me bancar e tocar guitarra era a melhor coisa que eu sabia fazer. De cara, me vi inserido num circuito articulado, que se nutria do faça-você-mesmo e que prezava por uma vida mais simples e autônoma. Conservo essas posturas até hoje e entendo a capacidade de articulação que só os coletivos podem exercer. É massa perceber que estamos na ativa e podemos contar uns com os outros até hoje.
RJ - Adorei o convite pro Clandestino, é um evento autêntico e honesto, feito por pessoas que confiamos e também admiramos. Acho que vai ser bem legal e é uma oportunidade pro pessoal mais novo que nunca viu a banda, já que a gente tem tocado tão pouco.
VLB - Vocês imaginavam que aquela banda de irmãos que ensaiavam no quarto se tornaria cult 20 anos depois?
FO - Era tão espontâneo que a gente nem pensava. Fazer planos era mais no nível do fantástico do que realidade. 
RJ - Às vezes acho até graça e penso que é supervalorizada, sei lá. Nossos fãs acabam se tornando amigos. Por outro lado, tem uma galera nova que não faz ideia de nada, o que já fizemos e por onde andamos. Pra mim o meio termo tá bom. Fizemos nossa parte e de alguma forma abrimos caminho pra uma galera que tá aí.
VLB - O que vem pela frente pra Snooze?
LO - A Rússia invadindo ou não o Brasil, vamos fazer um show irado no Clandestino!
RJ - Espero que venha mais material novo e não apenas shows saudosistas. Aviso que tá confirmada a Festa da Antevéspera dia 30/12, nos encontramos lá!
SNOOZE COM DANIEL EM 1996. FOTO: HOMEM-BRASA
FESTA DA ANTEVÉSPERA. FOTO: MICHAEL MENESES
DISCOGRAFIA
Snooze (demotape) - 1995
Waking Up… Waking Down (álbum) - 1998
Let My Head Blow Up (álbum) - 2002
Snooze (álbum) - 2006
Empty Star (EP) - 2012