segunda-feira, março 06, 2017

QUEM NÃO COLA NÃO SAI DA ESCOLA
MALANDRAMENTE. FOTO: D' RODRIGUES [CINFORM]
Eu nunca fui bom aluno. Sentava no fundo da sala, cabulava aula e estudava só o suficiente pra não reprovar. Mesmo assim passei em 3º no vestibular de jornalismo e fechei o curso com 10 unânime na monografia – sobre zines. 
Eu sempre gostei de ler, apesar da falta de disciplina nos estudos. Talvez tenha sido esse o segredo pra não jubilar, já que vivemos num país cujo analfabetismo funcional reina. Ocupamos os últimos lugares nos rankings mundiais escolares, quase metade da população nunca comprou um livro, a reforma do ensino médio aumentará ainda mais a diferença entre as classes sociais e até o Ministro da Educação do governo golpista fala “haverão”.
Segui meu caminho criando veículos independentes e migrando pro audiovisual pra garantir o pão. Ironia ou não, de 2 anos pra cá tem surgido certo interesse acadêmico pela minha produção (gonzo)jornalística. Começou em abril de 2015, quando me convidaram pra In-Comunicações, uma semana de debates promovida pela UFS. Apesar de detestar falar em público, eu fui. 
Em 2016 o Cabrunco Zine virou tema do projeto de conclusão de Rafa Aragão, DJ rastafari e jornalista recém-formado. Agora é a vez de Julia de Lacerda, fotógrafa talentosa cuja tese sobre rock sergipano a trouxe até o Viva La Brasa.
Ela me entrevistou durante o carnaval. Logo eu, que nunca tive banda e mal consigo tocar a guitarra que comprei. Acho que vou precisar dumas aulas.
JULIA DE LACERDA - Você criou o Viva La Brasa, em março de 2005, em meio a um momento muito particular da sua vida e você fala bastante sobre a sua vida particular nas primeiras postagens do blog. Mas como surgiu a ideia de escrever um blog?
AUTÓGRAFO DO ALLAN SIEBER
VIVA LA BRASA - Os blogs surgiram como um diário virtual (web + log = weblog) e eu vinha de um retrospecto de zines e atuação independente fazendo festas e até um festival. Dois anos antes de criar meu blog eu me formei em jornalismo, não consegui emprego em nenhum jornal mas arrumei estágio numa produtora audiovisual e em 2 meses me tornei editor de imagens. No início de 2004 rolou um passaralho e eu fui um dos muitos demitidos da empresa. Resolvi gastar meu seguro-desemprego no Rio de Janeiro e passei algumas semanas hospedado no quitinete do Allan Sieber, que por acaso é um cartunista famoso e cineasta premiado (levou o Kikito de melhor animação por Deus É Pai em 1999). A princípio eu iria colorir algumas cenas do curta Santa de Casa, mas o computador que usaria na Toscographics quebrou e acabei vagabundando o resto do tempo que passei lá. Aproveitei pra ler os gibis e livros que tinham no apê, passei mais tempo na produtora dele do que na praia até que os bancos entraram em greve e complicou porque na época era preciso sacar o seguro na boca do caixa. Voltei pra Aracaju, tava até desenhando bastante mas não tinha computador muito menos scanner e precisava arrumar um emprego. Viva La Brasa surgiu de uma necessidade atávica de produzir e expressar as ideias que pipocavam numa cabeça chapada. Um jornalista que não tinha onde escrever, como eu gosto de dizer. Aí lembrei do blog do meu amigo Allan (Talk to Himself Show) e decidi criar algo parecido. Ao contrário dos zines, que são físicos, um blog necessitava de investimento mínimo – no meu caso, poucas moedas pra postar em lan houses. 
JDL - Com o tempo você foi conseguindo atualizar o blog com mais frequência, abordando diversos temas, como os shows que aconteciam na cidade, filmes, política (nacional e internacional), entrevistas etc. Havia algum planejamento do que você iria escrever em cada mês?
VLB - Arrumei emprego numa TV e comprei um notebook, essa foi a chave pra evolução do blog. Plataformas são importantes, até hoje não tenho um scanner, por exemplo, e isso mais atrapalha do que ajuda. Tenho um planejamento geral pro que eu quero fazer com o blog, ou através dele, mas os temas e pautas surgem a partir de fatos, histórias ou epifanias após um pega. 
PIN UP: INÊS. FOTO: PRITTY
JDL - Nas primeiras duas postagens do blog você diz que não sabe se um dia ainda lançará um livro (e você lançou) e se perguntava se alguém lia o blog. De lá pra cá, o que mudou? Você consegue ver um retorno das pessoas?
VLB - Mais gente lê o blog, mas quem mudou mesmo fui eu. Quando criei o Viva La Brasa tinha acabado de chegar aos 30, hoje tenho 42. A vida é feita de fases e meu blog reflete minha vida, é uma extensão dela. Consigo ver o retorno das pessoas, principalmente quando compram meu livro – o que eu recomendo fortemente e pode ser feito fácil no vivalabrasa.com. 
JDL - Ainda sobre o livro. São 280 páginas de textos escritos pro Cabrunco Zine (1995 -1997) e para o Viva La Brasa (2005-2012), além de quadrinhos, ilustrações e o prefácio escrito pelo Xico Sá. Como foi o processo de escolha dos textos e de produção do próprio livro? 
VLB - Em março ou abril de 2013 contratei um casal jornalista/artista pra editar e diagramar meu livro. Em junho ou julho me acidentei e perguntei pro editor sobre a seleção dos textos do blog. O cara deu um xilique inbox e, resumindo, não tinha nem começado o trabalho naqueles 2 ou 3 meses. Aproveitei que tava em casa de molho e em apenas 1 dia fiz a seleção dos textos. A partir daí foi peneirar o que caberia em 280 páginas, o que combinaria com a diagramação e resistiria melhor ao tempo. Como eu abri o crivo pro tal editor, muita coisa que eu teria incluído ficou de fora mas é assim que deveria ser numa democracia né. O detalhe é que toda a grana tava saindo do meu bolso. A diagramadora do livro passou 2 anos metendo a mão na massa e o trampo dela ficou uma beleza. Mesmo assim o livro saiu com problemas de revisão, impressão e encadernação. 
JDL - Qual a principal diferença, pra você, em produzir um texto pra um fanzine e para um blog?
VLB - São processos similares, em ambos você tem total liberdade pra fazer, dizer ou inventar o que quiser. As diferenças são de meios (físico/virtual), amplitude (com internet tudo fica mais fácil) e proposta (um zine de arte tem uma textura tátil que o espaço digital não proporciona, um blog tem a velocidade que um zine não é capaz de alcançar etc.). Quando eu fazia o Cabrunco praticamente não tinha acesso a internet, era tudo por correio mesmo. Hoje ninguém fica sem internet, nem que seja no celular. 
JDL - Com o tempo, a periodicidade das publicações passou a ser mais espaçada, mas com textos bem maiores (se compararmos com as primeiras postagens). Qual o motivo disso?
RASCUNHO DO RICK MAIA
VLB - Viagem. Acho que me empolguei com a falta de limites físicos do blog e quis passar o máximo de informações sobre aquele assunto que eu abordava, enquanto desenvolvia meu próprio estilo. Alguns textos ficavam enormes, ao passo em que eu também me envolvia em trabalhos cada vez maiores – de editor de imagens me tornei diretor de cena até gerenciar uma TV. Muito trampo. Hoje também não dá pra postar muita coisa, na maior parte do tempo. No fim de 2012, percebi a necessidade de mudar mais uma vez meu estilo de escrever porque a internet pede uma abordagem mais curta e direta. Parei por um tempo enquanto me concentrava na edição e só voltei a postar depois que o livro foi lançado em 2015. 
JDL - Você costuma acompanhar os fanzines que são produzidos hoje em dia? Qual a diferença que você vê entre eles e os que eram feitos nos anos 80/90?
VLB - Sim, recentemente comprei A Boca Quente, zine tipo graphic novel do Shiko, e Bambu, projeto lindão em xilogravura do MZK. Tenho a coleção do Know Haole, do Gerlach, e até umas coisas mais emo/feministas como os zines de arte do Jajá Felix e da Beatriz Perini. Só coisa fina. Os zines nos anos 80/90 divulgavam muitas bandas do underground mas essa necessidade a internet já supre, então hoje a produção tá cada vez mais artística e bem elaborada. Muitos zines são impressos em gráfica, das antigas só rolava xerox e mimeógrafo. Outra coisa interessante é que ao longo dos 90 os zines foram diversificando seu foco, feito o Cabrunco, Papakapika e Panacéa (que virou revista), e atualmente os fanzines – zines de fã – estão de volta porque os nichos se tornaram relevantes pra encontrar seu público-alvo. Márcio Sno, zineiro veterano, fez o Odair Jozine e conseguiu despertar a atenção do próprio homenageado, Odair José, que tocou no lançamento do zine no Cine Joia em São Paulo. 
JDL - O Cabrunco Zine tinha a mesma temática que o Viva La Brasa?
VLB - Ambos são consequência do que eu sou, penso e sinto, então sem o Cabrunco Zine jamais haveria Viva La Brasa.
TIRA DO ALLAN SIEBER SOBRE O TEMPO QUE PASSEI NO RJ
JULIA REGISTRA A CENA ROCK DE ARACAJU EM SEU FLICKR
E TAMBÉM ARRISCA ENSAIOS COMO ESTE NU ARTÍSTICO:
https://www.flickr.com/photos/julia_lacerda/