domingo, outubro 15, 2017

CABEÇA FEITA 
O que é cabeça? Quem é cabeça? Quem sabe o que é? Quem sabe o que quer? Quem vai mudar? Quem vai perder?
1996 foi minha segunda vez no Rio de Janeiro. Eu já tava zinando com o Cabrunco e nessa viagem conheci várias figurinhas carimbadas do underground local. Leonardo Panço foi o primeiro amigo carioca que fiz. Zineiro também e guitarrista da Soutian Xiita, ele me chamou pro ensaio da outra banda em que tava tocando: Cabeça.
Foi quando eu fiz meu segundo amigo no Rio. Fábio Kalunga, skatista bonachão do Leblon, trampava no estúdio Casa 3 e aproveitava pra ensaiar e gravar fitas demo lá. O lugar pertencia ao Flávio Gaguete, baterista dos Funk Fuckers. “Flávio me chamou pra trabalhar, aí eu falei. Ó, quer fazer um lance? Deixa a gente gravar que a gente põe o nome do estúdio na fita e divulga”, me contou Kalunga como quem não quer nada.
Panço passou pouco tempo no Cabeça, na real o grupo era mesmo um power trio formado por Kalunga no vocal & baixo, Bruno Pederneiras, o Nobru, na guitarra, Pedro Garcia na bateria (um moleque de 15 anos) e forjado em rodas de pogo de onde surgiram músicas como ‘1 por 1’, ‘P.A.’ e ‘Não Pode Mais Ficar Parado’. Naquele verão, fiz o zine MauMau e coloquei eles na página central.
Em 97 estrearam em disco com o já clássico Na Medida do Impossível, lançado pela Groove Records com os hits das ruas ‘Street no Flamengo É Podre’, ‘Peneirando Leite’, ‘Criança Alienada’ e ‘Mundo dos Sem Noção’. Naive, minimalista e colorido. ‘Tutupá’, ‘Miau’ e ‘O Gato de Botas’ poderiam estar num disco punk para crianças. E ‘Quem Não Cola Não Sai da Escola’ virou até título de post no Viva La Brasa recentemente.
Hardcore meets malandragem. "Engraçado como eles sempre dão um jeito de colocar a palavra cabeça no meio das letras, tem cabeça até de trás pra frente", dizia a resenha no Disco Furado.
ACEBAC
Em 2002 sai Tudo Isso, segundo álbum, pela Tamborete.
“A família de Kalunga nunca aceitou muito bem essa ideia de ser artista”, escreve Panço no livro Esporro. “Por ele ser meio temporão, seus pais bem mais velhos nunca levaram essa ‘brincadeira’ muito na esportiva não. Depois de vários anos de um clima desfavorável, ele acabou saindo de casa e morando na cachanga de Marcelo D2.”
Cabeça dando um tempo, Pedrinho e Nobru foram cooptados pro Planet Hemp e Kalunga levou seu groove pros Seletores de Frequência, banda do BNegão. Foi a última vez que o vi em ação, numa apresentação pesada dos Seletores no Goiânia Noise em 2016.
Teve uma vez no Arpoador que a gente tava vendo uns shows, aí Kalunga invadiu o palco, pegou o microfone e foi vender seu peixe. “Cabeça, banda independente, skate rock”, exibindo CDs como um camelô. Outra vez nos reencontramos em Salvador, onde dividiu a noite com a Shes, projeto só de mulheres com Pitty na batera. Comemos acarajé na Dinha.
Há 1 ano, ele, Nobru e Pedro voltaram a tocar juntos e compor. Datas marcadas no Teatro Popular Oscar Niemeyer e Espaço Cultural Sergio Porto este mês. Mas sexta-feira, 13, recebemos uma notícia que esmagou nossas cabeças como um ferro quente.
Kalunga morreu. Não importa como nem por quê. Era muito jovem ainda. “Um músico que sempre inspirou quem cruzou seu caminho, como artista e como pessoa”, diz outro amigo carioca, Flavio Flock.
“Eu não sei exatamente o que vai ser/ eu quero mais é que você esteja bem”, cantava meu chapa. “Faça tudo que quiser/ consiga encontrar o que quer/ celebre sempre a sua vida/ que ela seja a cada dia mais bonita/ que você possa sempre se orgulhar/ do que fez e do que faz”.
Escrevi este texto como uma pequena homenagem a Fábio Kalunga e pra que você, que me lê, não esqueça o que é Cabeça.
RAÇA, SUOR, SANGUE E DIVERSÃO
CABEÇA NO MATANZA FEST, CIRCO VOADOR 2016
NO TRAÇO DE DANIEL JUCA, LIVRO MAGNÉTICOS 90
KALUNGA ERA UM SKATISTA ATIVO E FOI UM DOS
RESPONSÁVEIS PELO SKATE PLAZA DA LAGOA (RJ)

domingo, outubro 01, 2017

MANDA NUDES 
GIL: COM ELA, NADA A TEMER
Cansei de ser sexy. O mundo devia ter acabado no último dia 23 segundo os profetas da internet. Pelo visto, o evento foi adiado mais uma vez. Vou aproveitar enquanto é tempo.
Setembro foi um mês que acrescentou ainda mais tons de cinza na distopia que a gente vive. No hemisfério norte, loucos no comando de arsenais nucleares arriscam destruir a porra toda com uma disputa de mísseis só pra compensar seus pintos pequenos. Abaixo da linha do equador, um corno velho põe o pau na mesa e limpa na cortina, atingindo recordes de corrupção e rejeição ao passar o rodo em ciência, educação, aposentadoria, direitos trabalhistas e riquezas naturais de um país. Tem no Xvideos, vai lá: “Old man fucks entire nation”.
MBL POR ADÃO ITURRUSGARAI
Haja viagra. Entre malas de dinheiro e helicópteros de cocaína, conservadores e reacionários alçam ao status de mito um pré-candidato a presidente que nunca teve projeto de lei aprovado em 20 anos como parlamentar. Seu discurso de tortura e estupro conquista corações e mentes, e agora os meninos do Brasil sonham não só com intervenção militar – querem intervir também nas artes.
Os mais assanhados atendem pela alcunha Movimento Brasil Livre. Livre de quê? Trata-se de um grupo formado no calor dos protestos pelo impeachment de Dilma, que já foi fotografado com Eduardo Cunha e é composto por figuras como o ator pornô Alexandre Frota e um ex-integrante do Bonde do Rolê, grupo de funk com canções como Bicha Velha, Melô do Tabaco, Máquina de Ricota e Novinha Vem Cá.

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA
FOTO ENVIADA POR LEITORA
Dia 10, esses bastiões da moral e bons costumes conseguiram fechar a mostra Queermuseu ao alegar apologia à pedofilia e zoofilia. Seu método de sedução dos inocentes foi bastante efetivo: conseguiram fazer com que 20 mil clientes do banco patrocinador encerrassem suas contas diante de tamanha falta de pudor. Entre as obras expostas, telas e instalações de Portinari, Volpi, Flávio de Carvalho e Lygia Clark.
Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, deve ter gozado no túmulo. Há quase 100 anos ele estipulou os limites estéticos na Alemanha e promoveu a Exibição de Arte Degenerada com 600 obras apreendidas e censuradas pelo nazismo.
ARTE DEGENERADA DO SAMA
Em resposta, artistas brasileiros criaram informalmente a Semana da Arte Degenerada, expondo seus desenhos mais sacaninhas e despudorados nas redes sociais. Eu mesmo me juntei à trupe compartilhando ilustraçõess publicadas no meu livro.

O novo objeto de desejo da inquisição é o Museu de Arte Moderna de São Paulo. A performance La Bête, em que um homem nu interage com crianças diante da plateia, levou à instauração de um inquérito policial e agressão física aos funcionários da instituição. O prefeito de São Paulo condenou publicamente o evento, enquanto na cidade que ele administra crescem os casos de maníacos ejaculando em mulheres nos ônibus.
ENQUANTO O COMETA NÃO VEM
Setembro também teve Rock In Rio com participação da trans Pabllo Vittar e beijo gay do Johnny Hooker com Lineker. O público não pareceu ofendido com nada disso e entoou o hit "Fora Temer", causa que une mais gerações que The Who.  
RIR ou MAM? Se hoje eu tenho preguiça até de festival de música, imagine arte performática. Uma criança tocando no pé de um adulto pelado não é algo que eu sairia de casa pra ver, definitivamente. Mas o dever de educar é dos pais e da escola, não da internet, televisão, museus, apresentações musicais. 
DETALHE DA CAPELA SISTINA
Imagine o horror dos neopuritanos diante do Davi de Michelangelo com seu bilauzinho exposto em Roma, ou do sexo dos anjos no teto da Capela Sistina. Mercúrio e Psiquê se pegando no Louvre, em Paris. O Nascimento de Vênus, de Botticelli. O Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch. As posições eróticas das esculturas pré-colombianas. Até pinturas rupestres nas cavernas têm cenas de cair o cu da bunda.
Toda essa celeuma artístico/sexual parece ser só mais uma cortina de fumaça pra encobrir as safadezas de um sistema indecente por sua própria natureza.
Não confunda a obra de arte do mestre Picasso com a pica de aço do mestre de obras. Suruba é suruba, como disse outro profeta, aquele do grande acordo nacional “com Supremo, com tudo”. Arte é arte. Não fode.

EM FEVEREIRO TEM CARNAVAL
O NASCIMENTO DE ADÃO, MICHELANGELO
A GRANDE ODALISCA, INGRES
GABRIELLE DÉSTRÉES, AUTOR DESCONHECIDO
A ORIGEM DO MUNDO, GUSTAVE COUBERT
DIRCÉ, LORENZO BARTOLINI
O SONHO DA MULHER DO PESCADOR, HOKUSAI
O GRANDE MASTURBADOR, DALÍ