domingo, outubro 15, 2017

CABEÇA FEITA 
O que é cabeça? Quem é cabeça? Quem sabe o que é? Quem sabe o que quer? Quem vai mudar? Quem vai perder?
1996 foi minha segunda vez no Rio de Janeiro. Eu já tava zinando com o Cabrunco e nessa viagem conheci várias figurinhas carimbadas do underground local. Leonardo Panço foi o primeiro amigo carioca que fiz. Zineiro também e guitarrista da Soutian Xiita, ele me chamou pro ensaio da outra banda em que tava tocando: Cabeça.
Foi quando eu fiz meu segundo amigo no Rio. Fábio Kalunga, skatista bonachão do Leblon, trampava no estúdio Casa 3 e aproveitava pra ensaiar e gravar fitas demo lá. O lugar pertencia ao Flávio Gaguete, baterista dos Funk Fuckers. “Flávio me chamou pra trabalhar, aí eu falei. Ó, quer fazer um lance? Deixa a gente gravar que a gente põe o nome do estúdio na fita e divulga”, me contou Kalunga como quem não quer nada.
Panço passou pouco tempo no Cabeça, na real o grupo era mesmo um power trio formado por Kalunga no vocal & baixo, Bruno Pederneiras, o Nobru, na guitarra, Pedro Garcia na bateria (um moleque de 15 anos) e forjado em rodas de pogo de onde surgiram músicas como ‘1 por 1’, ‘P.A.’ e ‘Não Pode Mais Ficar Parado’. Naquele verão, fiz o zine MauMau e coloquei eles na página central.
Em 97 estrearam em disco com o já clássico Na Medida do Impossível, lançado pela Groove Records com os hits das ruas ‘Street no Flamengo É Podre’, ‘Peneirando Leite’, ‘Criança Alienada’ e ‘Mundo dos Sem Noção’. Naive, minimalista e colorido. ‘Tutupá’, ‘Miau’ e ‘O Gato de Botas’ poderiam estar num disco punk para crianças. E ‘Quem Não Cola Não Sai da Escola’ virou até título de post no Viva La Brasa recentemente.
Hardcore meets malandragem. "Engraçado como eles sempre dão um jeito de colocar a palavra cabeça no meio das letras, tem cabeça até de trás pra frente", dizia a resenha no Disco Furado.
ACEBAC
Em 2002 sai Tudo Isso, segundo álbum, pela Tamborete.
“A família de Kalunga nunca aceitou muito bem essa ideia de ser artista”, escreve Panço no livro Esporro. “Por ele ser meio temporão, seus pais bem mais velhos nunca levaram essa ‘brincadeira’ muito na esportiva não. Depois de vários anos de um clima desfavorável, ele acabou saindo de casa e morando na cachanga de Marcelo D2.”
Cabeça dando um tempo, Pedrinho e Nobru foram cooptados pro Planet Hemp e Kalunga levou seu groove pros Seletores de Frequência, banda do BNegão. Foi a última vez que o vi em ação, numa apresentação pesada dos Seletores no Goiânia Noise em 2016.
Teve uma vez no Arpoador que a gente tava vendo uns shows, aí Kalunga invadiu o palco, pegou o microfone e foi vender seu peixe. “Cabeça, banda independente, skate rock”, exibindo CDs como um camelô. Outra vez nos reencontramos em Salvador, onde dividiu a noite com a Shes, projeto só de mulheres com Pitty na batera. Comemos acarajé na Dinha.
Há 1 ano, ele, Nobru e Pedro voltaram a tocar juntos e compor. Datas marcadas no Teatro Popular Oscar Niemeyer e Espaço Cultural Sergio Porto este mês. Mas sexta-feira, 13, recebemos uma notícia que esmagou nossas cabeças como um ferro quente.
Kalunga morreu. Não importa como nem por quê. Era muito jovem ainda. “Um músico que sempre inspirou quem cruzou seu caminho, como artista e como pessoa”, diz outro amigo carioca, Flavio Flock.
“Eu não sei exatamente o que vai ser/ eu quero mais é que você esteja bem”, cantava meu chapa. “Faça tudo que quiser/ consiga encontrar o que quer/ celebre sempre a sua vida/ que ela seja a cada dia mais bonita/ que você possa sempre se orgulhar/ do que fez e do que faz”.
Escrevi este texto como uma pequena homenagem a Fábio Kalunga e pra que você, que me lê, não esqueça o que é Cabeça.
RAÇA, SUOR, SANGUE E DIVERSÃO
CABEÇA NO MATANZA FEST, CIRCO VOADOR 2016
NO TRAÇO DE DANIEL JUCA, LIVRO MAGNÉTICOS 90
KALUNGA ERA UM SKATISTA ATIVO E FOI UM DOS
RESPONSÁVEIS PELO SKATE PLAZA DA LAGOA (RJ)

domingo, outubro 01, 2017

MANDA NUDES 
GIL: COM ELA, NADA A TEMER
Cansei de ser sexy. O mundo devia ter acabado no último dia 23 segundo os profetas da internet. Pelo visto, o evento foi adiado mais uma vez. Vou aproveitar enquanto é tempo.
Setembro foi um mês que acrescentou ainda mais tons de cinza na distopia que a gente vive. No hemisfério norte, loucos no comando de arsenais nucleares arriscam destruir a porra toda com uma disputa de mísseis só pra compensar seus pintos pequenos. Abaixo da linha do equador, um corno velho põe o pau na mesa e limpa na cortina, atingindo recordes de corrupção e rejeição ao passar o rodo em ciência, educação, aposentadoria, direitos trabalhistas e riquezas naturais de um país. Tem no Xvideos, vai lá: “Old man fucks entire nation”.
MBL POR ADÃO ITURRUSGARAI
Haja viagra. Entre malas de dinheiro e helicópteros de cocaína, conservadores e reacionários alçam ao status de mito um pré-candidato a presidente que nunca teve projeto de lei aprovado em 20 anos como parlamentar. Seu discurso de tortura e estupro conquista corações e mentes, e agora os meninos do Brasil sonham não só com intervenção militar – querem intervir também nas artes.
Os mais assanhados atendem pela alcunha Movimento Brasil Livre. Livre de quê? Trata-se de um grupo formado no calor dos protestos pelo impeachment de Dilma, que já foi fotografado com Eduardo Cunha e é composto por figuras como o ator pornô Alexandre Frota e um ex-integrante do Bonde do Rolê, grupo de funk com canções como Bicha Velha, Melô do Tabaco, Máquina de Ricota e Novinha Vem Cá.

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA
FOTO ENVIADA POR LEITORA
Dia 10, esses bastiões da moral e bons costumes conseguiram fechar a mostra Queermuseu ao alegar apologia à pedofilia e zoofilia. Seu método de sedução dos inocentes foi bastante efetivo: conseguiram fazer com que 20 mil clientes do banco patrocinador encerrassem suas contas diante de tamanha falta de pudor. Entre as obras expostas, telas e instalações de Portinari, Volpi, Flávio de Carvalho e Lygia Clark.
Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, deve ter gozado no túmulo. Há quase 100 anos ele estipulou os limites estéticos na Alemanha e promoveu a Exibição de Arte Degenerada com 600 obras apreendidas e censuradas pelo nazismo.
ARTE DEGENERADA DO SAMA
Em resposta, artistas brasileiros criaram informalmente a Semana da Arte Degenerada, expondo seus desenhos mais sacaninhas e despudorados nas redes sociais. Eu mesmo me juntei à trupe compartilhando ilustraçõess publicadas no meu livro.

O novo objeto de desejo da inquisição é o Museu de Arte Moderna de São Paulo. A performance La Bête, em que um homem nu interage com crianças diante da plateia, levou à instauração de um inquérito policial e agressão física aos funcionários da instituição. O prefeito de São Paulo condenou publicamente o evento, enquanto na cidade que ele administra crescem os casos de maníacos ejaculando em mulheres nos ônibus.
ENQUANTO O COMETA NÃO VEM
Setembro também teve Rock In Rio com participação da trans Pabllo Vittar e beijo gay do Johnny Hooker com Lineker. O público não pareceu ofendido com nada disso e entoou o hit "Fora Temer", causa que une mais gerações que The Who.  
RIR ou MAM? Se hoje eu tenho preguiça até de festival de música, imagine arte performática. Uma criança tocando no pé de um adulto pelado não é algo que eu sairia de casa pra ver, definitivamente. Mas o dever de educar é dos pais e da escola, não da internet, televisão, museus, apresentações musicais. 
DETALHE DA CAPELA SISTINA
Imagine o horror dos neopuritanos diante do Davi de Michelangelo com seu bilauzinho exposto em Roma, ou do sexo dos anjos no teto da Capela Sistina. Mercúrio e Psiquê se pegando no Louvre, em Paris. O Nascimento de Vênus, de Botticelli. O Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch. As posições eróticas das esculturas pré-colombianas. Até pinturas rupestres nas cavernas têm cenas de cair o cu da bunda.
Toda essa celeuma artístico/sexual parece ser só mais uma cortina de fumaça pra encobrir as safadezas de um sistema indecente por sua própria natureza.
Não confunda a obra de arte do mestre Picasso com a pica de aço do mestre de obras. Suruba é suruba, como disse outro profeta, aquele do grande acordo nacional “com Supremo, com tudo”. Arte é arte. Não fode.

EM FEVEREIRO TEM CARNAVAL
O NASCIMENTO DE ADÃO, MICHELANGELO
A GRANDE ODALISCA, INGRES
GABRIELLE DÉSTRÉES, AUTOR DESCONHECIDO
A ORIGEM DO MUNDO, GUSTAVE COUBERT
DIRCÉ, LORENZO BARTOLINI
O SONHO DA MULHER DO PESCADOR, HOKUSAI
O GRANDE MASTURBADOR, DALÍ

sábado, julho 22, 2017

A FELICIDADE É UMA BRASA QUENTE 
BARRACA DO BEIJO. FOTO: FÁBIO [INK MONSTERS]



Amar e mudar as coisas me interessa mais. Viva La Brasa é um blog, um livro, uma festa que celebram uma cena que nem sempre merece ser celebrada. 
ARTE: THIAGO NEUMANN "CACHORRÃO"
Faço eventos desde 1997, não me considero produtor e nunca passei a perna em ninguém. A pouca grana que ganhei vendendo livros reverti trazendo bandas pra Sergipe e quase quebrei por isso. Depois de levar um golpe em 2016, levantei, sacodi a poeira, cabelo e talo pra dar a volta por cima no esquema faça-você-mesmo com a ajuda dos amigos. Convoquei 3 das melhores bandas locais, um DJ rocker e um mestre de cerimônia pra festinha mais braseira e quase tudo deu certo desta vez: casa cheia, músicos pagos na hora, todo mundo de boa e um áudio que podia ser melhor. O Che, como disse Bigbross, é o lugar de rock perfeito – uma caixa preta com um palco, um bar e banheiro. Ainda tem sinuca. As presenças foram brindadas com doses de catuaba e quem tava com mais sorte ganhou prêmios
QUEM TEM AMIGO NÃO FICA À MÍNGUA
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro. Sim, já é outra viagem e meu coração selvagem tem essa pressa de viver. Eu curti tanto quanto no lançamento do livro em 2015, mas sou jornalista e não me contento só com meu ponto de vista. Então, pedi pra 3 amigos da imprensa darem suas opiniões sobre o que viram e ouviram na noite de sexta, 14 de julho de 2017. Gente honesta, boa e comovida, que tem no fim da festa aquela sensação da missão cumprida. Pega fogo, cabaré!
CIDADE DORMITÓRIO: "HÁ VERDADE ALI"
Adelvan Kenobi [Folha da Praia]:
SURF, GARAGE, ROCKABILLY
E BIGBANDS COM DJ BIGBROSS
“Admiro pessoas persistentes. Ano passado Adolfo Sá morreu numa grana ao entrar numa roubada mas ele não desistiu: optou por uma produção mais pé no chão, meteu as caras e deu tudo certo. O primeiro grande acerto foi apostar num bom time de bandas sergipanas e trazer de fora apenas um DJ. Só que não era um DJ qualquer, era o lendário Rogerio Bigbross, verdadeira entidade do rock soteropolitano, que há mais de 15 anos não dava o ar de sua graça em Terras Serigy. Só por isso já valeria a pena o preço módico da entrada mas tínhamos também, como acontecimento, o show de despedida do grande guitarrista Rick Maia da banda Mamutes*. Prometia... Big discotecava para quase ninguém quando eu cheguei, mas o salão logo ficou recheado para ver a primeira atração da noite, Cidade Dormitório. Não é muito a minha praia, mas concordo com Rogerio: há verdade ali. É honesto, tá valendo. 
MAICON, ADELVAN E CACHORRÃO
Na sequência Mamutes, que foi muito prejudicado pelo som mal equalizado e falhando. Parte culpa da má vontade do operador, parte das bandas mesmo, que não passaram o som. Ah, racaju! Em todo caso, foi um bom show. Energético, como sempre, embora anticlimático em alguns momentos, com algumas músicas novas longas e viajandonas demais. Fechando a noite, Tody’s Trouble Band, que nem chegou a completar seu set, já que a guitarra falhava o tempo inteiro. Uma pena, pareciam já estar melhor entrosados que da última vez que vi – a formação é relativamente nova. Em todo caso, aproveitaram a ocasião para lançar, finalmente, seu primeiro disco. Ou não... Explicando: os caras tiveram as manhas de materializar fisicamente, em gráfica, apenas o encarte. O álbum existe apenas de forma virtual, na ‘nuvem’. Pode ser acessado através de QR Code. Bom, pelo menos o encarte é ótimo, em formato de história em quadrinhos de Pablo Carranza. 
KASSEM FOI MC, CUSPIU FOGO
E SAIU CHAPADO DE QUEROSENE
Resumindo: Foi bom, poderia ter sido melhor, mas foda-se. Me diverti naquela noite e no final de semana, ouvindo as histórias maravilhosas do underground de Salvador diretamente da boca de uma testemunha ocular (e auricular) privilegiada. Tudo regado a carne de bode no bar de Zé Américo do Campo do Brito no mercado e geladinho na Freedom e Eisenbahn na Taberna ao som da Máquina Blues com deliciosos brownies e trufas de chocolate gentilmente servidos pela chef Gil La Brasa.”
MAMUTES NA DESPEDIDA DE RICK MAIA
Werden Tavares [Cinform]:
CURTIÇÃO DOS JOVENS
“E pra você, o que é um show de rock? Aracaju já teve várias noites de rock. Uma noite de rock não é apenas uma festa com bandas tocando rock'n'roll. É mais que isso. O quase setentão estilo musical mantém sua longevidade por noites como a Viva La Brasa. Noites regadas a cerveja, música alta, boa literatura e acima de tudo aquela vontade coletiva de que a noite dure pra sempre com um público que canta assoberbadamente. É como entrar no túnel pra um tempo que nunca passa e somos todos sempre jovens e dispostos para o rolê. Aracaju já teve várias noites assim e Viva La Brasa entra pro conjunto das mais pujantes e memoráveis do espírito do rock'n'roll que nunca vai terminar.”
TODY'S TROUBLE BAND LANÇOU DISCO
Rafa Aragão [Revista Rever]:
ENCARTE-GIBI DA TODY'S
“Viva La Brasa, a festa, é como o blog que lhe deu origem: resistência rocker. E como seu criador-anfitrião, não faz concessões aos modismos. Desde da primeira edição sempre alinhando música, literatura, gente bacana e otras cositas más. Por isso, fui ao Che Music Bar na última sexta-feira, dia 14, prestigiar a terceira edição desse rolê. É muito bom reencontrar velhos e novos amigos. O som não ajudou muito o trabalho das bandas, mas isso não quer dizer que não tenha valido a pena assistir a Cidade Dormitório, Mamutes e Tody’s Trouble Band. Três bandas bastante distintas do cenário alternativo aracajuano e que representaram bem o clima do evento, com um público bem diversificado. Ainda rolou o Rogerio Bigbross discotecando. E teve barraquinha com livro, zine e vinil. Em quantas festas na cidade a gente vê isso? No final todo mundo saiu bêbado e satisfeito. É o que importa. E eu ainda saí com livros e zines pra casa. Quer coisa mais rock que isso? Que 2018 possamos celebrar mais uma vez essa festa feita com o espirito livre e anárquico. 
Viva a Viva La Brasa.”

*AGRADECIMENTOS: Rick Maia, meu parceiro na produção a caminho de Portugal; Mamutes, Cidade Dormitório, Tody’s Trouble Band, Bigbross; Che Music Bar, Ink Monsters, Mr. Bong, Venice Skate Shop e Freedom pelo apoio; Thiago Neumann "Cachorrão" pelo poster matador; Jacqueline Silva Andrade, anfitriã do nosso amigo Big; Fúria, Cata Discos e Isabele Ribeiro, que colaboraram, cada um(a) a seu modo, com a feirinha de livros, zines e discos; todas as pessoas que compareceram e curtiram a festa; Belchior pelas boas frases

sexta-feira, julho 14, 2017

ARDIDA COMO PIMENTA
Viva La Brasa é uma festa que surgiu de um livro que surgiu de um blog. Este blog. Jornalismo gonzo dá nisso. A festinha itinerante vai rolar pelo 3º ano consecutivo, hoje no Che Music Bar. Uma noite de rock & curtição com Mamutes, Cidade Dormitório e Tody’s Trouble Band. I get high with a little help from my friends...
INÊS, PIN UP VIVA LA BRASA...
Mamutes tocaram na minha primeira festa e são meus amigos desde o período neolítico, estão preparando disco novo e será o show de despedida do guitarrista Rick, que vai morar em Portugal. Cidade Dormitório é a melhor nova banda da cena rock de Aracaju e já tocou num evento do Viva La Brasa promovido pela Ilma Fontes, editora do jornal O Capital. A banda tem uma pegada sentimental, mas o vocalista Yves tá mais pra Cobain do que pra Camelo. Tody’s Trouble Band é o primeiro e único power trio de psychobilly de Sergipe e seu álbum de estreia vai virar gibi desenhado pelo Pablo Carranza.

...E DJ NA FESTA DE 2016
Depois de trazer bandas de Olinda e Maceió nas edições anteriores, desta vez convidei pra discotecar Rogerio Bigbross – realizador do festival Bigband
s em Salvador e meu chapa há mais de 20 anos. O cartaz lindão foi criado por Thiago Neumann, o Cachorrão. A casadinha custará apenas $20 golpinhos até meia-noite. Pros 50 primeiros a entrar, shot de catuaba. Tattoo, camisas, discos e kits fumetas serão sorteados com o apoio da Ink Monsters, Venice , Mr. Bong, Freedom e Net Mobile. As fotos que ilustram este post são da Pritty reis, que registrou a gig ano passado. E o teaser é uma animação de Raphael Goettenauer sobre arte de André Chagas. Vai se instigando porque vai ser quente.
Faremos uma noitada excelente.
NECRO / AL
THE RENEGADES OF PUNK / SE
CATARINA DEE JAH & OS RADICAIS LIVRES / PE

FORA TEMER & Viva La Brasa! from Viva La Brasa on Vimeo.

segunda-feira, março 06, 2017

QUEM NÃO COLA NÃO SAI DA ESCOLA
MALANDRAMENTE. FOTO: D' RODRIGUES [CINFORM]
Eu nunca fui bom aluno. Sentava no fundo da sala, cabulava aula e estudava só o suficiente pra não reprovar. Mesmo assim passei em 3º no vestibular de jornalismo e fechei o curso com 10 unânime na monografia – sobre zines. 
Eu sempre gostei de ler, apesar da falta de disciplina nos estudos. Talvez tenha sido esse o segredo pra não jubilar, já que vivemos num país cujo analfabetismo funcional reina. Ocupamos os últimos lugares nos rankings mundiais escolares, quase metade da população nunca comprou um livro, a reforma do ensino médio aumentará ainda mais a diferença entre as classes sociais e até o Ministro da Educação do governo golpista fala “haverão”.
Segui meu caminho criando veículos independentes e migrando pro audiovisual pra garantir o pão. Ironia ou não, de 2 anos pra cá tem surgido certo interesse acadêmico pela minha produção (gonzo)jornalística. Começou em abril de 2015, quando me convidaram pra In-Comunicações, uma semana de debates promovida pela UFS. Apesar de detestar falar em público, eu fui. 
Em 2016 o Cabrunco Zine virou tema do projeto de conclusão de Rafa Aragão, DJ rastafari e jornalista recém-formado. Agora é a vez de Julia de Lacerda, fotógrafa talentosa cuja tese sobre rock sergipano a trouxe até o Viva La Brasa.
Ela me entrevistou durante o carnaval. Logo eu, que nunca tive banda e mal consigo tocar a guitarra que comprei. Acho que vou precisar dumas aulas.
JULIA DE LACERDA - Você criou o Viva La Brasa, em março de 2005, em meio a um momento muito particular da sua vida e você fala bastante sobre a sua vida particular nas primeiras postagens do blog. Mas como surgiu a ideia de escrever um blog?
AUTÓGRAFO DO ALLAN SIEBER
VIVA LA BRASA - Os blogs surgiram como um diário virtual (web + log = weblog) e eu vinha de um retrospecto de zines e atuação independente fazendo festas e até um festival. Dois anos antes de criar meu blog eu me formei em jornalismo, não consegui emprego em nenhum jornal mas arrumei estágio numa produtora audiovisual e em 2 meses me tornei editor de imagens. No início de 2004 rolou um passaralho e eu fui um dos muitos demitidos da empresa. Resolvi gastar meu seguro-desemprego no Rio de Janeiro e passei algumas semanas hospedado no quitinete do Allan Sieber, que por acaso é um cartunista famoso e cineasta premiado (levou o Kikito de melhor animação por Deus É Pai em 1999). A princípio eu iria colorir algumas cenas do curta Santa de Casa, mas o computador que usaria na Toscographics quebrou e acabei vagabundando o resto do tempo que passei lá. Aproveitei pra ler os gibis e livros que tinham no apê, passei mais tempo na produtora dele do que na praia até que os bancos entraram em greve e complicou porque na época era preciso sacar o seguro na boca do caixa. Voltei pra Aracaju, tava até desenhando bastante mas não tinha computador muito menos scanner e precisava arrumar um emprego. Viva La Brasa surgiu de uma necessidade atávica de produzir e expressar as ideias que pipocavam numa cabeça chapada. Um jornalista que não tinha onde escrever, como eu gosto de dizer. Aí lembrei do blog do meu amigo Allan (Talk to Himself Show) e decidi criar algo parecido. Ao contrário dos zines, que são físicos, um blog necessitava de investimento mínimo – no meu caso, poucas moedas pra postar em lan houses. 
JDL - Com o tempo você foi conseguindo atualizar o blog com mais frequência, abordando diversos temas, como os shows que aconteciam na cidade, filmes, política (nacional e internacional), entrevistas etc. Havia algum planejamento do que você iria escrever em cada mês?
VLB - Arrumei emprego numa TV e comprei um notebook, essa foi a chave pra evolução do blog. Plataformas são importantes, até hoje não tenho um scanner, por exemplo, e isso mais atrapalha do que ajuda. Tenho um planejamento geral pro que eu quero fazer com o blog, ou através dele, mas os temas e pautas surgem a partir de fatos, histórias ou epifanias após um pega. 
PIN UP: INÊS. FOTO: PRITTY
JDL - Nas primeiras duas postagens do blog você diz que não sabe se um dia ainda lançará um livro (e você lançou) e se perguntava se alguém lia o blog. De lá pra cá, o que mudou? Você consegue ver um retorno das pessoas?
VLB - Mais gente lê o blog, mas quem mudou mesmo fui eu. Quando criei o Viva La Brasa tinha acabado de chegar aos 30, hoje tenho 42. A vida é feita de fases e meu blog reflete minha vida, é uma extensão dela. Consigo ver o retorno das pessoas, principalmente quando compram meu livro – o que eu recomendo fortemente e pode ser feito fácil no vivalabrasa.com. 
JDL - Ainda sobre o livro. São 280 páginas de textos escritos pro Cabrunco Zine (1995 -1997) e para o Viva La Brasa (2005-2012), além de quadrinhos, ilustrações e o prefácio escrito pelo Xico Sá. Como foi o processo de escolha dos textos e de produção do próprio livro? 
VLB - Em março ou abril de 2013 contratei um casal jornalista/artista pra editar e diagramar meu livro. Em junho ou julho me acidentei e perguntei pro editor sobre a seleção dos textos do blog. O cara deu um xilique inbox e, resumindo, não tinha nem começado o trabalho naqueles 2 ou 3 meses. Aproveitei que tava em casa de molho e em apenas 1 dia fiz a seleção dos textos. A partir daí foi peneirar o que caberia em 280 páginas, o que combinaria com a diagramação e resistiria melhor ao tempo. Como eu abri o crivo pro tal editor, muita coisa que eu teria incluído ficou de fora mas é assim que deveria ser numa democracia né. O detalhe é que toda a grana tava saindo do meu bolso. A diagramadora do livro passou 2 anos metendo a mão na massa e o trampo dela ficou uma beleza. Mesmo assim o livro saiu com problemas de revisão, impressão e encadernação. 
JDL - Qual a principal diferença, pra você, em produzir um texto pra um fanzine e para um blog?
VLB - São processos similares, em ambos você tem total liberdade pra fazer, dizer ou inventar o que quiser. As diferenças são de meios (físico/virtual), amplitude (com internet tudo fica mais fácil) e proposta (um zine de arte tem uma textura tátil que o espaço digital não proporciona, um blog tem a velocidade que um zine não é capaz de alcançar etc.). Quando eu fazia o Cabrunco praticamente não tinha acesso a internet, era tudo por correio mesmo. Hoje ninguém fica sem internet, nem que seja no celular. 
JDL - Com o tempo, a periodicidade das publicações passou a ser mais espaçada, mas com textos bem maiores (se compararmos com as primeiras postagens). Qual o motivo disso?
RASCUNHO DO RICK MAIA
VLB - Viagem. Acho que me empolguei com a falta de limites físicos do blog e quis passar o máximo de informações sobre aquele assunto que eu abordava, enquanto desenvolvia meu próprio estilo. Alguns textos ficavam enormes, ao passo em que eu também me envolvia em trabalhos cada vez maiores – de editor de imagens me tornei diretor de cena até gerenciar uma TV. Muito trampo. Hoje também não dá pra postar muita coisa, na maior parte do tempo. No fim de 2012, percebi a necessidade de mudar mais uma vez meu estilo de escrever porque a internet pede uma abordagem mais curta e direta. Parei por um tempo enquanto me concentrava na edição e só voltei a postar depois que o livro foi lançado em 2015. 
JDL - Você costuma acompanhar os fanzines que são produzidos hoje em dia? Qual a diferença que você vê entre eles e os que eram feitos nos anos 80/90?
VLB - Sim, recentemente comprei A Boca Quente, zine tipo graphic novel do Shiko, e Bambu, projeto lindão em xilogravura do MZK. Tenho a coleção do Know Haole, do Gerlach, e até umas coisas mais emo/feministas como os zines de arte do Jajá Felix e da Beatriz Perini. Só coisa fina. Os zines nos anos 80/90 divulgavam muitas bandas do underground mas essa necessidade a internet já supre, então hoje a produção tá cada vez mais artística e bem elaborada. Muitos zines são impressos em gráfica, das antigas só rolava xerox e mimeógrafo. Outra coisa interessante é que ao longo dos 90 os zines foram diversificando seu foco, feito o Cabrunco, Papakapika e Panacéa (que virou revista), e atualmente os fanzines – zines de fã – estão de volta porque os nichos se tornaram relevantes pra encontrar seu público-alvo. Márcio Sno, zineiro veterano, fez o Odair Jozine e conseguiu despertar a atenção do próprio homenageado, Odair José, que tocou no lançamento do zine no Cine Joia em São Paulo. 
JDL - O Cabrunco Zine tinha a mesma temática que o Viva La Brasa?
VLB - Ambos são consequência do que eu sou, penso e sinto, então sem o Cabrunco Zine jamais haveria Viva La Brasa.
TIRA DO ALLAN SIEBER SOBRE O TEMPO QUE PASSEI NO RJ
JULIA REGISTRA A CENA ROCK DE ARACAJU EM SEU FLICKR
E TAMBÉM ARRISCA ENSAIOS COMO ESTE NU ARTÍSTICO:
https://www.flickr.com/photos/julia_lacerda/