sexta-feira, maio 18, 2018

CENSURA DO PARÁ 
“Vai encarar?”, pergunta Gidalti Jr. no autógrafo do livro Castanha do Pará.
Castanha é um menino que vive nas imediações do Mercado Ver-o-Peso depois de ter fugido de casa. A história do garoto com cabeça de urubu foi lançada de forma independente via crowdfunding e tornou-se a primeira HQ a levar o Prêmio Jabuti, troféu mais importante da literatura brasileira, em 2017.
Mês passado, Castanha do Pará voltou a ganhar repercussão nacional com a notícia da censura que sofreu em uma exposição num shopping center de Belém. Um policial militar se incomodou com a ilustração da capa: o pivete antropomórfico pulando uma barraca de feira com um guardinha de cassetete em punho a persegui-lo. O PM ofendido fez barulho na internet, acusou a obra de “apologia ao crime” e a curadoria da mostra cedeu à pressão – cobrindo o desenho com uma bizarra e sinistra cartolina preta.
“Decisão obscurantista”, lamentou o premiado e censurado autor. Gidalti tem 34 anos, é mestre em artes e professor universitário. Sua bem-sucedida e polêmica publicação de estreia contém denúncia social mas também tem lirismo, passagens oníricas e poesia gráfica. Castanha anda descalço, joga bola e cheira cola; passa fome, dorme à mingua e é enxotado de todos os lugares; quase invisível na paisagem colorida da metrópole amazônica, também sonha com chuteiras e sereias.
Há 2 policiais na trama, um deles “o personagem mais humanizado da história”. Gidalti Jr. faz parte duma leva de desenhistas retados que dominam a narrativa e introduziram sotaques regionais nos quadrinhos nacionais, como Shiko (A Boca Quente, Lavagem etc.), Marcelo D’Salete (indicado ao Eisner Awards por Cumbe/ Run For It) e Marcello Quintanilha (cujo álbum Tungstênio foi adaptado pro cinema, o filme entrou em cartaz ontem).
Pais de primeira viagem, eu e ele temos conversado bastante sobre nossas filhas. Após ninar minha nenê de 3 meses, botei pra dentro um açaí e encarei o desafio, devolvendo 20 perguntas ao quadrinista que colocou o norte do Brasil no centro do debate sobre liberdade de expressão. Em tempos de murici, não seremos nós a ficar calados. Eras, mano!...
   
1-     Você nasceu em Minas, se criou no Pará e mora em São Paulo. Como foi crescer em Belém? Quanto tempo viveu lá e por que mudou pro sudeste?
Nasci em Belo Horizonte e fui bem garoto pra Belém, onde vivi minha infância, adolescência e boa parte da minha vida adulta. Lá me alfabetizei, cursei o ensino fundamental, médio e nível superior. Passei boa parte de minha vida nas dependências da Universidade Federal do Pará, seja no colégio NPI ou na própria UFPA, onde cursei artes visuais. Portanto, me considero paraense por conta desse contexto. Sem falar em família, amigos, entre outros. Hoje moro em São Paulo. Desloquei-me para o sudeste para estudar e atuar em um mercado com mais oportunidades. Somente aqui me livrei de muitas distrações que eram presentes em meu cotidiano em Belém. Pude focar mais no desenvolvimento nas minhas habilidades em desenho, pintura e também estar presente em um mercado editorial, publicitário e de arte mais sólido. Esse movimento coincidiu com a necessidade de minha esposa em fazer uma residência médica em São Paulo. Há também um questão relacionada à segurança pois, infelizmente, Belém chegou a níveis insuportáveis de criminalidade e desordem publica.
2-     Fale sobre o conto que o inspirou a fazer Castanha do Pará.
Adolescente Solar é uma coletânea de histórias curtas elaboradas por um antigo professor meu, Luizan Pinheiro. Dentre várias histórias apresentadas no livro, há o conto do menino chamado Casqueta que mora no mercado Ver-o-Peso. Foi esse o conto que tomei como base para desenvolver o meu quadrinho.
3-     Sua história é ambientada nos anos 90, coincide com sua adolescência. Você também jogou bola na rua e coisas do tipo?
Todo o contexto da história se passa na época em que eu fui garoto. Pude trazer um pouco dessa minha vivência para o enredo do quadrinho. Nossa infância era mais solta, brincávamos mais na rua, éramos um pouco mais expostos e os níveis sociais conviviam mais misturados.
4-     Castanha tem apenas uma bermuda e uma camisa do Remo pra vestir. Você torce pelo time e resolveu fazer uma homenagem?
Sim. Eu torço pelo clube do Remo, mas confesso que sou um torcedor ‘nutella’. Não acompanho ou mesmo me empolgo com futebol.  Gosto mais de criar a partir da análise do comportamento alheio em relação ao tema.
5-     É sua primeira história em quadrinhos? Já fez outros trabalhos autorais, tipo zine?
Esse é o meu primeiro trabalho de histórias em quadrinhos que torno público. Sempre produzi quadrinhos de uma forma amadora e expunha aos primos e amigos. Não digo que fiz zine porque toda minha produção antes do Castanha foi apenas para se engavetar, conteúdo que não reproduzi. Era algo mais descompromissado.
6-     Sua HQ foi feita em aquarela. É sua especialidade?
Eu não sei te dizer se aquarela é minha especialidade. Acho que não, porque eu sou muito curioso por outras mídias, linguagens e técnicas de pintura. Mas talvez eu tenha mais intimidade com a aquarela porque é uma mídia que eu trabalho há muito tempo, no entanto especialidade é uma palavra muito forte. Conheço especialistas em aquarela e eu estou um pouco longe dessa turma, por isso eu me vejo com um perfil mais genérico na pintura, e não como um especialista.
7-     Você só conseguiu lançar seu livro graças ao financiamento coletivo. Chegou a apresentar o projeto pra editoras?
Apresentei para várias editoras, porém o projeto era ainda muito imaturo e dificilmente uma editora aposta em projeto de autores que não tenham uma experiência ou um público estabelecido. Isso é normal. O valor alcançado na campanha de financiamento coletivo ficou acima da meta, o que possibilitou a produção de forma independente.
8-     O que mudou desde sua vitória no Jabuti? Surgiram propostas?
Após ganhar o prêmio muita coisa mudou. O volume de vendas, a exposição na mídia e convites para feiras e eventos no meio editorial. E sim, as editoras se abriram para possibilidade de publicar o meu trabalho.
9-     Na sua HQ as crianças são representadas com cabeças de animais: rato, cachorro, porco, macaco... Esse recurso me lembrou Maus, de Art Spiegelman. Rolou uma influência?
Apesar de apreciar muito o trabalho do Spiegelman, a questão da associação aos animais não tem uma influência direta do Maus e sim da tradição gráfica das fábulas. Também posso citar as histórias do Black Sad e do Walt Disney.
10-  O protagonista, por exemplo, tem cabeça de urubu e anda pelo Ver-o-Peso. Há muitos urubus por lá, é um animal característico do mercado?
O protagonista tem cabeça de urubu porque o Ver-o-Peso é um ambiente que tem uma exposição muito grande de alimentos, carnes, frutas. Então o mercado é todo povoado por urubus. Dentro desse contexto, temos a metáfora que relaciona o menino como mais um bicho à procura de restos para sobreviver.
11-  Li em sites e outras entrevistas comparações do seu trabalho com o do Quintanilha. O que acha disso?
Marcelo Quintanilha que é um autor que eu admiro muito e fico honrado com a associação. Isso ocorre devido à minha temática ser bem brasileira, e também ao uso de uma oralidade naturalista. Mas busquei e busco ser influenciado de forma muito profunda por qualquer autor. Tento ao máximo ter voz original e exploro a minha realidade do Norte para tal.
12-  Já há alguma proposta pra adaptar Castanha do Pará pro cinema?
Não, ainda não tenho nada concreto em relação a adaptações.
13-  Como o livro foi recebido em Belém?
De maneira excepcional. Lancei na livraria Fox e tivemos uma noite incrível com um público enorme. Boa parte dos apoiadores no Catarse também era da região Norte. Há uma enorme receptividade para obras que contextualizem o Pará e região, mas é preciso transmitir verdade para que seja bem aceita.
14-  E a censura na exposição, quais os desdobramentos do episódio?
Essas atitudes vêm ganhando cada vez mais força e ocorrendo com mais frequência no Brasil. Infelizmente, um forte movimento da extrema direita vem se achando detentora de todas as moralidades, tentando gerenciar o que pode e o que não pode em várias esferas da sociedade. Belém está muito fragilizada pela ausência do Estado em várias questões, principalmente no que se refere à segurança pública, o que favorece a certos grupos autoritários e oportunistas. Ainda acredito que a maioria das pessoas é contrária a esse tipo de atitude, mantém-se vigilante contra ações arbitrárias e combatendo esse tipo de postura. 
15-  Um policial militar chegou a ameaçar processá-lo. Ele fez isso?
Na internet as pessoas se sentem poderosas. Ainda estou esperando a notificação do processo, mas cão que ladra não morde.
16-  Na sua opinião, o que aconteceu é pontual ou sintomático do momento que o nosso país vive?
Acho que tem relação com o momento que vivemos. Algumas pessoas interpretam o cenário politico atual como o caos absoluto e se sentem à vontade para apresentar posturas radicais, inconstitucionais e antidemocráticas.
17-  Como você vê o cenário até outubro? Acha que haverá eleições? E o que vem depois?
Eu não faço ideia. Espero que possamos caminhar em um território de mais moderação e equilíbrio. Não vejo o caos, e sim um momento de transição que toma tempo. Os radicais querem tudo pra ontem, e não é assim que funciona o jogo democrático.
18-  Após esse incidente, você foi convidado a ir à Colômbia. Como foi essa experiência?
Eu estive na Colômbia como parte do grupo de autores que representam o Brasil na Feira do Livro de Bogotá. Foi uma oportunidade muito especial porque eu pude me aprofundar mais na cultura e no mercado editorial latino-americano. Pude interagir com jovens, compartilhar um pouco do meu trabalho e conhecer um pouco mais da realidade da educação daquele país. Posso dizer que fiquei bem animado com tudo que vi, e me parece que após um período de muito conflito e instabilidade a Colômbia vai caminhando muito bem no que se refere a educação e cultura.
19-  Você já tá trabalhando em novos projetos: uma animação para um canal de TV e o próximo álbum. Pode adiantar alguma coisa?
Sobre isso, o que posso dizer é que eu tenho uma rotina de produção bem regular e pretendo em breve expor novos trabalhos, mas ainda é muito cedo pra tal.
20-  As vendas de Castanha do Pará aumentaram depois do prêmio Jabuti e da polêmica com a PM? E quem quiser comprar, como faz?
Sim, a procura pelo livro aumentou e vem aumentando conforme as pessoas vão tomando conhecimento da censura, do prêmio ou mesma da obra em si. Todo esse conjunto, seja por meio de eventos negativos ou positivos, vem favorecendo bastante a exposição do livro e a procura aumentou bastante em feiras, livrarias e internet. Atualmente, é possível adquirir um exemplar por meio da Amazon.com.br, pode encontrar na Ugra Press, que é uma loja virtual e física de quadrinhos alternativos e brasileiros, e também na Comix Bookshop. Em Belém, na livraria Fox, nas lojas Ná Figueiredo e no quiosque do Boulevard. Temos uma distribuição em livrarias independentes por todo o Brasil. 

terça-feira, maio 01, 2018

MIGUELAGEM 
O vacilo do malandro é achar que todo mundo é otário. Quem é que trabalha com cultura em Aracaju e nunca levou um atraso, um calote, um migué?
Transito entre as artes gráficas e o jornalismo independente desde que me entendo por gente, mas é o audiovisual que há 15 anos levanta minha guia e paga minhas contas. Comecei trabalhando numa videolocadora e fazendo filmes caseiros com câmera VHS emprestada; hoje sou editor de imagens, já dirigi cena de longa-metragem, gerenciei uma emissora de televisão, volta e meia sou chamado pra alguma palestra. Mas acho que tenho mais a aprender do que a ensinar.
Em novembro do ano passado aproveitei as férias na TV e voltei a estudar: me matriculei e fui selecionado pro curso de direção avançada oferecido pelo Núcleo de Produção Digital e ministrado por Wagner Mazzega, amigo dos tempos da Marginal Produções e diretor de filmes publicitários.
“A ideia é contribuir pro audiovisual local, pra que no futuro Sergipe tenha mais representatividade e possa disputar festivais em igualdade de condições com qualquer outro estado, além de fomentar o mercado, já que os alunos acabam tendo contato com um profissional que tá na área. Todo mundo sai ganhando”, disse Mazzega.
Foram 4 fins de semana entre teoria e prática, dos quais eu só pude ir ao primeiro e ao último – porque mesmo nas férias eu faço freelas. O trabalho de conclusão seria dividirmo-nos em equipes para produzir curtas de 1 a 2 minutos de duração com temática relacionada ao Centro Cultural e à Praça General no centro, atual sede do NPD.
Do nosso time original, só restaram 3 integrantes na hora do vamos-ver. Eu escrevi o roteiro, Vicente Otávio decupou e conseguiu os atores. No dia da gravina só a atriz apareceu. Meu chapa Dedé, técnico de áudio que nunca atuou, assumiu o papel do outro protagonista e teve que decorar o texto em cima da bucha. Vicente fez as imagens e eu captei o som direto com um microfone de lapela e um celular. Zero de produção, improviso quase total.
Gravamos tudo em duas horas, com luz caindo, e entregamos o material pronto em 3 dias para exibição na aula final. Optei por upar pro Youtube sem recorrer a videografismos nem reeditar nada. Há defeitos evidentes, como a sincronia a la pornochanchada dos anos 70 ou a marca da cerveja aparente. Mas podia ser pior. Podia ser Schin.
“Os filmes eram só um experimento, um exercício”, analisa Wagner. “Considerando a falta de tempo e estrutura, ficou além do que eu imaginava. Era só pros alunos sacarem como é uma dinâmica de set, não precisava nem ter chegado nesse nível. Se vocês tivessem os 3 a 6 meses que se leva pra fazer um curta, imagina o que realizariam.”
MIGUÉ é nossa homenagem a todos os trabalhadores informais, que se viram nos 30 pra ganhar o seu real e ainda têm que lidar com toda sorte de picaretas e oportunistas ávidos por uma chance de enganar alguém em troca de lucro fácil e rápido. Mas tudo que vai tem volta.
Como já dizia Galileu da Galiléia, malandro que é malandro não bobeia. Numa cidade que tem produtor cultural procurado até pela Interpol, num país em que a lei de Gerson vale mais do que a lei de Newton, se malandro soubesse como é bom ser honesto seria honesto só de malandragem. Caramba.
--> AGRADECIMENTOS: ANA CAROLINA WESTRUP, GRAZIELE FERREIRA E NÚCLEO DE PRODUÇÃO DIGITAL ORLANDO VIEIRA

sábado, março 31, 2018

O PUNK ROCK NÃO MORREU 
Nascer pra liberdade e crescer para morrer, eis a diferença entre vocação e realidade. 
Luiz Moraes Santos chegou em Aracaju vindo de Garanhus nos anos 90 e virou uma das figuras mais emblemáticas da cena punk local. Cabelo de espeto e jaqueta com patches, o vocalista da Cessar Fogo morreu em fevereiro durante o carnaval mais combativo dos últimos tempos.
Blocos de rua e palavras de ordem, vampiro neoliberal e intervenção federal, que tiro foi esse. Enquanto o mundo frevia, Luiz era preso e morria em condições nada festivas. Até hoje não conhecemos os culpados, autorizados, máquinas de matar. Indefesos, os amigos se mobilizaram para liberar seu corpo no IML e chegaram junto no enterro.
KAKUSEISHA PUNX POR MARCELO ROQUE
MORRER SEM ESQUECER O POVO QUE FICOU
Kakuseisha Punx viveu na contramão, fez seus corres e mandou o recado nos 2 álbuns da sua banda. Convidei uns camaradas pra contar algumas das suas melhores histórias, começando pelo baixista Lauro Francis, que gravou com ele o disco ‘Conflitos Mundanos’ e hoje toca na Cidade Dormitório:
“Luiz teve uma vida difícil, veio com a mãe e o irmão porque tinha um tio aqui que poderia ajudar eles – o pai, que já era idoso, morreu quando ele era pequeno. Nessa de vir pra Aracaju ele foi ajudar o tio, tipo aquelas coisas que rolam de pegar jovens do interior pra trabalhar/morar em troca de comida e casa. Rola muito com meninas, né, trabalhar como empregadas em casa.
No caso ele trabalhava na empresa, que é no centro, onde teve contato com os primeiros punks da cidade quando era garotão. E foi nessa época que começou a trampar como locutor de porta de loja.
E depois que saiu da casa dos tios continuou trampando pelo centro, vendendo óculos pirata e como locutor. Locutor que foi seu trampo a vida toda. Ele era bom nisso.
Existem várias histórias engraçadas com Luiz, quando o conheci na adolescência lá no Marcos Freire/João Alves o apelido dele era Nirvana. Haha. Ele tinha um lance de quando tava com uma pessoa e tinha que ir embora, ia se despedindo andando pra trás e acenando por uns 2, 3 metros como se não quisesse dar as costas, saca?
Tem uma que eu acho foda.
Luiz tava como locutor do Extra. Um conhecido o encontrou lá todo arrumado de farda da empresa, cabelinho penteado e tal. Viu ele lá no trampo todo almofadinha, falou: - Porra, nem tinha reconhecido! Quando acaba o horário de serviço você coloca a fantasia punk, né?
Ele respondeu: - Não, na verdade eu tô fantasiado agora.”
VISUAL É TUDO ATITUDE NÃO É NADA
Maicon Rodrigues, guitarrista da Psicosônicos e Dr. Garage Experience, já produziu uma festa punk com a Cessar Fogo em Itabaiana:
“Eu vivia meus dias de aventura como organizador de um projeto cultural quando Luiz veio com a banda tocar.
Pois bem, foi tudo muito tranquilo, desde os primeiros contatos até o dia do show, quando os conheci pessoalmente. Todos muito simpáticos, pareciam músicos empolgados, porém contidos, mas Luiz se destacava pelo visual punk levado ao extremo, sempre com um sorriso no rosto e atento a tudo ao seu redor. Parecia estar pronto pra tudo que pudesse acontecer. Lembro de sua jaqueta recheada de patches, bottons e uma crosta de sujeira acumulada...
O show foi foda como tinha que ser, após a gig foram todos jogar seus esqueletos maltrapilhos na residência dos meus pais como era costume com todas as bandas que eu recebia no projeto, e logo cedo se picaram pra casa após um café. Até aí tudo bem, ‘falou valeu, até a próxima’...
Dias depois eu percebo um trapo estranho e vermelho entre os panos de chão da minha mãe e saquei que era a jaqueta do Luiz. Fiz contato com o bicho e marquei de entregá-la em Aracaju. Ao encontrá-lo ele parecia aliviado pois nem lembrava onde tinha deixado. Parece que tinha muito apreço pela velha jaqueta de guerra, ficou muito feliz por tê-la encontrado, mas vi que ficou também um pouco contrariado, meio puto, e quando eu perguntei ‘qual foi man’ ele me responde:
- Pô, velho, sua mãe lavou a jaqueta...”
QUANTO VALE A LIBERDADE?
ANARQUISTA ATÉ O FIM
Rás de Sá é frequentador da cena metal e conheceu Luiz quando o punk cantava numa banda thrash chamada Epidemic:
“Vivemos em um país que juízes falam que não dá pra viver sem auxílio-moradia, pessoas tomam antidepressivo porque não podem trocar o carro 2017 por um 2018 e outros tratam mal os amigos quando falta grana pra cerveja ou o celular novo.
O meu amigo Luiz dormiu na rua muitas vezes e era sempre simpático e amigável, por mais problemas que tivesse. Sempre aparecia sorrindo e falava: - Eu dormi debaixo daquele toldo, almocei no Padre Pedro e mais tarde vou a um evento underground. Tá massa!
Protestou a vida inteira contra as Injustiças dessa merda de país e ao mesmo tempo foi um exemplo pelo que escrevi acima.”
E por fim Adelvan Kenobi, colaborador habitual do blog e testemunha ocular da escória:
“Os frequentadores habituais da praça Roosevelt, conhecida como ‘praça da mini ramp’ do Bairro América, periferia de Aracaju, se depararam no domingo 11 de março com uma movimentação diferente e inesperada: um grupo de punks, skatistas e aficionados da cena rock da cidade se reuniram por lá para celebrar a vida de Luiz.
Foi uma noite bacana, com apresentações ao ar livre, na quadra, de bandas como Casca Grossa, Iconoclastia e Putrefação Humana. Bem rueiro, do jeito que Luiz curtia.
Ele era um cara boa praça, sempre gentil com todos, e também um punk de corpo e alma, daqueles que simplesmente não conseguem se adaptar às vicissitudes do sistema.
Por conta disso, passou os últimos dias de sua vida à deriva, morando nas ruas. Somente com a notícia da sua morte os amigos souberam que morreu na cadeia, para onde provavelmente foi levado por conta de um furto banal – foi portanto mais uma vítima do encarceramento em massa que nosso país reserva como destino aos perdedores, os que não se enquadram nos moldes do conformismo e da subserviência exigidos pelos donos das casas grandes.
Morreu como viveu: como um punk. Crucificado pelo sistema.”
LUIZ EM AÇÃO COM A CESSAR FOGO
NO LANÇAMENTO DO MEU LIVRO
VAI EM PAZ, PUNK

sábado, março 24, 2018

ÍDOLO
“Me chamavam de Odin, Netuno, sei lá, véi, quando eu saía do mar em Copacabana”, disse o cabeludo Miranda ao meu amigo Fúria na primeira passagem da Mundo Livre S/A por Aracaju, em 1995. Todo mundo tem uma boa história com Carlos Eduardo Miranda.
Roqueiro vanguardista, jornalista chinelão, produtor instintivo, empresário inusitado e jurado de programa de TV, o Gordo sempre foi de tudo um pouco. A começar por louco.
Começou em bandas experimentais tipo a Urubu Rei e Atahualpa y us Panquis, no Rio Grande do Sul, início dos anos 80. “Eu queria fazer uma cena”, soprou aos jornalistas Pedro Só e Arnaldo Branco.
“Nessa história encontrei o Carlos Gerbase, que tava fazendo uma banda punk chamada Replicantes, o Edu K... Aí somos o movimento do rock gaúcho, tinha show pra caralho. E o primeiro fruto disso foram os nossos antagonistas, os Engenheiros do Hawaii!”
Risos.
PORTO ALEGRE TCHAU

Recém-formado em jornalismo, fudido e mal pago, decidiu mudar pra São Paulo. “Não vou virar astro pop, não vou trabalhar em jornal, televisão...” Arrumou emprego resenhando filmes pornôs.
Daí pra imprensa cultural foi um passo. Entrou na Abril, escreveu na Set e marcou época na Bizz: emplacou capa, entrevistou o Defalla sobre cicatrizes adquiridas em brigas de bar e levou o Slayer pra almoçar numa churrascaria rodízio. Kerry King ficou impressionado com as “carnes em espadas”.
Começou a produzir coletâneas pra Eldorado e saiu-se com ‘Sanguinho Novo - Arnaldo Baptista Revisitado’ e ‘A Vez do Brasil’. Numa reportagem, sugeriu aos Titãs criar um selo na Warner pra lançar as bandas novas que enchiam a mesa dele na redação com fitas demo. Os caras toparam.
BANGUELA
Miranda produziu e lançou os primeiros discos dos Raimundos, Mundo Livre S/A e mais uma dúzia de bandas: Little Quail & The Mad Birds, Maskavo Roots, Graforréia Xilarmônica, Virgulóides etc.
Até quem não assinou nem foi produzido de certo modo foi descoberto por ele. Skank, Chico Science e Falcão foram algumas das bolas que cantou pras gravadoras. Mamonas Assassinas ele nunca curtiu. “Não tinha música, só piada, não me interessava.”
Banguela Records, Excelente Discos, Trama Virtual. Com seu toque de Midas lançou Cansei de Ser Sexy, produziu Cordel do Fogo Encantado e o ‘Acústico Mtv’ do Rappa, e abriu a música paraense pro Brasil com Dona Onete e Gaby Amarantos.
AGRADEÇA AO SENHOR
“Sucesso é uma conjugação de vários fatores, é tipo videogame, tem aquele lance de cotação de força, agilidade, raciocínio, tu tem que ter um blend legal.”
Nos anos 2000, mais uma reinvenção. Com a chegada dos reality shows musicais, ficou ainda mais famoso como jurado dos programas Ídolos, Astros e Qual É o Seu Talento no SBT.
Continuou gente fina e fiel ao underground. “Quando tive deslocamento de retina, Miranda me ligou várias vezes perguntando se eu precisava de ajuda”, diz Luiz Calanca da Baratos Afins, loja de discos e gravadora que lançou ‘Agradeça ao Senhor’ do Atahualpa.
“Vinha me pegar de taxi, levava pra almoçar e sempre apresentava uma cozinha bacana. Um cara muito querido e super assediado.”
BRODAGEM
Manteve uma coluna na revista General durante alguns anos. Na ‘Brodagem’ escrevia sobre o que dava na telha, de fins de semana na praia à sua coleção de brindes do Kinder Ovo. Nessas criou o seu próprio culto: Igreja Triangular do Resíduo Digital.
“Ele falava sobre a internet em 1994, 1995”, lembra o jornalista Odair Braz Jr. “Dizia que as pessoas iriam deixar seus rastros pela web e que daria pra ver o que gostavam, por onde andavam, suas preferências e coisas assim.”
Visionário, descobridor de talentos e profeta das redes sociais, Miranda morreu nesta quinta. Precisava de um transplante de rim, não teve tempo. Mas aproveitou da melhor forma o tempo que teve.
Deixa esposa e uma filha de 2 anos, Agnes.
EXCELENTE
Bon vivant e bonachão, apreciava bons vinhos, colecionava bonequinhos e principalmente amigos. Todo mundo tem uma história boa com Carlos Eduardo Miranda.
Naquele Mundo Livre em Aracaju entrevistamos o Fred 04 pro Cabrunco. O Gordo, que produziu o clássico ‘Samba Esquema Noise’ e tava viajando com a banda, sentou à nossa mesa, bebeu umas e trocou ideia com a molecada. Daí saiu a frase que o Fúria citou.
No ano seguinte nos reencontramos no Abril Pro Rock. Nosso amigo em comum, Zé Guilherme da Supersoniques, não sabia que a gente se conhecia e tomou a iniciativa:
– Este aqui é Adolfo Sá, zineiro e maconheiro de Sergipe!
Antes que eu pudesse dizer “que é isso Zé”, Miranda mandou:
– Bah velhinho, excelente! Vamo lá fumar um...
MIRANDA NO TRAÇO DE RAFAEL GRAMPÁ
MAGNÉTICOS 90, HQ DE GABRIEL THOMAZ & DANIEL JUCA
COM A FILHA AGNES

sábado, março 17, 2018

DO SANTO ANTÔNIO AO 17 DE MARÇO *por Henrique Maynart **
Cajueiros dos papagaios em nome tupi, cidade-porto.  Há exatos 162 anos e 360 dias, data de publicação desta reportagem, a nova capital do estado desembarcava na banda direita do Rio Sergipe para escoar o açúcar do Cotinguiba em direção ao mundo, mirando as ondas do mar. Os dados do IBGE apontam que cerca de 650 mil pessoas habitam o território da sobrevivência em exatos 3.140 quilômetros quadrados, formando uma perna de bailarina entre o Rio Vaza Barris, o Rio Sergipe e o mar aberto da Boca da Barra. Centenária, moderna e excludente, Aracaju baila no tablado da topografia oficial de Sergipe.
Dentre os 39 bairros de Aracaju, abordaremos a história, os dilemas e possibilidades do Santo Antônio e 17 de Março, o primeiro e o último, o Norte e o Sul, o início, o fim e o meio da capital sergipana.
Aracaju não nasceu da colina
O Santo Antônio surge antes de Aracaju, mas a colina não cabia nos planos da capital. O povoado de Santo Antônio do Cotinguiba estava sob tutela da freguesia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, atual município de Socorro, até meados da segunda metade do século XIX. Registros do século XVIII já faziam referência ao povoado. Planejada para servir de escoamento à produção açucareira do Vale do Cotinguiba, Aracaju foi projetada para a planície, seu marco zero se encontra na Praça General Valadão. Tanto é que a Estrada Nova que ligaria a sede ao povoado, que atualmente é a Avenida João Ribeiro, só ficaria pronta dois anos depois. “Mesmo ladrilhando a Estrada Nova, a comunicação do bairro com a região central da cidade só se dará a partir de 1915, com a chegada dos bondes”, afirma o historiador Antônio Lindivaldo de Souza.
Em 1862 é construído o primeiro cemitério da cidade, que viria a se chamar Santa Isabel em 1921, em homenagem à morte da ex-monarca. A Capela do Santo Antônio seria elevada à condição de paróquia em 1915. Assim como os demais bairros da Zona Norte e Oeste de Aracaju, o Santo Antônio serviria de abrigo aos refugiados do progresso, aos que não caberiam no Quadrado de Pirro.
Para o comunicador popular Osvaldo Neto, estudioso do bairro, a divisão social do Santo Antônio se dá entre os negros fugidos, povos remanescentes, operários e os casarões das famílias mais abastadas de Aracaju nas margens das avenidas. “Ao lado oeste moravam aqueles que fugiam da seca do Alto Sertão Sergipano. Já no lado leste, na fronteira com o Bairro Industrial, próximo a Mata dos Caboclos, a Matinha e as nascentes do Mané Preto, habitavam os negros libertos, os operários das fábricas do Bairro Industrial e descendentes de índios”, afirma.
Rua Muribeca, nº 4. O Grupo de Teatro Imbuaça chegou ao bairro em 1980, dois anos depois da fundação do grupo. Na segunda metade dos anos 80 eles se instalam na sede do Diretório Central dos Estudantes da UFS, retornando definitivamente ao bairro em 1991. O bairro de pouco mais de 12 mil habitantes está mesclado à história do grupo. O projeto Mané Preto, que oferece oficinais de música, dança e teatro para a comunidade, é um dos cordões umbilicais do grupo ao bairro. “Nós abrigamos peças e ações culturais em nossa sede, além de atender 25 jovens por ano no Mané Preto. Estamos com este trabalho há décadas”, afirma Lindolfo Amaral, integrante do grupo.  O Imbuaça também ajuda na organização da fogueira de Santo Antônio, todo 13 de junho.
Ele lamenta o encolhimento de atividades culturais como a centenária Rua de São João, que vem perdendo espaço nos últimos anos, além do fechamento dos cinemas da década de 70. “O Cinema Atalaia e o Cinema São Francisco fazem muita falta na comunidade. A Rua São João diminuiu bastante o movimento nos últimos anos em virtude dos megaeventos que ocorrem na cidade durante os festejos juninos”, afirmou.
Ponto de partida
Uma alfândega, uma cadeia, uma mesa de rendas e um quartel. Este é o marco zero projetado pelo engenheiro militar Sebastião Pirro, sob influência direta das reformas urbanas em curso nas cidades europeias no século XIX, como a reforma de Paris. A largada da capital sergipana não partia mais da cruz e da igreja, assim como as cidades erguidas nos tempos da colônia como São Cristóvão e Laranjeiras, mas partia do comércio, das finanças, do exército e do cárcere.
“Cidades planejadas no mesmo período, como Teresina, traziam a cruz como ponto de partida, mas Aracaju trazia os símbolos do que representavam o progresso na época, dando à nossa cidade características modernas”, afirma Lindivaldo.
A partir da “Praça da Cadeia”, como era chamada a General Valadão, foi organizado o Quadrado de Pirro, que consistia em uma área de 1.188 metros divididos em 32 quadras simétricas, com ruas de 13 metros, avenidas de 20 a 25 metros, em três direções: norte, sul e oeste. Em suma, o Centro Histórico de Aracaju. A prática de aterramentos já era constante naquele período, sinal que o projeto de cidade não levava em conta os biomas presentes no território. Em artigo publicado em 2003, o professor Lindivaldo afirma: “Aterrou vales e elevou-se nos montes de areia. Grandes somas de dinheiro foram gastas com aterro e esgoto de terrenos baixos e úmidos, para que o projeto mantivesse a reta.”  O caso do aterramento da Coroa do meio, nos anos 80, e do Jardins, no final dos anos 90, ilustram este histórico.
Cidade fora do quadrado
Entre 1900 e 1920, a população de Aracaju é duplicada. Chegavam à capital os refugiados da seca, da ausência de recursos. Para evitar que a “cidade planejada” fosse contaminada pela elevação populacional, o legislativo municipal aprovou os chamados “Códigos de Postura”, que consistiam em um conjunto de regras a serem seguidas por quem quisesse residir na área do Quadrado de Pirro. Prevendo requisitos de fachada e construção, como a exigência de casas de alvenaria, os Códigos de Postura aprovados em 1910, 1912 e 1926 constituíram uma “limpeza social”, de acordo com Osvaldo Neto.
“E quem é que tinha condição de construir casa de alvenaria naquela época sem ajuda do Estado? Os Códigos de Postura serviram pra expulsar a população mais pobre da área privilegiada”, ratifica Osvaldo.
Excluída do quadrado, restava ao setor mais espoliado da população o que o historiador Fernando Figueiredo Porto nominou de regiões do “arrebalde”.  O “arrebalde” compreendia as regiões do Morro do Bomfim – na Rodoviária Velha -, no Carro Quebrado, atual São José, no Aribé, atual Siqueira Campos, no Santo Antônio, e demais territórios da Zona Norte e Oeste, a coxa da bailarina de Aracaju. O Morro do Bomfim era o ponto mais próximo da região central de Aracaju a acolher os refugiados do Código de Postura. Após ampla campanha, sob alegação de combate à prostituição e à delinquência, o Morro do Bomfim sofreu um despejo em meados da década de 50, no governo de Leandro Maciel, que desocupou cerca de 1200 casas. Seus refugiados subiram o morro em direção aos bairros Cirurgia, Getúlio Vargas, Siqueira Campos, Cidade Nova, dentre outros.
Nas costas do novo bairro
Um pulo de 60 anos no tempo. Aracaju, 17 de março de 2012. O então prefeito Edvaldo Nogueira (PCdoB) inaugura o mais novo bairro da cidade nas imediações do Santa Maria, na Zona Sul. Cerca de 3.500 unidades habitacionais construídas em parceria com o Governo Federal. Sem creche, sem esgotamento e macrodrenagem, sem Unidade de Saúde, sem escola e com pavimentação parcial. De acordo com Karina Drumond, diretora do Conselho das Associações de Moradores dos Bairros Aeroporto, Jabotiana e Zona de expansão de Aracaju (Combaze) o bairro não foi entregue nas condições ideais.
“Foi legalmente autorizado, mas não atendia a exigência do governo e a segunda etapa não tinha esgotamento, drenagem e água. Até hoje a segunda etapa do 17 de Março não tem esgotamento”, denuncia.
José Firmo, integrante do Fórum em Defesa da Grande Aracaju, atenta para os impactos socioambientais da construção do bairro. “O 17 de Março foi construído numa região frágil, porque é uma região de nascente, o que é preocupante. Aquele não seria o local ideal para construir um bairro.”
A Escola Municipal de Ensino Infantil Dr. José Calumby Filho foi inaugurada em junho de 2016. De acordo com informações da Secretaria Municipal de Educação (Semed), a creche atende 200 crianças no bairro. O morador do bairro 17 de Março e militante do Movimento de Luta Por Moradia Erílio Bispo, rebate este dado. “Hoje nós temos no máximo 180 crianças atendidas na creche, que é um número grande, mas que ainda não atende a demanda”.
O bairro não conta com uma Unidade de Saúde até então. A comunidade é atendida nas unidades do Santa Maria e Santa Tereza. “Tivemos que ir á Justiça em 2015 pra garantir que o poder público municipal se comprometesse em construir uma Unidade de Saúde no bairro”, alega Karina Drummond. A Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju (SMS) comunicou à reportagem que já estão em curso as obras da Unidade de Saúde, orçadas no valor de R$ 1.500.841,74, sendo que R$ 700 mil deste montante vindos do Ministério da Saúde.
Mão de obra local
“E quem é que trabalha nas obras do bairro? As construtoras e empresas já chegam com equipe formada, elas não aproveitam a mão de obra da comunidade, com tanta gente desempregada no bairro querendo trabalhar, querendo oportunidade. A gente acha isso errado”, afirma Erílio Bispo.
A assessoria da SMS afirma que o projeto da maternidade do bairro está sob análise da Emurb. A previsão da abertura de licitação é para fevereiro de 2019, se todos os trâmites seguirem sem contratempos.
Erílio também demonstra preocupação com as obras do Canal do Santa Maria. “A gente vê a obra andando em ritmo de tartaruga e fica preocupado, porque está chegando a época de chuva e ninguém quer ficar debaixo de lama”, lamenta. Ele também ressalta a imensa cratera formada no trecho de ligação do 17 de Março ao Santa Maria, construído há poucos meses. “Mal ficou pronto o trecho de ligação, houve um acidente e uma cratera grande ameaça as pessoas que passam por lá, os carros, os ônibus”, afirma Erílio.
Do Bomfim à Mangabeira
A mangaba, fruto símbolo de Sergipe, dá nome a uma ocupação de 2 mil barracos de lona que se encontra nas imediações do 17 de Março: o Recanto da Mangabeira. “Assim como o Morro do Bomfim, lá na década de 50, a Mangabeira não precisa de remoção e sim de políticas públicas de acolhimento”, afirma José Firmo, do Fórum em Defesa da Grande Aracaju. “Nós clamamos ao poder público que olhe para aquela comunidade e que uma solução seja encontrada por ali”, apela Karina, do Combaze.
Além da Mangabeira, o bairro conta com a ocupação 17 de Dezembro, que conta com 43 famílias, e a ocupação Terra Prometida, que conta com 148 famílias, de acordo com informações do movimento Luta Popular. Estas ocupações tiveram suas reintegrações de posse suspensas por 30 dias para negociação do cadastro do auxílio-moradia.
Dos Códigos de Postura ao Plano Diretor
Diferente dos Códigos de Postura do início do século XX, que eram organizados expressamente para manter a parte indesejada da cidade fora do quadrado planejado, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) é um instrumento legal que deve planejar e ordenar o crescimento urbano para garantir o direito à cidade. O último PDDU da capital é do ano 2000, outro Plano deveria ter sido encaminhado e votado na Câmara de Vereadores de Aracaju em 2010.
“Estamos com oito anos de carência, é um absurdo”, lamenta José Firmo. Uma versão do Plano fora aprovada em 2012, mas o projeto foi suspenso pela Justiça. Em 2015 o prefeito João Alves chegou a organizar as audiências e consultas nos territórios, mas não apresentou nenhum projeto ao Legislativo Municipal. “Precisamos de um Plano Diretor que atenda aos interesses dos mais pobres, que proteja os biomas como o manguezal, as lagoas naturais, as dunas, que não atenda exclusivamente aos interesses da especulação imobiliária. É lei, o município é obrigado a ter”, ratifica Firmo.
Por dias melhores
Centenária, moderna e excludente, Aracaju precisa acolher os povos do arrebalde, das ocupações populares e remanescentes. Que a diversidade, a dignidade e a fartura cheguem aos que não couberam, não cabem e não caberão nos Quadrados de Pirro que rondam a perna de bailarina na borda direita do Rio Sergipe.
* Reportagem publicada originalmente no site Cinform em 12/03/2018
** Henrique Maynart é jornalista da nova geração, e dos bons
[o editor deste blog tornou-se pai recentemente e tá mais ocupado trocando fraldas]